sexta-feira, 31 de maio de 2019

Entenda o que é o glifosato, o agrotóxico mais vendido do mundo. Entrevista com o professor Luiz Claudio Meireles

glifosato
Os agrotóxicos à base de glifosato são os mais comercializados no mundo. Foto: Arquivo Agência Brasil

Entenda o que é o glifosato, o agrotóxico mais vendido do mundo.

IHU
O professor Luiz Claudio Meireles, membro do Grupo Temático Saúde e Ambiente da Abrasco e também pesquisador do Centro de Estudos da Saúde do Trabalhador e Ecologia Humana da Escola Nacional de Saúde Pública da Fundação Oswaldo Cruz foi ouvido na reportagem de Filipe Domingues para o G1.
A reportagem é de Vilma Reis, publicada por Abrasco, 29-05-2019.
Em pauta, o glifosato: o agrotóxico mais famoso do mundo. E, com certeza, o mais vendido. Somente no Brasil, são 110 os produtos comercializados com glifosato, de 29 empresas diferentes: foram 173 mil toneladas vendidas em 2017, três vezes mais do que o segundo agrotóxico mais comercializado, o 2,4-D, diz a matéria.
Meirelles ressalta ainda que a carcinogenicidade do glifosato é um caminho sem volta pois o contexto de perigo de produtos suspeitos, só piorou com o passar do tempo, pelo avanço do conhecimento: “Vide organoclorado e organofosforados em geral e ainda o Dicloro-Difenil-Tricloroetano (DDT) que se tornou um dos mais conhecidos inseticidas de baixo custo”.

Confira:

Criado nos anos 1950 pela indústria farmacêutica, o princípio ativo ficou conhecido nos anos 1970, quando a empresa Monsanto – hoje pertencente à Bayer – desenvolveu um poderoso herbicida. Suas vendas estouraram quando a companhia lançou sua linha de sementes transgênicas Roundup, resistentes ao glifosato, nos anos 1990.
soja, o milho e o algodão resistentes ao herbicida permitiram ao setor agrícola ampliar o uso do glifosato nas lavouras para matar ervas daninhas. Multiplicaram-se ganhos em produtividade e rentabilidade.
Por outro lado, a segurança do glifosato para a saúde humana vem sendo questionada internacionalmente – assim como a de outros agrotóxicos. Estudos associam o glifosato ao câncer e a outras doenças. A Bayer, inclusive, já foi condenada na justiça americana sob essa alegação.
Entenda, abaixo, por que o glifosato é polêmico e como se tornou o membro mais notável da família dos agrotóxicos.

O que é o glifosato?

Trata-se de um princípio ativo, isto é, uma molécula desenvolvida na fabricação de produtos químicos. Inicialmente, o glifosato surgiu na indústria farmacêutica e também chegou a ser usado para limpar metais. Porém, se popularizou nos herbicidas da Monsanto, que hoje pertence à Bayer.
O herbicida à base de glifosato é aplicado nas folhas de plantas daninhas, aquelas que nascem espontaneamente no meio das lavouras e prejudicam a produção agrícola. Ele bloqueia a capacidade da planta de absorver alguns nutrientes.
“É um produto usado para matar planta”, resume Luiz Cláudio Meirelles. “No início, não era possível usá-lo durante o plantio, porque matava também aquilo que se queria cultivar. Com a soja geneticamente modificada, resistente ao glifosato, passou a ser possível.” O glifosato também pode ser usado como dessecante. Ou seja, se o produtor quiser colher a soja e por algum motivo ela ainda estiver verde, o herbicida uniformiza a lavoura e permite antecipar a colheita.

Como ele se tornou o agrotóxico mais vendido?

