sábado, 30 de maio de 2020

ENCONTRANDO RESPOSTAS NO FUNDO DO OCEANO

por Elise Hugus || Jornalista científica do The Woods Hole Oceanographic Institution, de revista Eco21 – 
Em tempos de incerteza, o mar profundo fornece soluções potenciais.
O teste que está sendo usado para diagnosticar o novo Coronavírus – e outras pandemias como AIDS e SARS – foi desenvolvido com a ajuda de uma enzima isolada de um micróbio encontrado em fontes hidrotermais marinhas e em fontes termais de água doce.
Os avanços biomédicos às vezes acontecem nos lugares mais improváveis. No oceano profundo, por exemplo, o fluido carregado de minerais superaquecidos pelo magma jorra das fontes hidrotermais. Sob extrema pressão e acidez, às vezes sem oxigênio, os micróbios não apenas sobrevivem lá, mas também prosperam. Essa incrível adaptação oferece uma visão de como a vida evoluiu há bilhões de anos e como os humanos modernos podem ser capazes de combater infecções e doenças.
“Encontramos microrganismos marinhos que produzem antimicrobianos; basicamente armas químicas que ajudam a combater outros organismos e mecanismos moleculares que ajudam a resistir aos vírus”, diz Virginia (Ginny) Edgcomb, microbiologista da Woods Hole Oceanographic Institution (WHOI) que investiga fungos e bactérias os quais vivem na região, no mar profundo e na biosfera subterrânea profunda. Esses micróbios se alimentam de compostos resistentes como hidrocarbonetos e produzem compostos antimicrobianos. “Quase todos os antibióticos que temos foram produzidos por microrganismos. Quem sabe, talvez encontremos novos antimicrobianos quando começarmos a procurar habitats oceânicos profundos”.
O oceano profundo já nos deu compostos para tratar câncer, inflamação e danos nos nervos. Mas os avanços também vieram das profundezas do oceano na forma de ferramentas de diagnóstico. No caso em questão: o teste usado para diagnosticar o novo Coronavírus – e outras pandemias como AIDS e SARS – foi desenvolvido com a ajuda de uma enzima isolada de um micróbio encontrado em fontes hidrotermais marinhas e em fontes termais de água doce.
O caminho para o desenvolvimento desse teste começou em 1969, quando os cientistas descobriram uma bactéria, Thermus aquaticus, vivendo nas temperaturas extremas de uma fonte termal no Parque Nacional de Yellowstone. Duas décadas depois, o biólogo da WHOI Carl Wirsen e colegas descobriram novas cepas de bactérias em uma abertura hidrotérmica na Itália que podiam suportar extremos ainda maiores (incluindo calor, pressão e falta de oxigênio). Mais micróbios amantes do calor foram encontrados em comunidades de fontes hidrotermais em todo o mundo a profundidades de até 5000 metros abaixo da superfície do mar.
Em meados da década de 1980, os micróbios permitiram um grande avanço no campo emergente da genética. Os cientistas descobriram que suas enzimas permaneceram estáveis, mesmo nas temperaturas necessárias para executar um procedimento revolucionário conhecido como reação em cadeia da polimerase (PCR). Com as enzimas recuperadas dos micróbios, tornou-se possível fazer milhões de cópias de uma única sequência de DNA em apenas algumas horas, melhorando essencialmente as ferramentas dos geneticistas do papel de cópia de carbono para as máquinas Xerox de ponta. Uma técnica usando essas enzimas, denominadas DNA polimerases, bem como enzimas isoladas de vírus, agora possibilita o teste rápido de vírus, incluindo Coronavírus como SARS (gripe aviária) e COVID-19.
Identificar processos microbianos no fundo do oceano é um primeiro passo essencial para discernir aplicações humanas, diz Julie Huber, microbiologista da WHOI. “Muitas pessoas pensam no fundo do mar como um deserto”, diz ela. “A olho nu, parece que não há nada lá. Mas as fontes hidrotermais têm uma notável diversidade de micróbios, incluindo a diversidade genética. Há um enorme potencial lá. O que posso fazer como pesquisadora científica básica é descrevê-los e disponibilizar seu genoma. E as pessoas da ciência aplicada podem pegar esses dados e transformá-los em algo útil”.
Edgcomb diz que o surto de Coronavírus ressalta a importância do financiamento de pesquisas exploratórias básicas, que podem ajudar a levar a uma ferramenta de cura ou diagnóstico no futuro.
“Você precisa ter pessoas que explorem habitats diferentes para continuar alimentando o duto de enzimas (proteínas) relevantes para a medicina”, diz ela. “É uma lição difícil de aprender com esta pandemia, mas espero que as pessoas percebam que quanto mais possamos aprender sobre micróbios, melhor estaremos”.


