terça-feira, 17 de julho de 2018

Jovens: 'On the road'! Não tenham medo de ousar! - JAMES PIZARRO (Diário de Santa Maria, 17.7.2018, pág.4)

Sempre terei essa dúvida: se fiz bem ou se fiz mal em ficar tanto tempo

Este livro é praticamente um registro "tupiniquim" da minha geração, só que escrito sob o ponto de vista da juventude norte-americana. Eu, pessoalmente, me identifico demais com o narrador do livro (Sal Paradise) pelo seu amor ao jazz, à literatura e pela vontade de escapar de Santa Maria, RS, quando jovem para correr o mundo.
Se tivesse saído do interior gaúcho, adolescente e sozinho, não sei se estaria ainda vivo. Depois de formado, fui chantageado a ficar, embora tivesse tido oportunidades para uma bolsa de estudos de dois anos na Holanda. Depois, um convite para dar aula na Universidade da Paraíba e morar em João Pessoa. Depois, ficar em Curitiba dando aula no Cursinho Bardal. E depois... depois... depois... Fui coagido pela família a ficar.
Enfim, fui domesticado pelo sistema vigente à época. E não culpo ninguém. Pois eu me submeti. Não tinha a devida dose de revolta e loucura. Fiquei a vida inteira numa cidade onde muitos ainda praticam o esporte de cuidar da vida de todo mundo. Convivendo com suscetibilidades (para ser bem educado).
E - principalmente - onde a visão curta de muitas pessoas não lhes permite a pacífica convivência com os diferentes. Isso deve ocorrer em todas as cidades interioranas, eu sei. Isso foi muito bem retratado numa série de filmes americanos sob o título "A Caldeira do Diabo". Tanto é verdade que me tornei - para alguns chatos - um excêntrico, um maldito. Embora fosse considerado um destemido, um desbravador, um polêmico (na visão dos meus alunos).
Sempre terei essa dúvida: se fiz bem ou se fiz mal em ficar tanto tempo. Mas consertei em parte na velhice o meu equívoco, abandonando tudo e todos (exceto minha mulher) e indo morar na praia, com gaivotas livres e cachorros errantes. Na maravilhosa praia de Canasvieiras, na mágica ilha de Florianópolis, onde fiz uma experiência temporária de uma década. E depois voltando. Com saudade dos amigos, dos morros, dos parentes. E para morrer.
Mas voltando ao "On the road", livro que me foi presenteado há muitos anos pelo saudoso amigo e colega da UFRGS, geneticista Flávio Lewgoy, à época presidente da Agapan, Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural. Sal Paradise é o narrador de On the road - "pé na estrada". Ele vive com sua tia em New Jersey, Estados Unidos, enquanto tenta escrever um livro. Ele é inteligente, carismático e tem muitos amigos. Até que, em Nova York, ele conhece um charmoso e alucinante andarilho de Denver, de personalidade magnética, chamado Dean Moriarty.
Dean é cinco anos mais novo que Sal, mas compartilha o seu amor por literatura e jazz, e a ânsia de correr o mundo. Tornam-se amigos e, juntos, atravessam os Estados Unidos, deparando-se com os mais variados tipos de pessoas, numa jornada que é tanto uma viagem pelo interior de um país quanto uma viagem de auto-conhecimento - de uma geração assim como dos personagens.
Sugiro a todos os jovens que leiam este livro. E se tiverem vontade de ousar, ousem! Voem! Partam!
As estrelas esperam por vocês...