Após o desenvolvimento da soja transgênica, vieram milho e algodão. “Passamos de 40 mil toneladas [de agrotóxicos] a 300 mil por ano no Brasil. Mesmo com o aumento na produção de grãos, o salto no uso desses produtos foi bem maior”, acrescenta Meirelles.
Em uma época em que se buscava ampliar os ganhos das lavouras, o glifosato pareceu ser uma das melhores soluções, sem evidências imediatas sobre seu impacto na saúde humana. Foi apresentado pela indústria como um bom negócio e, hoje, é o agrotóxicomais vendido no Brasil.
De acordo com Larissa Mies Bombardi, pesquisadora do Laboratório de Geografia Agrária da Universidade de São Paulo (USP), que mapeou o uso dos agrotóxicosno país, a principal explicação para que o glifosato continue sendo tão usado ainda é a transgenia.
“As sementes são preparadas para recebê-lo [glifosato], assim como o 2,4-D, que vem ganhando território. O que está acontecendo é uma variação de vertentes transgênicas, passamos de um tipo para outro”, afirma a pesquisadora. “Cerca de 98% da soja noBrasil é transgênica, em área equivalente a uma Alemanha inteira.” Com a queda da patente de Monsanto, em 2000, tornou-se mais fácil para outras empresas produzir agrotóxicos com glifosato. A substância alcançou, inclusive, mercados populares.
Hoje, além de pequenas e grandes propriedade agrícolas, o glifosato está em produtos para jardinagem e também é usado na manutenção de parques públicos, por exemplo.

É possível produzir sem glifosato?

A maioria dos representantes do setor agropecuário afirma que seria impossível manter os níveis de produção de soja e milho do Brasil sem o uso de agrotóxicos – o que inclui o glifosato, mas também outros herbicidasinseticidasfungicidas e pesticidas.
Conforme estimativa da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), o Brasil deverá colher 236,72 milhões de toneladas de grãos em 15 culturas diferentes na safra 2018/19.
Segundo Dionísio Grazziero, pesquisador da Embrapa Soja, sempre há o que melhorar nas técnicas de produção agrícola, e o uso de agrotóxicos não foge a essa regra. “É possível usar programas de manejo integrado de pragas e reduzir o número de aplicações [de agrotóxicos]”, afirma. “No caso da soja, o controle é bastante rígido e está dentro dos padrões estabelecidos internacionalmente.”
Grazziero avalia que, em um país tropical e de proporção continental como o Brasil, não é possível produzir em grande escala sem a aplicação de defensivos agrícolas. Já na visão de ambientalistas, é justamente essa dependência econômica que mantém o uso de agrotóxicos viável e, consequentemente, nocivo ao meio ambiente e à saúde humana.
“A agricultura tradicional é extremamente dependente de agrotóxicos. E, quanto mais você usa, mais você cria desequilíbrios, novas pragas, intoxicação aguda entre produtores e doenças crônicas que aparecem só no longo prazo”, afirma a porta-voz do Greenpeace, Marina Lacôrte.
Ela se refere também ao fato de que as pragas e ervas daninhas desenvolvem, aos poucos, resistência aos agrotóxicos, o que induz a criação de novas linhas de produtos ainda mais fortes. Segundo Lacôrte, uma redução gradual no uso de agrotóxicos seria possível, com mais estímulos à agricultura ecológica.
Meirelles também avalia que seja necessário migrar para uma agricultura mais limpa. “É possível mudar o modelo de produção, incentivando inimigos naturais e não plantando uma só cultura em áreas gigantescas, por exemplo”, diz.
A diretora executiva da Pesticide Action Network (PAN) nos Estados UnidosKristin Schafer, disse ao G1 que adotar a agroecologia em grande escala não é um objetivo impossível. “Na Califórnia, por exemplo, temos produção de arroz orgânico muito ampla. Eles dividem uma grande propriedade em vários campos menores”, conta.

O glifosato faz mal para a saúde?

