segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

Estudantes desenvolvem plástico biodegradável no projeto Meninas na Ciência

por Francimare Araújo, da Secretaria de Estado da Educação, do Esporte e da Cultura de Sergipe – fotografia  Maria Odília – 
A cerca de 40km da capital, o município de Santa Rosa de Lima, no Vale do Cotinguiba, fica localizado entre morros e extensos canaviais. Com forte impacto na cultura da cana- de-açúcar nas primeiras décadas de existência, o percurso até a sede do município é marcado por antigas casas de engenho e de um verde que só a generosa natureza pode proporcionar. É nesse contexto que quatro estudantes desenvolveram um plástico biodegradável, o chamado bioplástico, a partir da matéria-prima abundante na região: a cana-de-açúcar.
O projeto Meninas na Ciência, executado em parceria com a Universidade Federal de Sergipe (UFS), tem mudado o projeto de vida de algumas estudantes do Centro de Excelência Dr. Edélzio Vieira de Melo, unidade que oferta o Ensino Médio em Tempo Integral. Capitaneadas pela professora de Química, Laís Menezes, o projeto é articulado na própria escola com a ajuda de alguns colaboradores. Tocada pelo desejo de incentivar as garotas da escola onde leciona, Laís explica que a iniciativa parte da baixa atuação de mulheres nas ciências exatas.
A história já provou que as mulheres participaram ativamente das grandes descobertas e mudanças tecnológicas datadas há séculos. A descoberta da radioatividade pela cientista Marie Curie, no século XIX, rendeu-lhe, em 1903, o Prêmio Nobel de Física, em reconhecimento pelos extraordinários serviços obtidos em suas investigações conjuntas sobre os fenômenos da radiação, tornando-se a primeira mulher a receber a honraria.  Ainda assim, o número de cientistas envolvidas neste universo é tímido.
No tocante à química verde, área que se preocupa com a sustentabilidade do planeta, a professora Laís uniu a história do Vale do Cotinguiba com a responsabilidade socioambiental contra o descarte desenfreado de plásticos. Para tal, o plástico biodegradável está sendo executado, em fase experimental, pelas quatro integrantes do projeto.
Responsabilidade social 
O primeiro passo para a concepção do produto se dá com o recolhimento do bagaço da cana doado por uma feirante. Depois é colocado na estufa, triturado e levado ao fogo para serem acrescentadas as soluções que formam o prato, o copo, a colher e o canudinho. A professora esclarece que nessa etapa, a solução é composta de amido e farinha de trigo e derramada nos moldes, de modo que a textura se aproxime de um utensílio mais resistente. Os testes já foram realizados com glicerina, porque a ideia final, segundo a professora, é criar um canudo comestível. “Para o canudo ser comestível, ele precisa ser atraente. Não só no olhar, mas também no sabor”, disse.
O grupo de aspirante à cientista é formado pelas estudantes das três séries do Ensino Médio em Tempo Integral: Maria Eloíza, Leila Kauane, Sirley Mendonça e Eline Santana. Elas descobriram nas aulas de química um caminho de descobertas, confiança e muito estudo. Com a orientação da professora, as meninas dão aulas experimentais uma vez por mês aos colegas, que já manifestam o interesse em participar do projeto.
A formanda Leila Kauane, uma apaixonada pela magia que acontece com a combinação de substâncias, despede-se das amigas para ocupar uma das vagas de Licenciatura em Química no Instituto Federal de Sergipe (IFS). Para ela, o contato com a universidade por meio do projeto foi muito importante. “Para mim foi um pouco assustador e ao mesmo tempo inovador, porque eu estou aprendendo, inovando e ajudando essas colegas”.
Sirley Mendonça, jovem protagonista da unidade e aluna do 2º ano, foi um pouco relutante no início, mas logo se rendeu ao convite da professora e agora se encaminha para optar por uma das licenciaturas como profissão. “Nesse projeto a gente vai descobrindo e aprendendo várias coisas. A gente consegue colocar em prática o que a gente vê, não somente em sala, mas fora, na universidade”, contou.
Assim como as colegas citadas acima, Maria Eloíza e Eline Santana também já traçaram o futuro. O projeto de vida de cada uma delas envolve as ciências exatas, seja na engenharia ou na licenciatura, decisão tomada a partir da oferta de projetos que desenvolveram nas garotas o esclarecimento e, sobretudo, o empoderamento para ocuparem qualquer espaço que desejam. (#Envolverde)

O INCÔMODO DO ATIVISMO - Dal Mardondes (ENVOLVERDE)

