segunda-feira, 30 de março de 2020

Coronavírus: risco da disseminação é maior com a circulação de assintomáticos


Por Patrícia da Veiga, UFRJ
No início da disseminação do novo coronavírus na cidade de Wuhan, na China, 86% dos infectados não apresentaram sintomas ou reagiram de forma branda e, por isso, não foram identificados. Ao permanecerem em circulação, foram fonte para 79% das pessoas comprovadamente afetadas pela COVID-19 – ou seja, que tiveram sintomas, passaram pelo sistema de saúde e foram submetidas aos primeiros testes. Nessa relação, a proporção foi de 801 casos registrados para 13.118 não documentados.
Esse é o resultado de um estudo publicado na semana passada na revista Science, assinado por pesquisadores vinculados ao Imperial College London e às universidades de Columbia, da Califórnia, de Hong Kong e Tsinghua. Eles usaram um modelo matemático para inferir características epidemiológicas associadas ao SARS-CoV2 e concluíram que, a cada 100 infectados, apenas 14 estavam controlados. O restante seguiu sua vida normalmente e, mesmo sem conhecimento da situação, contribuiu para que o novo coronavírus alcançasse, em menos de um mês, outras 375 cidades chinesas. “Em todo o país, o número total de infecções entre 10/1 e 23/1 foi de 16.829”, aponta o texto.
Conforme relatam no artigo, esses números são anteriores a 23/1, quando o governo daquele país adotou restrição para viagens e outras medidas de isolamento. Ao avaliarem o período posterior, de 24/1 a 8/2, quando a quarentena já era uma realidade, os pesquisadores observaram queda de 35% na velocidade das infecções.
“Isso significa que, quanto maior o número de pessoas que não sabem que estão infectadas continuarem tendo contato social e se movimentando pelos centros urbanos, muito maior será o número de casos de COVID-19”, comentou, a pedido de nossa reportagem, Luciana Costa, professora do Instituto de Microbiologia Paulo de Góes (IMPG) da UFRJ e integrante do Grupo de Trabalho Multidisciplinar para Enfrentamento da COVID-19. Ela reforçou o que, nas ciências, é consenso: “Por essa razão, as medidas de isolamento social, implementadas primeiro na China e posteriormente nos outros países, é que irão conter a explosão no número de casos de infecção”.
Potencial pandêmico
Pesquisa realizada pela Universidade de Oxford e divulgada, nesta semana, pelo jornal Financial Times, revela que metade da população do Reino Unido já estaria infectada pelo novo coronavírus e que, a cada mil pessoas, uma teria manifestado os sintomas. O estudo compara os registros do Reino Unido e da Itália e aventa a possibilidade de a COVID-19 ter se espalhado nesses territórios cerca de um mês antes dos primeiros casos confirmados.
Foto: Artur Moês (Coordcom/UFRJ)
Para os oito pesquisadores que assinam o estudo, essa informação reforça, primeiro, o potencial pandêmico da doença; segundo, que mais pesquisas são necessárias para que se determinem quais são os estágios da COVID-19 nas populações do mundo. “Nossas simulações estão de acordo com outros estudos de que a atual onda epidêmica no Reino Unido e na Itália, na ausência de intervenções, deve ter uma duração aproximada de 2 a 3 meses, com o número de mortes atrasando-se no tempo em relação às infecções gerais”, escreve a equipe.
Testes
Os dois trabalhos aqui citados têm conclusão semelhante e apontam para a urgência de se ampliar a realização de testes para contemplar, também, os infectados com sintomas leves ou que não apresentam sintomas. No Brasil, os exames são feitos somente em pacientes graves ou em profissionais de saúde. “O aumento da testagem – identificação do caso com teste laboratorial comprovadamente positivo – ainda é um desafio, dada a disponibilidade de pessoal e material para sua realização”, avaliou Luciana Costa.
