quarta-feira, 31 de outubro de 2018

Pesquisa documenta os efeitos rápidos das mudanças climáticas nas plantas e seus ecossistemas

Uma equipe internacional de pesquisadores descobriu que as mudanças climáticas estão alterando drasticamente as comunidades de plantas terrestres e seus ecossistemas, em um ritmo tão rápido que ter uma linha de base estável para realizar experimentos está se tornando cada vez mais difícil.


Mata Atlântica

Villanova University*
Em um artigo intitulado “Ambient changes exceed treatment effects on plant species abundance in global change experiments”, publicado recentemente na revista Global Change Biology , o autor Adam Langley, PhD e co-autor Samantha K. Chapman, ambos professores adjuntos do Departamento de Biologia de Villanova.
Juntamente com uma equipe de 16 pesquisadores, documentaram descobertas que compararam a abundância de plantas ambientais (crescendo em condições naturais) com plantas em parcelas experimentalmente tratadas com dióxido de carbono elevado, nutrientes, água e aquecimento para simular futuras mudanças ambientais.
Os pesquisadores compararam a mudança na abundância de plantas ambientais para as tratadas. Usando um banco de dados de estudos de mudança global de longo prazo em um período de 30 anos, a equipe estimou a abundância de plantas em 791 espécies de plantas em parcelas ambientais e tratadas em 16 experimentos de mudança global a longo prazo, gerando 2.116 combinações de experimento-espécies-tratamento . Os resultados foram surpreendentes.
Para a maioria das espécies (57 por cento), de acordo com o artigo, a magnitude da mudança ambiental foi maior do que a magnitude dos efeitos do tratamento – o oposto do resultado esperado pelos pesquisadores.
“Uma preponderância de evidências sugere que a mudança climática está alterando drasticamente as comunidades de plantas terrestres”, afirma o artigo.
A publicação do artigo sobre a Biologia da Mudança Global é particularmente oportuna dada a publicação em 7 de outubro do relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) das Nações Unidas sobre mudanças climáticas.
“O relatório do IPCC afirma que já estamos na metade do caminho para o limite de aquecimento de 1,5 grau C., acima do qual teremos efeitos globais severos”, disse Langley. “Com as políticas atuais, é provável que superemos esse limite nos próximos 20 anos.”
Isso sinaliza que mudanças ainda mais dramáticas nas comunidades de plantas seriam esperadas nas próximas décadas, disse Langley. “Localmente, muitas espécies de plantas que estamos acostumadas a desaparecer, e as novas vão tomar seus lugares à medida que as populações de plantas migram, se ajustam ou se extinguem. O que esta grande mudança significa para o nosso planeta continua a ser visto ”.
“Uma das principais conclusões do relatório do IPCC que apóia nossas descobertas é que as mudanças em muitos ecossistemas podem estar acontecendo mais rapidamente do que pensávamos”, concordou Chapman. “As plantas estão mudando sob nossos pés enquanto tentamos prever o futuro”.
O artigo aponta que os humanos estão alterando muitos dos fatores que controlam quais plantas são bem-sucedidas e quais fracassam. Por exemplo, a concentração ambiental de dióxido de carbono na atmosfera é agora cerca de 50% maior do que nos tempos pré-industriais. No final deste século, a quantidade de dióxido de carbono na atmosfera poderia triplicar o nível pré-industrial, de acordo com Langley.
“As plantas são a base da cadeia alimentar e impulsionam o ciclo do carbono, os ciclos de nutrientes e os ciclos da água em que nos baseamos”, disse Langley. “Quando as espécies de plantas mudam, tudo o que há no ecossistema pode seguir.”
Ele acrescentou: “Estamos tentando simular como será a Terra Futura com a mudança global, mas, a mudança climática e a poluição por nutrientes estão mudando os ecossistemas tão rapidamente que é difícil experimentar além dessas mudanças. Diante de mudanças ambientais contínuas, nossos experimentos podem ser como ‘rearranjar espreguiçadeiras no Titanic’ ”.
Referência:
Adam Langley J, Chapman SK, La Pierre KJ, et al. Ambient changes exceed treatment effects on plant species abundance in global change experiments. Glob Change Biol. 2018;00:1–12. https://doi.org/10.1111/gcb.14442

* Tradução e edição de Henrique Cortez, EcoDebate.
in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 31/10/2018

"Pesquisa documenta os efeitos rápidos das mudanças climáticas nas plantas e seus ecossistemas," in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 31/10/2018, https://www.ecodebate.com.br/2018/10/31/pesquisa-documenta-os-efeitos-rapidos-das-mudancas-climaticas-nas-plantas-e-seus-ecossistemas/.