Por Dal Marcondes, especial para a Envolverde –
O ativismo e a militância por direitos ambientais sociais e humanos são parte do processo civilizatório das sociedades e, pasmem, são uma qualificada porta de acesso para jovens no mercado de trabalho
Uma sociedade liberal e conservadora não tem espaço para ativismo da população. Não tem lugar para a insatisfação de grupos em relação a políticas públicas e demanda sociais e ambientais.
Em uma sociedade liberal ideal existem as empresas e a absoluta liberdade empreendedora, e o Estado, com as devidas amarras do “estado mínimo”. Se algo precisa ser feito, o “mercado” com suas mãos invisíveis suprirá, tal qual um pastor que cuida de seu rebanho. Não há insatisfação da sociedade que não mereça uma resposta por parte de empreendedores sempre dispostos a criar soluções, mas que se possa comprar.
Mesmo que o mercado e o empreendedorismo tenham uma imensa capacidade de ação, em um planeta cada vez mais apertado em seus limites há coisas que o mercado e os economistas insistem em chamar de “externalidades” ou mesmo em fazer uma veemente negativa em relação aos fatos.
Alguns dos temas que o “mercado” insiste em lançar para baixo do tapete são de alto impacto sobre a qualidade de vida das pessoas, a biodiversidade do planeta, alterações climáticas e mesmo a saúde da economia.
Podemos começar com um dos temas queridos das pessoas na hora de consumir e absoluto na hora de receber críticas, os plásticos. Há estimativas de que até 2050 haverá mais plásticos nos oceanos da Terra do que peixes. Além disso o plástico, em seus mais diversos formatos e composições é um dos vilões da biodiversidade, matando animais em todos os biomas do planeta.
Em seguida podemos falar do automóvel, responsável pela ocupação de mais da metade dos espaços urbanos e por apenas 27% em média da mobilidade nas grandes cidades. É, também o principal vilão da poluição urbana e da emissão de gases estufa a partir da queima de combustíveis fósseis.
Tem a carne bovina, que no Brasil é representada por um rebanho de quase 220 milhões de cabeças, há um boi para cada brasileiro. Esse rebanho é responsável por uma imensa ocupação de territórios na Amazônia, onde a média é de menos de 1 cabeça por hectare de pastagem.
Em termos de desigualdade, apenas um terço da população brasileira cumpre os requisitos de uma classe média saudável, produtiva e consumidora. O restante da população é composto por externalidades que se refletem em pobreza e necessidade de filantropia do Estado, como escolas públicas, saúde pública e bolsas de mitigação da miséria. Para o “mercado” é bom que as pessoas paguem suas despesas escolares e de saúde.
Ou seja, no Brasil de hoje mais da metade da população é apenas uma “externalidade”. O desemprego é outro exemplo de que o mercado não dá conta de oferecer qualidade de vida para toda a população. O Brasil vive um “desemprego estrutural”, provocado principalmente pelo fato de que a grande maioria dos desempregados são, na verdade, não empregáveis, por conta de má formação e/ou capacitação para o trabalho do século 21.
Para lidar com as mazelas dessa exclusão existe o ativismo social, ambiental e de direitos, que busca oferecer algum suporte para essa população que não consegue se enquadrar na economia liberal. Esse ativismo oferece comida, cria programas de apoio à produção de alimentos mais baratos e de preferência orgânicos, atua em comunidades para garantir o respeito a direitos universais que só existem nos bairros ricos, busca equilibrar o jogo para que mais gente entre os excluídos possa emergir com seus talentos em cultura, ciência e conhecimentos que ainda dependem e muito das pessoas.
O ativismo vai além da simples vontade individual, é um movimento transversal às empresas, que em sua grande maioria mantém programas de voluntariado e de financiamento a projetos de organizações não governamentais (ONGs). No campo do trabalho grande parte as empresas valorizam jovens que tem trabalhos voluntários em seus currículos. Ou seja, é uma importante porta de acesso ao mundo do trabalho.
Ativismo e militância formam parte do processo evolutivos das sociedades modernas. Negar sua importância é rastejar em direção a um passado sem direitos. (#Envolverde)

Coral Vivo caracteriza lixo marinho com estudantes sendo cientistas cidadãos

Projeto pedagógico será concluído em 2020 com escolas estaduais da Costa do Descobrimento (BA)
Por meio da adoção de metodologia estruturada pelo Projeto Coral Vivo, quatro escolas da Costa do Descobrimento estão caracterizando o lixo marinho de praias próximas às instalações escolares. Três delas participam desde 2018 e acabam de receber os principais resultados do Projeto Combate ao Lixo Marinho, com dados de um ano: o Colégio Estadual Doutor Antônio Ricaldi, de Porto Seguro, o Colégio Estadual Professora Terezinha Scaramussa e o Colégio Indígena Coroa Vermelha, de Santa Cruz Cabrália. No total, eles recolheram nesse período 16.508 itens, sendo 250 quilos de resíduos sólidos. Este ano passou a participar o Colégio Antônio Carlos Magalhães (ACM), de Arraial d’Ajuda, que receberá os resultados em 2020 – ano que esse projeto baseado em ciência cidadã será concluído por todos.
Momento de reconhecimento da Rede de Educação Coral Vivo
“A entrega dos resultados com um ano de coletas dos resíduos sólidos é um momento de reconhecimento pela importante parceria desses colégios estaduais da Costa do Descobrimento com a Rede de Educação do Projeto Coral Vivo”, avalia a bióloga Teresa Gouveia, coordenadora de Educação e Políticas Públicas do Projeto Coral Vivo, que é patrocinado pela Petrobras por meio do Programa Petrobras Socioambiental. Cada escola recebeu a equipe do Coral Vivo para a apresentação oral dos resultados e um registro em banner com gráficos e fotografias dos estudantes realizando o trabalho. Teresa destaca que o desenvolvimento dos projetos pedagógicos propicia aos alunos experiências de aprendizagem vinculadas à prática científica. Ao mesmo tempo, ocorre a sensibilização referente aos danos socioambientais decorrentes do lixo encontrado na costa e nos oceanos.
O grupo do Colégio Estadual Indígena Coroa Vermelha realizou as coletas na Praia do Macuco. No período, coletou 41kg de resíduos sólidos em um total de 5.855 itens, sendo 67,2% de plástico, 17,7% classificados como diversos, 4,4% de material de metal, 3,1% de papel e 2,5% dos itens foram bitucas. As tutoras responsáveis são as professoras Adil Moreira e Geane Bonfim. Também de Santa Cruz Cabrália, os alunos do Colégio Estadual Terezinha Scaramussa realizaram as coletas do projeto pedagógico na Praia de Arakakaí. Ao longo de 12 meses, foram coletados 3.746 itens, pesando no total 14kg. Foram 63,4% de itens de plástico, 15,6% de bitucas, 8,5% de material de metal e 8,1% de papel. A tutora responsável é a professora Silvânia Nunes Silva. Já o grupo do Colégio Estadual Doutor Antônio Ricaldi, de Porto Seguro, coletou na Praia Pitangueiras 195kg de resíduos sólidos. Foram 6.907 itens, sendo 68,9% de plástico, 7,6% de vidro, 6,8% de papel e 5,8% de bitucas. A tutora responsável é a professora Naisângela Carrilho de Oliveira. Os itens coletados foram lavados, passaram por triagem, classificação e registro como: bituca, diversos, madeira, metal, papel, plástico, vidro e têxtil.
Projeto pedagógico realizado na Praia de Arakakaí em Santa Cruz Cabrália pelo grupo do Colégio Estadual Terezinha Scaramussa
Saída de campo para coleta de lixo por alunos do Colégio Ricaldi na Praia Pitangueiras
Estratégia pedagógica baseada em literatura especializada
A estratégia pedagógica segue os Dez Princípios da Ciência Cidadã desenvolvidos pela Associação Europeia de Ciência Cidadã. Entre eles: envolver ativamente os cidadãos nas atividades científicas gerando novo conhecimento e compreensão; e produzir genuínos resultados científicos, como colocar em prática ações de conservação e usar em decisões de gestão ou políticas ambientais. Ao chegar à praia, os estudantes demarcam 100m² e recolhem os resíduos volumosos que têm 10 centímetros ou mais. E também peneiram 1m² de areia da praia em três pontos aleatórios para coletar os resíduos que estão enterrados. Além do treinamento e acompanhamento sobre como estão sendo desenvolvidos os projetos, o Coral Vivo fornece materiais como: fichas de campo e de categorização dos resíduos, luvas, sacos, fitas métricas, pranchetas e peneiras. Após os dados anotados, a maioria do material é encaminhada para a reciclagem. Os formulários foram compostos a partir de pesquisas sobre experiências e proposições para o monitoramento costeiro em literatura especializada.
Sobre o Projeto Coral Vivo
O Projeto Coral Vivo nasceu no Museu Nacional/UFRJ e é realizado por 14 universidades e institutos de pesquisa. Trabalha para a conservação e a sustentabilidade socioambiental dos recifes de coral e ambientes coralíneos. Ele é um dos seis projetos ambientais que compõem a Rede de Projetos de Conservação de Biodiversidade Marinha (Biomar), criada em 2007 pela Petrobras em parceria com o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e projetos patrocinados. São eles: Projeto Albatroz, Projeto Baleia Jubarte, Projeto Coral Vivo, Projeto Golfinho Rotador, Projeto Meros do Brasil e Projeto Tamar.
#Envolverde