É por isso que, mais uma vez, é preciso ser redundante: o isolamento social é a principal decisão que podemos tomar atualmente. “O que por si só já diminuirá o contato social daqueles assintomáticos ou com sintomas leves, diminuindo, assim, as transmissões”, explicou a pesquisadora da UFRJ.
in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 30/03/2020
Coronavírus: risco da disseminação é maior com a circulação de assintomáticos, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 30/03/2020, https://www.ecodebate.com.br/2020/03/30/coronavirus-risco-da-disseminacao-e-maior-com-a-circulacao-de-assintomaticos/.

Como se dará a evolução de Covid-19 na população que vive em condições precárias


Paraisópolis
Como se dará a evolução de Covid-19 na população que vive em condições precárias? Entrevista especial com Guilherme Werneck
Na avaliação do vice-presidente da Associação Brasileira de Saúde Coletiva – Abrasco, é urgente adotar medidas que minimizem o impacto do coronavírus nas populações mais pobres do país
Por João Vitor Santos e Patricia Fachin, IHU
A questão mais preocupante em relação à expansão do coronavírus no Brasil, e para a qual ainda se tem poucos dados, é “saber como se dará a evolução de Covid-19 numa população que vive em condições precárias e que terá dificuldade de executar de forma apropriada as recomendações de isolamento social e de higiene das mãos e objetos”, diz o médico e vice-presidente da Abrasco à IHU On-Line.
Na entrevista a seguir, concedida por WhatsApp, Guilherme Werneck avalia que, apesar de necessárias, as medidas adotadas em âmbito federal e estadual para reduzir a disseminação do coronavírus acabam sobrecarregando as populações mais empobrecidas do país. Somente no Rio de Janeiro, lembra, existem mais de 700 favelas, onde vivem 22% da população carioca. “Como conseguir que as medidas de isolamento social, de afastamento entre pessoas, lavagem periódica das mãos e a limpeza doméstica consigam ser feitas em condições sanitárias adequadas, quando as pessoas vivem em lugares pequenos, pouco arejados, aglomeradas em pequenos cômodos, onde não existe saneamento básico e onde o acesso à água é reduzido?”, questiona. O afastamento dessa população do trabalho, pondera, também gera consequências. “Como vão obter os recursos financeiros para poderem se alimentar, se estiverem afastados do trabalho durante a epidemia? É preciso lembrar que boa parte dessa população vive e trabalha em condição de total informalidade, ou seja, o afastamento do trabalho implica na não remuneração”.
Entre as alternativas possíveis para minimizar os impactos da epidemia nas populações que mais precisam, Werneck sugere, por exemplo, “que se faça chegar água a essas comunidades para que as pessoas possam lavar as mãos com mais frequência. Isso pode ser feito com a entrega de tonéis de água que sejam utilizados com torneiras, como já ocorre em países africanos. Além disso, é muito importante que se façam atividades e iniciativas para doação e chegada de produtos de primeira necessidade até essas populações, sejam produtos de limpeza, sejam produtos alimentícios, para que elas possam superar as necessidades que vão encontrar enquanto estiverem afastadas do trabalho”.
Nesta entrevista, ele também reflete sobre o financiamento público para as áreas de saúde e de ciência e tecnologia e sobre a peculiaridade da área de saúde coletiva no enfrentamento da crise. “É justamente nesses momentos de crise, como o apresentado pela epidemia de Covid-19, que podemos perceber a importância de um sistema de ciência e tecnologia forte para um país”, conclui.
Guilherme Werneck é graduado em Medicina, mestre em Saúde Coletiva pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ e doutor em Saúde Pública e Epidemiologia pela Harvard School of Public Health. É professor do Instituto de Medicina Social da UERJ, do Instituto de Estudos em Saúde Coletiva da Universidade Federal do Rio de Janeiro – IESC/UFRJ e vice-presidente da Associação Brasileira de Saúde Coletiva – Abrasco.

Confira a entrevista.


IHU On-Line – Atualmente, quais são os desafios do Brasil diante da Covid-19?