EcoDebate - Edição 3.084 de 31 / outubro / 2018


Desejamos a todos(as) um bom dia e uma boa leitura
Compreendemos desenvolvimento sustentável como sendo socialmente justo, economicamente inclusivo e ambientalmente responsável. Se não for assim não é sustentável. Aliás, também não é desenvolvimento. É apenas um processo exploratório, irresponsável e ganancioso, que atende a uma minoria poderosa, rica e politicamente influente.” [Cortez, Henrique, 2005]

terça-feira, 30 de outubro de 2018

Modelo de desenvolvimento mais sustentável geraria novas oportunidades de emprego, avaliam CEPAL e OIT

A região da América Latina e do Caribe tem a maior biodiversidade do mundo, mas está perdendo suas riquezas naturais com a deterioração ambiental provocada pelo atual modelo de desenvolvimento

ONU

energia eólica
Na América Latina e no Caribe, pelo menos 1 milhão de empregos serão gerados como resultado do uso de energias renováveis, segundo a OIT. Foto: Banco Mundial/Dana Smillie

A região da América Latina e do Caribe tem a maior biodiversidade do mundo, mas está perdendo suas riquezas naturais com a deterioração ambiental provocada pelo atual modelo de desenvolvimento, o que cria urgência de transição para um modelo mais sustentável, tanto do ponto de vista ambiental, quanto trabalhista.
Tal transição permitiria acesso a novas oportunidades e melhorias no emprego, destacaram a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL) e a Organização Internacional do Trabalho (OIT) em nova publicação conjunta.
Na 19ª edição da “Conjuntura Trabalhista na América Latina e no Caribe“, CEPAL e OIT abordam as formas com as quais a necessária sustentabilidade ambiental, em especial a descarbonização do setor energético e a economia circular, pode afetar o mundo do emprego e os desafios que esta situação apresenta.
Os organismos internacionais projetam, por exemplo, que a transição para sustentabilidade energética criaria mais de 1 milhão de empregos na América Latina e no Caribe até 2030.
Da mesma forma, a evolução para uma economia circular – na qual se melhora a eficiência e a vida útil dos materiais ao promover a durabilidade e a capacidade de reparos, reutilização e reciclagem – geraria 4,8 milhões de empregos até 2030, já que a criação de empregos nos setores de reprocessamento de aço, alumínio, madeira e outros materiais compensaria amplamente as perdas associadas à extração de minérios e outras matérias-primas.
No entanto, as transições ambientais também geram desafios para o mundo trabalhista e necessidades de desenvolvimento de outras competências adequadas à mão de obra, alertam a CEPAL e a OIT.
“Para fazer uma transição com capacidade de criar empregos decentes e que seja justa para todos, é essencial a complementaridade das políticas. As políticas que apontam à sustentabilidade ambiental devem ser acompanhadas de marcos jurídicos integrados e de políticas de proteção social, de desenvolvimento de competências e de igualdade de gênero, que promovam o diálogo social”, destacam Alicia Bárcena, secretária-executiva da CEPAL, e José Manuel Salazar, diretor regional da OIT para a América Latina e o Caribe, no prólogo do documento.
Ao longo do documento é explicado que, para impulsionar uma transição ambiental que otimize a criação de emprego e de trabalhos decentes, existem algumas normas, marcos jurídicos e políticas, tanto no nível internacional quanto nacional.
Algumas convenções internacionais do trabalho fazem, por exemplo, menção direta às normais internacionais do trabalho, como a Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar (1982) e o Convênio Internacional das Madeiras Tropicais (2006). O Acordo de Paris, da Convenção Marco das Nações Unidas sobre a Mudança Climática (2015), também inclui dimensões essenciais do mundo do trabalho.
Em uma amostra de sete países da América Latina e do Caribe, seis fazem menção explícita em seus marcos jurídicos do setor energético ao desenvolvimento de competências e à pesquisa e desenvolvimento. Em cinco deles são feitas referências gerais ao mundo do trabalho e em quatro à criação de empregos. No entanto, em nenhum dos países é mencionado diálogo social, que é um mecanismo para avançar para uma transição justa, segundo a CEPAL e a OIT.
O documento destaca que, depois de sete semestres de aumentos interanuais da taxa de desemprego urbana aberta da América Latina e do Caribe, no primeiro semestre de 2018 foi registrada pela primeira vez uma redução, mesmo que pequena, de 0,1 ponto percentual. Isto aconteceu em parte porque, desde o terceiro trimestre de 2017, a taxa de ocupação urbana mostra aumentos interanuais de 0,2 ponto percentual e no início de 2018 seu impacto na taxa de desemprego coincidiu com uma leve desaceleração do aumento da taxa de participação, que segue impulsionada por uma inserção crescente das mulheres no mercado de trabalho.
De acordo com os dois órgãos, a taxa de desemprego está acima das projeções realizadas no final de 2017, à medida que o crescimento econômico da região teve resultado menos dinâmico que o esperado (a projeção para 2018 caiu 2,2 por cento no final de 2017 ante 1,3 por cento em outubro do ano em curso). Neste novo cenário, é esperado que, na média de 2018, a taxa de desemprego urbano mostre poucas mudanças ante 2017, ficando novamente em torno de 9,3 por cento.
Neste contexto, as políticas do mercado trabalhista e de proteção social seguirão essenciais para a proteção do bem-estar da população, de acordo com a CEPAL e a OIT.
Da ONU Brasil, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 30/10/2018
"Modelo de desenvolvimento mais sustentável geraria novas oportunidades de emprego, avaliam CEPAL e OIT," in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 30/10/2018, https://www.ecodebate.com.br/2018/10/30/modelo-de-desenvolvimento-mais-sustentavel-geraria-novas-oportunidades-de-emprego-avaliam-cepal-e-oit/.


