quarta-feira, 1 de julho de 2020

EcoDebate - Edição 3.462 de 01/ julho / 2020

Desejamos a todos(as) um bom dia e uma boa leitura O Brasil fecha 1,487 milhão de empregos formais entre março e maio de 2020 Manaus é a metáfora do saneamento privatizado Reduzir desigualdades. Se não agora, quando? Pesquisadores revelam a conexão da poluição do ar com a mortalidade infantil Ásia supera Europa na geração de energia solar flutuante, diz relatório Empresas precisam considerar questões ambientais e sociais na retomada pós-pandemia “Compreendemos desenvolvimento sustentável como sendo socialmente justo, economicamente inclusivo e ambientalmente responsável. Se não for assim não é sustentável. Aliás, também não é desenvolvimento. É apenas um processo exploratório, irresponsável e ganancioso, que atende a uma minoria poderosa, rica e politicamente influente.” [Cortez, Henrique, 2005]

terça-feira, 30 de junho de 2020

Covid-19 – A propósito de cloroquina, medicina, heparina e tubaína, artigo de Momtchilo Russo

[Jornal da USP] O pior da pandemia viral atual (covid-19) é a ignorância em não seguirmos as recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS) e o que outros países europeus fizeram para evitar a catástrofe que ora se instala no Brasil, com o elevado número de mortes. Cloroquina e hidroxicloroquina são fármacos usados na prevenção e tratamento da malária, uma doença causada por um protozoário e transmitida pela picada de mosquitos. Estes fármacos sintéticos foram baseados no princípio ativo do quinino, uma substância natural amarga extraída da casca de uma árvore encontrada no Peru. Um fato anedótico que uso para ilustrar a aula de malária relaciona-se com os três problemas principais que os colonizadores ingleses tinham na Índia: mosquitos, calor e malária. Então eles inventaram uma bebida que resolvia os três problemas de uma só vez. Gim para deixar de se preocupar com as picadas dos mosquitos; água tônica com gelo para matar a sede e aplacar o calor; e quinino para matar o parasita causador da malária. Ou seja, uma solução perfeita para os três problemas. Em 1918, o uso de quinino foi recomendado para combater o vírus influenza responsável pela epidemia da gripe espanhola e, posteriormente, a cloroquina, nos surtos episódicos de influenza, sem terem a sua eficácia comprovada. O uso de hidroxicloroquina na covid-19 partiu de uma observação do médico francês Didier Rault, de Marselha, que notou melhora em alguns pacientes. Baseado nessa observação, o grupo do dr. Rault publicou um trabalho sobre o efeito benéfico do tratamento da hidroxicloroquina combinada com o antibiótico azitromicina na covid-19, porém o trabalho foi feito com número reduzido de pacientes e com problemas na análise estatística devido à retirada de alguns pacientes na análise dos dados, sofrendo críticas da comunidade científica, o que resultou, a pedido dos próprios autores, na retirada da publicação desse trabalho. Um dos problemas iniciais com o uso da cloroquina é que faltavam relatos concretos sobre sua eficiência na covid-19. Como a maioria dos pacientes, quase 90%, se recuperam da infecção, fica difícil determinar o efeito da cloroquina. Esse tipo de situação, quando não se tem certeza do que realmente funciona numa determinada doença, abre campo ao charlatanismo. Hoje há vários estudos que concluíram que tratamento com cloroquina ou hidroxicloroquina não é benéfico na covid-19, pelo contrário, pode até ter um efeito deletério. Portanto, recomendar o seu uso, como faz atualmente o Ministério da Saúde, fere um princípio básico da medicina, que é primum non nocere, ou seja, não infringir ao paciente danos desnecessários. Há um ditado na medicina que diz: “o paciente pode se curar com, sem e apesar do médico”. Apesar do médico se refere à possível ação iatrogênica, que são complicações resultantes do tratamento médico. Por causa disso, os médicos atuais seguem protocolos baseados em evidências. A recomendação do uso da cloroquina por três presidentes que compartilham a ignorância em relação ao mecanismo de ação da cloroquina é ilustrativa. Em comum, os três não têm nenhuma formação profissional ou conhecimento científico para opinar na medida que não entendem de vírus nem de terapia. O presidente do Brasil segue o presidente Trump, que preconizava e tomava cloroquina. Por outro lado, o presidente Maduro, da Venezuela, também