Guilherme Werneck – A Covid-19 tem demonstrado duas feições claras: apresenta uma alta capacidade de disseminação e uma capacidade mais baixa de causar mortes quando comparada com outras infecções por coronavírus que provocaram epidemias recentes (SARS-CoV e MERS-CoV). Essa capacidade de provocar mortes, também chamada de letalidade (proporção de infectados que eventualmente morrem), está em torno de 2% para a Covid-19, isto é, pode-se esperar que mais ou menos duas pessoas morram a cada 100 casos identificados da doença. O grande problema da Covid-19 é que o número de casos tem crescido muito rapidamente no mundo. Em cerca de três meses desde o início da epidemia na China, no final de 2019, já ocorreram mais de 400 mil casos no mundo e 18 mil mortes, e espera-se que ainda muitos casos e óbitos venham a ocorrer nos próximos meses.
Evitar as mortes por Covid-19 é uma das metas mais importantes no momento. Para isso, duas medidas precisam ser implementadas:
(1) reforço da noção de “etiqueta respiratória” (proteger a boca ao tossir) e da higiene das mãos e de objetos em associação com a redução do contato social para que menos casos ocorram; e
(2) preparação dos serviços de saúde para prover a atenção necessária aos casos mais graves que ocorrem prioritariamente com pessoas idosas e que já têm outras doenças (câncer, diabetes, doenças do coração, asma, entre outras).
Um grande desafio que nos está apresentado é justamente buscar meios de evitar que os serviços de saúde sejam sobrecarregados com um grande volume de casos que necessitem de hospitalização ou atendimento em unidades de terapia intensiva. Nesse sentido, a redução do contato social e o isolamento de casos suspeitos e confirmados de Covid-19 poderão reduzir a velocidade da epidemia ou “achatar a curva epidêmica”, evitando, dessa forma, que um número muito grande de casos que necessitem de assistência médica apareçam simultaneamente, diminuindo assim a sobrecarga dos serviços de saúde.
IHU On-Line – Como se imagina que o vírus deve se comportar num país como o Brasil?
Guilherme Werneck – Sabe-se pouco sobre as características de transmissão da Covid-19 num contexto como o brasileiro, em que as temperaturas são mais altas e existe grande desigualdade social, com populações vivendo em condições precárias de habitação e saneamento, sem acesso constante à água e em situação de aglomeração. Estudos preliminares sugerem que o coronavírus tenderia a se espalhar mais lentamente em condições de temperatura e umidade mais elevadas. Se isso for verdade, seria um alento, pois a epidemia no Brasil poderia ter um curso menos abrupto. Porém, os dados até agora não indicam nessa direção e é preciso lembrar que entraremos no outono, estação em que tradicionalmente há um aumento da transmissão de doenças respiratórias.
A questão mais preocupante, e para a qual temos poucos dados, é saber como se dará a evolução de Covid-19 numa população que vive em condições precárias e que terá dificuldade de executar de forma apropriada as recomendações de isolamento social e de higiene das mãos e objetos. Até agora, a epidemia ainda se caracteriza por estar mais concentrada em pessoas de classe média ou média alta que retornaram de viagens ao exterior ou seus contatos. Somente quando a transmissão comunitária de Covid-19 se estabelecer de forma disseminada, atingindo grande parte da população que vive em comunidades pobres, é que poderemos avaliar de forma mais cabal qual será o impacto da pandemia na população brasileira.
IHU On-Line – Considerando a desigualdade social que existe no país, que medidas emergenciais poderiam ser tomadas para enfrentar a pandemia junto àquelas pessoas que vivem aglomeradas em favelas, ocupações, ou mesmo em situação de rua?
Guilherme Werneck – Uma questão que tem sido relativamente negligenciada no enfrentamento da pandemia de Covid-19 é o impacto que ela poderá ter ao alcançar populações de mais baixa renda. Como disse, até este momento, o perfil das pessoas acometidas pela Covid-19 no Brasil ainda se aproxima muito de um perfil de população de classe média ou classe média alta, porque foram essas pessoas que realizaram viagens para o exterior e lá adquiram a infecção. Entrando no Brasil, elas desenvolveram a doença e a transmitiram para seus contatos.