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Educação popular e resíduo zero em tempos de pandemia – conheça as diretrizes para coleta seletiva na covid19

O que está acontecendo com os catadores de materiais recicláveis nos tempos de pandemia no Brasil? É para tentar responder essa pergunta que o Instituto 5 Elementos vai reunir 4 especialistas na área, que atuam em diferentes regiões do Brasil.



Alex Cardoso é uma das lideranças do Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis – MNCR, mora em Porto Alegre/RS, e vai nos contar os impactos da pandemia causada pelo Corona vírus e como as catadoras e catadores de materiais recicláveis no Brasil vem se mobilizando para dar continuidade nesse serviço essencial.
Alexandra Facciolli Martins é promotora de justiça do Ministério Público do Estado de São Paulo desde 1996, prestando serviços, desde 2012 junto ao GRUPO DE ATUAÇÃO ESPECIAL DE DEFESA DO MEIO AMBIENTE – GAEMA. Atua como membro e conselheira do Projeto Conexão Água, tendo contribuído para a elaboração de um documento, denominado “Diretrizes Técnicas e Jurídicas para a coleta seletiva e triagem de materiais recicláveis durante o período de pandemia”, publicado pelo Conselho Nacional do MP. Nesse evento irá nos contar sobre como se deu esse processo de construção das diretrizes e quais serão os próximos passos, para implantar essas orientações em todas as cooperativas do Brasil, com o apoio do Conselho Nacional do Ministério Público e com as diversas entidades envolvidas.
Lívia Cristine Dutra Ferreira é Bióloga, com especialização em Gestão Ambiental, pesquisadora do ORIS, técnica do INSEA e mora em Belo Horizonte/MG. Trabalha com metodologias participativas e experiências de aprendizado para organizações da economia solidária, em especial catadoras e catadores de materiais recicláveis. Vai nos contar sobre a estratégia Lixo Zero junto a Rede Lixo Zero no bairro de Santa Tereza/BH, e trazer um olhar sobre a coleta seletiva nesse contexto da cidade.
Mônica Pilz Borba, pedagoga especialista em gestão e educação ambiental, é diretora executiva do Instituto 5 Elementos autora da Coleção Consumo Sustentável em Ação – Resíduos Sólidos, desenvolvedora da formação on-line em Educação para a Sustentabilidade e irá trazer um panorama da situação da coleta seletiva, cooperativas e centros de compostagem da cidade de SP na atualidade e mediar o encontro.
Para participar basta acessar o nosso facebook ou youtube dia 5 de junho as 17h. Dia mundial do Meio Ambiente!


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Na Amazônia, região mais biodiversa do planeta está ameaçada por investimentos bilionários em petróleo

por , Mongabay – 
  • Cinco bancos e fundos de investimento internacionais investiram cerca de US$ 6 bilhões em projetos de extração de petróleo no oeste da Amazônia apenas nos últimos três anos.
  • A região, conhecida como Bacias Sagradas da Amazônia, é reconhecida como a de maior biodiversidade do planeta.
  • São 30 milhões de hectares entre o Equador, o Peru e a Colômbia, lar de 500 mil indígenas.
  • Impedir o avanço desses projetos é fundamental para frear a crise climática global e fazer valer as metas do Acordo de Paris.
Um estudo publicado recentemente pela ONG Amazon Watch revela que cinco das principais instituições financeiras do mundo investiram cerca de US$ 6 bilhões em projetos de extração de petróleo no oeste da Amazônia apenas nos últimos três anos, de 2017 a 2019.
Na linha de frente da iniciativa estão alguns dos bancos e fundos de investimento mais poderosos do planeta. Citigroup, JPMorgan Chase, Goldman Sachs, HSBC e BlackRock financiaram empresas envolvidas na exploração do combustível fóssil, como GeoPark, Amerisur, Frontera e Andes Petroleum.
Investimentos (em bilhões de dólares) de instituições financeiras na exploração de petróleo na Amazônia. Fonte: Amazon Watch
Os projetos estão espalhados em 30 milhões de hectares no oeste da Amazônia, que englobam 25% da floresta distribuídos entre a Colômbia, o Equador e o Peru. A área é conhecida como Bacias Sagradas da Amazônia: é ali que nasce o Rio Amazonas, o maior em volume de água do planeta. Na região, considerada a mais biodiversa da Amazônia e do mundo, vivem cerca de 500 mil indígenas — muitos projetos petrolíferos estão dentro de territórios de diversos povos.
As reservas estimadas são de 5 bilhões de barris. Impedir que esses projetos avancem significaria evitar a emissão de 6 bilhões de toneladas métricas de dióxido de carbono — fundamental para alcançar a meta de limitar o aquecimento do planeta em 1,5 ºC. Para atingir essa meta, de acordo com o último levantamento da ONU, o ritmo da emissão de gases do efeito estufa precisa ser cinco vezes menor do que nos níveis atuais.
Essa é a receita para uma destruição em larga escala que contribui decisivamente para a crise climática global. Para Moira Birss, diretora de Clima & Finanças da Amazon Watch, só a pressão da sociedade civil pode fazer com que essas corporações parem de explorar recursos naturais sem garantir a conservação ambiental e o direito dos povos indígenas.
A questão é urgente, “especialmente em um momento em que governantes na Amazônia e nos Estados Unidos — onde esses bancos e fundos estão baseados — estão eliminando a proteção ao meio ambiente e aos indígenas”, diz Moira.
As áreas de exploração petrolífera se sobrepõem a territórios indígenas na região onde nascem os rios formadores da Bacia Amazônica. Fonte: Amazon Watch