Agrotóxicos: Política Nacional de Redução (PNaRA) x Pacote do Veneno em pauta

Embalagens vazias de agrotóxicos
Embalagens vazias de agrotóxicos. Foto EBC

Por Sucena Shkrada Resk, Greenpeace Brasil
Em maio, em meio à polêmica gerada pelo Projeto de Lei 6299/02, conhecido como Pacote do Veneno, foi desengavetada a instalação de uma Comissão Especial para analisar a Política Nacional de Redução de Agrotóxicos (PNaRA) – PL 6670/2016. Desde a sua instalação, a Comissão Especial, presidida pelo deputado Alessandro Molon (PSB-RJ) e com relatoria do deputado Nilto Tatto (PT-SP), tem seguido um rumo bem diferente da comissão ruralista que defende a liberação de mais agrotóxicos. Resultado direto da pressão da sociedade, a PNaRA funciona como um antídoto contra o Pacote do Veneno e representa a esperança de uma agricultura sustentável e justa, que garanta a saúde e a segurança alimentar da população.
Foi iniciado em junho o primeiro ciclo de audiências públicas na Câmara dos Deputados, para debater as razões pelas quais não precisamos de ainda mais pesticidas, o porquê da urgência de trilharmos um caminho alternativo e quais os primeiros passos a serem tomados, neste sentido. A Comissão Especial da PNaRA, com esta iniciativa, está dando voz a representantes de órgãos de saúde, de meio ambiente, da agricultura familiar e de trabalhadores do campo, além de outros atores que foram excluídos da discussão sobre o Pacote do Veneno ou que não tiveram seu posicionamento levado em consideração.
Durante as quatro audiências promovidas até agora, foram ouvidos integrantes da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), da Via Campesina e do Greenpeace, entre outras. Após o recesso parlamentar, que ocorre até 31 de julho, o processo é retomado. Entre os principais aspectos debatidos, estão:
– necessidade e urgência da implementação da política de redução de agrotóxicos no Brasil;
– impactos dos agrotóxicos na saúde e no meio ambiente;
– viabilidade econômica dos sistemas agroecológicos;
– segurança alimentar;
– custos socioambientais do modelo agrícola dominante;
– problemas gerados pela desoneração de impostos para agrotóxicos.
Frankenstein tóxico
Na contramão das recomendações das instituições de saúde e meio ambiente e da tendência mundial, a Comissão Especial, que analisa o Pacote do Veneno, aprovou no fim de junho o parecer do deputado Luiz Nishimori, que afrouxa o uso e liberação de agrotóxicos, incluindo alguns comprovadamente cancerígenos. A pauta deve seguir a plenário (confira detalhes da votação aqui).
Capitaneada pela deputada Teresa Cristina (DEM/MS) e com maioria ruralista, a Comissão Especial, entretanto, não encontrou terreno livre. Organização das Nações Unidas (ONU), Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), Instituto Nacional do Câncer (INCA), Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) são algumas das instituições que emitiram notas técnicas e posicionamentos, tornando públicas suas preocupações com o PL. Mais de 320 organizações que trabalham com temas relacionados também assinaram manifesto contestando o Pacote do Veneno, que já tem mais de 1,5 milhão de adesões. O embate continua no segundo semestre.


in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 17/07/2018
  

Por dia, 37 crianças são vítimas de intoxicação ou envenenamento; Guia traz orientações para casos de ingestão de produtos tóxicos

saúde

Análise feita pela Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) mostra que, em média, 37 crianças e adolescentes (até 19 anos) sofrem os efeitos da intoxicação pela exposição inadequada a medicamentos. Ao longo de 18 anos, foram mais de 245 mil casos de intoxicação, dos quais 240 crianças e adolescentes não sobreviveram.
Os estados que lideram os casos de intoxicação ou envenenamento são: São Paulo, Rio Grande do Sul e Espírito Santo. Minas Gerais e Rio de Janeiro vêm por último. Porém, nem todas as regiões do Brasil são avaliadas, pois só 11 estados têm centros de monitoramento disponibilizam dados.
O estudo se baseou em informações do Sistema Nacional de Informações Toxico-farmacológicas (Sinitox). A presidente da SBP, Luciana Rodrigues Silva, disse que diante dos números alarmantes, é necessário redobrar os cuidados.
“Mais da metade dos casos registrados [53%] referem-se a acidentes com crianças de um a quatro anos de idade. Elas são naturalmente muito curiosas e querem colocar tudo na boca, o que faz parte do desenvolvimento. Além disso, os medicamentos da linha pediátrica possuem embalagens coloridas e cheirosas, que estimulam os sentidos da criança”, destacou Luciana Silva.