Como qualquer outro agrotóxico, o glifosato é um produto químico cuja venda e aplicação são regulamentadas por lei. Até mesmo os representantes do agronegócioreconhecem que, se aplicados sem os devidos cuidados, os agrotóxicos fazem mal especialmente ao trabalhador agrícola.
A polêmica maior, porém, está nos possíveis efeitos que pode causar aos consumidores dos alimentos. O golpe mais certeiro contra o glifosato foi a avaliação da Agência Internacional para Pesquisa do Câncer (IARC), ligada à Organização Mundial da Saúde (OMS), em 2015, descrevendo o produto como um “provável causador” de câncer.
“Eles não são uma agência reguladora e são bastante conservadores. Mas bancaram essa afirmação e até hoje não voltaram atrás”, comenta Meirelles. “Houve uma contestação imensa em vários setores, inclusive entre as agências reguladoras, que sofrem grande pressão comercial.”
A agência reguladora europeia, EFSA, reavaliou o glifosato em 2016 e o considerou seguro para a saúde humana, desde que os resíduos nos alimentos sejam baixos. Também uma reunião de representantes da OMS e da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), no mesmo ano, deu parecer positivo ao glifosato consumido em níveis mínimos nos alimentos.
No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) fez recentemente uma reavaliação sobre o glifosato, iniciada em 2008, e afirmou que ele “não apresenta características mutagênicas e carcinogênicas”. Estão abertas as consultas públicas sobre o glifosato até 6 de junho.
Segundo o toxicologista do Grupo de Informação e Pesquisas sobre Glifosato (Gipeg), Flavio Zambrone, os testes feitos no glifosato pelas principais agências reguladoras do mundo o consideraram seguro para a saúde humana. “É um produto de baixa toxicidade para o homem e para o meio ambiente”, afirma Zambrone.
Por outro lado, Larissa Mies Bombardi, da USP, diz que os níveis aceitáveis de agrotóxicos no Brasil são geralmente bem mais altos do que os admitidos em outros países. Além disso, países como Alemanha e Suíça exportam produtos que eles mesmos não usam em suas próprias lavouras.
“Qualquer nível é perigoso. O ideal é adotar um modelo de agricultura mais moderno. Até mesmo nos Estados Unidos o monitoramento é mais completo do que o nosso e, na França, o glifosato deve ser proibido a partir de 2022”, comenta.

Linha do tempo do glifosato com os dez fatos importantes na história do agrotóxico mais usado no Brasil:

1950 – Descoberta da molécula do glifosato pelo químico suíço Henri Martin, da farmacêutica Cilag.
1970 – O químico John E. Franz, da Monsanto, desenvolve herbicidas à base de glifosato. O produto já era usado pela Stauffer Chemical para limpar metais.
1974 – Monsanto passa a produzir herbicidas de glifosato em escala industrial, inicialmente para produção de borracha na Malásia e trigo no Reino Unido.
1995 – Chegam ao Brasil as sementes transgênicas de soja, milho e algodão Roundup Ready, da Monsanto, resistentes ao glifosato. As vendas saltam a partir de 2005, com a liberação da soja transgênica, e transformam o produto no herbicida mais usado nas lavouras.
2000 – Patente da Monsanto expira e o glifosato vira princípio ativo de mais de 2 mil produtos de diversas outras empresas. Hoje, no Brasil, mais de 100 agrotóxicos contêm glifosato.
2015 – Estudo da Agência Internacional para Pesquisa do Câncer (IARC), ligada à Organização Mundial da Saúde (OMS), associa o glifosato ao câncer, descrevendo-o como um “provável causador” da doença.
2016 – Um painel com representantes da OMS e da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) dão parecer positivo ao glifosato quando a exposição se dá de forma limitada e por meio do consumo de alimentos.
2018 – A Bayer conclui a compra da Monsanto por US$ 63 bilhões (R$ 248 bilhões), a maior já feita pela empresa alemã no exterior, criando a maior companhia de pesticidas e sementes do mundo.
2018 – Bayer é condenada a pagar US$ 289 milhões (R$ 1,1 bilhão) ao ex-jardineiro Dewayne Johnson, que teve câncer por exposição prolongada ao glifosato. Em março de 2019, foi condenada a pagar US$ 80 milhões (R$ 315 milhões) a Edwin Hardeman, por não alertar sobre os riscos do produto.
2019 – Anvisa faz reavaliação do glifosato, iniciada em 2008, e permite seu uso no Brasil. Afirma que a substância “não apresenta características mutagênicas e carcinogênicas”. A agência avaliou 16 pareceres próprios e 3 externos. Até 6 de junho estão abertas as consultas públicas sobre o glifosato no país.

(EcoDebate, 31/05/2019) publicado pela IHU On-line, parceira editorial da revista eletrônica EcoDebate na socialização da informação.

