quarta-feira, 16 de outubro de 2019

Artigo analisa dificuldades de acesso à água potável e saneamento básico na Amazônia


saneamento na Amazônia
Foto: Júlia de Freitas

Tecnologias testadas enfrentam dificuldades impostas pela dinâmica de alagamentos da várzea, ecossistema amazônico, e também por questões culturais
Por Júlia de Freitas
Segundo levantamentos da ONU, cerca de 30% da população mundial não tem acesso adequado a água limpa e a serviços de saneamento e 12% ainda praticam a defecação à céu aberto. O acesso inadequado a estes serviços básicos gera, diariamente, milhares de mortes por doenças evitáveis.
No Brasil, as dificuldades de acesso à água potável não são uma particularidade do sertão nordestino. No interior da Amazônia, milhares de comunidades também sofrem com o problema. O motivo, entretanto, é paradoxalmente oposto ao principal problema enfrentado no semiárido, carente de fontes naturais de água. Em certas regiões do bioma amazônico afastadas dos grandes centros urbanos, a complicação é o excesso de água.
Isso acontece em áreas de várzea, ecossistema cuja dinâmica de cheias e secas faz milhares de comunidades ribeirinhas se constituírem de casas adaptadas, como flutuantes e palafitas que ficam sob a água durante boa parte do ano.
O estudo “Challenges for water supply and sanitation in riverine communities of central amazon floodplains” do Instituto Mamirauá analisa as principais dificuldades encontradas na busca por soluções para o acesso à água potável e saneamento básico na região de várzea do Médio Solimões, na Amazônia Central.
O principal objetivo do estudo foi avaliar os erros e acertos das tecnologias testadas para assim, se buscar novas soluções. O trabalho é de autoria dos pesquisadores Leonardo Capeleto de Andrade, João Paulo Borges Pedro e Maria Cecília Gomes.

Muita água na cheia, água longe na seca

O acesso à água superficial depende do nível dos rios mais próximos, que varia de acordo as secas e cheias na região.
Durante a época da seca, a água do rio vai para longe das casas e durante a cheia pode chegar a entrar nas mesmas, o que torna impossível qualquer método de captação de água fixo e dificulta a perfuração de poços.
A qualidade também muda.  Na seca, há maior concentração de sedimentos orgânicos, peixes e outros animais nos rios, o que pode tornar a água de aspecto esverdeado e com cheiro desagradável – imprópria para consumo humano e para banho.
Por isso, nesta época, os ribeirinhos buscam a água em córregos – em jornadas que podem levar mais de uma hora e feitas, em geral, por mulheres e crianças.
Desde a década de 1980, diferentes tecnologias vêm sendo implementadas na região para resolver a questão.
Poços com bombas manuais, por exemplo, exigem grande esforço físico e bombas com motor exigem combustível ou energia elétrica, cujo acesso nas comunidades é limitado a algumas horas por dia e proveniente de geradores movidos (também) por combustíveis como diesel e gasolina.
Ainda, a água subterrânea na região costuma ser inadequada devido à concentração natural de ferro acima do limite de potabilidade.
Como alternativa, o Instituto Mamirauá elaborou e implementou um sistema de abastecimento de água por energia solar, fonte de energia barata e sustentável.
No entanto, custos de instalação do sistema, estocagem, tratamento e distribuição da água ainda são desafios a serem superados.
Além disso, ainda é necessário o tratamento para eliminação de patógenos, agentes de doenças infecciosas.
“Os desafios nesse tratamento são acesso a equipamentos, produtos e treinamento de uso e também custos. O cloro, por exemplo, gera sabor e odor na água; filtros de areia podem não ser muito eficientes e ainda exigem manutenção recorrente, e filtros cerâmicos, conhecido como filtro de vela, são de difícil acesso nesta região. Existem vários métodos, com prós e contras, que esbarram nessas questões”, explica o engenheiro ambiental Leonardo Capeleto, pesquisador do Grupo de Pesquisa em Inovações Tecnológicas (GPIDATS) do Instituto Mamirauá, uma organização social fomentada pelo Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC).

O problema do saneamento básico

Diretamente relacionado à qualidade da água, o saneamento básico deficiente na região da Amazônia Central perpassa mais por questões culturais.
“Enquanto os desafios de abastecimento de água na várzea amazônica são específicos a esse ambiente, os desafios em saneamento são muito comuns em todo o mundo”, atesta o estudo. “É normal e natural que as pessoas não queiram lidar com os próprios dejetos”, afirma Leonardo.
Os sanitários secos são uma alternativa ecológica à defecação à céu aberto, prática ainda comum na região e que, além da poluição, implica em sérios riscos à saúde das populações. “Apesar disso, os ribeirinhos dão preferência a descarga, como nos centros urbanos”, explica.
O problema é que, diferentemente dos sanitário secos, as descargas demandam maiores custos em obras, acesso constante à água e também gera maior quantidade de resíduos para tratamento.
Por isso, defende o pesquisador, “é necessário adaptar os projetos de água às realidades locais, tanto ambientais quanto culturais e assim gerar tecnologias ambientais que sejam adequadas para e apropriadas pelos ribeirinhos amazônicos”.
in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 16/10/2019
Artigo analisa dificuldades de acesso à água potável e saneamento básico na Amazônia, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 16/10/2019, https://www.ecodebate.com.br/2019/10/16/artigo-analisa-dificuldades-de-acesso-a-agua-potavel-e-saneamento-basico-na-amazonia/.