Números

Segundo o levantamento, de todos os episódios de intoxicação ocorridos no período de quase duas décadas – de 1999 a 2016 -, mais de 130 mil acometeram crianças com idades entre um e quatro anos. O segundo grupo mais atingido vai de 14 a 19 anos (42.614 casos), seguido daqueles que cobrem de cinco a nove anos (32.668 registros) e de 10 a 14 anos (24.282).
No país, com base nos centros de monitoramento, a incidência maior de casos desse tipo tem sido registrada, ao longo do período analisado, nos estados de São Paulo (88.582 ocorrências), Rio Grande do Sul (47.342) e Espírito Santo (16.806).
Em seguida, vêm os estados de Minas Gerais (13.315), e Rio de Janeiro (11.602). Por outro lado, a mortalidade atribuída à intoxicação foi maior na Bahia (36 óbitos); São Paulo (31); Minas Gerais (24); Rio de Janeiro (22); e Rio Grande do Sul (18).

Subestimados

Para especialistas, os dados apurados via Sinitox estão subestimados, pois a rede reúne apenas as informações de 33 Centros de Informação e Assistência Toxicológicos (CIAT) localizados atualmente em 11 estados e no Distrito Federal (DF).
A presidente da SBP, Luciana Silva, alerta que é grande o número de relatos de reações adversas que não são comunicadas às autoridades sanitárias. Segundo ela, há situações em que essas ações são consideradas brandas ou confundem-se com sinais e sintomas de outros problemas de saúde.
“Estamos falando de uma estatística que descobre apenas a ponta iceberg, de um problema de proporções muito maiores, que flerta diariamente com a tragédia”, disse Luciana Silva.
O Sinitox admite que o número de casos de intoxicação e envenenamentos registrados nas estatísticas, envolvendo crianças e adolescentes, tem caído nos últimos anos em decorrência da diminuição da participação dos CIATs no monitoramento.
De acordo com o Departamento Científico de Toxicologia da SBP, a intoxicação pode ocorrer quando as crianças e os adolescentes são submetidos à medicação sem uma prescrição médica ou com base em conselhos de amigos ou outros profissionais da saúde.
“Mesmo com a prescrição médica é preciso ter cuidado, pois as diferenças nas dosagens podem gerar complicações, em especial quando a medida é feita com base em uma colher de sopa, de sobremesa ou de café”, ressaltou a presidente da SBP, Luciana Rodrigues Silva.

Guia traz orientações para casos de ingestão de produtos tóxicos

O guia foi encaminhado aos pediatras brasileiros sobre possíveis danos físicos provocados pela ingestão de remédios e outros produtos. Há recomendações sobre limites de dosagem, mecanismos de ação tóxica, evolução do quadro clínico, procedimentos diagnósticos e opções de tratamento.
O presidente do Departamento Científico de Toxicologia da Sociedade Brasileira de Pediatria, Carlos Augusto Mello da Silva, que coordenou a elaboração do guia, adverte que os incidentes ocorrem, na maioria dos casos, em ambientes domésticos.
“ A criança pega o remédio dos pais ou o dela mesmo, que foi deixado ao alcance da mão, e toma em uma quantidade muito acima da prescrita pelo médico. Ela toma meio vidro ou então engole vários comprimidos coloridos da cartela. O pico no mundo todo é em crianças na faixa etária pré-escolar.”
De acordo com o especialista, os acidentes podem ser evitados. “Os adultos devem estabelecer algumas precauções para evitar que situações adversas se concretizem. A principal delas é sempre armazenar fármacos e produtos de limpeza sempre nos locais mais elevados, de preferência em armário com chave.”
No caso dos adolescentes, o problemas são outros, automedicação e dosagens inadequadas. Como adolescentes têm o comportamento mais próximo ao adulto, ocorrem confusões. “ Por ter mais autonomia, ao invés de tomar um comprimido, por conta própria, toma uma quantidade maior. No entanto, a faixa etária que realmente preocupa é a pré-escolar, que são intoxicações acidentais.”

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 17/07/2018


Estudo revela que sombreamento natural desenvolve abelhas mais rápido e melhora qualidade do mel