[IHU On-line é publicada pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos Unisinos, em São Leopoldo, RS.]

EcoDebate - Edição 3.214 de 31 / maio / 2019


Desejamos a todos(as) um bom dia e uma boa leitura
Compreendemos desenvolvimento sustentável como sendo socialmente justo, economicamente inclusivo e ambientalmente responsável. Se não for assim não é sustentável. Aliás, também não é desenvolvimento. É apenas um processo exploratório, irresponsável e ganancioso, que atende a uma minoria poderosa, rica e politicamente influente.” [Cortez, Henrique, 2005]

O GRITO DO BICHO - Boletim Informativo de 31.05.2019



31/05/2018    
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quarta-feira, 29 de maio de 2019

Programa "Antes que a Natureza Morra" - Seção MEMÓRIA, jornal DIÁRIO, Santa Maria, edição de 28.05.2019

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O GRITO DO BICHO - Boletim Informativo de 29.05.2019



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7 anos do Código Florestal: Apenas 4% dos imóveis rurais não cumprem a lei. Por que mudar?

A quem interessa a MP 867 do Código Florestal?

Estudo do Comitê Técnico do Observatório do Código Florestal (OCF) analisa o número de beneficiados com as alterações da Lei da Vegetação Nativa Brasileira (12.651/2012) previstas na MP 867/2018. A MP e suas emendas estão na pauta para a votação na Câmara dos Deputados a qualquer momento.
Resumo do estudo
A Medida Provisória (MP) 867/2018, que inicialmente alterava o prazo para adesão ao Programa de Regularização Ambiental (PRA), após receber 35 emendas, teve seu parecer aprovado pela Comissão Mista, tornando-se Projeto de Lei de Conversão (PLV) no 9, de 2019, e será submetida ao plenário da Câmara dos Deputados e ao Senado Federal. Seu prazo final para votação é o próximo 3 de junho.
O PLV no 9/2019 extrapola o propósito original da Medida Provisória no 867/2018 e tem severo impacto na implementação da Lei. As emendas não somente mudam o prazo de adesão, mas alteram o processo e os requisitos que regulam a adequação ambiental de APPs (Áreas de Preservação Permanente) e RLs (Reservas Legais) de imóveis rurais irregulares ou em descumprimento com o Código. As mudanças de processo impactam tanto a recuperação de APPs como RLs e as mudanças de requisitos, especialmente do artigo 68 da Lei, impactam fortemente as RLs.
Na prática, hoje, a MP no 867/2018 representa uma nova ampla anistia para quem desrespeitou o Código Florestal anterior e o vigente. A MP mantém a estrutura e a engrenagem da Lei, mas retira a corrente que faria a máquina funcionar e a recuperação de florestas acontecer no mundo real. As várias alterações da MP permitem que imóveis com passivo ou não cumprimento da lei atual se tornem regulares sem nenhuma ação de recuperação.
Para entender o impacto dessa mudança, o Comitê Técnico do Observatório do Código Florestal avaliou a situação das Reservas Legais no Brasil.
Resultados
A área analisada engloba 3.551.286 imóveis que somam uma área de 364.160.711 ha. Destes, somente 147.906 ou 4% dos imóveis tem algum descumprimento em relação aos requisitos de Reserva Legal. Estes 4% de imóveis com descumprimento da lei representam 20% da área total de imóveis analisada (73,23 milhões de ha) e acumulam um déficit de vegetação nativa de 9.044.122 ha. O déficit está presente em 5,05 milhões de ha de 34.213 grandes imóveis e 3,99 milhões de ha de 113.693 imóveis médios. Em outras palavras, 96% dos imóveis e 80% da área ocupada por eles cumprem com os requisitos do Código Florestal.
Conclusões
O déficit de cumprimento dos requisitos de Reserva Legal (RL) no Brasil acumula o valor expressivo de 9 milhões de ha, área que corresponde a soma dos estados do Rio de Janeiro e do Espírito Santo. Apesar da sua magnitude, 96% dos imóveis brasileiros cumprem com os requisitos de RL e o não cumprimento está concentrado em um número relativamente pequeno de imóveis grandes e médios.
Além disso, a regularização dessas áreas deficitárias pode ser alcançada em grande medida com mecanismos de compensação, uma vez que o excedente de vegetação nativa é maior do que o déficit (Soares-Filho et al., 2016; Sparovek et al., 2015). As Cotas de Reserva Ambiental são um dos mecanismos possíveis para esse fim e a restauração da vegetação nativa pode ser necessária em condições particulares.
Também ressaltamos que a NDC brasileira (nossa parte com o Acordo de Paris) prevê a restauração de 12 milhões de ha de vegetação nativa, o que poderia ser alcançado com o plantio em APPs e RLs e a consequente legalidade total do setor.
Portanto, a MP 867 atende ao interesse de poucos e desconsidera o esforço da maior parte dos proprietários de imóveis rurais e produtores agrícolas brasileiros. Também desestimula o cumprimento da NDC brasileira e compromete a imagem e a reputação do país na geopolítica global, os compromissos internacionais estabelecidos pelo setor agropecuário e a possibilidade de atrairmos recursos para a proteção das florestas brasileiras.
Acesse o estudo completo
Download (Versão em Português) :
http://bit.ly/OCF_Estudo_MP867
.
Download (English Version) :
http://bit.ly/Study_MP867_EN
Autores do estudo: Raoni Rajão (LAGESA/UFMG), Vinícius Faria, Tomás Carvalho, Felipe Cerignoni, Isabella Granero e Luis Fernando Guedes Pinto (Imaflora), Vivian Ribeiro e João Paulo Fernandes Márcico Ribeiro (IPAM), Ana Paula Valdiones e Vinícius Silgueiro (ICV) e Roberta Del Giudice (OCF).