A partir de agora, a tendência é que essa infecção se espalhe para a população de baixa renda. As ações que estão sendo preconizadas – embora sejam necessárias para a redução do impacto da epidemia no Brasil – são, na maior parte das vezes, medidas que afetam e sobrecarregam as populações de baixa renda e são muito mais difíceis de serem implementadas por elas, já que vivem em condições sanitárias inadequadas.
A cidade do Rio de Janeiro conta com mais de 700 favelas, com mais de um milhão de pessoas ou cerca de 22% da sua população vivendo nessas regiões. Como conseguir que as medidas de isolamento social, de afastamento entre pessoas, lavagem periódica das mãos e a limpeza doméstica consigam ser feitas em condições sanitárias adequadas, quando as pessoas vivem em lugares pequenos, pouco arejados, aglomeradas em pequenos cômodos, onde não existe saneamento básico e onde o acesso à água é reduzido? Soma-se a isso o fato de que as ações de isolamento social também prejudicam, de certa forma, esses indivíduos em outro sentido: como vão obter os recursos financeiros para poderem se alimentar, se estiverem afastados do trabalho durante a epidemia? É preciso lembrar que boa parte dessa população vive e trabalha em condição de total informalidade, ou seja, o afastamento do trabalho implica na não remuneração.

Desafios

O desafio é como podemos implementar e minimizar o impacto dessas ações nessas populações. Em primeiro lugar, é necessário que se faça chegar água a essas comunidades para que as pessoas possam lavar as mãos com mais frequência. Isso pode ser feito com a entrega de tonéis de água que sejam utilizados com torneiras, como já ocorre em países africanos. Além disso, é muito importante que se façam atividades e iniciativas para doação e chegada de produtos de primeira necessidade até essas populações, sejam produtos de limpeza, sejam produtos alimentícios, para que elas possam superar as necessidades que vão encontrar enquanto estiverem afastadas do trabalho.
Nesse sentido, as medidas que estão sendo propostas pelos governos federal e estaduais ou são dúbias ou insuficientes. A proposta de 200 reais para quem está no Cadastro Único é insuficiente. Esse valor deveria ser pelo menos o dobro e por mais tempo do que os três meses estipulados. Também deveria se pensar num suplemento para o Bolsa Família durante os três meses iniciais dessa epidemia. Iniciativas desse tipo farão chegar recursos a essas populações e sem dúvida vão abrandar a carga da infecção nessas comunidades.
IHU On-Line – Qual é a importância e quais são os ganhos de refletir e agir no enfrentamento da pandemia a partir da perspectiva da saúde coletiva, que é uma área multidisciplinar?
Guilherme Werneck – Do meu ponto de vista, abordar o processo epidêmico e de Covid-19 sob a ótica da saúde coletiva é essencial neste momento. Isso porque, sendo um campo de produção de conhecimento científico e de práticas inerentemente interdisciplinares, a saúde coletiva consegue olhar para esse processo não como um fenômeno de características somente individuais, mas como resultado de processos sociais. A saúde coletiva tem como objetivo, fundamentalmente, entender e estudar o processo de saúde e doença como um processo social.
Nesse campo da saúde coletiva operam disciplinas e conhecimentos que interagem para produzir informação e conhecimento sobre diversos aspectos relacionados ao processo de saúde e doença e, neste momento, em relação à epidemia de Covid-19 e todas as suas repercussões na saúde das pessoas. Por exemplo, a epidemiologia fornece informações sobre como a epidemia se dissemina, quais são os riscos associados à transmissão, quais são os fatores de risco associados ao desenvolvimento de formas graves da doença e avalia também qual é o impacto das intervenções nesse processo.
Ao mesmo tempo, as áreas de planejamento e políticas de saúde estão envolvidas na avaliação e no desenvolvimento de políticas que possam minimizar os efeitos dessa epidemia, organizando o sistema de saúde, analisando a necessidade de leitos hospitalares, modificando processos assistenciais, estabelecendo necessidades econômicas e os custos associados aos serviços de saúde e formação de recursos humanos, entre outras. Já a área de ciências sociais e humanas em saúde fornece uma série de elementos para refletirmos sobre o impacto dessa epidemia e das próprias medidas de controle na vida cotidiana das pessoas e suas comunidades e as formas como as pessoas se organizam para lidar com esse problema. Então, nesse sentido, o olhar da saúde coletiva transcende o olhar da clínica, que tem uma abordagem individual do adoecimento, para perceber esse processo como algo que resulta de determinantes sociais, ambientais, históricos e também individuais.