Embrapa
Foto: José Maria Vieira Neto
Estudo revela que sombreamento natural desenvolve abelhas mais rápido e melhora qualidade do mel
Abelhas precisam de sombra e água fresca. Estudo conduzido pela pesquisadora Maria Teresa Rêgo, da Embrapa Meio-Norte (PI), revelou que o sombreamento das colmeias e a presença de água nas proximidades favorecem o desenvolvimento das colônias e a qualidade do mel. Um dos resultados mais expressivos dessa pesquisa mostrou que o sombreamento natural, com árvores, ajudou na ampliação rápida da área de cria. Essa área corresponde ao favo, no qual as crias se desenvolvem. A melhor faixa de temperatura para o desenvolvimento delas é entre 30 e 35 graus Celsius.
“Em uma colônia, as operárias trabalham para manter essa faixa de temperatura ideal às crias, seja aquecendo o ninho, quando ocorrem temperaturas baixas, seja resfriando, no caso de temperaturas elevadas”, explica a cientista. Segundo ela, quanto mais a colônia de abelhas estiver exposta a temperaturas que se distanciam dessa faixa, maior será o trabalho das operárias para manter um clima ideal e estabelecer a termorregulação. O trabalho das operárias no aquecimento ou resfriamento do ninho afeta o desenvolvimento das colônias.

Árvores favorecem o conforto térmico

No experimento, essa área foi mensurada periodicamente por meio de mapeamento dos favos, em colônias expostas a diferentes condições: totalmente ao sol, sob coberturas construídas com palha de babaçu, coberturas de tela sombrite e com a sombra de árvores. O mapeamento registrava as áreas dos favos contendo alimento, mel e pólen, e as crias. As temperaturas internas e externas às colmeias eram registradas semanalmente. Com isso, ficou constatado que o microclima sob a copa das árvores foi beneficiado por uma melhor ventilação, favorecendo o conforto térmico.
Outro resultado importante do trabalho veio da análise da qualidade do mel coletado das colmeias submetidas a essas diferentes condições. Foram feitas análises físico-químicas quanto ao teor de Hidroximetilfurfural (HMF), atividade diastásica e acidez. Todas as análises foram feitas no Laboratório de Controle da Qualidade de produtos Apícolas da Embrapa Meio-Norte, em Teresina.
A pesquisa revelou também outro dado animador. As coberturas construídas com palhas e o sombreamento de árvores favorecem a manutenção de níveis mais baixos de HMF no mel. O HMF é uma molécula que nasce da transformação dos monossacarídeos frutose e glicose. Quanto mais calor, segundo os testes, é mais rápida a conversão dela. Por causa dessa característica, a molécula passou a ser usada como indicador de aquecimento, processamento inadequado e até de adulterações no mel.
A cientista diz que, em mel produzido recentemente, a quantidade de HMF é mínima. Mas com o aquecimento e o tempo de armazenamento do produto, a quantidade da molécula tende a aumentar, comprometendo a qualidade e a aceitação do mel no mercado. Pela legislação brasileira estabelecida na Instrução Normativa número 11, de 2000, do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), a presença do HMF no mel não pode ser superior a 60 miligramas por quilo.

Calor é desafio para o apicultor

No Nordeste brasileiro, região de clima quente durante quase todo o ano, as altas temperaturas são as grandes adversárias dos apicultores. O intenso calor, no período mais seco, entre os meses de setembro a dezembro, chega a provocar a perda de colônias. As condições ambientais na estiagem não oferecem floradas e empurram as abelhas para um lugar incerto. “Esse é um dos fatores que contribui para a perda das colônias”, aponta a cientista.
Ela recomenda que a instalação das colmeias deve ser sempre à sombra, de forma a evitar o efeito negativo das altas temperaturas sobre o desenvolvimento das colônias e sobre a qualidade do mel, além de proporcionar maior conforto ao apicultor durante o manejo. Outro estudo da cientista aponta para a escolha de árvores que dão um bom nível de sombreamento e que não perdem muitas folhas durante todo o ano. Um exemplo é o cajueiro (Annacardium occidentale).