defende o seu uso indicando que a defesa da cloroquina não é uma primazia de um tipo de governo. A defesa da cloroquina lembra o caso Lysenko, ministro da Agricultura na época de Josef Stalin. Lysenko estava convencido de que a genética de Mendel (leis baseadas em cruzamento de plantas que determinam a herança genética de pais para filhos) era uma teoria burguesa e demitiu todos os cientistas que a apoiavam. A consequência disso foi sentida na agricultura da União Soviética, que colapsou. Analogamente, foram afastados os ministros da Saúde do Brasil que se recusaram a indicar a cloroquina e/ou o fim do distanciamento social e até hoje não foram substituídos, o que se traduziu num aumento exponencial no número de internações hospitalares em algumas cidades, levando ao colapso o Sistema Único de Saúde. O uso da cloroquina no Brasil virou um problema ideológico até entre docentes e pesquisadores. Há alguns meses, foi redigido um documento endereçado ao ministro da Saúde e assinado por 31 pesquisadores pedindo urgência na aplicação da cloroquina. Chama a atenção que os signatários dessa carta pertencem a um organismo denominado Docentes pela Liberdade (DPL), como se houvesse professores e pesquisadores contrários a essa causa. Em uma visita ao site do DPL, verifica-se que o grupo se autodefine como: apartidário, formado por docentes e profissionais de qualquer área, cujo interesse é recuperar a qualidade da educação no Brasil, romper com a hegemonia da esquerda e combater a perseguição ideológica. Esse documento foi publicado no site Brasil Sem Medo, que tem em seu conselho editorial Olavo de Carvalho, guru do presidente e de seus filhos. Não à toa, parte da diretoria do DPL foi contratada para trabalhar em diferentes postos do governo. Ou seja, ao contrário do que afirma em seu site, DPL é um grupo partidário identificado com o governo atual. Lamentavelmente, o governo brasileiro ignorou um achado importante feito pela médica Elnara Marcia Negri, do Hospital Sírio-Libanês e da Universidade de São Paulo, mostrando o efeito benéfico da heparina, uma droga anticoagulante, na covid-19. Igualmente relegado foi o avanço do conhecimento na covid-19 feito por pesquisadores brasileiros do Departamento de Patologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), coordenado pela professora Marisa Dolhnikoff, mostrando que o tromboembolismo (coagulação exagerada do sangue) está associado com a patologia da covid-19. Inclusive, a orientação atual dos médicos – que também merecem ser destacados – do Hospital das Clínicas da FMUSP é utilizar heparina. Vale lembrar que um tipo de heparina na covid-19 foi também desenvolvido no Brasil pelo grupo da dra. Helena Nader da Unifesp. Tampouco um teste que identifica a presença do vírus desde o primeiro dia da infecção, desenvolvido no Hospital Albert Einstein, foi destacado pelo governo. Além dessas, inúmeras iniciativas inovadoras das universidades brasileiras foram ignoradas, incluindo as iniciativas do meu instituto (ICB/USP), que estabeleceu um teste sorológico para covid-19 ultrassensível. Para finalizar, o presidente brasileiro cometeu um erro e um ato falho quando afirmou que quem é de direita toma cloroquina e quem é de esquerda toma Tubaína – porque a esquerda não toma Tubaína, quem toma Tubaína é o povo. Tubaína tem apelo popular devido ao baixo custo. Ao associar a Tubaína ao que ele mais odeia, que é a esquerda, o presidente revela, por um ato falho, o seu viés de classe, qual seja, o seu desprezo pelo povo brasileiro ao se referir à Tubaína de forma pejorativa. A política atual do Ministério da Saúde em insistir na cloroquina e ser contra o isolamento social é, respectivamente, uma charlatanice e uma excrecência quando comparada ao que se preconiza na OMS e na maioria dos países. Essa orientação capitaneada pelo presidente levará o Brasil logo mais ao topo de óbitos. A culpabilidade dessa catástrofe deve ser imputada a alguém. Quem é o responsável? Quem vai julgar a charlatanice da cloroquina? Quando os culpados serão julgados por atos necropolíticos? Qual tribunal irá julgá-los? O que precisamos fazer para reverter essa tragédia anunciada? Por Momtchilo Russo, professor titular do Departamento de Imunologia do ICB/USP e do Departamento de Moléstias Infecciosas da FMUSP Do Jornal da USP, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 30/06/2020