IHU On-Line – Médicos e cientistas do mundo todo estão testando vários medicamentos já conhecidos para tentar combater a Covid-19. O que tem sido feito no Brasil neste sentido? Que pesquisas estão sendo realizadas no momento?
Guilherme Werneck – Existem iniciativas no mundo inteiro para uma série de testes de medicamentos que estão disponíveis no mercado ou já estavam em testes para outras doenças virais. Particularmente, trata-se de medicamentos que foram testados para Ebola e outros coronavírus, sendo que mais recentemente tem-se avaliado um possível efeito da cloroquina/hidroxicloroquina, utilizadas para o tratamento de malária e outras doenças, como artrite reumatoide e lúpus.
O Brasil tem uma base científica e tecnológica na área da saúde que habilita os pesquisadores de diferentes instituições a realizarem essas pesquisas, as quais são denominadas ensaios clínicos, que são os tipos de estudos realizados para testar a eficácia de drogas para tratamento de doenças. No momento, no Brasil, existem alguns grupos organizando estudos para testagem dessas drogas, com maior interesse pela hidroxicloroquina, mas eles ainda estão em fase inicial de realização e possivelmente os resultados só começarão a aparecer daqui a dois meses.
É importante salientar que pesquisas desse tipo são caras e exigem uma sólida capacidade tecnológica e científica, e a comunidade brasileira está preparada para a sua realização. Estudos desse tipo só podem ser realizados no país hoje porque, no passado, houve grande investimento em ciência, tecnologia e inovação. Porém, nos últimos anos, experimentamos uma queda muito importante no financiamento do sistema nacional de ciência e tecnologia. Por isso hoje temos muitas dificuldades operacionais, práticas e financeiras, para dar conta das necessidades com as quais o país se depara, particularmente neste momento, em que é necessário muito investimento para que consigamos não só a realização de testes de novos medicamentos, mas o desenvolvimento de kits para diagnóstico, assim como novas tecnologias para o tratamento e acompanhamento de pacientes e para a implementação e avaliação de medidas de controle dessa epidemia no âmbito de serviços de saúde e no âmbito populacional. Então, é importantíssimo salientar que o financiamento público em ciência e tecnologia é muito mais do que gasto; é um investimento que o país precisa tratar como prioridade imediata e para os próximos anos.
IHU On-Line – A Abrasco subscreveu uma nota das entidades científicas que estão solicitando ao Ministério de Ciência e Tecnologia a liberação de mais recursos para o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – CNPq. Acerca disso, qual é a importância de liberar mais recursos para a área e quais são as dificuldades encontradas entre os cientistas brasileiros para dar seguimento à realização de novas pesquisas, já que os investimentos na área também foram reduzidos?
Guilherme Werneck – O Brasil vem experimentando, nos últimos anos, um decrescimento importantíssimo do financiamento de pesquisas e já existem evidências internacionais, reiteradas por várias entidades científicas, de que o investimento em ciência e tecnologia é o investimento que mais traz retorno social. Então, deve-se compreender esse financiamento como investimento e não como gasto. Ocorre que, nos últimos anos, especialmente após a aprovação da PEC do Teto de Gastos e com as políticas econômicas implementadas pelo novo governo, houve, paulatinamente, um decréscimo e um represamento do investimento em pesquisa no Brasil. Sem investimento em pesquisa não se consegue minimamente estruturar as condições necessárias para o desenvolvimento econômico e social do país. É justamente nesses momentos de crise, como o apresentado pela epidemia de Covid-19, que podemos perceber a importância de um sistema de ciência e tecnologia forte para um país, porque serão as pesquisas científicas e o desenvolvimento tecnológico que vão poder dar respostas sobre quais são as melhores formas de enfrentamento da epidemia e quais as melhores abordagens diagnósticas e terapêuticas para os indivíduos acometidos.
