segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

O mundo afunda em Copenhague

Os mais pobres do mundo sofrerão um “horrível” impacto se não se conseguir um acordo nos próximos dias na COP-15. Essa foi a afirmação feita pelo Sul na sexta-feira (11/12) na capital dinamarquesa, em negociações que, ao fim de sua primeira semana, não conseguiram sair do atoleiro. Na sexta-feira foi divulgado o rascunho de um acordo para a Conferência que permite apreciar quais são os elementos em discórdia, sobretudo cifras e anos, colocados no texto entre colchetes.

Por exemplo, constam duas cifras para o aumento aceitável da temperatura média do planeta em relação aos níveis pré-industriais: 1,5 grau ou dois graus centígrados. Por outro lado, a meta de redução de emissões para 2050 em relação aas de 1990 deveria ficar entre 50% e 95%. O texto, elaborado pelo Grupo de Trabalho Ad Hoc sobre ação Cooperativa de Longo Prazo (AWG-LCA) da Convenção expressa as diferenças entre os blocos negociadores dos países do Norte industrial e do Sul em desenvolvimento.

Ficam pendentes detalhes sobre as ações de adaptação, vitais para que as nações pobres possam enfrentar os efeitos do aquecimento global, bem como em vários aspectos do financiamento, e não estabelece o ano em que as emissões de gases-estufa devem atingir seu pico. “As nações desenvolvidas como grupo deveriam reduzir suas emissões em (75%-85%) (ao menos 80%-95%) (mais de 95%) em relação aos níveis de 1990 até 2050”, afirma o texto. Mas nas metas a serem cumpridas até 2020, o rascunho menciona objetivos de redução conjunta dos países industriais de 25% até 45%.

Para os países em desenvolvimento estabelece a necessidade de serem adotadas reduções de suas emissões entre 15% e 30% até 2020, tanto com financiamento e tecnologia fornecidos pelo mundo rico com assumidos por cada pais. Em entrevista coletiva, o enviado especial dos Estados Unidos, Todd Stern, questionou o rascunho por não pressionar o suficiente as nações em desenvolvimento, e disse que seu governo não o considera uma base para a negociação. Porém, o texto exige de todas as partes um regime para verificar e medir suas reduções.

Também foi apresentado o rascunho do Grupo de Trabalho Ad Hoc do Protocolo de Kyoto, que propõe para as nações do Anexo I (industriais) redução entre 30% e 40% para um período que pode ser entre 2013-2018 ou 2013-2020.

Delegados dos principais grupos negociadores aceitaram sentar-se na mesma mesa para falar com a imprensa. Mas não só confirmaram suas posições como, inclusive, tiveram discussões entre si. A urgência de um acordo ficou clara, mas não a forma de atingi-lo. A Índia insistiu que contribuir para o desenvolvimento do Sul é o melhor plano de adaptação ao aquecimento global.

“O impacto da mudança climática será mais evidente nas nações mais pobres, porque têm uma insignificante capacidade para enfrentá-la e se adaptar”, afirmou o negociador indiano Chandrashkhar Dasgupta. “A única saída é conseguir certo grau de desenvolvimento econômico e social e erradicar a pobreza o mais rápido possível. Se não conseguirmos o mais alto nível de desenvolvimento possível, condenaremos as futuras gerações em nossos países a um horroroso impacto da mudança climática”, alertou.

Mas o negociador da União Europeia, o alemão Karl Falkenberg, destacou a importância de o Sul também contribuir nos esforços de mitigação, e que seu crescimento econômico seja sustentável. O Sul tem a vantagem de poder gerir seu desenvolvimento por vias limpas, sem liberar carbono, afirmou. “Temos de garantir que sejam usadas fontes de energias limpas nas nações em desenvolvimento. Essa tecnologia é conhecida, mas não era há 20, 25 ou 30 anos. Seria um enorme desperdício se deixarmos Copenhague sem compreender que esse crescimento nos países em desenvolvimento é crucial”, ressaltou.

“Precisamos reduzir coletivamente em 40% nossas emissões mundiais até 2020. Somos muito claros quanto a necessitarmos da contribuição de todos, e que estas sejam confiáveis através de uma forma vinculante para todos”, acrescentou Falkenberg. O negociador da UE contornou a insistência dos países em desenvolvimento na responsabilidade histórica do Norte por sua contaminação. “Qualquer que tenha sido a origem do problema, deve-se procurar um tratado mundial vinculante e verificável para todos”, insistiui.

No encontro com os jornalistas, organizado pela Climate Change Media (Sociedade de Meios sobre Mudança Climática), o representante especial da China, Yu Qingtai, somou-se às opiniões de seu colega indiano. “Não aceitaremos nada que sacrifique nosso direito ao desenvolvimento e que ignore nossa condição de pobreza”, afirmou. O clima ficou tenso quando o representante da União Europeia acusou seus companheiros de mesa de se atribuírem “o direito de contaminar”. “Não conheço um direito de contaminar, nem para os países industrializados nem para os em desenvolvimento”, disse Falkbenberg enquanto o delegado indiano lhe respondia fora do microfone.

Yu afirmou que a reclamação das nações do Sul, coligadas no Grupo dos 77 mais China, se baseia no conceito de “espaço de emissão” ao qual tem direito cada habitante da terra. “A atitude fundamental dos países industriais é está: “o meu é meu e o que te tirei fica comigo”. Para nós, os países em desenvolvimento, a posição é: nosso espaço de emissão está sob ocupação, e queremos recuperá-lo”, disse o delegado chinês.

O embaixador de Dominica, Crispin Gregoire, referiu-se à destruição de ecossistemas, migração de comunidades e até ao desaparecimento de ilhas inteiras, ao falar em nome da Aliança de Pequenos Estados Insulares (AOSIS), os mais ameaçados pela mudança climática. “As Ilhas Marshall iniciaram contatos com os Estados Unidos. Poderia haver algum tipo de acordo sobre migrações. Washington poderia estar aberto a aceitar uma cota maior de emigrantes” desse país, afirmou.

A Organização das Nações Unidas prevê que 150 milhões de pessoas poderão perder seus lares e se converter em “refugiados do clima” até 2050. Bahamas, Maldivas e Tonga estão entre os mais ameaçados. “No Caribe temos o problema adicional de que nossa pesca muda para águas mais frias, e com um aquecimento de dois centigrados nossos arrecifes de coral desaparecerão”, alertou Gregoire. O coordenador da delegação dos Estados Unidos, Jonathan Pershing, foi convidado para o encontro, mas não compareceu.
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FONTE : Raúl Pierri, da IPS (IPS/Envolverde)

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