Desmatamento no Cerrado afeta o clima e pode reduzir a produção de milho no Brasil

Como o desmatamento e a agricultura estão alterando o clima do Cerrado Deforestation in the Cerrado affects the climate and may reduce corn production in Brazil Dartmouth College* O Brasil é um dos três principais produtores mundiais de soja e milho, e seu setor agrícola é responsável por um quinto da economia do país. As práticas de desmatamento e limpeza de terras têm sido associadas a reduções na biodiversidade e aumentos de temperatura, fluxo de corrente, ocorrência de incêndios e emissões de dióxido de carbono. Segundo um estudo de Dartmouth publicado na Nature Sustainability , essas práticas de limpeza de terras no Brasil também estão alterando o clima e podem reduzir significativamente a produção de milho. O estudo examina o Cerrado, um bioma localizado no coração do Brasil, onde a maioria da soja e milho para exportação é cultivada. O Cerrado brasileiro é muito menos protegido que a Amazônia. Pesquisas anteriores descobriram que a Amazônia está sendo salva às custas do Cerrado. Se você possui terras na Amazônia, legalmente, é obrigado a proteger 80% das terras; no entanto, se você possui terras no Cerrado, precisará proteger apenas 20% da terra. Como resultado, apenas 3% de todo o Cerrado é protegido legalmente. Para examinar os impactos do agronegócio e das mudanças climáticas nas principais áreas agrícolas do Brasil, os pesquisadores usaram um modelo climático regional do Centro Nacional de Pesquisa Atmosférica. Eles executaram o modelo durante um período de 15 anos, de 2000 a 2015, usando seis cenários diferentes de cobertura da terra: Brasil antes do desmatamento, Brasil com desmatamento observado em 2016, Cerrado com apenas soja cultivada em uma estação (cultivo único) , Cerrado com soja e milho cultivados na mesma estação (corte duplo) e desmatamento na Amazônia são estados com corte único e corte duplo. Nesta região, a soja é plantada como a colheita primária e o milho é a colheita secundária. A equipe comparou cada um dos cenários ao Brasil antes da limpeza da terra. Eles examinaram diferentes variáveis, incluindo a evapotranspiração – quanta água é reciclada de volta para a atmosfera, o início e o final da estação chuvosa, as chuvas do Cerrado e da Amazônia e os limites críticos de temperatura agrícola. Soja e milho no Brasil dependem de chuvas. Apenas 6% das terras cultivadas no Brasil são irrigadas. Menos árvores devido ao desmatamento reduzem a evapotranspiração, que diminui a água reciclada de volta na atmosfera e pode levar a menos chuvas. Para investigar como as mudanças climáticas devido ao desmatamento afetam a produção de soja e milho, os pesquisadores usaram um modelo estatístico de colheita baseado nas relações observadas entre clima e produtividade. Para que o milho prospere, as noites devem ser frias. Noites acima de 24 graus Celsius (referidas neste estudo como “noites quentes”) podem danificar o milho. O estudo fornece evidências de que o desmatamento degradou o clima no Cerrado brasileiro, uma região que depende da produção de sequeiro. Os dados revelaram as seguintes conclusões principais: * Todos os cenários de limpeza de terras continham significativamente mais dias de estação de crescimento com temperaturas superiores à temperatura crítica para o cultivo bem-sucedido de milho. * Com as reduções nas taxas de evapotranspiração, o balanço água / energia é afetado significativamente em todos os cenários de limpeza do solo, principalmente durante períodos importantes de desenvolvimento da colheita. * Os resultados demonstraram que, com noites mais quentes (24+ graus Celsius), a produção de milho foi reduzida de 6 a 8% quando comparada com os anteriores cenários de limpeza de terras. O cenário mais conservador de limpeza de terras demonstrou que havia oito noites mais quentes do que antes da limpeza, em comparação com 20 a 30 noites mais quentes no cenário mais extremo. Os rendimentos da soja não foram afetados, mas a soja é muito mais resistente a temperaturas mais altas. “Nossas descobertas revelam como as práticas de desmatamento no Cerrado brasileiro está minando a produção agrícola de sequeiro, que é uma das principais razões pelas quais o Cerrado é desmatado”, explicou a coautora Stephanie A. Spera , professora assistente de geografia e ambiente na Universidade de Richmond, que era pós-doutorado no Instituto Neukom de Ciência da Computação em Dartmouth na época do estudo. Sob o presidente brasileiro Jair Bolsonaro, o desmatamento no Brasil é o mais alto desde 2008, já que o desmatamento na Amazônia aumentou 55% de janeiro a abril de 2019, em comparação com o mesmo período do ano anterior, e as ações de fiscalização do desmatamento são bastante reduzidas. A pandemia do COVID-19 reduziu ainda mais a fiscalização do desmatamento. “A Amazônia e o Cerrado menos conhecido são incrivelmente vulneráveis aos impactos do clima. Quanto tempo essas regiões serão capazes de sustentar a produção agrícola sob a mudança do uso da terra é uma questão essencial para o Brasil e o suprimento mundial de alimentos”, acrescentou Spera. * Do Dartmouth College, com tradução e edição de Henrique Cortez, EcoDebate. Referência: Spera, S.A., Winter, J.M. & Partridge, T.F. Brazilian maize yields negatively affected by climate after land clearing. Nat Sustain (2020). https://doi.org/10.1038/s41893-020-0560-3 in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 30/06/2020

