terça-feira, 10 de dezembro de 2019

Conservação das ervas marinhas é importante na luta contra o aquecimento global

Apesar de serem um dos ecossistemas sob ameaça mais negligenciados do planeta, as ervas marinhas podem ter um futuro promissor, graças à sua capacidade de absorver carbono.

As ervas marinhas são plantas produtoras de flor que formam prados densos em áreas rasas e protegidas ao longo da costa.
Elas oferecem uma série de benefícios: atuam como viveiro e fonte de alimento para uma grande variedade de espécies marinhas; abrigam muitos peixes, tartarugas e dugongos; protegem as costas absorvendo a energia das ondas; produzem oxigênio e limpam o oceano absorvendo os nutrientes poluentes. Leia o relato do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA).
ONU Brasil
seagrass
Photo: Dimitris Poursanidis GRID-Arendal

Apesar de serem um dos ecossistemas sob ameaça mais negligenciados do planeta, as ervas marinhas podem ter um futuro promissor, graças à sua capacidade de absorver carbono. As ervas marinhas são plantas produtoras de flor que formam prados densos em áreas rasas e protegidas ao longo da costa.
Elas oferecem uma série de benefícios: atuam como viveiro e fonte de alimento para uma grande variedade de espécies marinhas; abrigam muitos peixes, tartarugas e dugongos; protegem as costas absorvendo a energia das ondas; produzem oxigênio e limpam o oceano absorvendo os nutrientes poluentes produzidos pela atividade terrestre humana.
Além disso, as ervas marinhas representam 10% da capacidade do oceano de armazenar carbono, o chamado “carbono azul”, apesar de ocuparem apenas 0,2% do fundo do mar, e podem capturar carbono da atmosfera até 35 vezes mais rápido do que as florestas tropicais.
No entanto, é importante entender que existem ainda muitas incógnitas em relação às ervas marinhas.
“Os dados sobre a cobertura regional e os estoques de carbono nos prados de ervas marinhas são escassos em algumas regiões, particularmente no Indo-Pacífico, na África e na América do Sul”, segundo um relatório intitulado Assessing the capacity of seagrass meadows for carbon burial: Current limitations and future strategies (Avaliando a capacidade das ervas marinhas para o sequestro de carbono: limitações atuais e estratégias futuras, tradução livre).
“Além disso, nossa compreensão dos fatores que regulam a variabilidade na capacidade de sequestro de carbono das ervas marinhas é limitada. Essas lacunas limitam nossas possibilidades de formular estratégias de mitigação das mudanças climáticas levando em consideração os prados de ervas marinhas”, acrescenta o relatório.
No entanto, o potencial das ervas marinhas para sequestrar carbono está agora começando a ganhar atenção internacional, à medida que os esforços para enfrentar a emergência climática se tornam cada vez mais urgentes.
O último relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês), com foco nos oceanos e na criosfera, aponta que manguezais, sapais e prados de ervas marinhas podem armazenar até 1.000 toneladas de carbono por hectare, um valor muito mais alto do que a maioria dos ecossistemas terrestres.