domingo, 22 de dezembro de 2019

Maior vazamento de petróleo na Baía da Guanabara está prestes a completar duas décadas

O histórico do Brasil com relação aos impactos socioambientais de vazamento de petróleo não é de hoje. Em janeiro de 2000, um duto da Transpetro/Petrobras, que ligava o terminal da Ilha D’água à Refinaria Duque de Caxias (REDUC) se rompeu e foram despejados 1,3 milhão de litros de óleo na Baía da Guanabara, no Rio de Janeiro. Em dezembro de 2018, mais 60 mil litros de óleo vazaram no rio Estrela, que também desemboca na baía. Neste desastre, a Transpetro alegou que a tentativa de furto do óleo resultou no acidente. Os efeitos são significativos no ecossistema e nas vidas de cerca de 13 mil pescadores, que foram afetadas diretamente no seu meio de subsistência e são sentidos até hoje.
Foto: SindPetro
Somente agora, prestes a completar duas décadas em 18 de janeiro de 2020 – é importante frisar este período – houve uma decisão da Justiça, na 25ª Vara Cível no Rio de Janeiro, sobre a indenização por dano material, cujo autor da ação coletiva é a Federação de Pescadores do Estado do Rio de Janeiro (FEPERJ) e o réu é a Petrobras. Cada pescador atingido deverá receber em até 60 dias, o valor de R$ 7,9 mil, do qual deverão ser descontados 30% de honorários advocatícios.
Este resultado se deu em uma audiência especial de conciliação, no dia 3 de dezembro deste ano. O que a empresa está pagando são somente 45 dias em que afirma que os pescadores à época estavam com suas atividades suspensas. Esta conjuntura leva a refletir sobre como ficarão os pescadores artesanais atingidos pelos efeitos do vazamento de petróleo cru, desde agosto deste ano, na costa brasileira, que afetou o Nordeste e estados do Sudeste. Com um detalhe importante – mais de 100 dias depois, ainda não há um retorno oficial sobre autores e origem do crime ambiental, que atingiu até agora cerca de 1.000 localidades no litoral.
Pescadores artesanais, catadores de caranguejo...se manifestam em Niteroi sobre vazamento de óleo na Baía da Guanabara em 2000 (16/12/2019)
Manifestação (16/12), em Niterói. Foto: Paula Mairán
Protestos ocorrem no RJ
Centenas de pescadores artesanais do Rio de Janeiro protestam quanto ao valor não ter sido corrigido nestes anos e que a lista de beneficiários não está contemplando inúmeros pescadores artesanais, catadores de caranguejos e marisqueiros afetados em suas atividades e subsistência. Uma comissão chegou a fazer uma manifestação, no último dia 9, em frente à FEPERJ e protocolou uma representação no Ministério Público Federal, que solicita a anulação da negociação. Nesta segunda-feira (16/12), também ocorreu uma manifestação no município de Niterói, na qual manifestantes pedem revisão da lista de beneficiários e questionam o valor acordado.
Pescadores expõem questionamentos
O pescador artesanal Santelmo Rezende de Carvalho, tesoureiro da Colônia de Pesca Z1, de Ramos, afirma que a negociação tem muitos problemas. “Estamos levantando a lista dos beneficiários, que são da Z1, e a maioria dos 700 nomes que foram passados são de pessoas que já chegaram a falecer, neste período e que também tinham na faixa de 70 a 80 anos, na época. Eu, por exemplo, e outros companheiros não estamos na lista, porque havíamos feito nossa documentação de pescador no ano 2000, mas eu já pescava desde pequeno com meu pai”, explica.
E logo desabafa – “O pescador artesanal está sendo extinto e estamos sendo humilhados de todas as formas. Cada vez mais empresas de grande porte, com grandes navios, ocupam a região e já não temos mais espaço. Isso me entristece muito. Tem pessoas passando fome, crianças das famílias de pescadores catando latinhas. Os efeitos do óleo derramado ainda continuam e prejudicaram uma área importante de desova, além da poluição que atinge a Baía por todos estes anos”, fala.
Muitas dúvidas a serem esclarecidas
Para Alexandre Anderson Souza, presidente da Ahomar, este desfecho é ‘um banho de água fria’ nas comunidades pesqueiras da Baía de Guanabara. “Foi um acordo medíocre feito às escuras sem o aval dos pescadores atingidos. Depois de muito tempo de espera, vem uma esmola. Eu não sei quem é pior? Se a poluidora Petrobras, o judiciário ao aceitar este acordo ou à Federação, que se submete a isso estranhamente depois de 20 anos de silêncio. Lamentável que muitos pescadores, por necessidade, irão aceitar e nós, tristemente, lamentar, sem poder fazer nada, pois a ação não é nossa”, afirma.
Segundo Souza, a Ahomar não contesta a legitimidade de a FEPERJ fazer este acordo, já que o código de processo civil permite. “A questão é porque o acordo foi uma reunião secreta, no dia 3, e não houve uma consulta prévia com seus associados, nas colônias, com ampla divulgação, com aval deles? Por que este valor tão irrisório? Temos conhecimento de sentença em 2007, sobre este caso, com valor bem superior ao acordado individualmente. Nós estávamos lá durante o vazamento em 2000. Há uma grande quantidade de pescadores artesanais principalmente da região de Magé, por exemplo, que já estavam associados, em não estão nesta lista atual”, diz. A entidade vai solicitar esclarecimentos sobre este acordo e as discrepâncias encontradas na lista.
Para Márcia Regina Correa dos Santos, diretora-presidente da Associação de Caranguejeiros e Amigos dos Mangues de Magé, que também vivenciou o vazamento no ano 2000 e suas consequências até hoje, há muitos pontos a serem esclarecidos. “Nesta lista atual de beneficiários, uma grande parte dos pescadores tinha na faixa de 80 anos na época e centenas de coletores de caranguejos não estão contemplados. Muitas pessoas já morreram, outras adoeceram, tiveram depressão e houve a desestruturação de inúmeras famílias. Na Justiça, têm de esclarecer para a gente ainda que critério foi este e como chegaram em um valor tão baixo, nesta negociação”, afirma.