EcoDebate - Edição 3.303 de 16 / outubro / 2019


Desejamos a todos(as) um bom dia e uma boa leitura
Compreendemos desenvolvimento sustentável como sendo socialmente justo, economicamente inclusivo e ambientalmente responsável. Se não for assim não é sustentável. Aliás, também não é desenvolvimento. É apenas um processo exploratório, irresponsável e ganancioso, que atende a uma minoria poderosa, rica e politicamente influente.” [Cortez, Henrique, 2005]

terça-feira, 15 de outubro de 2019

Amazônia – Como e porque a ciência defende a floresta. Entrevista com Carlos Afonso Nobre


floresta amazônica
Foto: EBC

IHU
Hoje, na Amazônia, é possível alcançar “um equilíbrio entre o saber tradicional e a ciência e a tecnologia modernas”, de modo a oferecer ao mundo um modelo econômico capaz de conciliar desenvolvimento e defesa da floresta.
A reportagem é de Sergio Suchodolak, publicada em L’Osservatore Romano, 11-10-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Quem está convencido disso é o cientista brasileiro Carlos Afonso NobrePrêmio Nobel da Paz em 2007 e membro da Comissão de Ciências Ambientais do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), que participa como convidado especial do Sínodo para a região pan-amazônica.
Nesta entrevista ao L’Osservatore RomanoNobre explica o seu ponto de vista, aprofundando em alguns pontos da intervenção que proferiu na terça-feira à tarde, 8 de outubro, perante a assembleia.

Eis a entrevista.

O senhor lembrou aos Padres sinodais que a Amazônia – descrita não como “pulmão do planeta”, mas como “coração biológico” da Terra – está cronicamente ameaçada, mas a ganância do homem parece não ter limites. Na sua opinião, é possível conciliar floresta e agricultura (“agroflorestal”), sem comprometer para sempre a fertilidade do território?
Sim, é possível. Se levarmos em consideração os 11 mil anos de presença humana na Amazônia, vemos que todos os povos indígenas desenvolveram ao longo do tempo uma forma de recurso aos produtos da fortuna sem jamais destruí-la. Podemos dizer que eles “antropizaram” a floresta. Hoje, a floresta pluvial amazônica possui milhares de produtos aos quais os indígenas recorrem, em quantidades muito maiores do que no período anterior à presença humana no seu território. E a floresta continua existindo sem a extinção de qualquer espécie.
Com isso, podemos aprender uma lição para melhorar a qualidade de vida também de outros povos, não apenas das populações indígenas e tradicionais. A ciência moderna desenvolveu os chamados sistemas agroecológicos para tornar as florestas mais densas em algumas espécies, aumentando assim o seu valor econômico. Essas agroflorestas já começaram a garantir maior bem-estar às famílias que promovem a agricultura em nível local. Por exemplo, existem sistemas que produzem açaí, castanhas, cacau e babaçu. Esses sistemas são muito mais lucrativos do que se a floresta fosse substituída pela criação de bovinos ou pelo cultivo de soja e até mais lucrativos do que a própria mineração. No entanto, embora essas famílias tenham melhorado as suas vidas, ainda não têm uma renda suficiente para alcançar a classe média.
Nesse ponto, devemos dar o próximo passo: isto é, levar a ciência moderna a fazer com que esses produtos florestais adquiram maior valor. Além disso, existem milhares de produtos florestais que não são consumidos nos mercados fora da Amazônia e que poderiam realmente agregar um valor muito maior à economia dessas famílias, até mesmo com o extrativismo. Trata-se de um modelo de desenvolvimento totalmente viável, com os instrumentos de que dispomos hoje, até porque promove um equilíbrio entre o saber tradicional e a ciência e a tecnologia modernas.
Referindo-se à “quarta revolução industrial”, o senhor afirmou que tecnologias avançadas podem ajudar a proteger não apenas esse, mas também outros ecossistemas do planeta. Como a ciência pode intervir concretamente para superar a ameaça a essa região?
As tecnologias da “quarta revolução industrial” do século XXI já estão dominando o mundo e podem ser aplicadas porque são amigáveis, duráveis e baratas, à disposição de qualquer um. E são capazes de alcançar o coração da floresta. Dessa forma, elas criam a possibilidade de uma exploração sustentável dos produtos da floresta “em pé” e tornam as populações amazônicas independentes da tecnocracia. Elas darão um valor agregado aos produtos das comunidades e melhorarão a qualidade da sua vida.
Como os governos dos países amazônicos podem agir em conjunto, ancorados na lei, para proteger os povos indígenas, levando-os a assumir uma participação mais ativa na construção da sua própria história?
Existe uma necessidade realmente urgente de democracia, a ser implementada nos países amazônicos. As nossas democracias são realmente imperfeitas, pois a população elege com as melhores intenções os seus governantes, que, depois, nem sempre a representam. Mais de 80% dos políticos desses países parecem buscar principalmente seus próprios interesses, incluindo os interesses econômicos que se escondem atrás da destruição da floresta.
Na sua opinião, o “desenvolvimento sustentável”, às vezes abusado, pode ser uma solução viável em vista do bem-estar dessas populações, sem fazê-las perder a riqueza das suas próprias culturas e tradições?
Um elemento essencial do desenvolvimento sustentável é a união entre o lucro econômico e a manutenção dos serviços ecossistêmicos florestais, que representa a própria existência da floresta. A busca desse equilíbrio é possível e desejável. E esse é o caminho que devemos seguir na Amazônia.
Para o Papa Francisco, especialmente na Laudato si’, tudo está interligado, e, se a visão integrada “Deus-homem-mundo” não for devidamente respeitada, a criação poderia perder para sempre a sua beleza original. Como representante da comunidade científica internacional, o senhor concorda com essa visão?
A visão da casa comum tem grande força, é emblemática e simbólica. E hoje vemos os enormes riscos que a casa comum amazônica corre. É por isso que uma visão holística, como a do Papa Francisco, é tão importante, porque devemos estar cientes de que, se não lidarmos com a Amazônia hoje, não haverá futuro para ela.
Em 2007, o senhor recebeu o Prêmio Nobel da Paz por ter contribuído para “difundir os conhecimentos sobre as mudanças climáticas causadas pelo homem”. Qual é o denominador comum entre paz e ambiente?
Existe um vínculo muito claro entre a paz e o ambiente. Por exemplo, vemos que a urbanização no mundo continua gerando uma pobreza incrível, especialmente nas grandes cidades dos países em desenvolvimento, também na região amazônica. Essa desordem que levamos para as grandes cidades causa uma perda de qualidade de vida e, portanto, da própria felicidade, e isso provocou enormes desequilíbrios, como a criminalidade e a violência, que levaram à criação de um tecido urbano no qual a ausência de paz é palpável.
(EcoDebate, 15/10/2019) publicado pela IHU On-line, parceira editorial da revista eletrônica EcoDebate na socialização da informação.
[IHU On-line é publicada pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos Unisinos, em São Leopoldo, RS.]