A quem interessa a MP 867 do Código Florestal?
A quem interessa a MP 867 do Código Florestal? Imagem: Ipam

Nota do Observatório do Código Florestal, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 28/05/2019
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7 anos do Código Florestal: Apenas 4% dos imóveis rurais não cumprem a lei. Por que mudar?

," in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 29/05/2019, https://www.ecodebate.com.br/2019/05/29/7-anos-do-codigo-florestal-apenas-4-dos-imoveis-rurais-nao-cumprem-a-lei-por-que-mudar/.


Expansão urbana desordenada aumenta risco de faltar água na macrometrópole paulista

Estudo divulgado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) mostra que a expansão urbana desordenada da população de baixa renda na chamada macrometrópole paulista se estende para áreas de preservação ambiental, pondo em risco o abastecimento de água na região. Do total de 33 milhões de habitantes da macrometrópole paulista, 3,8 milhões vivem hoje em condições precárias.
Essa população está distribuída em 113 dos 174 municípios, que englobam as regiões metropolitanas de São Paulo, Campinas, Baixada Santista, Sorocaba, Vale do Paraíba e Litoral Norte, além das aglomerações urbanas de Jundiaí, Piracicaba e Bragança Paulista.
A estimativa é que o território ocupado tenha 31,5 mil quilômetros e vem se expandindo em direção a áreas de mananciais e de preservação ambiental.
A ocupação urbana desordenada tem aumentado os riscos de escassez hídrica na região, que concentra 20% do patrimônio natural protegido do estado.
A avaliação foi feita por pesquisadores participantes do Fórum de Governança Ambiental da Macrometrópole Paulista, realizado em abril no Instituto de Energia e Ambiente da Universidade de São Paulo (IEE-USP).

Construções às margens da Represa Billings
Construções às margens da Represa Billings, um dos principais reservatórios de água da região metropolitana de São Paulo – Rovena Rosa/Agência Brasil