Cumprimento dos compromissos climáticos

A restauração desses habitats pode fazer parte dos planos nacionais de mudança climática. Cada signatário do Acordo de Paris deve enviar seu plano ou contribuição nacionalmente determinada às Nações Unidas, com planos sucessivamente mais ambiciosos.
O potencial das ervas marinhas para as contribuições determinadas nacionalmente é significativo, já que cerca de 159 países têm ervas marinhas em suas costas.
Uma análise a ser publicada em breve pela GRID-Arendal, uma fundação norueguesa que trabalha com o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), descobriu que 10 países já incluíram as ervas marinhas em suas contribuições determinadas nacionalmente. Cinco países fizeram referência a ações de conservação e restauração para mitigação, enquanto oito planejam usá-las para adaptação.
“Há claramente uma grande oportunidade perdida aqui, além do potencial para mais países incluírem as ervas marinhas em suas opções para mitigação e adaptação às mudanças climáticas”, disse Gabriel Grimsditch, especialista em ecossistemas marinhos do PNUMA.
“Os prados de ervas marinhas estão desaparecendo rapidamente em muitas partes do mundo”, acrescenta ele. “A causa é principalmente o impacto do bilhão ou mais de pessoas que vivem a menos de 50 km delas, incluindo os danos pelas construções costeiras e a degradação da qualidade da água devido à poluição. As taxas anuais de declínio se aceleraram, com taxas de perda comparáveis às dos recifes de coral e florestas tropicais”.
O PNUMA, GRID-Arendal e o Centro de Conservação e Monitoramento Mundial do PNUMA convocaram a Rede Internacional de Especialistas em Ervas Marinhas e planejam lançar um relatório global sobre a importância dos ecossistemas de ervas marinhas no início de 2020.

Ampliação da restauração de ervas marinhas

Enquanto isso, países como os Estados Unidos e a Suécia vêm experimentando a restauração de ervas marinhas há vários anos. Uma equipe no Reino Unido está prestes a embarcar no maior projeto de restauração de ervas marinhas já realizado em suas águas.
No entanto, a restauração é complicada e cara. As evidências sugerem que quanto maior o projeto, maior a chance de sucesso, já se o projeto for muito pequeno, é muito suscetível a danos. O PNUMA e a Convenção de Nairóbi lançarão em breve um manual sobre a restauração das ervas marinhas no Oceano Índico Ocidental.
“Nós ainda não temos muita experiência de plantio no mar, em contraste aos nossos muitos séculos de experiência de plantação terrestre. Sempre que possível, é melhor conservar o que já temos”, diz Grimsditch.
Da ONU Brasil, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 09/12/2019
Conservação das ervas marinhas é importante na luta contra o aquecimento global, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 9/12/2019, https://www.ecodebate.com.br/2019/12/09/conservacao-das-ervas-marinhas-e-importante-na-luta-contra-o-aquecimento-global/.

Energia solar será a principal fonte elétrica mundial até 2035

Por: Ruy Fontes – Agência #movidos
energia solar
Um novo estudo divulgado pela Agência Internacional de Energia (International Energy Agency, ou IEA na sigla em inglês) prevê que a solar fotovoltaica está no caminho para se tornar a fonte energética número um do mundo até 2035.
Entretanto, embora o crescimento da energia solar e demais fontes de energia renováveis soe otimista, os responsáveis pelo estudo afirmam que ele não será suficiente para desbancar a geração por combustíveis fósseis.
Dessa forma, a estimativa da IEA é de que as fontes limpas apenas ajudem a matriz elétrica mundial a acompanhar a crescente demanda por energia, que subiu 7% no ano passado em relação a 2017.
De acordo com o estudo, a capacidade instalada atual de usinas a carvão deverá se manter praticamente inalterada até 2040, com 2,2 Terawatts (TW).
O Gás Natural, fonte amplamente utilizada em países como EUA e Rússia, deverá apresentar crescimento de 39,47% em sua capacidade instalada nesse mesmo período,  subindo de 1,9 TW para 2,65 TW.
Contudo, a IEA estima que o maior crescimento será protagonizado pela geração solar fotovoltaica, que deverá atingir uma capacidade instalada mundial de 3,142 TW até 2035.
O volume será maior do que qualquer outra das fontes atuais, renovável ou não, incluindo a eólica, hídrica, gás natural e carvão.
Com base na tendência atual, o estudo afirma que as fontes de energia alternativas continuarão dominando o crescimento da geração elétrica mundial, respondendo por 2/3 dos 8,5 TW de nova capacidade que devem ser instalados até 2040.
Mas, esse crescimento não será homogêneo e sim concentrado em países como China e União Europeia (UE), que deverão apresentar até 80% de suas matrizes elétricas por fontes de energia limpa, enquanto no restante do mundo elas responderão por menos da metade da geração.
Fonte renovável mais popular no mundo, a energia solar fotovoltaica continuará a brilhar forte e estará na liderança da geração limpa em países como China, Japão e Índia até 2040.
Já em outras regiões ela deverá ficar em segundo lugar, como atrás da fonte eólica na União Europeia ou da hídrica em países da América do Sul, como o Brasil.
Os investimentos em renováveis, que ano passado foi de U$390 bilhões, deverão se manter em torno de U$440 bilhões até 2030, sugere a IEA, abaixo dos U$650 bilhões necessários para atingir as metas de sustentabilidade do setor elétrico mundial.