Doenças infecciosas na vida marinha estão relacionadas a décadas de aquecimento do oceano


corais
Foto: EBC

Novas pesquisas mostram que mudanças de longo prazo em doenças de espécies oceânicas coincidem com décadas de mudanças ambientais generalizadas.

Redação EcoDebate
O estudo, “Increases and decreases in marine disease reports in an era of global change“, foi publicado na Proceedings of Royal Society B .
A compreensão das tendências oceânicas é importante para avaliar as ameaças atuais aos sistemas marinhos, e as doenças são um importante sentinela da mudança, de acordo com o autor sênior Drew Harvell, professor de biologia marinha na Universidade de Cornell.
“Os aumentos e diminuições de doenças podem ser más notícias”, disse a principal autora Allison Tracy, que estudou com Harvell. “As mudanças de longo prazo na doença que vemos aqui podem resultar da pressão antropogênica sobre plantas e animais no oceano”.
Os pesquisadores examinaram os relatórios de doenças infecciosas marinhas de 1970 a 2013, que transcendem as flutuações de curto prazo e as variações regionais. Eles examinaram registros de corais, ouriços, mamíferos, decápodes, peixes, moluscos, tubarões, raias, ervas marinhas e tartarugas.
Para corais e ouriços, os relatos de doenças infecciosas aumentaram no período de 44 anos. No Caribe, os crescentes relatos de doenças de corais se correlacionaram com eventos de aquecimento. É sabido que o branqueamento de corais aumenta com o aquecimento, mas Harvell disse que eles estabeleceram uma conexão de longo prazo entre o aquecimento e as doenças dos corais.
“Finalmente, associamos um assassino de coral como uma doença infecciosa a ataques repetidos de aquecimento ao longo de quatro décadas de mudança”, disse ela. “Nosso estudo mostra que os relatórios de doenças infecciosas estão associados a anomalias de temperatura quente em corais em uma escala multidecadal”.
Esses resultados melhoram a compreensão de como os ambientes em mudança alteram as interações das espécies e fornecem uma base sólida para a saúde da vida marinha no período estudado.
Referência:
Increases and decreases in marine disease reports in an era of global change
Allison M. Tracy, Madeline L. Pielmeier, Reyn M. Yoshioka, Scott F. Heron and C. Drew Harvell
Published:09 October 2019 https://doi.org/10.1098/rspb.2019.1718

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 15/10/2019
Doenças infecciosas na vida marinha estão relacionadas a décadas de aquecimento do oceano, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 15/10/2019, https://www.ecodebate.com.br/2019/10/15/doencas-infecciosas-na-vida-marinha-estao-relacionadas-a-decadas-de-aquecimento-do-oceano/.