Mais de 90% das crianças do mundo respiram ar poluído, alerta OMS

Em 2016, estima-se que 600 mil crianças morreram devido a infeções respiratórias causadas pelo ar poluído.

ONU News
A Organização Mundial da Saúde, OMS, revelou que cerca de 93% das crianças do mundo, com menos de 15 anos de idade, respiram ar tão poluído que coloca sua saúde e desenvolvimento em grave risco.
A situação afeta 1,8 bilhão de crianças no mundo, de acordo com um relatório publicado esta segunda-feira na primeira Conferência Mundial sobre Poluição do Ar e Saúde que decorre em Genebra.

Ameaças

Em 2016, estima-se que 600 mil crianças já morreram devido a infeções respiratórias causadas pelo ar poluído. Uma das principais ameaças à saúde de  crianças menores de cinco anos é a poluição do ar,  responsável por quase uma em cada 10 mortes nessa faixa etária.
Em comunicado, o diretor da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, considera a situação “indesculpável”. O representante destaca que o ar poluído “intoxica milhões de crianças e arruína suas vidas”.
O chefe da OMS sublinhou que toda a criança “deve ser capaz de respirar ar puro para que possa crescer e realizar todo o seu potencial”.
O estudo defende ainda que a poluição do ar também causa câncer. Crianças expostas à poluição excessiva também podem estar em maior risco de contrair uma doença cardiovascular crônica na vida adulta.
OMS revelou que cerca de 93% das crianças do mundo, com menos de 15 anos de idade, respiram ar tão poluído que coloca sua saúde e desenvolvimento em grave risco,
OMS revelou que cerca de 93% das crianças do mundo, com menos de 15 anos de idade, respiram ar tão poluído que coloca sua saúde e desenvolvimento em grave risco, by Foto: OMM/Alfred Lee