Grandes investimentos pressionam meio ambiente

No final de 2019, Donald Trump confirmou para as Nações Unidas a saída dos Estados Unidos do Acordo de Paris. Embora muitos desses financiadores tenham expressado publicamente compromissos com a responsabilidade corporativa socioambiental e com iniciativas climáticas como o Acordo de Paris, eles continuam financiando a destruição da Amazônia e a violação dos direitos territoriais indígenas, lembra o relatório da Amazon Watch.
Enfrentar o poder econômico e político dessas instituições financeiras não é tarefa simples. A BlackRock, por exemplo, é considerada o maior fundo global, com mais de US$ 7,4 trilhões sob sua gestão — é o maior investidor no mundo em commodities como petróleo, gás e carvão. O banco JPMorgan Chase investiu, desde 2016, mais de US$ 196 bilhões em empresas que exploram combustíveis fósseis.
Por isso, a Amazon Watch, em conjunto com outras instituições, lançou a campanha Stop The Money Pipeline. A ideia é buscar o engajamento da sociedade civil para pressionar esses bancos a parar de investir nesses projetos.
Outra iniciativa é o pedido para que, durante a pandemia de covid-19, seja implantada uma moratória na Amazônia para suspender todos os projetos de prospecção mineral, petróleo, madeira e agronegócio, assim como o proselitismo religioso que ronda os povos indígenas.
O Rio Javari, na fronteira do Brasil com o Peru, é um importante afluente do Solimões, artéria central da Bacia Amazônica. Foto: Rhett A. Butler/Mongabay
A região já sofreu severas consequências com a contaminação ambiental de larga escala causada pela exploração petrolífera. Entre 1964 e 1990, a Texaco — comprada pela Chevron em 2001 — despejou ilegalmente mais de 59 bilhões de litros de resíduos tóxicos e 63 milhões de litros de petróleo bruto na Amazônia equatoriana, atingindo diretamente territórios indígenas.
Mais de 480 mil hectares de floresta foram poluídos e houve pelo menos 30 mil pessoas atingidas na ocasião. Os resíduos chegaram ao Brasil e ao Peru. Outra empresa, a Occidental Petroleum (OXY), que atuou no Peru entre 1975 e 2000, lançou bilhões de litros de resíduos tóxicos na floresta e em rios da região.
“As empresas de petróleo que operam na Amazônia tendem a usar táticas de dividir e conquistar para avançar em seus planos de perfuração, levando a mais desigualdade na região”, afirma Moira Birss.
A saúde das comunidades indígenas também é duramente afetada. Um estudo epidemiológico no Equador descobriu que, para pessoas que vivem em áreas produtoras de petróleo, o risco para diversos tipos de câncer era dezenas de vezes maior do que a média da população. Elementos altamente tóxicos são encontrados nas águas que estão perto de operações de petróleo na Amazônia, como cádmio, mercúrio, chumbo, cloreto de potássio, níquel, cobre e outros.
Na bacia do Rio Corrientes, no nordeste do Peru, um estudo do Ministério da Saúde constatou que 90% dos homens, mulheres e crianças indígenas do povo Achuar tinham níveis de metais pesados em sua corrente sanguínea muito acima do considerado seguro.
“Precisamos agir com rapidez, porque todos sabemos que a Amazônia está se aproximando rapidamente do ponto de inflexão, com mais incêndios e secas a cada ano. A floresta e as populações tradicionais, especialmente os povos indígenas, estão em sério perigo”, lembra Moira Birss.
Laura Mendo, de uma comunidade do povo Cofán, no Equador, lembra-se de uma floresta saudável. Agora, rios estão contaminados, cultivos agrícolas não vingam e casos de câncer aumentaram. Foto: Caroline Bennett/Rainforest Action Network

