quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

COP-15 - “A luta não acaba aqui”

“Os que tomam as decisões sobre a mudança climática são os mesmos que a causaram”, afirmou ontem o arcebispo sul-africano Desmond Tutu, explicando porque a justiça tem sido esquiva na conferência internacional que acontece na capital dinamarquesa. As vitimas da mudança climática no mundo praticamente tentam gritar aos ouvidos dos negociadores presentes na 15ª Conferência das Partes da Convenção Marco das Nações Unidas sobre Mudança Climática (COP-15) que estão em jogo as vidas de todos e que, portanto, é imprescindível chegar a um acordo justo.

Durante 2008, mais de um milhão de meio de pessoas de 36 países participaram de audiências climáticas nacionais, testemunhando sobre como a mudança climática fez estragos em suas vidas e pedindo justiça. “Este é um caso de profunda injustiça”, disse Tutu, que liderou as audiências de ontem junto com Mary Robinson, ex-chefe do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos.

O momento para realizar as audiências internacionais não poderia ser melhor. Pelos corredores do Bella Center os negociadores tentavam se reagrupar após a suspensão das negociações, na segunda-feira, enquanto os países africanos, apoiados por todo o Grupo dos 77 (formado por mais de 130 nações em desenvolvimento), protestavam contra o modo como acontecem as negociações. Em lugar de seguir um enfoque de duas vias, que é o preferido pelos países mais pobres, as negociações parecem guiar-se pelos interesses dos Estados industriais.

“Realizamos esta audiência climática internacional em um momento crítico nas negociações”, disse Jeremy Hobbs, diretor-executivo da Oxfam Internacional, que organizou as audiências. “As histórias dos testemunhos climáticos deveriam fornecer o imperativo moral de se chegar a um tratado justo em Copenhague”, disse Hobbs. A realidade da crise nas negociações dominou as audiências, enquanto emergia o conflito entre os mundos industrializado e em desenvolvimento. E as mensagens dos testemunhos sobre mudança climática foram as que mais se destacaram nesse sentido.

Falando em nome dos indígenas latino-americanos, Caetano Juanca, agricultor de Cuzco, no Peru, disse à audiência internacional presente em Copenhague que seu povo sofre sem ter culpa, e exigiu um acordo “que respeite a Pachamama” (Mãe Terra). Pelonesi Alofa, de Trinidad e Tobago, afirmou que os negociadores na COP-15 estão “comprando e vendendo” as vidas das pessoas. “Por acaso não compreendemos que a mudança climática não é negociável. Agora entendo que a COP-15 está além da mudança climática, e além de Trinidad e Tobago”, afirmou.

Constance Okolet, de Uganda, explicou que sua gente já não sabe quando plantar e quando colher, que apenas comem uma vez por dia e as estações do ano desapareceram. “Estou aqui para dizer aos líderes mundiais que queremos de volta nossas estações”, disse à audiência. Shorbanu Khatun, de Bangladesh, foi a última a falar. Recordou que como os cultivos tradicionais se perdiam em sua aldeia, seu marido foi obrigado a ir em busca de alimentos, e em uma dessas ocasiões foi morto por um animal selvagem. Depois, sua casa foi destruída por um furacão. “Primeiro pensei que Deus estava nos castigando, mas compreendi que isso foi causado pelo ser humano”, afirmou.

Robinson concluiu as audiências declarando que os efeitos da mudança climática não só foram gerados pelas ações das nações industriais como estes foram sentidos de maneira desproporcional pelas pessoas que não podem ser culpadas pela mudança climática. “O fato de os países industrializados não agirem com urgência está nos levando todos a uma desordem social e internacional”, alertou. O direito fundamental das pessoas a uma “ordem internacional e social” (princípio básico contido na Declaração Universal de Direitos Humanos) é negado através do modo como são tomadas as decisões sobre como reduzir a mudança climática, afirmou.

Robinson pediu que os países industriais se comprometam imediatamente a reduzir em 40% as emissões de gases-estufa até 2020, com base nos níveis de 1990, e a oferecer financiamento adicional de longo prazo no valor de US$ 200 bilhões anuais até 2020, metade para adaptação e metade para mitigação.

“Na confio nos governos dos países industriais porque só lhes interessa o dinheiro, não importa a Pachamama”, disse Juanca à IPS. “Mas confio nas pessoas, no trabalho feito por igrejas e comunidades. Há gente que se preocupa”, acrescentou. Consultado sobre o que acontecerá se não for assinado um tratado justo em Copenhague, Juanca respondeu: “Continuarmos lutando até que nos ouçam. Nossa luta não acaba aqui”.
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FONTE : Claudia Ciobanu, da IPS (IPS/Envolverde)

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