Cérebro

A diretora do Departamento de Saúde Pública, Meio Ambiente e Sociedade da OMS, Maria Neira, disse a jornalistas que a poluição do ar prejudica o cérebro dos menores de idade.
A probabilidade é que as crianças sejam intoxicadas porque estão mais expostas a ar poluído e absorvem mais poluentes do solo, onde essas substâncias se encontram em concentrações mais altas.
Como parte do apelo à ação das comunidade internacional, a OMS recomenda uma série de medidas “diretas” para reduzir o risco à saúde, que estão ligadas ao tamanho de material particulado ambiental, ou PM2.5.
Essas ações incluem acelerar as mudanças na limpeza de combustíveis e em tecnologias de aquecimento e para cozinhar, promoção de transporte mais limpo, habitações com maior eficiência energética e planejamento urbano.
A OMS apoia ainda a geração de energia de baixa emissão, tecnologias industriais mais limpas e seguras e o melhor gerenciamento municipal de resíduos para reduzir a poluição do ar nas comunidades.
Da ONU News, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 30/10/2018
"Mais de 90% das crianças do mundo respiram ar poluído, alerta OMS," in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 30/10/2018, https://www.ecodebate.com.br/2018/10/30/mais-de-90-das-criancas-do-mundo-respiram-ar-poluido-alerta-oms/.


EcoDebate - Edição 3.083 de 30 / outubro / 2018


Desejamos a todos(as) um bom dia e uma boa leitura
Compreendemos desenvolvimento sustentável como sendo socialmente justo, economicamente inclusivo e ambientalmente responsável. Se não for assim não é sustentável. Aliás, também não é desenvolvimento. É apenas um processo exploratório, irresponsável e ganancioso, que atende a uma minoria poderosa, rica e politicamente influente.” [Cortez, Henrique, 2005]

segunda-feira, 29 de outubro de 2018

Conheça o projeto Águas da Mantiqueira que alerta sobre os riscos de uma nova crise hídrica e como combatê-la

Por Louise Demetrio – 
Crédito foto de destaque Rafael Munhoz – 
A iniciativa realizada pela Fundação Toyota do Brasil em parceria com a FUNDEPAG (Fundação de Desenvolvimento da Pesquisa do Agronegócio) resultou em 15 meses de trabalho para avaliar as características da fauna, flora, bacias hidrográficas e as construções locais, com intuito de que o município se desenvolva cada vez mais sem necessariamente impactar as áreas naturais da região.
A Serra da Mantiqueira, localizada entre os estados de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro é a responsável por fornecer os recursos hídricos para mais de 14 milhões de pessoas diariamente. Mas, tal feito tornou-se um desafio para a região que enfrenta problemas como o desmatamento de suas áreas naturais e, por consequência, o desabastecimento de hídrico.
Crédito Louise Demetrio
Embora o local já fosse reconhecido pela Revista Science como o 8° ecossistema mais rico do planeta em biodiversidade, foi preciso que os moradores também percebessem essas riquezas nativas para que medidas sustentáveis surgissem e fossem implementadas na região.
Fernando Veríssimo, presidente da Associação de Amigos Pró Pinhal, conta que a ideia do projeto Águas da Mantiqueira que visa dar atenção às necessidades locais surgiu após a crise hídrica que afetou todo o estado de São Paulo. “Nós, moradores e amigos, criamos a Pró Pinhal para que também pudéssemos fazer parte do município auxiliando nas necessidades locais, mas tivemos de repensar o que fazer com o nosso ecossistema quando estourou a crise hídrica em 2014 e ficamos sem água.” Ele afirma que a partir dali seria necessário mostrar as reais causas da crise hídrica e encontrou apoio para demonstrar isso ao lado de José Roberto Manna, coordenador técnico do projeto Águas da Mantiqueira e consultor da FUNDEPAG (Fundação de Desenvolvimento da Pesquisa do Agronegócio).
Para Manna, é necessário muito planejamento para ocupar este bioma que detém a maior província de água mineral do mundo. “A vegetação natural local é de extrema importância para a formação dos lençóis freáticos. Sem a preservação dela, a água das chuvas não permeia o solo e, consequentemente não dará origem às nascentes e rios. O desabastecimento de água acontece justamente pelo desmatamento dessas áreas naturais e somente respeitando as necessidades de recursos e espaços para todos os habitantes da Serra da da Mantiqueira – que vão de microorganismo às comunidades humanas – conseguiremos reverter a situação.”
Equipe do projeto, crédito Louise Demetrio
Entendendo a importância do tema, a Fundação Toyota do Brasil uniu-se ao projeto Águas da Mantiqueira para salientar a proximidade de outra possível crise hídrica caso não haja cuidados com o solo, como reverter essa situação e os impactos que o fim dessas nascentes e rios podem causar. Segundo dados que os pesquisadores do programa ofereceram, no dia 24 de agosto, o Sistema Cantareira que é destinado a captação e tratamento de água para abastecer a Grande São Paulo, atingiu o nível de 37,7% de sua capacidade. Número inferior ao mesmo período que antecedeu o início da crise hídrica em 2013 e o motivo, muito além da falta de chuvas, está vinculado aos problemas hídricos da Serra da Mantiqueira, que é a matriz produtora de água para os reservatórios.
A engenheira florestal e responsável pela conscientização de Recursos Hídricos do projeto, Carolina Bozetti, afirma que grande parte da diminuição das fontes de água na região se dá por um manejo mal feito dos solos: “O produtor rural e as pastagens não são vilões nessa história. Muito pelo contrário, os produtores rurais ainda são muito penalizados por terem mata nativa em suas terras. Por isso temos que trazê-los para perto desse projeto que se preocupa com a água da cidade e oferecermos tecnologias para que essas pessoas possam conservar o solo.” Para ela, se o manejo das terras for adequado em meio às centenas de pequenas propriedades de Santo Antônio do Pinhal e os cuidados com os plantios forem efetivos, haverá então o processo da chuva infiltrando e recarregando os lençóis freáticos, permitindo que haja água para todos.  
Partindo dessa premissa, o projeto Águas da Mantiqueira visa a educação como peça chave para a manutenção dos recursos hídricos locais e acredita que é possível criar medidas sustentáveis mesmo em ambientes antropizados, incentivando assim iniciativas de pecuária sustentável, agroflorestas, horta pedagógicas e projetos de lei e restauração ecológica. (#Envolverde)