Pandemia reforça o risco da dependência do petróleo
A pandemia do novo coronavírus atingiu diretamente o setor petrolífero. O barril de petróleo cru chegou ter custo zero no fim de abril, com a oferta superando em muito a demanda. No médio prazo, isso poderia frear os projetos previstos para a Amazônia e impedir que instituições financeiras continuem a despejar bilhões de dólares na região. Mas a diretora da Amazon Watch é cética.
Para Moira, a pandemia torna ainda mais clara a necessidade de governos e empresas respeitarem os direitos indígenas, já que a covid-19 mostra um efeito devastador em seus territórios, especialmente nos de povos isolados. “A pandemia exacerbou a crise já enfrentada pela indústria de petróleo e gás, tanto por causa das mudanças climáticas quanto por causa da má administração e do endividamento excessivo. Também deixa claro o quanto as comunidades locais são esquecidas nas promessas de ‘desenvolvimento’ feitas pelas empresas”, critica.
Pesquisadores monitoram o nível de contaminação da água na floresta peruana. Foto: Digital Democracy /CC BY-NC-SA.
No caso do Equador, a crise revelou a vulnerabilidade da economia do país e a dependência de commodities voltadas para exportação — sobretudo o petróleo. “Desde a década de 1960 e mesmo quando o barril estava cotado em US$ 120, o petróleo falhou em ser a panaceia econômica que o governo continua vendendo. Em vez disso, aprisionou o país em um ciclo de dívida e dependência”, avalia Moira.
Agora que ficou claro para todos que o petróleo e o gás não são apenas ruins para o clima e para os povos indígenas, mas também para o bolso dos investidores, acredita a diretora da Amazon Watch, “é o momento de investir em resiliência climática, alternativas lideradas por indígenas e em energia renovável”.
Centenas de espécies de anfíbios já foram descritas na Amazônia. Mas o estudo da enorme biodiversidade da maior floresta tropical do planeta apenas começou. Foto: Rhett. A. Butler/Mongabay.
Imagem de destaque: galo-da-serra-andino (Rupicola peruvianus). Foto: Rhett A. Butler/Mongabay


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Ministério do Meio Ambiente extingue três bases do Tamar no Nordeste

Por Adriana Pimentel, Colaboradora da Agência Eco Nordeste – 
Salvador – BA.  O Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), que é subordinado ao Ministério do Meio Ambiente (MMA), extinguiu três bases avançadas do Centro Tamar, em Camaçari (BA), Parnamirim (RN) e Pirambu (SE). Ao mesmo tempo, o ICMBio formalizou a criação de uma nova base, em Salvador (BA).
É importante destacar que todos esses locais possuem bases da Fundação Tamar / Projeto Tamar, que continuará fazendo seu trabalho normalmente, embora deixem de contar com o apoio da estrutura governamental, que já vinha sendo sucatada há alguns anos.
César Coelho, engenheiro de pesca, coordenador do Tamar em Sergipe e Alagoas e diretor de Sustentabilidade da Fundação Tamar, esclarece que o Tamar tem duas partes, uma governamental e outra não governamental e que a Fundação Tamar é uma entidade de direito privado, sem fins lucrativos, mantida principalmente pela sociedade, sem nenhum recurso governamental.
Ressalta, ainda, que a maioria das ações do Plano de Ação Nacional para Conservação das Tartarugas Marinhas (PAN Tartarugas Marinhas) é executada pela Fundação Tamar: “É importante destacar que a Fundação está presente em todas as áreas prioritárias das tartarugas no litoral brasileiro, compreendendo nove estados em aproximadamente 1.100 Km de praias”.
Ele informa, também, que algumas das estruturas listadas estavam sem funcionar e sem servidores há mais de três anos e que elas já não ofereciam suporte à Fundação Tamar desde 2012, num histórico de dificuldade que já se arrastava há anos. Outro detalhe levantado por César é que a maioria dos escritórios governamentais do Tamar não fica na praia, mas na cidade.
“É importante que o governo esteja mais presente nas áreas prioritárias das tartarugas marinhas com pessoal para atuar nas ações que poderiam apoiar a conservação”, pondera. Os maiores desafios à conservação das tartarugas listados por ele são iluminação, ocupação, resíduos sólidos, trânsito de veículos e pesca.
Exemplificando, César destaca que dois servidores em Salvador, como o Centro Tamar, destacou, são responsáveis por mais de 250 Km. “A Fundação não tem poder de fiscalização. O que pode fazer é um relatório”, afirma. Segundo ele, a Fundação está em quatro locais da Bahia: Arambepe, Praia do Forte, Costa do Sauípe e Mangue Seco, num trabalho ininterrupto que vai de Itapuã, em Salvador, até a Foz do Rio São Francisco, em Sergipe, agora paralisado frente à pandemia.
O fechamento, por meio da Portaria Nº 554, publicada no Diário Oficial da União (DOU) dessa quinta-feira (28), ocorre menos de uma semana após a divulgação do vídeo da reunião ministerial do dia 22 de abril, quando o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, afirmou que o governo deveria aproveitar a atenção da imprensa com a pandemia de Covid-19 para “passar a boiada”, ou seja, flexibilizar a legislação ambiental no País.