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 06/12/2019
Energia solar será a principal fonte elétrica mundial até 2035, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 6/12/2019, https://www.ecodebate.com.br/2019/12/06/energia-solar-sera-a-principal-fonte-eletrica-mundial-ate-2035/.

O avanço da cana-de-açúcar na Amazônia representa uma ameaça à estabilidade da biodiversidade e do clima


cana-de-açúcar

O avanço da cana-de-açúcar na Amazônia representa uma ameaça à estabilidade da biodiversidade e do clima. Entrevista especial com Marcos Buckeridge

IHU
Recentemente, o presidente Jair Bolsonaro revogou o Decreto 6.961, que restringia o plantio de cana-de-açúcar na Amazônia. Embora a medida tenha como finalidade a expansão dessa cultura na região, ela pode gerar mais problemas do que alternativas à produção e também ao bioma. De acordo com o biólogo Marcos Buckeridge, as variedades de cana-de-açúcar cultivadas no Brasil necessitam de insolação e água, mas não são adaptáveis a regiões com umidade alta e “não funcionariam bem em regiões amazônicas, pois elas são muito úmidas e possivelmente teríamos que enfrentar novas doenças, que baixariam a produtividade. Seria, portanto, um caminho desnecessário e menos seguro para expandir a cultura da cana”.
Na entrevista a seguir, concedida por e-mail à IHU On-Line, o biólogo explica as demais razões que inviabilizam a produção de cana-de-açúcar na Amazônia. Entre elas, ele menciona a disponibilidade de áreas de plantio fora do bioma e os investimentos em ciência e tecnologia, que permitem aumentar a produtividade em áreas menores, sem necessidade de expandir o plantio para o bioma. “Já demonstramos por modelagem computacional que temos área suficiente para expandir a cana até 2045 sem precisar de áreas da Amazônia ou de plantio de outras culturas agrícolas”, informa.
A produção de cana-de-açúcar em larga escala na Amazônia também pode interferir nos serviços ambientais que o ecossistema gera para a América do Sul e causar impactos na produção agrícola da região. “Um dos pontos cruciais é a capacidade que a Floresta Amazônica tem de produzir vapor de água. A produção dele é tão grande que em certas ocasiões do ano forma-se um enorme corredor que vai da Amazônia até o Atlântico. Toda esta umidade é de grande importância para a agricultura que já se estabeleceu. Sem a Amazônia, provavelmente teríamos mudanças significativas no clima da América do Sul, de forma que vários países poderão ter seus sistemas agrícolas afetados. Como a Argentina é um importante produtor agrícola na região e também para o mundo, um efeito sobre os agronegócios brasileiro e argentino teria impacto na economia mundial”, explica.
Marcos Buckeridge é graduado em Ciências Biológicas pela Universidade de Guarulhos – UNG, mestre na mesma área pela Universidade Federal de São Paulo – Unifesp e doutor em Ciência Molecular e Biológica pela University Of Stirling, Escócia. Atualmente é professor do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo – USP e membro do Instituto de Estudos Avançados da USP, onde criou e coordena o programa USP-Cidades Globais. Foi presidente da Associação dos Estudantes e Pesquisadores na Grã-Bretanha entre 1993 e 1994 e da Sociedade Botânica de São Paulo entre 2001 e 2005. Entre 2015 e 2019, Buckeridge foi presidente da Academia de Ciências do Estado de São Paulo.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Qual é a situação dos plantios de cana-de-açúcar na Amazônia e no Pantanal?