Projeto Águas da Mantiqueira: Saiba como as agroflorestas, pecuária sustentável e restaurações ecológicas combatem a crise hídrica

Por Louise Demetrio – 
Crédito foto de destaque Rafael Munhoz –
Realizado pela Fundação Toyota do Brasil em parceria com a FUNDEPAG (Fundação de Desenvolvimento da Pesquisa do Agronegócio) o projeto Águas da Mantiqueira propõe novos planejamentos territoriais com desenvolvimento socioeconômico sustentável para a região de Santo Antônio do Pinhal (SP).
Crédito Rafael Munhoz
Cerca de 30 pesquisadores avaliaram as características da fauna e da flora local para que a prefeitura elabore um planejamento que não impacte negativamente o meio ambiente, mas que ensine os 7.000 habitantes que vivem na região a utilizar hoje os recursos naturais de forma consciente, para que as gerações futuras também tenham o direito de utilizá-las.
Além de melhorias no monitoramento e na infraestrutura local (uma vez que o índice de perdas do sistema de água do município ultrapassa de 40%) o outro grande foco do projeto está vinculado à educação das crianças e a conscientização dos adultos. Para isso foi criada a Horta Pedagógica, onde jovens poderão ter contato com a terra e reconhecimento de plantas nativas e alimentos da região.
Também faz parte das propostas do projeto conhecer os modelos de agroflorestas, que tratam-se de técnicas de plantio dentro das matas. André Cerveny, agricultor agroflorestal, esclarece a associação das novas técnicas: “Assim como devemos buscar outras fontes energéticas para nossa locomoção, devemos também buscar outras fontes energéticas para produzirmos nosso alimento. A agrofloresta é uma nova forma de fazer isso, pois é uma agricultura de processos e não de insumos.” André comenta que caracteriza este manejo assim, já que diferentemente da agricultura convencional que necessita de agrotóxicos e fertilizantes para se manter, a agrofloresta utiliza de seus próprios microorganismos para a produção de alimentos. “Utilizamos as riquezas do próprio solo para fazer esse metabolismo florestal produzir essa fertilidade. Não precisa que ninguém vá adubar a floresta e podemos utilizar assim os recursos com mais responsabilidade, principalmente a água.”
Restauração ecológica – crédito Louise Demetrio
E não são só modelos de uma agricultura sustentável que cercam a região. A pecuária, outra grande atividade econômica do município desde o início do século XIX que muitas vezes acaba por desmatar e a influenciar a perda das nascentes também agem de forma diferenciada. No Sítio Aconchego, é possível conhecer raças de vacas leiteiras de menor impacto ambiental, associadas às medidas sustentáveis sem que o negócio deixasse de ser lucrativo.
Ainda, faz parte do projeto o estímulo aos conhecimentos em vegetação e a fauna que circundam o local para que moradores possam exercer as chamadas Restaurações Ecológicas para a ampliação da quantidade e qualidade das águas de Santo Antônio do Pinhal.
Dioclésio – Crédito Louise Demetrio
Na propriedade Sítio Verde, o casal de artistas Dioclésio e Miriam compraram um terreno que antes havia sido espaço de lavoura e área de pecuária, para restaurar de forma gradativa e natural os que são hoje 24 hectares de floresta.  O tecelão afirma que não foram ideologias que os levaram a comprar uma terra e reflorestar, mas sim o simples desejo de morar de uma maneira saudável. “Para muita gente o chamado de bem-estar e felicidade é para nós procurar o nosso lugar no mundo, e encontramos aqui. Espero que cada um possa encontrar os seus motivos, para que em algum momento tire o que puder do bolso e plante uma árvore. É isso que temos e podemos levar em frente.” E a esposa concorda ao dizer que o trabalho deles foi somente para encher os diversos caminhões carregados de lixos que havia na propriedade: “Hoje é um deleite constante ver a natureza fazendo seu próprio trabalho sozinha. Ela é quem fez a parte mais complicada.”
José Roberto Manna, coordenador técnico do projeto Águas da Mantiqueira e responsável pelo capítulo de Educação, nos mostra que as idealizações do grupo são não só ambiciosas, mas também fundamentais para que possamos adquirir conhecimento e responsabilidade por nossas ações dentro dos espaços que convivemos. “Daqui, deste projeto, colhemos informações mais apuradas, exemplos que deram certo e podem ser seguidos… Como um experimento mesmo, temos de aplicar tudo o que aprendemos e poderemos reverter a situação de falta de água.” (#Envolverde)