Posição oficial

Release da Comunicação Tamar ICMBio, enviado, à Agência Eco Nordeste, destaca que a Portaria Nº 554 dispõe sobre a localização dos Centros Nacionais de Pesquisa e Conservação (CNPC) / ICMBio e que um dos exemplos de reestruturação é a extinção das três bases avançadas do Centro Tamar-ICMBio.
Em Parnamirim (RN), a base estava instalada dentro da área militar da Barreira do Inferno, protegida por restrições de acesso. O release explica que a equipe foi transferida para fortalecer os trabalhos em Fernando de Noronha (PE).
Em Pirambu (SE), a Base instalada dentro da Reserva Biológica de Santa Izabel teve que ser desativada, segundo o release, em virtude de o imóvel da Unidade ter sido condenado, com futura reconstrução, para atender Sergipe. Importante Estado para a Tartaruga-oliva (Lepidochely olivacea), principalmente, foi mantida a Base de Aracaju que, localizada no centro do Estado, segundo o ICMBio, terá mais agilidade para apoiar os trabalhos em toda orla sergipana.
O Estado da Bahia, considerado o mais importante em termos de conservação de desovas de quatro espécies de tartarugas marinhas, ganhou uma base em Salvador, segundo a comunicação oficial. De Arembepe, em Camaçari (BA), a Base foi transferida para Salvador, junto a outra estrutura do ICMBio, para a racionalização de custos, agregando mais dois analistas ambientais à equipe do Tamar ICMBio, em uma localização mais estratégica para atuação dos técnicos nas ações de acompanhamento de toda a orla baiana, destaca.
Além disso, ressalta que foi incorporada uma nova Base em Caravelas (BA), aproveitando as estruturas existentes da base do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação da Biodiversidade Marinha do Nordeste (Cepene), e fortalecendo o trabalho no sul da Bahia, uma importante área para conservação da biodiversidade marinha.
“Em termos de nos auxiliar nas análises de licenciamento, por exemplo, nossa demanda por uma base avançada localizada mais estrategicamente como em Salvador (BA) era muito grande. Acreditamos que o corpo técnico poderá atuar de forma mais estratégica nas vistorias, e demais ações de campo, no que se refere à orla baiana para que se concilie um desenvolvimento da orla que leve em conta essa importante parte do litoral brasileiro para as tartarugas marinhas”, frisa o coordenador do Tamar ICMBio, Joca Thomé.
Com essas mudanças, a sede do Centro Tamar ICMBio, permanece em Vitória (ES), tendo sobre a sua governança sete Bases Avançadas: Fernando de Noronha (PE); Aracaju (SE); duas no Espírito Santo, Regência Linhares e Guriri São Mateus; mais duas na Bahia, em Salvador e Caravelas e em Florianópolis (SC).
Imagem de destaque: A missão do Projeto Tamar é promover a recuperação das tartarugas marinhas, desenvolvendo ações de pesquisa, conservação e inclusão social | Foto: Maristela Crispim


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Com poucas chuvas e proximidade do inverno, Brasil enfrenta risco de nova crise hídrica