Marcos Buckeridge – Planta-se muito pouca cana na região amazônica. Que eu saiba, apenas acerca de Manaus, há algumas plantações, mas de pequeno porte e para consumo local. Desconheço plantios de cana-de-açúcar em larga escala em regiões da Amazônia brasileira.
IHU On-Line – Como era feito o Zoneamento Agroecológico – ZAE da cana-de-açúcar nesses biomas?
Marcos Buckeridge – O Zoneamento Agroecológico incluía toda a Amazônia Legal, o que abrange os seguintes estados: AcreAmazonasRondôniaRoraimaPará e Amapá, que são estados Amazônicos, e áreas dentro de estados que abrigam parte do bioma Amazônia (Mato Grosso, Maranhão, Tocantins e Goiás). Nessas regiões o desmatamento legal era bem mais restritivo.
IHU On-Line – Por que e em que contexto, na sua avaliação, o presidente Jair Bolsonaro revogou o decreto 6.961, de 17 de setembro de 2009, que restringia o plantio de cana-de-açúcar na Amazônia? Por que há um interesse em expandir a produção na Amazônia?
Marcos Buckeridge – Mesmo que não tenha sido intencional, a revogação do decreto abre caminho para que a cana possa ser plantada em regiões onde há floresta amazônica. Se a intenção for expandir a produção na Amazônia, há pelo menos três pontos que devem ser considerados para evitar este caminho.
Primeiro, já sabemos que levar cana para biomas preservados ou áreas de produção de alimentos não é necessário, pois há área mais do que suficiente fora das regiões cobertas pelo Zoneamento Agroecológico para expandir a produção da cana com concomitante aumento na produção de açúcar e etanol.
Segundo, o avanço tecnológico que estamos tendo no Brasil com os investimentos em ciência e tecnologia tende a aumentar a produtividade (produção por área plantada). Com isto, se trabalharmos bem na área científica e tecnológica da cana, a tendência seria de necessitar relativamente menos área para plantio.
Terceiro, as variedades de cana que temos não funcionariam bem em regiões amazônicas, pois elas são muito úmidas e possivelmente teríamos que enfrentar novas doenças, que baixariam a produtividade. Seria, portanto, um caminho desnecessário e menos seguro para expandir a cultura da cana.
IHU On-Line – Segundo o governo, o decreto que estabelecia o Zoneamento Agroecológico – ZAE da cana-de-açúcar no Brasil não é mais necessário porque existem outros instrumentos legais, como o Código Florestal e o Renovabio, para controlar o plantio de cana-de-açúcar. Como avalia essa justificativa?
Marcos Buckeridge – Na minha interpretação, há uma diferença importante que não é considerada neste argumento. O ZAE limitava mais severamente o plantio em estados amazônicos e estados que tenham parte da Amazônia em seus territórios.
O Código Florestal permite o chamado “desmatamento legal“, desde que uma parcela da área ocupada seja preservada. Por isso, se somente usarmos como instrumento o Código Florestal, seria permitido entrar em regiões onde há floresta e desmatar o que sobra, sem ferir o código. Esse processo levaria à perda de parte significativa da Amazônia.