Água limpa até 500 m de distância

Água limpa e disponível durante todo o ano, segundo a pesquisadora, também é essencial para o bom desempenho das colônias. “As abelhas precisam de água para o seu metabolismo e para regular a temperatura dentro da colmeia, especialmente em regiões de clima quente”, diz a especialista. Quando a temperatura do ninho ultrapassa os 36 graus, as abelhas operárias entram em ação abanando freneticamente as asas e evaporando a água sobre os alvéolos ou pela exposição do líquido na língua.
Pela importância desse recurso natural, Maria Teresa Rêgo recomenda que a distância da fonte de água ao apiário não deve ser superior a 500 metros. “Assim, evita-se gasto energético das abelhas na coleta de água”, esclarece. Ela recomenda também a instalação de bebedouros permanentes, limpos e abastecidos, caso o local não tenha uma fonte de água natural. “É importante que a água seja de boa qualidade, limpa e isenta de contaminações por bactérias, fungos ou protozoários”, ressalta.
A pesquisa foi desenvolvida no município de Castelo do Piauí, a 184 quilômetros ao norte de Teresina, durante as estações chuvosa e seca. Lá, a vegetação é de transição entre Cerrado e Caatinga. O clima é subúmido seco, com déficit hídrico moderado e precipitação anual aproximada de 1.035 milímetros. Vinte e quatro colônias de abelhas Apis mellifera africanizadas foram instaladas em colmeias modelo Langstroth. Rainhas novas, produzidas no apiário experimental da Embrapa, em Teresina, foram introduzidas no experimento. A Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) custeou o trabalho.
Nessa mesma linha de pesquisa, o professor Laurielson Chaves Alencar, da Universidade Federal do Piauí (UFPI), também observou o efeito de temperaturas elevadas na qualidade do mel. Em um experimento conduzido no município de Simplício Mendes, no coração do semiárido piauiense, ele avaliou colmeias instaladas a céu aberto e outras protegidas por sombreamentos naturais e artificiais, como o sombrite, com telas. “Os teores de HMF mais elevados podem ser explicados, em parte, pelo fato de as colmeias desse experimento estarem expostas por um maior período do dia à incidência direta do sol”, concluiu.

Calor pode provocar abandono da colmeia

A busca por um cenário ideal à vida das abelhas em regiões quentes levou também a Universidade Estadual do Piauí (Uespi) a monitorar o comportamento delas nas colmeias de acordo com o clima e a época do ano. Entre 2013 e 2014, um equipamento permitiu que cientistas da Embrapa, professores e estudantes de graduação e pós-graduação monitorassem as condições de temperatura que os insetos enfrentam e que influem no comportamento deles e na produção de mel.
Os resultados, apresentados pelo professor da Uespi Carlos Giovanni Nunes de Carvalho, mostraram que as altas temperaturas, associadas à baixa umidade do ar, realmente comprometem a produtividade de mel, matam e contribuem para a má-formação das crias. Em alguns casos, levam as abelhas a abandonar as colmeias.
Foram registradas fora do equipamento temperaturas máximas que variavam de 32 a 41 graus Celsius. Quando as temperaturas atingiam até 36 graus, as abelhas conseguiam regular a temperatura interna da colmeia. Contudo, acima de 39 graus, segundo os cientistas, facilmente as abelhas desistem da homeostase, que é o processo pelo qual um organismo mantém as condições internas necessárias à vida. Entre três e quatro dias sob forte e calor, os animais abandonam a colmeia.
Os experimentos, conduzidos sempre em períodos de 40 dias, comprovaram que a temperatura ideal interna em uma colmeia em regiões quentes deve variar de 33 a 36 graus Celsius. O equipamento, com o alerta de aquecimento, foi instalado em um apiário em mata fechada, a 210 metros de distância da sede da Embrapa Meio-Norte, na zona norte de Teresina, e monitorou cerca de 30 mil abelhas.

Um medidor foi desenvolvido para a pesquisa

Esse equipamento, ainda sem nome, é um dispositivo de monitoramento formado por sensores de temperatura, baterias, rádio de comunicação, um cartão de memória e um fio conectado à colmeia. O tráfego de informações obedece a um rito simples: os dados são coletados na colmeia, em meio à vegetação; em seguida, repassados via rádio para uma central instalada na Embrapa Meio-Norte e conectada à internet. De lá, as informações ficaram armazenadas em um site que funcionou como um banco de dados.
A construção do dispositivo, estruturado numa caixa plástica, que mede 11 centímetros de largura por 16 centímetros de comprimento, teve um custo estimado de apenas R$ 200,00. A ideia do professor Carvalho, que coordenou o projeto, era substituir o manejo executado pelos pesquisadores, como a instalação manual de termômetros nas colmeias, para que eles pudessem acompanhar o nível de estresse das abelhas sem riscos de acidente.