Por Deutsche Welle – 
Cidades do Paraná e do Rio Grande do Sul já passam por estiagem. Em São Paulo, nível de chuvas é inferior ao esperado e levanta temor de repetição da crise de 2014.
No Rio Grande do Sul, 386 dos 497 municípios já decretaram situação de emergência por conta da seca — balanço consolidado no último dia 15. Em Santa Catarina, a situação é similar em pelo menos 65 cidades. No Paraná, depois de 10 meses de estiagem, a emergência hídrica foi decretada pelo governo estadual — a medida autoriza, por exemplo, rodízio no fornecimento de água.
Ex-presidente da Agência Nacional de Águas (ANA), Vicente Andreu comenta à DW Brasil que o cenário de estiagem na região sul do país afeta principalmente dois setores que dependem da água nesses estados: a agricultura e as usinas hidrelétricas — sobretudo no Paraná. “São regiões que têm seca com alguma frequência. E com [o atual contexto de] mudanças climáticas, esses fenômenos têm sido extremos”, pontua.
Ele avalia que a situação é mais preocupante no Paraná do que no extremo sul do País. “Porque o sul do Brasil tem uma característica de chuvas constantes ao longo do ano. Já o Paraná é, em aspectos climáticos, mais parecido com o sudeste”, afirma. Ou seja: tem invernos secos.
Em 9 de março, a Agência Nacional de Águas criou uma sala de crise para acompanhar a crise hídrica na região sul. De acordo com a assessoria da instituição, o grupo “reúne os principais atores ligados ao evento de estiagem em curso”, incluindo órgãos gestores, usuários, prefeituras, meio ambiente, setor elétrico e órgãos de monitoramento e previsão meteorológica.
O objetivo do comitê “é uniformizar o conhecimento sobre a situação da seca, identificar problemas existentes ou potenciais, promover a articulação entre os atores em busca de soluções para esses problemas e acompanhar sua implementação.”
Em nota, a Secretaria do Meio Ambiente e Infraestrutura do Rio Grande do Sul afirmou que vem intensificando “o monitoramento meteorológico e climatológico” e realizando ações como “suspensão de outorgas de captação de água, alterações de licenças de lançamentos e efluentes e de irrigação” e intensificando “ações de fiscalização” para diminuir o impacto da seca no Estado. Procurado pela reportagem, o governo do Paraná não se posicionou a respeito da situação.
A região sudeste também dá sinais de que o sofrimento é iminente. Principal reservatório que abastece a capital paulista, o Cantareira está em nível semelhante ao que precipitou a histórica crise hídrica de 2014 e 2015: 59,4% de sua capacidade. O índice é considerado bom. Contudo, conforme lembram especialistas ouvidos pela DW Brasil, o inverno é justamente o período de seca na região sudeste. E o nível de chuvas deste ano já está inferior ao esperado de acordo com a média histórica.
No mês de março, por exemplo, a pluviometria prevista para o sistema é de 178,8 mm. Este ano, choveu apenas 88,6. Em abril, a série histórica indica um normal de 86,6 mm. Mas foram apenas 2,2 mm de chuva. Para maio, quando a estimativa é de 77,2 mm, até o momento foram somente 11,5.
Autor do livro Faça-se a Água, o pesquisador norte-americano Seth M. Siegel avalia que, diante do atual contexto, “o risco de escassez hídrica [no Brasil] é real”. “Como não se sabe o quão ruim uma seca pode se tornar, todo governo responsável deve assumir que uma escassez de água ocorrerá e, portanto, se preparar para ela”, comenta. “Infelizmente, assim que uma crise passa, com um ou dois anos de chuva, os governos tendem a ignorar a questão, direcionando foco e financiamento em outros setores.”
Fantasma da crise de 2014
Em 23 maio de 2013, o nível do Cantareira era similar ao atual, 59,6% de sua capacidade. Vinha em queda, acentuada pela inverno. O período de verão não foi suficiente para frear a derrocada do reservatório e, em maio de 2014, o sinal vermelho estava ligado: o sistema operava com 6% de sua capacidade. Então foram dois anos de torneiras contidas e 17 meses utilizando água da reserva técnica do Cantareira, apelidada de “volume morto” — significava que o índice operava no negativo.