IHU On-Line – Nos últimos anos, o senhor tem feito reflexões sobre o sistema de avaliação da pós-graduação no país, especialmente na área da saúde coletiva, refletindo sobre como as práticas dos cursos geram resultados desejáveis tanto em relação à contribuição científica quanto em relação à transformação social. Quais as perspectivas sobre essa reflexão após a pandemia? As práticas nos cursos de pós-graduação de saúde coletiva terão que ser repensadas em alguma medida? O que o senhor tem refletido sobre isso?
Guilherme Werneck – Eu tenho me preocupado bastante com o sistema nacional de pós-graduação que, assim como o sistema de ciência e tecnologia e o Sistema Único de Saúde, tem sofrido grande restrição de recursos. Esse desfinanciamento pode afetar décadas de investimento de toda a sociedade para o fortalecimento do sistema nacional de pós-graduação, um sistema amplo e de qualidade que forma milhares de mestres e doutores anualmente para atender às demandas científicas e tecnológicas do país.
Especificamente em relação à saúde coletiva, essa epidemia vai trazer uma série de aprendizados e, possivelmente, novas oportunidades de pesquisas para os nossos programas. Primeiro, porque a saúde coletiva tem sido central no enfrentamento dessa epidemia: por um lado, o campo da epidemiologia tem trazido informações necessárias para o enfrentamento direto e contenção da epidemia, com informações sobre como a doença se dissemina, a velocidade de disseminação, as medidas que poderiam ser utilizadas para reduzir as taxas de transmissão e também a mortalidade; de outro lado, a área de planejamento e política de saúde tem avaliado e feito proposições de como os serviços de saúde precisam se organizar para o atendimento das demandas que estão sendo colocadas pelo aumento do uso de leitos hospitalares, particularmente leitos de UTI, necessidade de respiradores e outras tecnologias para assistência médica; e a área de ciências sociais e humanas vem sendo cada vez mais solicitada a trabalhar sobre como a sociedade responde, se organiza e percebe os riscos associados a essa epidemia.
Então, existem várias repercussões da epidemia no campo social e no campo psicológico que precisam ser abordadas no âmbito coletivo e que se expressam de forma mais dramática e com uma carga maior nas populações mais vulneráveis. Entendo que o chamamento que a saúde coletiva tem tido para o enfrentamento desta epidemia será uma grande experiência que, sem dúvida, contribuirá para ajustar e mudar um pouco os rumos dos nossos cursos de pós-graduação, talvez levando-os a pensar de forma mais crítica a avaliação do impacto e das intervenções populacionais no campo das emergências em saúde pública.
IHU On-Line – Que mudanças essa pandemia poderá gerar na área da saúde e da pesquisa em geral no Brasil?
Guilherme Werneck – Entendo que crise é oportunidade e as áreas de saúde e de ciência e tecnologia no país já demonstraram sua capacidade de dar respostas em momentos de crise, como aconteceu no período de epidemia de zika. A questão fundamental que se coloca é que hoje percebemos que as condições para a realização de pesquisas e para a assistência em saúde no país foram deterioradas rapidamente pela falta de investimento em ambas as áreas. Após a crise, após a resposta que as áreas de ciência e tecnologia e de saúde estão conseguindo prover mesmo nessas condições desfavoráveis, espero que a sociedade seja capaz de perceber a relevância e a centralidade dessas áreas para o desenvolvimento social do país. Cientistas, pesquisadores e profissionais de saúde precisam ser capazes de dialogar de forma mais clara com a sociedade no sentido de mostrar a importância do financiamento público dessas atividades para a própria garantia do bem-estar da população brasileira.
(EcoDebate, 30/03/2020) publicado pela IHU On-line, parceira editorial da revista eletrônica EcoDebate na socialização da informação.
[IHU On-line é publicada pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos Unisinos, em São Leopoldo, RS.]

Pesquisadores mostram relação de água contaminada com a epidemia do vírus zika na Região Nordeste


A presença de toxinas na água consumida pela população nordestina contribuiu para aumentar o número de casos de microcefalia associados à epidemia do vírus zika na Região Nordeste, principalmente nos anos de 2015 e 2016. Essa é a conclusão da pesquisa desenvolvida em conjunto pelo Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR), a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e a Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE).