EcoDebate - Edição 3.462 de 30/ junho / 2020

Desejamos a todos(as) um bom dia e uma boa leitura As Fases do Ciclo de Vida do Produto Baseado no Marketing Sustentável para Empresas de Palmito no Brasil Ignorância e incompetência: grandes aliadas do coronavírus Covid-19 – A propósito de cloroquina, medicina, heparina e tubaína A tragédia do crescimento, uma metafísica do neoliberalismo As máscaras ajudam ou atrapalham na hora do exercício físico? Desmatamento no Cerrado afeta o clima e pode reduzir a produção de milho no Brasil “Compreendemos desenvolvimento sustentável como sendo socialmente justo, economicamente inclusivo e ambientalmente responsável. Se não for assim não é sustentável. Aliás, também não é desenvolvimento. É apenas um processo exploratório, irresponsável e ganancioso, que atende a uma minoria poderosa, rica e politicamente influente.” [Cortez, Henrique, 2005]

segunda-feira, 29 de junho de 2020

Saiba em quais lugares o contágio pelo novo coronavírus pode ser maior

Estudo mostra que interação direta aumenta risco de contrair covid-19 Um estudo feito pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) tornou mais fácil identificar lugares onde, segundo pesquisadores, a chance de ser infectado pelo vírus SARS-Cov-2, responsável pela pandemia de covid-19, é bem maior. Os resultados parecem comprovar o que já é protocolo sanitário em todo o Brasil: a residência é o lugar mais seguro para as pessoas nesse momento. A equipe de virologistas responsáveis pelo levantamento coletou amostras de lugares públicos de alta circulação na cidade de Belo Horizonte. O método utilizado foi parecido com os testes realizados para detectar a presença do vírus no organismo: o swab – um tipo de cotonete alongado que, quando friccionado contra superfícies, coleta o material em repouso – foi usado em pontos de ônibus, corrimãos, entradas de hospitais e até mesmo bancos de praças. Das 101 amostra colhidas, 17 continham traços do novo coronavírus. “Para se avaliar o risco de um determinado local, levamos em consideração três elementos: o número de pessoas que podem portar a infecção, o nível de aglomeração esperado nos ambientes e a chance de haver pessoas com a infecção no local”, explicou o infectologista e professor de medicina da UFMG, Matheus Westin. O médico lembra, ainda, que objetos também podem ter partículas infecciosas inertes. Frutas, verduras, caixas e outros itens que ficam expostos podem carregar o vetor de infecção. O estudo classificou as áreas de risco de acordo com os três pilares sanitários identificados pelos médicos. Veja o infográfico: Infográfico mostra a escala de perigo de contaminação por covid-19. Linha de frente O estudo mostrou também que profissionais que trabalham na linha de frente de combate ao novo coronavírus estão muito mais suscetíveis ao contágio, já que a proximidade com infectados é inevitável. “Todas as formas de assistência direta envolvem proximidade. Desde os cuidados primários, como administrar medicação ou conversar com o paciente, aos procedimentos invasivos, como ajustar o ventilador mecânico, aspirar as vias aéreas ou entubar o paciente, tudo isso cria um grande risco de transmissão”, argumenta Westin. Segundo o médico e professor, o investimento em equipamentos de proteção individual (EPIs) de qualidade é crucial, e pode definir se o profissional médico será contaminado ou não ao tratar pacientes. “Boa parte desse equipamento é de uso único. A troca deve ser periódica. Mas não dá pra esquecer que o profissional de saúde, ao chegar em casa, deve lavar bem com água e sabão as vestimentas hospitalares para remover traços de contaminação das roupas”, informou. Por Pedro Ivo de Oliveira, da Agência Brasil, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 29/06/2020