“Ao analisar a distribuição populacional na região, é possível identificar um padrão de ocupação disperso e descontrolado associado à renda. Há uma concentração de residências de pessoas de alta e média renda próximas aos principais centros urbanos, onde há disponibilidade de empregos e atividades de comércio, serviços, polos de alta tecnologia e infraestrutura de transporte. Já as moradias da população de baixa renda situam-se em assentamentos precários localizados, de modo espraiado, em áreas de maior fragilidade e de preservação ambiental”, disse Angélica Benatti Alvim, professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie.
De acordo com a pesquisadora, as principais regiões em que tem sido observado o avanço de aglomerados urbanos precários em áreas de preservação ambiental são as metropolitanas de São Paulo, Campinas e Baixada Santista.
A ocupação desordenada dos mananciais contribui para maior escassez da água nas regiões mais populosas, especialmente na Região Metropolitana de São Paulo, e coloca também em risco a sustentabilidade de regiões vizinhas à macrometrópole, como é o caso da região do Vale do Ribeira. Segundo estudos da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp), as áreas mais populosas dessas regiões provavelmente vão intensificar o empréstimo de água de outras regiões em um futuro próximo, informou Angélica.
“Também percebemos que áreas próximas à Serra do Japi, em Jundiaí, no Vale do Paraíba e no litoral norte de São Paulo têm sido pressionadas pela ocupação desordenada”, disse.
Para a professora, a ocupação desordenada impacta a qualidade da água que já é pouca para atender tanta gente. “Nós temos um problema de quantidade e se a gente tem um problema de ocupação desordenada nós afetamos a qualidade essa água e isso já está sendo cada vez mais problemático. A mudança climática tem a ver com a escassez hídrica, mas se a gente afeta a qualidade, pelo processo de ocupação desordenada, combinando esses dois conceitos nós vamos afetar a disponibilidade, e a perspectiva é de caos.”
Favelas interligadas
Um levantamento feito por pesquisadores do Centro de Estudos da Metrópole (CEM), centro de pesquisa apoiado pela Fapesp, há 1,1 milhão de pessoas a mais em situação de precariedade do que registraram os dados do último censo demográfico do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Com isso, o total ajustado passou a ser de 3,8 milhões de pessoas.
“Essa disparidade nos dados censitários indicada pelo Centro de Estudos da Metrópole aponta para o surgimento de pequenos núcleos de favela na macrometrópole paulista”, afirmou da professora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e coordenadora do Observatório das Metrópoles, Lúcia Maria Machado Bógus.
No município de São Paulo, por exemplo, o processo de favelização tinha revertido e, nos últimos anos, devido ao desemprego e à deterioração das condições de vida da população de baixa renda, tem se observado uma piora, disse a pesquisadora. “Isso também tem sido notado em outros municípios da macrometrópole paulista.”
De acordo com Bógus, outro fenômeno de ocupação urbana recentemente observado na região é a interligação das periferias de municípios vizinhos.
“Hoje já não é mais possível se referir à periferia de São José dos Campos, por exemplo, sem lembrar que se vincula à expansão periférica de municípios vizinhos. Outro caso que merece destaque é o da cidade de Jundiaí, onde o processo de expansão das periferias, ligando municípios limítrofes, também é bastante evidente.”

Por Ludmilla Souza, da Agência Brasil, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 29/05/2019
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Expansão urbana desordenada aumenta risco de faltar água na macrometrópole paulista

," in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 29/05/2019, https://www.ecodebate.com.br/2019/05/29/expansao-urbana-desordenada-aumenta-risco-de-faltar-agua-na-macrometropole-paulista/.


Qual o impacto do seu cafezinho no meio ambiente? Pesquisadoras do IPT comparam lixo gerado por cápsulas de café e filtros de papel