Para o geógrafo Luiz de Campos Júnior, do projeto Rios e Ruas, o risco de uma nova crise hídrica é resultado da falta de ajuste nas políticas voltada para a produção de água. “Os sistemas de abastecimento, em geral, só estão preocupados com a água saindo da represa, sendo tratada e distribuída”, afirma. “É preciso olhar para a produção de água na bacia hidrográfica, aquela produção que vai manter o reservatório cheio e com boa vazão. Isso significa conservar os lençóis freáticos, diminuir a erosão no entorno dos rios e dos reservatórios. Deveríamos conservar todo o ambiente produtor de água e não pensar apenas na produção como pensam as empresas [de abastecimento].”
Responsável pelo abastecimento em São Paulo, a Sabesp enfatizou que a situação atual dos reservatórios “é satisfatória”. “Houve, no entanto, registro de pouca chuva nos mananciais nos últimos 60 dias e, por isso, a companhia solicita à população que mantenha o uso consciente de água, evitando desperdício”, informou.
A empresa ainda frisou que vem investindo na “redução de perdas de água”, efetuando “troca de tubulações, equipamentos e hidrômetros”. Balanço do chamado Programa de Redução de Perdas, da companhia, indica um investimento de R$ 5,3 bilhões nos últimos dez anos — segundo a Sabesp, implicando em uma economia de 138 milhões de metros cúbicos de água.
Especialistas e ativistas cobram um olhar para a malha fluvial próxima das cidades. No caso de São Paulo, calcula-se que haja mais de 300 rios no município, boa parte deles canalizados, retificados e sem cuidados de conservação.
“As companhias vão pegar água longe e nada fazem para recuperar os rios da cidade. Temos muita água aqui. Precisamos cuidar dos recursos hídricos em nosso quintal”, cobra o ativista ambiental Adriano Sampaio, do projeto Existe Água em SP.
Siegel tem opinião semelhante. “O Brasil é um país de potencial ilimitado. Tem uma população inteligente e empreendedora em um país bonito, repleto de enormes recursos. Uma das coisas que podem impedir o Brasil de alcançar seu potencial é uma falha na proteção de seus recursos hídricos”, afirma.
Mas ele recorda que há pesquisas indicando que o aumento do desmatamento na Amazônia tem influenciado os padrões de chuva, prolongando e intensificando as estiagens.
Economia da água
Pesquisador do Centro de Estudos em Sustentabilidade da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (FGV), Gustavo Velloso Breviglieri publicou um estudo no último dia 15 no periódico RAUSP Management Journal no qual apontou um mecanismo econômico como solução para a questão hídrica brasileira.
A ideia seria aprimorar os chamados “mercados de água”, pelo qual grandes usuários de uma mesma bacia negociam seu direito de uso e exploração de determinado volume dos reservatórios, em caso de necessidade.
“Caso um usuário consiga reduzir seu consumo de água para volumes inferiores aos que possui direito, este usuário poderia transferir, temporária ou permanentemente, esse ‘excedente’ para outro usuário, que, por sua vez, tenha necessidade de aumentar seu consumo”, explica o pesquisador.
Breviglieri aponta que “mais do que auxiliar na contenção de uma crise hídrica”, tal mecanismo seria útil para que “uma situação de escassez seja menos custosa para a sociedade como um todo”. Pelo formato, o mercado “contribui para que o montante disponível de água seja voluntariamente realocado para aqueles que possuem maior necessidade e maior dificuldade em reduzir o consumo”. E os que conseguem economizar são recompensados financeiramente.
Se adotado de forma constante, independentemente de cenário de crise hídrica, o pesquisador acredita que o mecanismo aumentaria a eficiência do sistema e, consequentemente, implicaria numa economia global de água.
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A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas. 