As cidades mais envelhecidas do Brasil não são as mais atingidas pela covid-19, artigo de José Eustáquio Diniz Alves

[EcoDebate] A pandemia do novo coronavírus causa mais vítimas fatais entre a população idosa. Na China 80% dos óbitos foram pessoas de 60 anos e mais, no Brasil são 73%. Alguém poderia imaginar que os municípios mais envelhecidos (com maior proporção de idosos na população) seriam os mais atingidos. Mas não é bem assim que tem ocorrido, como veremos a seguir. O envelhecimento populacional ocorre em função da transformação da estrutura etária que acontece em função do aumento da proporção de idosos no conjunto da população e a consequente diminuição da proporção de jovens. Populações envelhecidas são uma novidade na história do mundo e do Brasil. No passado, a estrutura etária era rejuvenescida em todos os lugares, pois a esperança de vida era baixa e os casais tinham que gerar grande número de filhos para se contrapor ao elevado número de óbitos precoces. Porém, a partir do momento em que as taxas de mortalidade e natalidade declinaram, teve início um processo de mudança da estrutura etária, com redução imediata da base da pirâmide e um alargamento, no longo prazo, do topo da distribuição de sexo e idade. Desta forma, o envelhecimento é o resultado, esperado e inexorável, da transição demográfica. Uma maneira de medir o envelhecimento populacional é por meio do Índice de Envelhecimento (IE), que é a razão entre o número de pessoas idosas sobre os jovens (crianças e adolescentes). Trata-se de uma razão entre os componentes extremos da pirâmide etária. O IE pode ser medido pelo número de pessoas de 60 anos e mais para cada 100 pessoas menores de 15 anos de idade, segundo a seguinte fórmula: Índice de Envelhecimento (IE) Uma população é considerada idosa quando o topo da pirâmide é maior do que a sua base, ou seja, quando o Índice de Envelhecimento (IE) é igual ou superior a 100. Como já dito, o envelhecimento populacional é um fenômeno novo na história da humanidade. O primeiro país do mundo a ter a quantidade de idosos (60 anos e mais) maior do que a quantidade de jovens com menos de 15 anos foi a Suécia, em 1975. O número de países idosos passou para 3 em 1980 e chegou a 52 países em 2015. O Brasil ainda é considerado um país jovem, mas em processo acelerado de envelhecimento. No ano 2010, segundo as projeções do IBGE (revisão 2018), havia 48,1 milhões de jovens de 0 a 14 anos e 20,9 milhões de idosos com 60 anos e mais. O Índice de Envelhecimento (IE) era de 43,4 idosos para cada 100 jovens, conforme mostra o gráfico abaixo. Em 2018, o número de jovens caiu para 44,5 milhões e o de idosos subiu para 28 milhões, ficando o IE em 63 idosos para cada 100 jovens. O Brasil vai se tornar um país idoso em 2031, quando haverá 42,3 milhões de jovens (0-14 anos) e 43,3 milhões de idosos (60 anos e mais). Nesta data, pela primeira vez, o IE será maior do que 100, ou seja, haverá 102,3 idosos para cada 100 jovens (veja a coluna vermelha no gráfico). Mas o envelhecimento populacional continuará sua marcha inexorável ao longo do século XXI. No ano de 2055, as projeções do IBGE indicam o montante de 34,8 milhões de jovens (0-14 anos) e de 70,3 milhões de idosos (60 anos e mais). O IE será de 202 idosos para cada 100 jovens. Ou seja, haverá mais do dobro de idosos do que jovens. diminuição da população jovem (0 a 14 anos) e do aumento da população idosa (60 anos e mais) ao longo do século XXI O gráfico acima não deixa dúvidas quanto à diminuição da população jovem (0 a 14 anos) e do aumento da população idosa (60 anos e mais) ao longo do século XXI. Durante mais de 500 anos, o Brasil foi um país com uma estrutura etária jovem, mas a partir de 2029 será um país com uma estrutura etária idosa. E não haverá mais volta. O futuro do Brasil é ser um país “grisalho”. Mas este processo de envelhecimento do país não acontece de forma uniforme, pois