Já o Renovabio não se refere a onde se pode ou não plantar cana. É um mecanismo excelente para premiar a sustentabilidade na produção de biocombustível, mas se for considerado que um projeto obedeceu ao Código Florestal, será difícil defender um argumento de que não haja sustentabilidade, pois teria ocorrido desmatamento legal.
Assim, manter o Código Florestal e o Renovabio são medidas excelentes, mas deveríamos manter maior restrição de uso de áreas que ficam dentro das áreas pertencentes ao ZAE. Com os três será possível proteger melhor a Amazônia e ao mesmo tempo produzir etanol combustível suficiente para o consumo brasileiro e para a exportação. Mais do que isso, o nosso etanol provavelmente terá muito mais valor para comércio no exterior se tiver um selo de sustentabilidade com isenção de qualquer plantio na Amazônia.
IHU On-Line – Depois da revogação do Decreto 6.961, o senhor declarou que a decisão é um erro porque o plantio de cana-de-açúcar vai gerar perda de biodiversidade na Amazônia. Pode nos explicar qual é a relação entre plantio de cana-de-açúcar na Amazônia e perda da biodiversidade no bioma? Por que o plantio de cana-de-açúcar gera essa consequência?
Marcos Buckeridge – Um avanço da cultura da cana – ou qualquer outra cultura agrícola – na Amazônia representa uma ameaça à estabilidade da biodiversidade das florestas e também sobre o clima. A Amazônia possui biodiversidade extremamente alta e ainda é largamente desconhecida. Se houver desmatamento, poderemos estar perdendo a oportunidade de encontrar substâncias para cura de doenças como câncerAlzheimerParkinson e várias outras. Usando somente o Código Florestal e o Renovabio, sem a proibição de entrar nas áreas dentro do Zoneamento Agroecológico, haverá a possibilidade de desmatar a Amazônia, pois deixaremos de ter um dos principais instrumentos de proteção ao desmatamento. Como o Código Florestal exige preservação de apenas parte das propriedades, permitindo o que é chamado de “desmatamento legal”, parte significativa da Floresta Amazônica poderia ser perdida.
Renovabio é uma ótima ferramenta e pode até ajudar, mas não foi desenhado para preservação de florestas, e sim para a sustentabilidade em geral. Acredito que não tenha força para evitar a invasão de regiões amazônicas. Parte importante da ciência brasileira de cana-de-açúcar tem ido no sentido de aumentar a produtividade da cana nas regiões onde ela já cresce bem hoje. Além disso, já demonstramos por modelagem computacional que temos área suficiente para expandir a cana até 2045 sem precisar de áreas da Amazônia ou de plantio de outras culturas agrícolas.
Na minha opinião, é muito melhor negócio para o Brasil não entrar na Amazônia. A Floresta Amazônica presta um serviço ambiental crucial, que é a manutenção da estabilidade climática que temos no Centro-Oeste e no Sudeste. Se degradarmos a Amazônia, colocaremos em risco todo o agronegócio brasileiro, inclusive a cultura da cana.
IHU On-Line – O senhor também declarou que no longo prazo a medida pode prejudicar toda a agricultura de larga escala no Brasil e na Argentina. Por que isso tende a ocorrer?