Mais um ponto questionado por Márcia é quanto aos impactos socioambientais. ‘Nossos mangues e o mar na região nunca mais foram os mesmos. Ainda há sinais de devastação com o óleo, além de outros tipos de poluição, como garrafas PET e resíduos. Tudo isso diminuiu a quantidade de caranguejos e peixes”, conta.
Efeitos ecossistêmicos à socioeconômicos e na saúde
Luiz Afonso Rosário, coordenador do Programa Defensores Climáticos, da 350.org no Brasil, alerta que o vazamento nas proporções que ocorreu na Baía da Guanabara, desencadeiam contaminações intensas no meio ambiente estuarino, que vão além do mar, sendo que a principal delas se relaciona com os peixes, crustáceos e moluscos, principalmente pela condição de serem bioacumuladores dos elementos químicos nocivos à vida, como também pela sua condição de estarem na cadeia alimentar de centenas de milhares de famílias que se utilizam desta  fonte proteica para a sua dieta alimentar. “Também há a contaminação das algas, plânctons e microplânctons que não se restringem somente às áreas impactadas, uma vez que são levados pelas correntes marítimas e forças de marés, para absolutamente todos os lugares onde há influência das águas estuarinas, inclusive a orla oceânica e praias do Rio de Janeiro”.
Segundo ele, os indicadores econômicos, sociais e socioambientais das populações direta e indiretamente impactadas por acidentes como os severos derramamentos de óleo, invariavelmente empobrecem, adoecem com mais frequência, e em padrões muito superiores aos que tinham anteriormente ao acidente.
“Há perdas significativas de sua qualidade de vida, de sua dieta alimentar e principalmente quanto à saúde mental, onde os casos de depressão se acumulam, aceleram os processos migratórios, enfim, se multiplicam as mazelas sociais nestas comunidades. No outro viés, os governos inertes e míopes, não conseguem contrapor com medidas sociais e econômicas para minimizar estas situações. São processos cumulativos de consequências críticas, onde o conjunto de “negações ao direito” condenam estas populações de pescadores artesanais à sua morte pública ou social”, analisa Luiz Afonso.
Ele acrescenta que não se deve esquecer que há mais atingidos, incluindo centenas de pequenos negócios de apoio à pesca artesanal e de artífices na manutenção de barcos e apetrechos de pesca, sejam formais ou informais, foram diretamente impactados com o vazamento.
No aspecto de saúde pública, o coordenador do Programa Defensores Climáticos da 350.org, no Brasil, alerta que não houve acompanhamento sistemático da saúde pública em relação a estas populações de pescadores artesanais na Baía da Guanabara, por parte do Estado. “Isso contraria protocolos internacionais da Organização Mundial da Saúde (OMS). Como os efeitos mais severos da contaminação por estes químicos e metais pesados, desencadeiam doenças a médio e longo prazo na população, principalmente diversos tipos de câncer, nenhum governante e nem mesmo órgãos de fiscalização e controle ousam discutir tais premissas. É a negação do direito humano e à qualidade de vida, uma decepcionante e triste realidade desta população”.
“Este tipo de atitude que o Estado Brasileiro toma, por meio de suas instituições formais, dá um claro recado às empresas poluidoras e aos degradadores do meio ambiente … que o crime ambiental compensa! É por esse caminho que a sociedade brasileira quer trilhar?, questiona Luiz Afonso.
Histórico do processo
A ação coletiva que a FEPERJ deu entrada em 2000 pedia indenização quanto a danos materiais, morais e lucro cessante por dez anos, que era o tempo estimado para a recuperação ambiental, que foi reconhecido pela Justiça, que condenou a Petrobras, em 2007 a pagar aproximadamente R$ 1,23 bilhões a 12.180 pescadores, em primeira instância. A empresa recorreu em segunda instância, rebatendo que só reconhecia 45 dias a serem indenizados aos pescadores, que teria sido o período em que a pesca ficou suspensa. Outro questionamento era de que a FEPERJ havia dimensionado à época 30 mil pescadores afetados e seriam 12.879. Um vaivém de números que significam vidas.
O imbróglio jurídico se ampliou, quando a Justiça considerou que os pagamentos deveriam ser feitos individualmente a cada pescador e, não, na soma total à Federação, e só agora, depois de todos estes anos, chegou neste resultado da audiência especial de conciliação.
Sobre a 350.org e as mudanças climáticas
A 350.org é um movimento global de pessoas que trabalham para acabar com a era dos combustíveis fósseis e construir um mundo de energias renováveis e livres, lideradas pela comunidade e acessíveis a todos. Nossas ações vêm ao encontro de medidas que visem inibir a aceleração das mudanças climáticas pela ação humana, que incluem a manutenção das florestas.
Desde o início, trabalha questões de mudanças climáticas e luta contra os fósseis junto às comunidades indígenas e outras comunidades tradicionais por meio do Programa 350 Indígenas e vem reforçando seu posicionamento em defesa das comunidades afetadas por meio da campanha Defensores do Clima. Mais uma vertente das iniciativas apoiadas pela 350.org é da conjugação entre Fé, Paz e Clima.
Sucena Shkrada Resk – jornalista ambiental, especialista em política internacional, e meio ambiente e sociedade, é digital organizer da 350.org Brasil
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Já comeu sua dose de veneno hoje? A controversa lista da Anvisa!