Abelhas estão sumindo

Maçã, melão, manga e hortaliças como berinjela, cenoura, couve e pepino, consumidos em larga escala de norte a sul do Brasil, podem um dia até sumir das feiras livres e supermercados, caso a perda de abelhas continue em ritmo acelerado. O grito de alerta é da pesquisadora Marcia Motta Maués, da Embrapa Amazônia Oriental (PA). Segundo ela, sem a ação efetiva das abelhas como agentes polinizadores, cerca de 52% dos produtos vendidos nos supermercados desaparecem.
O fenômeno, registrado em todo o mundo, vem preocupando cientistas, apicultores e agricultores. As abelhas são os polinizadores mais eficientes da natureza e responsáveis diretamente pela reprodução e perpetuação de espécies vegetais. Ela ressalta que mais de 75% das principais plantas cultivadas no mundo dependem, pelo menos em parte, da polinização feita por esses insetos.
Maués disse que cerca de 250 espécies de animais polinizam as plantas agrícolas no Brasil. Desses, 87% são abelhas. “Polinizadoras por excelência, elas dependem dos recursos florais para sua alimentação e de suas crias”, detalha a cientista. A pesquisadora destaca também que as abelhas africanizadas são as polinizadoras mais efetivas das culturas agrícolas do Brasil, que são fontes de vitaminas e sais minerais, indispensáveis à saúde do homem.
A ameaça à vida das abelhas em todo o planeta vem de todo lado. No entender da cientista brasileira, as principais causas do desaparecimento desses insetos são mudanças no uso da terra, manejo agrícola intensivo, pesticidas, cultivos geneticamente modificados, fungos, vírus, pragas (formigas e ácaros) e mudanças climáticas.
Ela aponta a remoção da vegetação nativa tanto para projetos urbanos e de infraestrutura, quanto para transformação em áreas agrícolas, como uma ação que reduz a alimentação e o local onde as abelhas possam criar ninhos, além de dificultar a mobilidade dos insetos. “Em todo o mundo, as mudanças climáticas alteram a distribuição geográfica das abelhas e plantas e seus ciclos reprodutivos”, destacou Maués.

Cientistas tentam salvar as abelhas

Furacões, enchentes, incêndios e a seca estão no pelotão de frente dos fenômenos climáticos extremos que, acreditam os cientistas, comprometem a vida das colmeias. Uma rede de 35 pesquisadores de dez países da América Latina, entre os quais o Brasil, está avaliando a perda de abelhas, além da identificação de ameaças e fatores que causam a mortalidade das colmeias.
No Brasil, foi criada a Rede Brasileira de Interações Planta-Polinizador (Rebipp), um coletivo de cientistas especializados em biologia de polinização que estudam as interações planta-polinizador em suas várias dimensões. O objetivo do trabalho colaborativo é incentivar o desenvolvimento de atividades científicas e didáticas na área, identificando a falta de conhecimento e estimulando a construção de projetos de pesquisa.
Fundamental à segurança alimentar, conservação do meio ambiente e manutenção do equilíbrio dos ecossistemas, o trabalho desses insetos vai além dos alimentos, eles também estão ligados à produção de medicamentos, fibras usadas na indústria, biocombustíveis e materiais de construção. E a relação desses pequenos animais com o homem veio antes mesmo da era cristã, remonta ao Egito Antigo, há 2.400 anos antes de Cristo.
No Brasil, as abelhas chegaram pelas mãos dos jesuítas, no século 18, nas áreas que hoje são o noroeste do Rio Grande do Sul. Hoje, o Sul e o Nordeste são as principais regiões produtoras de mel e também produzem pólen, própolis, cera e apitoxina, um composto ativo presente no veneno das abelhas, cujos efeitos são benéficos à saúde em tratamentos odontológicos.
Mesmo diante dos problemas enfrentados por toda a cadeia produtiva, o Brasil exportou mais de 27 milhões de toneladas de mel em 2017. O País faturou quase 122 milhões de dólares, segundo o Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços. Os Estados Unidos foram os maiores compradores. Rio Grande do Sul, Paraná, Minas Gerais, Santa Catarina, São Paulo, Bahia e Piauí, respectivamente, são os sete Estados que mais produzem mel no País, segundo a Pesquisa Pecuária Municipal feita pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Por Fernando Sinimbu (MTb 654 /PI)
Embrapa Meio-Norte

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 12/07/2018