existem municípios que já estão mais avançados na transformação da estrutura etária e outros que ainda possuem uma estrutura muito rejuvenescida. Em geral, os municípios que foram pioneiros na transição da fecundidade também são pioneiros no envelhecimento. Mas a estrutura etária também é afetada pela migração, assim há municípios envelhecidos em função da perda de jovens e/ou do ganho de idosos. A tabela abaixo, com base na estimativa populacional municipal de 2015, do IBGE, mostra os 10 municípios com a estrutura etária mais envelhecida (maior IE) do país. Nota-se que os 10 municípios recordistas do envelhecimento estão todos no Rio Grande do Sul (RS) e são municípios com menos de 5 mil habitantes. O município de Coqueiro Baixo com apenas 1.563 habitantes tinha, em 2015, 660 idosos (de 60 anos e mais) e apenas 94 jovens (de 0 a 14 anos). Ou seja, tinha 7 vezes mais idosos do que jovens e o IE era de 702,1 idosos para cada 100 jovens. Forquetinha era o segundo município mais idoso (com IE de 480,2) e Cotiporã o décimo município mais idoso do país (com IE de 233). O Rio grande do Sul é um dos estados brasileiros pioneiros na transição da fecundidade. Mas o alto envelhecimento populacional destes 10 municípios pequenos, provavelmente, foi reforçado pela perda de população jovem que procura os grandes centros em busca de oportunidades de estudo e/ou trabalho. os 10 municípios com a estrutura etária mais envelhecida (maior IE) do país Segundo o Ministério da Saúde, até 24 de junho de 2020, Coqueiro Baixo, Rolador e Capão Bonito do Sul não registraram nenhum caso da covid-19. Forquetinha registrou 1 caso, Cruzaltense 7 casos, Canudos do Vale 4 casos, Santa Cecília do Sul 14 casos, Coronel Pilar 1 caso, Cotiporã 7 casos e nenhuma morte entre estes municípios. Santa Teresa teve 12 casos e 1 morte. A tabela abaixo, também com base nas estimativas do IBGE, para 2015, mostra os 10 municípios mais populosos com a estrutura etária mais envelhecida (IE acima de 100) do país. Niterói, no Rio de Janeiro, com quase meio milhão de habitantes, tinha 96,8 mil idosos (60 anos e mais) para 80 mil jovens (0 a 14 anos), com um IE de 120,9 idosos para cada 100 jovens. Santos, em São Paulo, com população de 433,9 mil habitantes, tinha 93,4 mil idosos e 73,3 mil jovens, com IE de 127,4. São Caetano do Sul, em São Paulo, a cidade com maior IDH do país, tinha 33,7 mil idosos e 25 mil jovens, em 2015, com IE de 134,6. Em décimo lugar, Socorro, em São Paulo, com 39,5 mil habitantes, tinha 7,5 mil idosos e 7,1 mil jovens, com IE de 105,1. os 10 municípios mais populosos com a estrutura etária mais envelhecida (IE acima de 100) do país Niterói é, entre as grandes cidades do país (mais de 40 mil habitantes) a mais envelhecida. Mas como mostra a tabela abaixo não foi a mais atingida pela pandemia. O coeficiente de incidência de Niterói é de 10,7 mil casos por milhão (acima da média da cidade do Rio de Janeiro), mas o coeficiente de mortalidade foi de 349 óbitos por milhão (bem abaixo da capital fluminense que tem uma estrutura etária menos envelhecida). Niterói é, entre as grandes cidades do país (mais de 40 mil habitantes) a mais envelhecida Para efeito de comparação, a tabela abaixo mostra os 10 municípios com a estrutura etária mais rejuvenescida (menor IE) do país. Nestes 10 municípios, o número de idosos não chega nem a 10% dos jovens. Por exemplo, Ipixuna, no Amazonas, com uma população total de 26,8 mil habitantes, tinha 11,5 mil jovens de 0 a 14 anos e somente 1,1 mil idosos (com 60 anos e mais) e um IE de 9,4 idosos para cada 100 jovens. O município de Jordão, no Acre, com população total de7,5 mil habitantes, tinha 3,6 mil jovens e somente 175 idosos, com IE de apenas 4,8. Em geral, estes municípios muito rejuvenescidos tem forte presença indígena. os 10 municípios com a estrutura etária mais rejuvenescida (menor IE) do país Até o dia 23/06, Ipixuna teve 3 pessoas