por Samyra Crespo, especial para a Envolverde – 
Já tinha um texto pronto sobre o “varejo sustentável”, mas diante do impacto do relatório recém divulgado da ANVISA que afirma ter analisado 4,6 mil amostras coletadas em supermercados em 77 cidades e concluído que mais de 70% dos alimentos amostrados são “seguros”, mudei o rumo da prosa – e resolvi escavar mais fundo essa confortável superficialidade de achar que então a “farra dos agrotóxicos” (cerca de 330 liberados em pouco mais de um ano) é histeria de ambientalista. Não é.
Para ajudar a situar adequadamente o quesito “segurança” vou utilizar o texto de alguém que conhecia a indústria agroquímica por dentro, tendo a ela servido por anos. Até que deu um “basta!” e se tornou um dos mais aguerridos denunciadores do envenenamento diário, letal e sistemático dos agrotóxicos.
Falo de José Lutzemberger (1926-2002) que fundou há mais de 4 décadas o instituto AGAPAN – ONG, e mais tarde, em 1987, a Fundação Gaia, ambos no sul do País. Missão? Revelar para os leigos o que a danosa prática do uso repetido e crescente dos agrotóxicos nas lavouras faz com o meio ambiente e com a saúde humana. Foi um precursor incansável. Conhecia os meandros da indústria e seu marketing agressivo. Agrônomo e químico formado (experiente) sabia identificar nas fórmulas os elementos perigosos. Trabalhou na indústria de grande porte e internacional. Sabia bem como operam essas fábricas de morte.
Lutz, como o chamávamos – como a um tio mais velho – além de palestras deixou inúmeros artigos publicados em jornais e revistas, ainda úteis para entender a problemática.
Chegou a ministro do Meio Ambiente, em meio ao turbilhão da Rio 92 – mas foi defenestrado. Sua franqueza ao denunciar a corrupção no Brasil num seminário internacional, selou sua sorte no então Governo Collor.
Lanço mão aqui de um texto seu, muito instrutivo, que está num pequeno livro de bolso da LPM: Manual de Ecologia – do Jardim ao Poder. O livro é uma coletânea e foi publicado e 2004, após sua morte.
Ele fazia um distinção fundamental entre os “domotóxicos” (inseticidas domésticos) e os “agrotóxicos” usados massivamente na produção de alimentos.
Para se ter uma ideia do tamanho do que estamos enfrentando, nos diz Lutz: “a presença dos agrotóxicos está no campo, na floresta, no silo e no alimento; aditivos para efeito conservante ou cosmético, hormônios, sulfas, antibióticos, arsênico, corantes e uma enxurrada de outros elementos que são dispersados no ambiente aéreo, nos efluentes líquidos, que percolam e atingem os rios, o solo, o mar. ” Uma centena de venenos mutagênicos. Que atingem a flora, a fauna e a nós, humanos.
Quanto aos inseticidas domésticos, ele se insurge contra a “falsa segurança ” veiculada pelos anúncios que mostram bebês dormindo tranquilos no berço após a borrifagem de sprays sabidamente venenosos: ” Noite após noite a criança é submetida à inalação, durante anos, de carbamatos, dicloros, diazinon, ácido crisantêmico, que podem atacar o sistema nervoso central, o respiratório, o imunológico “.
Depois nos perguntamos porque a criança é insone, asmática, alérgica.
Quando a ANVISA nos diz que 23% das amostras de alimentos analisados apresentavam resíduos de agrotóxicos e que “apenas” 17% indicavam níveis acima do permitido, o que isso quer dizer?
Foram analisados arroz, beterraba, goiaba, uva, abacaxi, uma lista grande (que pode ser obtida juntamente com o Relatório).
E se nós estivermos entre os 17% de infelizes consumidores? Estamos numa roleta russa? Um jogo de azar? É aceitável este nível de incerteza?
O problema com os agrotóxicos – e é este mesmo o nome pois “defensivo” é outra coisa – está não só no excesso que encontramos nos alimentos mais consumidos, mas o “efeito cruzado” entre eles, nos alerta Lutz, profundo conhecedor do assunto, repetimos.
Não dispomos de estudos conclusivos, porque muitos dos efeitos são ignorados, sobre a “química” que ocorre nos organismos vivos com o cruzamento dessas substâncias. Estudos vem relacionando o glifosato ao fenômeno do autismo e até do Alzheimer. Inúmeros cânceres, tumores e deficiências hepáticas estão no rol dos tristes resultados da ingestão destes elementos químicos e do seu efeito cruzado.
Vocês podem me perguntar, ao final dessa alarmante leitura, o que fazer?
Se puder, corra para orgânicos. Lute pela transparência e correta atuação da ANVISA. Apoie o movimento do “Diga não ao veneno no seu prato”.
Denuncie os abusos da indústria agroquímica e sobretudo não caia no papo de que este Ministério da Agricultura está cuidando da sua segurança ou a de seus filhos. Não está.
Quanto à industria, bem, ela tem um negócio de mais de um trilhão de dolares para defender. E muito dinheiro para financiar seu funesto lobby.
Samyra Crespo é cientista social, ambientalista e pesquisadora sênior do Museu de Astronomia e Ciências Afins e coordenou durante 20 anos o estudo “O que os Brasileiros pensam do Meio Ambiente”. Foi vice-presidente do Conselho do Greenpeace de 2006-2008.
#Envolverde

Índice de desenvolvimento humano é comprometido em municípios onde há mineração de carvão

