quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Este século começou mal - Roberto Sávio

Roma, dezembro/2009 – Convenhamos, com tristeza, que o novo século, em sua primeira década, não se direciona para o otimismo. Não só não foi solucionado nenhum dos problemas que tínhamos, como vão sendo acrescentados outros mais extraordinários. As conflitivas situações no Irã e na Coréia do Norte não melhoram. Está piorando a questão palestina, já que Israel desafia abertamente Barack Obama com novas construções nos assentamentos em território árabe. Sabe que nenhum governo norte-americano ousará desafiar o poderoso lobby pró-israelense. Enquanto é difícil fazer um prognóstico sobre o Iraque, é fácil fazê-lo sobre o Afeganistão aonde, segundo o Pentágono, cada soldado custa US$ 1 milhão por ano, para uma guerra de improvável vitória e que apresenta um horizonte de pelo menos cinco anos.

O milagre de Nelson Mandela vai se desvanecendo na África do Sul, o Zimbábue segue imutável e a corrupção na África (e no mundo) continua aumentando, segundo a Transparência Internacional. Na América Latina, a saída próxima do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o grande mediador, significará um aumento das divergências regionais. A Ásia é o único polo de crescimento, com uma China que não pode ser parada (mas que não quer jogar em equipe com ninguém) e um crescimento geral das economias. Nestes anos do novo século surgiram problemas antes desconhecidos em nível global. A novidade é que estamos em plena globalização e não sabemos como gerenciá-la.

A crise desencadeada pelas especulações financeiras criou cem milhões de novos pobres, segundo o Banco Mundial. Porém, não serviu de lição ao poder político, que em lugar de reformar o sistema para torná-lo responsável optou por salvá-lo custe o que custar: a módica quantia de US$ 18 trilhões, equivalente ao total da ajuda ao Terceiro Mundo durante 150 anos. E foi decidido – por omissão – nada mudar, fora alguns retoques cosméticos. De fato, os bancos eliminaram apenas 50% dos títulos tóxicos que causaram a crise e os derivativos, outro fator desencadeante, já somam seis vezes e meia o Produto Bruto Mundial.

A única certeza é que os Estados que intervieram, Estados Unidos à frente, encaram um déficit fiscal gravemente aumentado e um desemprego sem precedentes, enquanto os especialistas preveem o agravamento da crise imobiliária norte-americana e destacam a insuficiência dos programas de Obama para os milhões de norte-americanos que perderam ou estão perdendo suas casas.

Um desafio na era da globalização é a criação de fórmulas de governabilidade. A Europa, embora seja uma região em declínio, teve a oportunidade de se dar uma liderança à altura dos tempos. A aprovação de um novo tratado constitucional depois de longos anos de negociações abria finalmente a possibilidade de designar duas figuras autorizadas, para a Presidência e para a política externa. Mas o esquálido jogo de poder entre os 27 países-membros produziu a nomeação de duas pessoas de escassa experiência e pouco apropriadas para assumir a liderança que reclama a União Europeia.

O penoso espetáculo de pequenos egoísmos em Bruxelas sucedeu a outro grande fracasso da comunidade internacional: a Conferência de Roma sobre Segurança Alimentar Mundial. Dela não participou quase nenhum personagem de alto nível (os Estados Unidos estavam representados por um funcionário do segundo escalão) e não foram feitas tentativas sérias para alcançar acordos a fim de reduzir a fome, que, segundo as estatísticas mais otimistas, afeta uma em cada seis pessoas. A redução da fome é um dos fundamentais Objetivos de Desenvolvimento, adotados unanimemente por todos os chefes de Estado reunidos em uma Assembléia Geral das Nações Unidas, em 2000, modestamente chamada “do Milênio”.

Para quem ainda acredita que os governos podem ser capazes de adotar soluções comuns para enfrentar as crises que ameaçam o planeta, o fracasso da Conferência de Roma pode parecer apenas um mau exemplo induzido pelo desinteresse em relação aos pobres. Mas é um fato que os países ricos tampouco são capazes de superar sua gravíssima crise financeira. Entretanto, a rápida deterioração da Terra coloca todos, pobres e ricos, no mesmo barco. Contudo, a Conferência sobre Mudança Climática de Copenhague, que acontece até o dia 18 deste mês, na Dinamarca, promete ainda menos do que a de Segurança Alimentar.

Já sabemos que não se chegará a um acordo adequado para os desafios, pois espera-se que sejam divulgadas somente declarações positivas (não decisões concretas) como uma base para negociações sucessivas. Porém, todo dia tomamos conhecimento de evidências científicas sobre como caminhamos para o abismo. Um dia vemos fotos do Kilimanjaro que está ficando sem neve, outro dia nos informam que os produtores de champanhe estão comprando terrenos no sul da Inglaterra, ou que a Groenlândia se transformou em um exportador de repolhos e que o Mediterrâneo está infestado de peixes tropicais. Os arrecifes de coral estão morrendo e os oceanos perdendo sua capacidade de absorver dióxido de carbono, pois já o fizeram em excesso.

Estes não são dados científicos abstratos, são imagens ao alcance de qualquer pessoa. E a consciência do problema agora é universal. Entretanto, a realidade nos mostra que a política tem regras e lógica próprias, que já não têm a ver com as pessoas. Enquanto resta apenas um ano para terminar a primeira década do século XXI, é de desejar que na próxima a política acerte o rumo e se converta em uma força de ação cidadã para solucionar os problemas. É uma santa ilusão?
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FONTE : Roberto Sávio é fundador e presidente emérito da agência de notícias Inter Press Service (IPS/Envolverde)

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