Os resultados do estudo mostram, de acordo com o professor titular da UFRJ e cientista do IDOR, Stevens Rehen, que é autor correspondente do trabalho, que o Brasil precisa rediscutir os níveis de toxinas e outras substâncias presentes na água considerados seguros para o consumo humano.
“A gente propõe nesse artigo que a água contaminada com saxitoxina deixou mais vulnerável uma determinada população do Nordeste e isso acabou levando ao nascimento de crianças com malformações graves no sistema nervoso. Talvez isso acabe se refletindo também em outras doenças. Então, o que a gente propõe é uma rediscussão em relação ao que é considerado seguro nas águas que são disponibilizadas para a população”, diz em entrevista à Agência Brasil.
A equipe foi uma das primeiras no mundo a provar a relação do vírus zika com os casos de bebês recém-nascidos com microcefalia – malformação congênita em que o cérebro não se desenvolve de maneira adequada. Após a comprovação, os pesquisadores começaram a investigar por que os casos eram mais frequentes no Nordeste do que em outras regiões do país.
De acordo com o Ministério da Saúde, entre 2015 e 2019, foram registrados 2.192 casos de microcefalia e outras malformações congênitas pelo vírus zika na Região Nordeste, o que corresponde a 62,5% dos casos do país nesse período. O Sudeste aparece em segundo lugar, com menos da metade dos casos do Nordeste, 709, ou 20,2% do total no Brasil.
“Surgiu a hipótese de que havia um cofator regional que fosse capaz de agravar as consequências da infecção. A nossa hipótese é que haveria um cofator ambiental evitável, capaz de exacerbar a toxidade do vírus zika sobre o sistema nervoso em desenvolvimento”, diz Rehen. Eles provaram que esse fator, que pode ser evitado, existe e está presente na água.
Presença de toxinas na água consumida pela população nordestina contribuiu para aumentar o número de casos de microcefalia associados à epidemia do vírus zika na Região Nordeste
Presença de toxinas na água consumida pela população nordestina contribuiu para aumentar o número de casos de microcefalia associados à epidemia do vírus zika na Região Nordeste – Arquivo IDOR

Leia os principais trechos da entrevista:

Agência Brasil: Por que vocês decidiram fazer este estudo?
Stevens Rehen: Desde o começo da epidemia de zika no Brasil, a nossa equipe, como várias outras, se interessou pelo assunto e pela própria gravidade do que era observado na relação da epidemia com o aumento de casos de microcefalia. O nosso grupo foi o primeiro no mundo a usar metodologia de biologia celular para explicar essa relação entre o vírus zika e as malformações do sistema nervoso em desenvolvimento. Mais recentemente, analisando a quantidade de casos e a gravidade de casos no Nordeste, comparando com outras regiões no país e no mundo, surgiu a hipótese de que havia um cofator regional que fosse capaz de agravar as consequências da infecção. A nossa hipótese é que haveria um cofator ambiental evitável, capaz de exacerbar a toxidade do vírus zika sobre o sistema nervoso em desenvolvimento.
Nós mapeamos a qualidade da água em diversos açudes no Nordeste e percebemos que, quando comparada a outras regiões do país, tinha uma incidência grande de alguns microrganismos chamados cianobactérias e também de uma toxina que é produzida por um desses microrganismos, a saxitoxina. A presença de saxitoxina nos alertou de que ela poderia estar envolvida com o agravamento do efeito do vírus zika no sistema nervoso.
Agência Brasil: Como conseguiram provar a relação da saxitoxina com o agravamento da microcefalia causada pelo vírus zika?