Os reflexos do setor minerário de carvão em municípios brasileiros têm apontado que os efeitos no desenvolvimento destas cidades na realidade do dia a dia estão longe da ‘imagem próspera’ destacada quando os empreendimentos são instalados, ficam em operação e deixam um passivo socioambiental após sua vida útil. O Índice de Desenvolvimento Humano municipal (IDH-M), que compara indicadores sobre a oportunidade de viver uma vida longa e saudável, de ter acesso ao conhecimento e um padrão de vida que garanta as necessidades básicas, representadas pela saúde, educação e renda, revela quadros desoladores quanto ao bem-estar destas populações. Pesquisas apontam que as desigualdades desde a distribuição de ganho a acesso à infraestrutura afloram e se acentuam ao longo e médio prazos.
O estado do Rio Grande do Sul, onde ficam concentradas 90% das minas de carvão mineral no país, traz exemplos destes desequilíbrios socioeconômicos. A exploração vem de longa data, desde 1792, como esclarece Caio dos Santos, pesquisador do Observatório dos Conflitos do Extremo Sul do Brasil, ligado à Universidade Federal do Rio Grande (FURG). Segundo ele, entre os municípios carboníferos que refletem os efeitos deste processo minerário estão Butiá, cujo IDH é de 0689, que deixa o município em 357º no ranking do IDH-M no RS, e Arroio dos Ratos e Candiota, ambos, com 0698, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2010. O IDH brasileiro, segundo o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), é de 0,761 (2018). Quanto mais próximo de zero, o IDH é mais baixo.
De acordo com Santos, Butiá recebeu a Compensação Financeira pela Exploração de Recursos Minerais (CFEM) em 2018, na ordem de R$ 1,478 milhão; Arroio dos Ratos, R$ 1,242 milhão, e Candiota, de R$ 1,335 milhão. O pesquisador explica que esta arrecadação, no entanto, não os torna municípios mais desenvolvidos, no estrito senso da palavra.
Uma combinação de fatores compromete a qualidade de vida destas populações. Parte delas tem de conviver com os efeitos de detonações que abalam estruturas dos imóveis muitas vezes rudimentares, alagamentos, mau cheiro em localidades ainda sem infraestrutura de água e esgoto, viária e de moradia, como é o caso da Vila São José, região periférica de Butiá, na qual vivem 5 mil famílias.  Mais um ponto é a questão da flutuação de moradores, tendo em vista, os desempregos, após a finalização das plantas, que impactam na economia dos municípios.
Na área rural, o solo, ar e água contaminados por enxofre e outras dezenas de substâncias completam um quadro devastador, como descrito na reportagem “O Rastro da Miséria da Mineração no RS, de Gilson Camargo, do jornal Extra Classe, em julho deste ano.  Nesta região, atua a empresa Copelmi que anunciou que deverá encerrar as atividades da mina em janeiro de 2020. Entretanto, é importante frisar que o passivo socioambiental deverá ser acompanhado e monitorado por décadas.
Efeitos socioambientais
Historicamente no Brasil, por onde a mineração de diferentes matérias-primas passa, deixa cavas enormes e desestruturação do solo, devido à compactação de rejeitos e liquefação, e agride de tal forma a vegetação e recursos hídricos, que é difícil ter noção de como era aquela paisagem anteriormente. Os biomas sofrem impactos sucessivos e a regeneração, por muitas vezes, é difícil. Isto, sem falar em desastres, como os que ocorreram com as usinas de rejeito de mineração da Samarco (controlada pela Vale e pela anglo-australiana BHP Billiton), em Bento Rodrigues, Mariana (2015) e Brumadinho (2019), da Vale, em MG, resultando em cerca de 300 pessoas mortas, além de animais, e centenas de famílias desalojadas e que aguardam indenizações. Estes fatos trouxeram, com mais rigor, este tema para a pauta da imprensa, com um agravante: os impactos psicológicos e emocionais que afetam a maioria dos atingidos é algo imensurável.
Consulta prévia a povos indígenas e tradicionais
Um outro aspecto importante se refere às comunidades do entorno, em especial indígenas e tradicionais, que também podem ser afetadas e precisam ser consultadas previamente, neste processo de prospecção de grandes empreendimentos. Por muitas vezes, isto não ocorre. Este é o caso atual do projeto da Mina Guaíba, também da empresa Copelmi, entre os municípios de Eldorado e Charqueadas, que se encontra em fase de análise do licenciamento prévio ambiental, na Fundação Estadual de Proteção Ambiental Fundação Estadual de Proteção Ambiental Henrique Luiz Roessler (FEPAM), no RS.
No mês de outubro, foi dada entrada a duas Ações Civis Públicas pelo Instituto Internacional Arayara, pela Associação Indígena Poty Guarani e pela Colônia de Pescadores Z5 nas Justiças Federal e Federal, na Comarca de Porto Alegre, que pedem a suspensão imediata deste processo de licenciamento. A iniciativa tem o apoio da 350.org e do Observatório do Carvão Mineral.
Recentemente Pedro Nicolau Moura Sacco, procurador do Ministério Público Federal, deu um parecer favorável à suspensão imediata. Como principal argumento expõe o desrespeito à obrigatoriedade da consulta livre, prévia e informada a comunidades indígenas e tradicionais, de acordo com a Convenção Internacional do Trabalho (OIT) 169 ratificada no Brasil. Desde o início deste ano, este projeto da mina é objeto de um inquérito civil aberto, no Núcleo das Comunidades Indígenas, Minorias Étnicas e Educação da Procuradoria da República no estado do RS.