Marcos Buckeridge – Ao longo dos anos, os climatologistas vêm demonstrando que a Amazônia exerce grande influência no clima da América do Sul. Chega a influenciar também a África e o hemisfério Norte. Na atmosfera, tudo está interconectado. Um dos pontos cruciais é a capacidade que a Floresta Amazônica tem de produzir vapor de água. A produção dele é tão grande que em certas ocasiões do ano forma-se um enorme corredor que vai da Amazônia até o Atlântico. Toda essa umidade é de grande importância para a agricultura que já se estabeleceu. Sem a Amazônia, provavelmente teríamos mudanças significativas no clima da América do Sul, de forma que vários países poderão ter seus sistemas agrícolas afetados. Como a Argentina é um importante produtor agrícola na região e também para o mundo, um efeito sobre os agronegócios brasileiro e argentino teria impacto na economia mundial.
IHU On-Line – Em que regiões do país o plantio de cana-de-açúcar é mais indicado? Por que não se utilizam essas terras?
Marcos Buckeridge – A cana-de-açúcar é uma gramínea de clima quente e necessita de bastante insolação. Necessita de bastante água, mas as variedades que usamos não se dão muito bem em regiões com umidade muito alta. Para que haja a produção e acúmulo do açúcar no corpo da cana, é preciso um estímulo de uma leve seca. Isto funciona bem no Sudeste e no Centro-Oeste e é o que tem ocorrido em geral no Brasil. A cana também pode funcionar no Nordeste, mas foi necessário grande esforço para desenvolver variedades que sobrevivam à seca muito intensa.
Outro ponto importante é a floração da cana. Quando a cana floresce, a produtividade do açúcar diminui, pois este é acumulado no corpo da planta para dar suporte à produção das flores. Sabemos que as melhores condições para a floração da cana são encontradas nas regiões mais próximas ao equador. Assim, plantar cana na Amazônia exigiria todo um esforço para evitar floração com adição de insumos agrícolas e outros tratos, o que aumentaria o custo de produção. Mesmo assim, não é garantido que a produtividade se mantenha com esses produtos.
IHU On-Line – O etanol pode ser considerado um produto competitivo no Brasil? Por que seu preço ainda não parece competir com o da gasolina?
Marcos Buckeridge – O etanol se tornou, sim, um produto competitivo no Brasil. Hoje, sem qualquer subsídio e devido aos avanços tecnológicos tanto no desenvolvimento genético da cana como dos automóveis flex que usamos, o bioetanol compete e atualmente ganha da gasolina. Na realidade, não há gasolina pura no Brasil. Quando enchemos o tanque com o que chamamos de gasolina, na verdade estamos também colocando etanol, pois o que usamos tem adição de quase um terço de etanol. Isso faz do Brasil um país único no mundo. É o país com a maior taxa de uso de energias renováveis no planeta. Ainda mais interessante é que podemos aumentar ainda mais a nossa eficiência. Podemos produzir mais etanol, e com os avanços recentes nas tecnologias eólica e solar, poderemos ser um dos primeiros países do mundo a poder chegar perto dos 100% de renováveis na matriz energética. Ainda estamos na dianteira. Temos que investir maciçamente em ciência e tecnologia na área de renováveis. É neste caminho que o mundo está indo e o Brasil poderá se beneficiar muito se se mantiver na fronteira do conhecimento e inovação nesta área. Tudo isso pode ser feito sem entrar na Amazônia. De fato, sem ela, nem teremos como atingir este patamar.
(EcoDebate, 06/12/2019) publicado pela IHU On-line, parceira editorial da revista eletrônica EcoDebate na socialização da informação.
[IHU On-line é publicada pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos Unisinos, em São Leopoldo, RS.]

segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

COP25: Sem fortes salvaguardas, projetos destinados a combater as mudanças climáticas podem levar a violações dos direitos humanos


COP25

Enquanto os países investem bilhões de dólares em projetos climáticos em todo o mundo, reivindicando crédito pelos cortes de carbono, o que acontece às comunidades em seu caminho?

A história recente mostra que, sem fortes salvaguardas, projetos destinados a combater as mudanças climáticas podem levar a violações dos direitos humanos.
No entanto, as proteções estão sendo enfraquecidas, e não fortalecidas, na COP25 em Madri.
Por Karl Mathiesen e Chloé Farand* **
Deixar de implementar processos de consulta, apelo e revisão independente violaria as normas globais e abriria as comunidades (em particular indígenas) a uma nova e voraz raça de desenvolvedores de baixo carbono. Jocelyn Timperley se reporta aqui .
Um novo texto sobre os mercados globais de carbono, ou Artigo 6 , inicialmente esperado na manhã de sexta-feira, finalmente chegou à noite de sábado. As opções foram reduzidas, mas todos os principais pontos de discórdia permanecem. Os ministros, que assumem as negociações após segunda-feira, terão que alavancar o poder político para ter esperança em um avanço.
O texto mais recente sobre como lidar com perdas e danos resume a gama de pontos de vista sobre como fornecer financiamento a países vulneráveis que se recuperam de eventos climáticos extremos ou impactos de início lento, como a elevação do nível do mar. A criação de um mecanismo de financiamento sob medida faz parte da lista, mas não conta com o apoio de países desenvolvidos como EUA e Austrália. Enquanto isso, um grupo de países em desenvolvimento e a China, conhecido como G77, está pedindo a criação de um grupo de especialistas para explorar outras opções de financiamento.
Um esboço do texto de uma decisão da COP25 reflete os esforços para manter a ambição no topo da agenda. O texto preliminar, que pode mudar significativamente até o final da semana, enfatiza a necessidade de a ciência sustentar a ação climática e apela a compromissos climáticos mais ambiciosos em 2020. O texto final fornecerá um sinal-chave de ambição antes da COP26 do próximo ano.
Enquanto isso, discussões sobre quem merece “circunstâncias especiais” e apoio adicional para responder às mudanças climáticas continuam. Na semana passada, foi realizada uma consulta informal para considerar as necessidades especiais dos países africanos, mas não da América Latina, causando alguma infelicidade.
O embaixador Mohamed Nasr, do Egito e presidente do Grupo Africano, insistiu que as “necessidades concorrentes” de desenvolvimento econômico do continente e os compromissos para reduzir as emissões deveriam ser levados em consideração.
“A África está apenas exigindo o que merece”, disse Augustine Bnatar Njamnshi, da Aliança Pan-Africana de Justiça Climática. “Tenha certeza de que não tiraria nada de ninguém.”
Há um esforço dos países em desenvolvimento para que a COP25 proíba o uso de ‘créditos de transição’ do Protocolo de Kyoto para cumprir as metas do Acordo de Paris. A ideia aqui é que a superação alcançada sob o acordo precursor ainda deve contar. Mas a maioria dos países disse que isso não está dentro do “espírito de Paris”. Há apenas um país que planeja explicitamente fazer isso: a Austrália. Leia mais aqui .
Comentando o estado das negociações, Tosi Mpanu Mpanu, um negociador sênior da República Democrática do Congo, disse ao Climate Home News que algumas reuniões se tornaram “talk shops”.
“Nós realmente não andamos a pé”, disse ele. “É importante não darmos um prato de espaguete aos nossos ministros, onde eles não sabem por onde começar, porque tudo está completamente entrelaçado e eles não sabem como lidar com isso”.
Na pior das hipóteses, Mpanu Mpanu disse que os ministros deveriam deixar Madri com “um acordo geral que pudesse desencadear algum tipo de plano de trabalho que nos permita finalizar o âmago da questão”.
Longe das negociações, Sue Biniaz, ex-advogada chefe do clima do departamento de estado que desempenhou um papel fundamental na elaboração do Acordo de Paris, refletiu na retirada dos EUA do acordo.
“Eu realmente pensei que havíamos construído um acordo que atendesse às necessidades de qualquer governo dos EUA”, disse ela. “Na pior das hipóteses, eles poderiam ter ficado com um alvo alterado.”
* Análise originalmente publicada na Climate Home News.
* Tradução e edição de Henrique Cortez, EcoDebate.

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 09/12/2019
COP25: Sem fortes salvaguardas, projetos destinados a combater as mudanças climáticas podem levar a violações dos direitos humanos, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 9/12/2019, https://www.ecodebate.com.br/2019/12/09/cop25-sem-fortes-salvaguardas-projetos-destinados-a-combater-as-mudancas-climaticas-podem-levar-a-violacoes-dos-direitos-humanos/.