Stevens Rehen: Levamos essa toxina para o laboratório e fizemos um experimento simples, utilizando um modelo que a gente chama de organoides cerebrais. Nesse modelo, colhemos a urina ou um pedacinho de pele de qualquer indivíduo, de qualquer voluntário, que foi transformado em células do cérebro. A gente cria um modelo biológico vivo, quase como se fosse um avatar, que é nosso modelo para estudar. Foi em cima desse organoide, que a gente mostrou, em 2016, essa relação entre microcefalia e a infecção pelo vírus zika. Agora, recentemente, o que fizemos, utilizando esse mesmo modelo, foi combinar a exposição desse tecido nervoso humano à saxitoxina e ao vírus zika. Observamos então que, quando  fazíamos essa combinação, o efeito do vírus zika era ainda pior nesse tecido.
Para confirmar essa hipótese, a gente fez, em parceria com a UFRJ, o mesmo experimento utilizando camundongos. As fêmeas beberam água com a mesma quantidade de toxina observada na água do Nordeste por um determinado período e, depois, essas fêmeas ficaram grávidas. Então, nós observamos como se dava a malformação nas fêmeas que beberam água contaminada e que, também, estavam infectadas com zika. Comparamos com outro grupo que só foi infectado com zika e que bebeu água limpa. Na comparação, observamos que havia um aumento e um agravamento da microcefalia nos filhotes que nasceram dessas fêmeas.
Agência Brasil: Por que vocês decidiram observar a água?
Stevens Rehen: O que nos chamou atenção foi perceber que o Nordeste enfrentou, justamente no período de epidemia de zika, a maior seca da história. Então, pela carência de água, a gente começou a imaginar que quando há menos água, aumenta a proliferação de microrganismos por causa da própria falta de saneamento básico. Em virtude da seca, havia uma redução da qualidade da água onde ainda existia água e isso nos levou a tentar examinar essa água.
Agência Brasil: Diante desses resultados, o que pode ser feito?
Stevens Rehen: O que a gente observou nesse artigo é que a água contaminada com saxitoxina deixou mais vulnerável uma determinada população do Nordeste e isso acabou levando ao nascimento de crianças com malformações graves no sistema nervoso. Talvez isso acabe se refletindo também em outras doenças. O que a gente propõe é uma rediscussão em relação ao que é considerado seguro nas águas que são disponibilizadas para a população.
Em situações normais, o que hoje em dia é preconizado como seguro, talvez seja seguro, mas como a gente está vivendo uma série de  epidemias e agora, a pandemia do coronavírus [novo coronavírus (covid-19)], todos esses vírus acabam levando um agente que acaba alterando mais ainda esse equilíbrio. Assim, essa ingestão crônica de água com saxitoxina talvez possa deixar a população mais vulnerável a várias doenças.
Agência Brasil: Essa discussão dos parâmetros de qualidade da água está sendo feita?
Stevens Rehen: Tão logo a gente gerou esse resultado, ele foi levado ao Ministério da Saúde  e fomos muito bem recebidos, em 2018. Hoje há um grupo de trabalho coordenado pela Fiocruz, formado em 2019, do qual também participamos, que está justamente revendo o que é considerado seguro, principalmente, em situações de risco, como foi a época da epidemia pelo vírus zika.
Agência Brasil: Já existe alguma prévia desses novos parâmetros?
Stevens Rehen: Essa análise está em andamento.
Agência Brasil: O que se pode fazer para melhorar a qualidade da água consumida pela população?
Stevens Rehen: Saneamento básico! É um problema crônico, histórico no Brasil, mas é importante poder fornecer à população uma água de melhor qualidade.
Agência Brasil: A má qualidade da água pode também fragilizar as pessoas em relação ao novo coronavírus (covid-19)?
Stevens Rehen: A gente não tem nenhum estudo consistente no caso do coronavírus. Falei isso mais do ponto de vista genérico, pensando em um organismo que está vulnerável devido à ingestão crônica de uma toxina. Nós estamos mostrando que isso afetou a gravidade e a toxicidade do zika vírus.
Por Mariana Tokarnia, da Agência Brasil, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 30/03/2020
Pesquisadores mostram relação de água contaminada com a epidemia do vírus zika na Região Nordeste, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 30/03/2020, https://www.ecodebate.com.br/2020/03/30/pesquisadores-mostram-relacao-de-agua-contaminada-com-a-epidemia-do-virus-zika-na-regiao-nordeste/.