domingo, 28 de outubro de 2018

Eleições no Brasil e a ameaça à proteção ambiental

Por Lauro Marins, Diretor Executivo do CDP Latin America – 
O próximo presidente precisa se unir à transição de baixo carbono ou abrir mão dos benefícios que isso traz.
Durante décadas, o Brasil teve um papel proeminente na arena internacional quando o assunto era clima.
Sede da conferência Eco 92, o Brasil foi o berço da UNFCCC e da Convenção das Nações Unidas para a Diversidade Biológica. Vinte anos depois, na conferência Rio + 20, o país ajudou a dar vida às discussões da Agenda 2030, abrindo caminho para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.
Lar de cerca de um terço das florestas tropicais remanescentes do mundo, bem como de outros sumidouros naturais de carbono, como o Cerrado, o Brasil é essencial na luta para estabilizar os aumentos da temperatura global.
Até um terço da mitigação anual de carbono necessária para limitar o aumento da temperatura global pode ser alcançada com o controle do desmatamento e da degradação florestal.
Segundo o Instituto de Pesquisas Espaciais via satélite do governo brasileiro, INPE, o País reduziu sua taxa de desmatamento em 83% entre 2004 e 2012. No entanto, nos últimos anos os níveis vêm subindo e apesar de uma queda no ano passado, com a recessão econômica, os níveis atuais estão mais altos do que o mais baixo nível registrado em 2012.
No entanto, proteger os valiosos recursos naturais do Brasil tem sido uma conversa quase ausente nas eleições nacionais deste ano. De fato, nenhum dos candidatos fez qualquer menção específica à adaptação climática, e pouquíssimos estabeleceram uma posição clara sobre a interrupção do desmatamento.
Houve até pedidos para relaxar a regulamentação ambiental para estimular o crescimento econômico, incluindo uma proposta de Bolsonaro de retirar o Brasil do Acordo de Paris. Tal medida anularia as metas climáticas do Brasil, representando um retrocesso maciço para o País que até então se mostrava líder, particularmente na redução do desmatamento na última década.
Um dos principais reguladores de risco é a Lei do Brasil para Proteger a Vegetação Nativa, conhecida como Código Florestal. Este regulamento tem sido alvo de candidatos que querem tornar as regulamentações ambientais mais “flexíveis” e apaziguar o agronegócio do país e outros opositores à legislação ambiental.
Esta não é uma solução adequada para o Brasil.
O mundo já está em uma jornada rumo a uma economia verde e o Brasil tem muito a ganhar com essa transição.
Rico em biodiversidade, o País está bem posicionado para explorar modelos de negócios inovadores que valorizam o capital natural, como aqueles que buscam plásticos verdes à base de plantas da rica biodiversidade de seus biomas. Uma estratégia de crescimento sustentável seria o caminho mais lógico para o País superar a recessão e construir sua competitividade.
Um enfraquecimento da política ambiental pelo governo brasileiro também poderia aumentar o risco financeiro e a incerteza entre o setor privado, ignorando a demanda global de investidores e compradores de produtos com baixo teor de carbono e livre de desmatamento. Isso poderia afetar severamente a economia, dado que o Brasil é um dos maiores exportadores de commodities agrícolas.