COP25: Tentativa de alinhar os planos climáticos globais falha


COP25

Não há consenso sobre se as novas promessas climáticas devem durar cinco anos, dez anos ou uma mistura de ambos, enquanto os países se reúnem nas negociações da ONU em Madri

Por Jocelyn Timperley e Chloé Farand* **
Os países não chegaram a acordo sobre o período que as futuras promessas climáticas devem cobrir nas negociações da ONU em Madri.
As promessas do Acordo de Paris devem estar alinhadas para todos os países a partir de 2031. Mas as conclusões preliminares divulgadas nas negociações da COP25 na sexta-feira mostraram que não foi encontrado nenhum acordo sobre o comprimento das janelas, com uma ampla gama de opções restantes em cima da mesa , incluindo cinco anos, dez anos ou várias maneiras de misturar os dois.
Observadores dizem que prazos mais curtos terão mais chances de promover cortes rápidos na poluição.
O fracasso em avançar significa que é improvável que o problema seja resolvido nessas negociações, que terminam na próxima semana.
Os países pareciam considerar o assunto como de baixa prioridade. Em particular, a UE viu pouca necessidade de chegar a acordo nesta sessão e não tomou uma posição clara sobre qual opção eles apoiavam.
“Em nossa opinião, os prazos compatíveis com o acordo de Paris são de cinco ou dez anos, ou uma combinação de ambos”, disse um negociador da UE ao Climate Home News. “Não expressamos preferências por nenhuma dessas três opções para o por enquanto.
Li Shuo, do Greenpeace, previu que nenhuma solução seria alcançada em Madri sem um claro movimento da UE para esclarecer sua posição.
O atraso na decisão de prazos comuns foi uma “oportunidade perdida”, de acordo com Yamide Dagnet, do World Resources Institute, acrescentando que ela não entende por que uma decisão já vencida foi adiada novamente.
“Os países não poderiam concordar em um texto para enviar texto aos ministros”, diz ela. “Mesmo que houvesse tensões políticas, deveria ter sido uma decisão simples.”
Dagnet acrescenta que pouco tempo foi dado na agenda oficial para os países progredirem no assunto. “Apenas duas horas foram dadas para os países tomarem uma decisão”, diz ela. “Qual é o sentido de esperar cinco anos para tomar uma decisão sobre um ciclo de cinco anos em um momento de emergência climática?”
As partes também não concordaram com o prazo para quando uma decisão final deve ser tomada.
A UE, o Canadá e a Austrália disseram que o acordo deve ser alcançado até 2023, o mais tardar, embora possa ser feito mais cedo. A Arábia Saudita apoiou a suspensão das negociações sobre o tema até 2023, enquanto os EUA disseram que deveriam ser suspensos até 2022.
Com as negociações esgotando o tempo designado e sem tempo extra para tentar chegar a um consenso, a China invocou uma cláusula de atraso que leva a discussão para as próximas negociações climáticas em junho do próximo ano. A aprovação oficial desse resultado pode ocorrer em um plenário de encerramento a ser realizado na segunda-feira, embora mais discussões possam ocorrer neste plenário.
Mas outros países disseram que uma decisão deveria ter sido tomada nesta sessão, incluindo o pequeno estado insular, o país menos desenvolvido e os agrupamentos de países da América Latina e a Indonésia.
O Chile, que ocupa a presidência da conferência, esperava obter um resultado na chamada questão de prazos comuns. No entanto, em vez disso, o foco diplomático foi amplamente alcançado no consenso sobre as regras para um mercado internacional de carbono .
Essas negociações também fizeram um progresso lento durante a primeira semana da reunião, com novos rascunhos de texto de negociação adiados, à medida que os negociadores mantinham suas posições.
* Análise originalmente publicada na Climate Home News
* Tradução e edição de Henrique Cortez, EcoDebate.

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 09/12/2019
COP25: Tentativa de alinhar os planos climáticos globais falha, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 9/12/2019, https://www.ecodebate.com.br/2019/12/09/cop25-tentativa-de-alinhar-os-planos-climaticos-globais-falha/.