“O parecer do MPF reforça o que temos denunciado sobre a Mina Guaíba: A legislação não foi respeitada. Isso por si só já seria uma condicionante para anulação total do processo de licenciamento ambiental. Mas para além disso, o próprio EIA/RIMA que a empresa apresentou, contém inúmeras falhas e omissões graves, com isso, esperamos que a FEPAM que tem em seu quadro de analistas profissionais gabaritados, não conceda nenhuma licença à empresa. Até porque estas falhas e omissões estão sendo questionadas em outras Ações Civis Públicas, que em breve traremos a público”, afirma Renan Andrade Pereira, organizador do Programa Fé, Paz e Clima da 350.org, no Brasil.
Ele ainda destaca que já se deparou com inúmeros casos similares ao do RS, em sua carreira. “Nasci em Minas Gerais e tive a oportunidade de percorrer o Brasil acompanhando crimes ambientais e conhecendo comunidades atingidas por este setor.  Infelizmente estou acostumado a ver como funcionam as mineradoras. A história é sempre a mesma, eles prometem emprego, qualidade de vida, mas eles trabalham é com um tripé nada sustentável: violação dos direitos humanos; dos direitos ambientais e dos direitos trabalhistas. É desse jeito em Minas Gerais, em Santa Catarina, no Maranhão, no Espírito Santo ou no Piauí. No Rio Grande do Sul não poderia ser diferente, haja vista como a empresa quer licenciar o empreendimento, violando direitos antes mesmo de começar a operar”, diz Pereira.
Rejeição à mineração em plano diretor
Mas apesar da forte pressão da mineração de carvão no RS, alguns municípios têm rejeitado este setor econômico, por meio da legislação, como é o caso de São José do Norte, que em maio deste ano, em lei complementar municipal em seu plano diretor, definiu:
(…Ficam, também, proibidas atividades de mineração de porte médio, porte grande e porte excepcional para todos os tipos de mineração, em todas as zonas do Município. Ficam proibidos todos os portes para lavra de minério metálico (cobertura/ouro/chumbo/etc.) a céu aberto e com recuperação de área degradada (CODRAM 530,03). Conforme os portes estabelecidos pela Resolução 372/2018, do Conselho Estadual do Meio Ambiente -CONSEMA do Rio Grande do Sul…)
A pressão da sociedade foi importante neste caso, por meio do movimento popular “Não queremos mineração em São José do Norte”.
Desafios impostos pela pressão do setor mineral
Mas o problema desta agenda se torna cada vez mais complexo, já que no RS, há cerca de 170 projetos de novas plantas de mineração. A esperança do aquecimento com novos empregos novamente reacende no Sindicato de trabalhadores da categoria, mas o histórico demonstra que os processos têm desfechos inversos. O atual Plano Estadual de Mineração (PEM) do RS gera um alerta à sociedade: qual é o custo-benefício de se investir neste tipo de combustível fóssil? Como aponta Rualdo Menegat, professor do Departamento de Paleontologia e Estratigrafia do Instituto de Geociências da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
Por onde passam estes empreendimentos minerários, promessas de mais geração de empregos e desenvolvimento econômico local são expostos, gerando expectativas. Mas o que se observa é que ao longo dos anos, o desemprego, problemas de saúde, desarranjos sociais começam a desenhar um quadro reverso. Estima-se que até os anos 90, havia na casa de 8 mil trabalhadores na mineração de Butiá e Arroio dos Ratos, entre outras localidades da região. Hoje seriam cerca de 400 na ativa, sendo que 280 da planta de Butiá deverão ser dispensados no ano que vem.
Pesquisas pelo Brasil 
A preocupação com este tema tem atraído pesquisas pelo Brasil. No artigo “A Questão Mineral e os Índices do IDH-M e desigualdade (GINI) nos estados do Pará e Minas Gerais: uma abordagem comparativa, a engenheira civil Loyslene de Freitas Mota e Tiago Soares Barcelos, Doutor em Geografia Humana, reforçam a constatação da desigualdade.
Segundo os pesquisadores, ao analisar dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e Datasus, evidenciaram que mesmo o Estado do Pará arrecadando mais recursos da Compensação Financeira pela Exploração de Recursos Minerais (CFEM), possui em termos absolutos piores índices que os municípios de Minas Gerais.
E relatam – ‘Percebe-se ao longo do trabalho que aos municípios que os IDHM mais elevados nem sempre são acompanhados por melhoras nos índices de desigualdade (GINI). Por fim, observou-se que a atividade minerária não vem apresentando melhoras significativas para as populações do seu entorno, apresentando alta externalidade negativa e criando uma economia de enclave que este setor apresenta nos municípios estudados. Torna-se assim, de fundamental importância um debate amplo sobre qual modelo mineral atende os anseios da sociedade brasileira´. A publicação foi veiculada na Gestão e Desenvolvimento em Revista, de julho-dezembro de 2018.
Heloísa Pinna Bernardo, doutora em Contabilidade e mestra em Controladoria e Contabilidade, também destaca em artigo, no ano de 2018, a contraposição quanto ao argumento que atesta que mineração facilita desenvolvimento local, em cidades de Minas Gerais.
Como base de dados, a pesquisadora utilizou além dos dados do IBGE, o Produto Interno Bruto (PIB) per capita, porte do município e o Índice FIRJAN de Desenvolvimento Municipal (IFDM), que analisa municípios brasileiros, e do Departamento Nacional de Produção Mineral (CNPM) para a CFEMEntre as principais constatações, avaliou que a geração de subempregos, a má distribuição de renda e taxas de crescimento das regiões de base mineral são inferiores às das regiões nas quais a mineração é inexpressiva.