Consumir café passado no filtro do papel causa menos impacto no meio ambiente do que em cápsulas. Créditos: Divulgação
Consumir café passado no filtro do papel causa menos impacto no meio ambiente do que em cápsulas. Créditos: Divulgação
Que o brasileiro gosta de um cafezinho pela manhã, nas pausas do trabalho, depois do almoço e para receber um amigo em casa, todo mundo já sabe: segundo estudo da Euromonitor International, só em 2017 cada brasileiro consumiu em média 817 xícaras de café, o que corresponde a seis vezes a média mundial e 15% do volume global consumido. É o país que mais bebe café no mundo. Mas será que a forma como fazemos uma das nossas bebidas favoritas faz diferença no meio ambiente?
Pesquisadoras do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) compararam os resíduos gerados pelos filtros de papel e as cápsulas de café disponíveis no mercado e concluíram: no Brasil, tornar um hábito tomar um cafezinho de cápsula pode ser até 14 vezes mais prejudicial ao meio ambiente do que ‘passá-lo’ no coador de papel (veja o vídeo no Instagram no IPT).
“Consideramos as embalagens das cápsulas, feitas de alumínio e de plástico, e os coadores, constituídos por 100% fibra de celulose. Um brasileiro descartaria por ano cerca de 2,6 kg de plástico e alumínio com as cápsulas para uso individual, contra apenas 183 g de papel no coador para ‘passar’ até 10 cafezinhos”, aponta Cláudia Teixeira, pesquisadora e chefe do Centro de Tecnologias Geoambientais do IPT.
Extrapolando essa média para o País, que em 2017 tinha 207,7 milhões de habitantes, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), seriam 540 mil toneladas de alumínio e plástico contra 38 mil toneladas de papel, 14 vezes menos resíduo considerando apenas a massa. Só que esse aspecto não é o único e, nem necessariamente, o mais importante para que o café de coador saia ganhando quando o assunto é meio ambiente.
“O papel é um recurso biodegradável e renovável. Ele não poderia ser reciclado, nesse caso, porque teria resíduos em grande quantidade, mas poderia passar pela compostagem junto com o próprio resíduo de café e gerar adubo, ou outros compostos orgânicos”, explica Cláudia. “Já o alumínio e o plástico não são recursos renováveis. Caso não sejam reciclados, levam muito tempo para se decompor junto ao resíduo comum, além de ocuparem espaço em um aterro, por exemplo”.
Além do descarte, há ainda outra questão: produzir papel (de madeira de reflorestamento) gasta muito menos energia e gera menos resíduo do que produzir plástico e alumínio. Estima-se para uma tonelada de papel produzida um gasto de 7,7 MWh de energia e geração de 22 kg de resíduos. Para uma tonelada de alumínio, são 276 MWh consumidos e 183 kg de resíduos gerados. Os materiais poliméricos na sua produção também consomem mais energia e geram mais resíduos que a produção do papel.
“Avaliar qual o impacto do uso de um recurso no meio ambiente não é algo trivial. Não basta apenas considerar o que é gerado de resíduo, mas sim toda a etapa de produção desses materiais, a forma como são usados e descartados. Nossa avaliação é um recorte dessa realidade”, conclui a pesquisadora.
CÁPSULA, NÃO MAIS? – O consumo de café em cápsulas vem crescendo no mundo segundo pesquisa da Euromonitor, foram consumidas 750 milhões de cápsulas em 2015, e o mercado movimentou cerca de R$ 1,4 bilhão nesse mesmo ano, contra R$ 19 milhões de 2005. As embalagens das cápsulas não são as mesmas para todas as marcas, podendo variar entre plástico, alumínio e uma mistura de ambos – como a avaliada pelo IPT.
A mistura de materiais pode tornar mais difícil a reciclagem, o que tem feito algumas empresas fabricantes das cápsulas disponibilizarem sistemas de logística reversa para seus consumidores – diante das críticas e até ações governamentais, como a cidade de Hamburgo, na Alemanha, que proibiu o consumo em repartições públicas.
“Além de disponibilizar o sistema, o fabricante precisa informar ao consumidor o que fazer para descartar. É responsabilidade dele levar os materiais até os pontos de coleta. Sem a informação e sem o incentivo para descartar corretamente, as cápsulas acabam no resíduo comum”, comenta Cláudia. “Se coletadas, as empresas encaminham o material para a reciclagem. Caso a residência seja assistida pela coleta seletiva, o consumidor deve se informar se ela está recebendo cápsulas”, sugere a pesquisadora.

Do IPT, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 28/05/2019
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Qual o impacto do seu cafezinho no meio ambiente? Pesquisadoras do IPT comparam lixo gerado por cápsulas de café e filtros de papel

," in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 29/05/2019, https://www.ecodebate.com.br/2019/05/29/qual-o-impacto-do-seu-cafezinho-no-meio-ambiente-pesquisadoras-do-ipt-comparam-lixo-gerado-por-capsulas-de-cafe-e-filtros-de-papel/.