De fato, a preocupação do setor financeiro em relação ao desmatamento está crescendo, com cada vez mais investidores estabelecendo políticas de investimento e empréstimos referentes ao combate ao desmatamento. Em 2018, 650 investidores institucionais que movimentam mais de US$ 87 trilhões em ativos financeiros solicitaram às empresas que reportem sobre como estão gerindo os riscos diretos e indiretos apresentados pelo desmatamento por meio da plataforma do CDP (antes conhecido como Carbon Disclosure Project), o qual sou diretor executivo para a América Latina. Em 2015, o maior fundo soberano do mundo, o Fundo de Pensões do Governo Norueguês, retirou 11 empresas do seu portfólio por causa de riscos associados ao desmatamento.
Em um artigo publicado em fevereiro deste ano, Adam Kanzer, Diretor Administrativo de Engajamento Corporativo na Domini Impact Investments LLC, um membro signatário do CDP, destacou o dever fiduciário dos investidores de proteger as florestas e os direitos humanos, e o papel crítico que devem desempenhar para garantir que o capital será alocado de forma responsável a longo prazo.
A mesma tendência é verdadeira das empresas. Em 2017, cerca de 87% das empresas globais viram oportunidades associadas ao abordar o tema de desmatamento, enquanto 73% das empresas informaram ter o compromisso de reduzir ou remover o desmatamento de suas cadeias de fornecimento.
Há um grande e crescente mercado de commodities livre de desmatamento – um mercado que qualquer novo governo deve estar pronto e disposto a abraçar.
Em todo o mundo podemos ver sinais de cidadãos, cidades, estados, empresas e investidores agindo onde seus líderes mundiais não estão.
Já não é politicamente viável votar em projetos prejudiciais ao meio ambiente, aos povos indígenas e aos trabalhadores rurais. Ao ignorar intencionalmente as demandas desses atores não-estatais, o governo brasileiro se veria em desacordo com a economia real e perderia a longo prazo.
Em vez disso, queremos ver o recém-eleito Presidente e o Congresso brasileiro se unirem ao mundo na implementação do Acordo de Paris e das ODS da ONU. Um primeiro passo fundamental para isso é manter e fortalecer as proteções florestais do país.
Em um recente relatório, “Mudanças Climáticas: Riscos e Oportunidades para o Desenvolvimento do Brasil” a Coalizão Brasileira sobre Clima, Florestas e Agricultura estabeleceu uma proposta de 28 pontos para os candidatos às eleições de 2018 para consolidar o país como liderança internacional de uma nova economia, na qual produção agropecuária e conservação ambiental devem andar juntas.
Os resultados das eleições da semana que vem podem ter grandes consequências para o futuro político do maior país da América Latina e para a maior floresta tropical do mundo e outros recursos naturais vitais.
Muitas vezes citado como o país do futuro, esperamos ver o Brasil superar uma mentalidade do passado e continuar a se posicionar entre os líderes do século XXI.
Se não o fizer, irá ameaçar o tão esperado desenvolvimento e capacidade de enfrentar a crise econômica que afeta o país.
A jornada para a nova economia climática já começou, mas o Brasil precisa acompanhar o ritmo da mudança.
Publicado originalmente no blog Beyond Bricks, do Financial Times
(#Envolverde)