Sobre a 350.org  e o carvão

A 350.org é um movimento global de pessoas que trabalham para acabar com a era dos combustíveis fósseis e construir um mundo de energias renováveis e livres, lideradas pela comunidade e acessíveis a todos. Nossas ações vêm ao encontro de medidas que visem inibir a aceleração das mudanças climáticas pela ação humana, que incluem a manutenção das florestas.
Uma das campanhas que desenvolve com os parceiros Arayara e COESUS atualmente é contra a exploração minerária e utilização do carvão para geração de energia, no Rio Grande do Sul. Essa iniciativa é ampliada como ONG integrante do Observatório do Carvão Mineral , junto com Arayara, COESUS, ICS e Rede Guarani, além de representantes da sociedade civil.
As ações são multidisciplinares, já que ao mesmo tempo, a 350.org age em defesa de comunidades indígenas e de outras comunidades tradicionais, que são afetadas por estes empreendimentos carboníferos, por meio do Programa 350 Indígenas e vem reforçando seu posicionamento em defesa destas famílias por meio da campanha Defensores do Clima.  E do Programa Fé, Paz e Clima.
Sucena Shkrada Resk – jornalista ambiental, especialista em política internacional, e meio ambiente e sociedade, é digital organizer da 350.org, no Brasil

Inventário florestal e formação de jovens será legado da bacia do Rio Doce

Por Redação Envolverde –
O caminho para um futuro mais sustentável, com o engajamento dos jovens em toda a bacia do Rio Doce, vai muito além das reparações obrigatórias para a Fundação Renova
O impacto do desastre ocorrido em Mariana em novembro de 2015 continua presente na vida das pessoas afetadas direta ou indiretamente nos 39 municípios ao longo do Rio Doce e seus afluentes.  Mas também é verdade que outra história começa a ser construída. Uma história que não quer apagar o passado, mas edificar um futuro mais sustentável para a região.
Por meio de diversos projetos a Renova realiza ações que permanecerão como um legado quando a fundação concluir suas ações de reparação socioambiental. A ideia é que, quando isso ocorrer, haverá muitas pessoas e organizações capacitadas a dar continuidade a projetos e planos que sejam, ao mesmo tempo, economicamente viáveis e estruturantes para o desenvolvimento da região.
Sementes da Vida
Um projeto que possui grande alcance é a Rede Sementes e Mudas, que começa seus trabalhos para atender as áreas degradadas na bacia do Rio Doce nos estados de Minas Gerais e Espírito Santo. Neste início de programa, o objetivo é desenvolver mudas e sementes de espécies nativas da Mata Atlântica para a recuperação de 5 mil nascentes e 40 mil hectares de áreas que não foram diretamente atingidas pelo rejeito da barragem de Fundão. Mas a ideia é ir além, criando uma grande cadeia produtiva para a restauração ambiental de longo prazo promovendo, dessa maneira, oportunidades de geração de emprego e renda permanentes.
Rede de Sementes e Mudas lançada no fim de 2019 para recuperação florestal. crédito: Leonardo Morais/Fundação Renova
A Rede de Sementes engloba coletores de sementes e produtores de mudas e, além de fornecer para a Renova, também poderá trabalhar livremente com outros interessados. Entre os principais objetivos da iniciativa está o desenvolvimento de um mercado sustentável de valorização das espécies nativas, que sirva de exemplo para ser replicado em outras partes do país.
Entre as parcerias já firmadas está a com o Assentamento Liberdade, no município de Periquito (MG). Lá vivem 33 famílias assentadas pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) e outras seis, que aguardam a conclusão de seus processos. “Com essa parceria, o desejo do MST (Movimento dos Trabalhadores Sem Terra), que atua na área, é o de produzir e ao mesmo tempo proteger a natureza. Produzir água e comida de forma sustentável”, explica Agnaldo Batista, coordenador do setor de produção do MST em Minas e, completa: “A bacia do Rio Doce sofreu 200 anos de degradação ambiental, que só se agravou com o rompimento da barragem”.
Nos viveiros do Assentamento Liberdade são produzidas 11 espécies nativas da Mata Atlântica. “Elas são divididas em duas funções ecossistêmicas: as de recobrimento, para crescer rápido em solos pobres e formar copas para combater o capim, que é uma espécie exótica e invasora, e as espécies de diversidade, que vão durar mais tempo, chegando a 100, 200 ou mais anos e garantindo a perpetuação da floresta”, conta, com otimismo, Leandro Abrahão, engenheiro florestal e analista socioambiental da Fundação Renova. Segundo ele, o trabalho acaba sendo facilitado graças à organização das famílias e a boa capacidade de produção. “Temos um potencial grande. Atualmente possuímos em torno de 700 mil mudas nos seis viveiros espalhados pelo estado”, informa Leandro.
No Viveiro Periquito são produzidas plantas para afastar as espécies invasoras e árvores nobres, que viverão por décadas. – crédito: Guilherme Dutra
O Assentamento Liberdade busca entidades e empresas que possuem passivo ambiental ou iniciativas de recuperação e que possam se interessar em firmar convênio. Exemplo importante do trabalho do grupo é o convênio estabelecido com a Companhia Energética de Minas Gerais, a Cemig, que servirá para reduzir o passivo ambiental acumulado em várias obras da estatal mineira que causaram desmatamento. Serão reflorestadas áreas em diferentes regiões do estado, somando 116 hectares. Parcerias também estão sendo firmadas para a criação e o desenvolvimento de outros viveiros.
Patrimônio florestal mapeado
Talvez um dos mais importantes legados a ser deixado pela Fundação Renova será o Inventário Florestal. É um estudo inédito que está sendo realizado sobre as condições da vegetação e do solo em 86.715 km² da bacia do Rio Doce. Para o projeto, serão coletados dados dos indivíduos vegetais, como: altura, diâmetro à altura do peito, espécies, entre outros.
QRCode que é instalado nas árvores catalogadas para o Inventário Florestal. crédito: Arquivo Fundação Renova
Este será o mais completo Inventário Florestal já realizado no Brasil e deve ser concluído até o final do próximo ano (2020).  A complexa tarefa está sendo levada à frente com a fundamental colaboração dos produtores rurais. As conclusões do estudo servirão como base para as futuras ações de recuperação ambiental na região.
“O inventário é muito importante para saber quais espécies ocorrem naturalmente e quais se adaptam melhor em cada tipo de ambiente, como topos de morro, áreas de encosta ou em áreas suscetíveis a alagamentos sazonais, por exemplo. Dessa forma, teremos conhecimento dos ambientes de referência para que possamos comparar o avanço do processo da restauração florestal, tendo como base ambientes de regeneração natural em diferentes estágios de sucessão ecológica”, explica Leandro Abrahão, analista socioambiental da Fundação Renova.
Compartilhando conhecimento e experiências
Por fim, o projeto “O futuro do Rio Doce somos nós”, de Formação de Lideranças Jovens, faz parte da agenda da Renova para a bacia do Rio Doce. O projeto tem como principais objetivos o engajamento e o empoderamento das comunidades, por meio de seus jovens, na construção de soluções para melhoria da qualidade socioambiental em todos os territórios impactados pelo rompimento da barragem de Fundão. As ações são organizadas, em parceria com a Renova, pelo Instituto Elos, que é uma organização com experiência em ações em regiões de alta vulnerabilidade social para fortalecer a capacidade das pessoas de transformar a própria realidade.
Em 2018, o Instituto Elos selecionou 90 jovens de 22 municípios ao longo da bacia do Rio Doce para participar de processos de formação educacional e de liderança. Hoje, 23 projetos estão sendo implementados. Entre os projetos selecionados, estão ações para reflorestamento e revitalização de nascentes, intervenções culturais, desenvolvimento profissional de jovens em situação de vulnerabilidade social, empreendedorismo negro e oficinas artísticas.
Eles atuam com ações de articulação, mobilização, formação e engajamento que contribuem para alavancar o desenvolvimento sustentável da bacia do Rio Doce. No processo de implantação, os grupos foram assessorados pelas equipes da Fundação Renova e do Instituto Elos. Importante destacar que os projetos foram escolhidos pelos próprios jovens de acordo com suas realidades e necessidades em cada território e comunidade.
Entre os projetos contemplados estão vários que repensam os cuidados com a recuperação ambiental, como o Reviva Nascentes.
“Grupo de jovens de Tumiritinga (MG) criou o grupo Reviva Nascentes com o apoio do Instituto Elos”. Crédito: Lucas Santos
Voltado para os jovens moradores do Assentamento 1º de Junho, em Tumiritinga (MG), a ideia vai além do trabalho de recuperação das nascentes, promovendo mutirões comunitários para criação de Sistemas Agroflorestais – os SAFs –, que buscam fazer a integração da preservação da natureza com atividades de produção agrícola. Como explica Jamesson Alves Pereira, de 27 anos, um dos três coordenadores e idealizadores do Reviva Nascentes: “O projeto é muito bacana, pois mexe com a cabeça das pessoas, o modo como elas olham para a natureza, para a água e para as nascentes. É um processo muito transformador”.
Jamesson, assim como outros jovens que integram os vários projetos apoiados pela Renova e pelo Instituto Elos, acredita que o alcance e a dimensão das atividades têm a capacidade de serem maiores: “o ato de cercar uma nascente não vai ajudar só a comunidade, mas vai ajudar o mundo inteiro”, afirma o jovem. Ele ainda analisa outros benefícios obtidos com esse trabalho coletivo: “O projeto vai dando força para gente. Por meio dele as pessoas vão se unindo, conhecendo mais sobre o outro, acho isso bom demais”, diz ele, entusiasmado.
Tudo fica realmente mais fácil quando se entende que batalhar pelo bem comum é a melhor maneira de atingir uma vida plena e sustentável para si mesmo. (#Envolverde)