infectadas pelo novo coronavírus, Porto de Moz teve 392 casos e 22 mortes e Oiapoque teve 1.196 casos e 10 mortes. O contraste com os municípios mais envelhecidos é muito grande, pois há mais mortes nos municípios mais rejuvenescidos. A tabela abaixo mostra os 10 maiores municípios brasileiros com IE abaixo de 20 idosos para cada 100 jovens. Macapá, capital do Amapá, com população de 456 mil habitantes em 2015, tinha 141,6 mil jovens e apenas 24,7 mil idosos, com IE de 17,5 idosos para cada 100 jovens. Parauapebas, no Pará, com 189 mil habitantes tinha IE de 10,8 e o município de Santana, no Amapá, com 112,2 mil habitantes, tinha IE de 18. Estes 10 municípios são de tamanho médio e possuem uma estrutura etária muito rejuvenescida. os 10 maiores municípios brasileiros com IE abaixo de 20 idosos para cada 100 jovens Dos 5.570 municípios brasileiros em 2015, 531 cidades possuem Índice de Envelhecimento (IE) acima de 100, sendo, portanto, municípios envelhecidos. Em 2643 municípios o IE estava entre 100 e 50 idosos para cada cem jovens. Em 2162 municípios o IE estava entre 50 e 20 idosos para cada cem jovens. E em 234 municípios o IE estava abaixo de 20 idosos para cada cem jovens. Observa-se, portanto, que menos de 10% dos municípios brasileiros em 2015 estavam classificados como cidades onde a população tem uma estrutura etária envelhecida. Porém, como visto no primeiro gráfico, o Brasil está em processo acelerado de envelhecimento e em 2029 terá, na média, uma estrutura etária envelhecida. Assim, a tendência para as próximas décadas é que um número cada vez maior de cidades passe a ter um Índice de Envelhecimento acima de 100. O envelhecimento é inevitável e o Brasil precisa se preparar para saber lidar com esta nova realidade demográfica. Como mostrei no artigo “A pandemia da covid-19 e o envelhecimento populacional no Brasil” (20/04/2020), a região mais atingida no Brasil pela covid-19 foi a região Norte que é a que possui a estrutura etária mais rejuvenescida, enquanto o Sul, que é a região mais envelhecida, foi a menos impactada pela pandemia. Isto mostra que a demografia não é destino e que existem outras variáveis que explicam o impacto do Sars-CoV-2 sobre a população. O importante a destacar é que os municípios mais envelhecidos não foram os mais impactados pela pandemia. Referência: ALVES, JED. A pandemia da covid-19 e o envelhecimento populacional no Brasil, Portal do Envelhecimento, 20/04/2020 https://www.portaldoenvelhecimento.com.br/a-pandemia-da-covid-19-e-o-envelhecimento-populacional-no-brasil/ Nota da redação: sobre o tema envelhecimento populacional sugerimos que leia, também: Envelhecimento Populacional Continua E Não Há Perigo De Um Geronticídio Apesar Da Covid-19 As Tendências Do Envelhecimento Populacional Permanecem O Envelhecimento Populacional Compromete O Crescimento Econômico No Brasil? O Envelhecimento Populacional No Brasil O Envelhecimento Populacional Segundo As Novas Projeções Do IBGE As Diferentes Velocidades Do Envelhecimento Populacional in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 29/06/2020

EcoDebate - Edição 3.461 de 29/ junho / 2020

Desejamos a todos(as) um bom dia e uma boa leitura As cidades mais envelhecidas do Brasil não são as mais atingidas pela covid-19 Biodiversidade: a peça mais importante para um futuro sustentável O novo normal pós pandemia: procurando caminhos Marco regulatório do saneamento é absolutamente silencioso e omisso em relação aos direitos humanos Saiba em quais lugares o contágio pelo novo coronavírus pode ser maior “Compreendemos desenvolvimento sustentável como sendo socialmente justo, economicamente inclusivo e ambientalmente responsável. Se não for assim não é sustentável. Aliás, também não é desenvolvimento. É apenas um processo exploratório, irresponsável e ganancioso, que atende a uma minoria poderosa, rica e politicamente influente.” [Cortez, Henrique, 2005]