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Desmatamento da Mata Atlântica cresce quase 30 %

por SOS Mata Atlântica – 
A boa notícia é que Alagoas e Rio Grande do Norte conseguiram zerar desflorestamento; outros sete estados estão próximos de zero
Após dois períodos consecutivos de queda, aumentou o desmatamento na Mata Atlântica. Foram desflorestados entre 2018-2019 um total de 14.502 hectares – um crescimento de 27,2% comparado com o período anterior (2017-2018), que foi de 11.399 hectares. As informações são do Atlas da Mata Atlântica, iniciativa da Fundação SOS Mata Atlântica e do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) realizada desde 1989. O estudo teve execução técnica da Arcplan e patrocínio de Bradesco Cartões.
Mais uma vez o estado campeão de desmatamento foi Minas Gerais, que teve uma perda de quase 5.000 hectares de floresta nativa. A Bahia ficou em segundo lugar, com 3.532 hectares, seguido pelo Paraná, com 2.767 hectares. Os três líderes do ranking tiveram aumento de desflorestamento de 47%, 78% e 35% respectivamente, ao comparar com o período anterior. Já o quarto e quinto lugares da lista, Piauí e Santa Catarina, tiveram redução do desflorestamento em relação ao período 2017-1018 de 26% e 22%. Piauí somou 1.558 hectares desmatados e Santa Catarina 710 hectares.
Desflorestamentos da Mata Atlântica identificados no período 2018-2019 em comparação ao período anterior (em hectare):
UFÁrea UFUF na Lei MA%UF na LMAMata 2019% matadec. mata 18-19variação do anteriordec. mata 17-18
AL2.777.7241.524.61855% 142.8769,4%0-100% 8
BA56.473.40417.988.59532% 2.002.29711,1% 3.53278% 1.985
CE14.892.047866.1206% 64.0447,4% 25259% 7
ES4.609.5034.609.503100% 482.96610,5% 13-31% 19
GO34.011.0871.190.1843% 41.5583,5% 5-98% 289
MG58.651.97927.622.62347% 2.826.44110,2% 4.97247% 3.379
MS35.714.4736.386.44118% 711.69211,1% 381173% 140
PB5.646.963599.48711% 54.6909,1% 85157% 33
PE9.815.0221.690.56317% 195.65911,6% 79-12% 90
PI25.157.7752.661.84111% 900.39433,8% 1.558-26% 2.100
PR19.930.76819.637.89599% 2.318.03411,8% 2.76735% 2.049
RJ4.377.7834.377.783100% 820.06218,7% 44148% 18
RN5.281.123350.9947% 12.1723,5%0-100% 13
RS26.876.64113.857.12752% 1.091.4857,9% 146-15% 171
SC9.573.6189.573.618100% 2.186.31622,8% 710-22% 905
SE2.191.5081.019.75347% 69.7106,8% 13942% 98
SP24.822.62417.072.75569% 2.344.27613,7% 43-55% 96
340.804.043131.029.89838%16.264.67412,4% 14.50227,2% 11.399

“A ampliação do desmatamento da Mata Atlântica observada mostra que a destruição do meio ambiente não tem ocorrido apenas na Amazônia. E o fato é preocupante, já que restam apenas 12,4% da Mata Atlântica – o bioma é o que mais perdeu floresta no país até hoje”, afirma Mario Mantovani, diretor de Políticas Públicas da SOS Mata Atlântica.
“Ficamos decepcionados, pois os desmatamentos seguem nas mesmas regiões. Observamos vários desmatamentos em áreas interioranas e nos limites da Mata Atlântica com o Cerrado em Minas Gerais, na Bahia e no Piauí, além de regiões com araucárias no Paraná. Como são áreas já mapeadas anteriormente, os desmatamentos poderiam ter sido evitados com maior ação do poder público. É lamentável que sigam destruindo nossas florestas naturais, ano após ano”, afirma Marcia Hirota, diretora executiva da SOS Mata Atlântica e coordenadora geral do Atlas.
Os estados com desmatamento zero são Alagoas, Ceará, Espírito Santo, Goiás, Paraíba, Pernambuco, Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte e São Paulo. Marcia ressalta outra boa notícia: “Pela primeira vez dois estados conseguiram zerar os desmatamentos acima de 3 hectares: Alagoas e Rio Grande do Norte. Entre 2017-2018, Alagoas havia registrado 8 hectares de desmatamento, enquanto o Rio Grande do Norte teve 13 hectares”, afirma. O Atlas mede desflorestamentos maiores que 3 hectares. “Em muitos estados que chegaram ao nível do desmatamento zero pode ocorrer o chamado efeito formiga, os desmatamentos pequenos que continuam acontecendo em várias regiões e o satélite não enxerga. É a floresta nativa sendo derrubada aos poucos, principalmente pelo avanço de moradias e expansão urbana”, diz ela.
Desflorestamentos nos estados da Mata Atlântica identificados no período 2018-2019 em comparação aos períodos anteriores (em hectare):
Desmatamento ObservadoTotal Desmatado (ha)Intervalo (anos)Taxa anual (ha)
Período de 2018 a 201914.502114.502
Período de 2017 a 201811.399111.399
Período de 2016 a 201712.562112.562
Período de 2015 a 201629.075129.075
Período de 2014 a 201518.433118.433
Período de 2013 a 201418.267118.267
Período de 2012 a 201323.948123.948
Período de 2011 a 201221.977121.977
Período de 2010 a 201114.090114.090
Período de 2008 a 201030.366215.183
Período de 2005 a 2008102.938334.313
Período de 2000 a 2005174.828534.966
Período de 1995 a 2000445.952589.190
Período de 1990 a 1995500.3175100.063
Período de 1985 a 1990536.4805107.296

Histórico de desmatamento desde o início do monitoramento do Atlas:
Crédito: Fundação SOS Mata Atlântica
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