sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Ventos do deserto renovam esperança de energia limpa


O Egito, um dos países mais povoados do mundo árabe, começa a ver a energia eólica como alternativa ao esgotamento das reservas mundiais de gás e petróleo. Este país depende dos combustíveis fósseis para atender 85% de sua demanda energética. Mas as autoridades exploram as possibilidades da alternativa eólica, já que o consumo de eletricidade cresce 8% ao ano e o esgotamento das reservas mundiais está previsto para dentro de 30 a 50 anos.

A Autoridade Nacional de Energia Renovável (Aner) criou uma estratégia para aproveitar o abundante vento dos desertos que o país possui. “Atualmente, geramos 400 megawatts, que aumentaremos para 600 em meados de 2010”, disse Fathy Ameen Mohammad, vice-presidente de projetos e operações da Aner. “Nosso objetivo é chegar aos 7.200 megawatts em 2020, cerca de 12% da produção de energia elétrica”, acrescentou, o que vários especialistas consideram possível.

Um mapa de ventos do Egito, publicado em 2005, mostra que na costa plana do mar Vermelho, entre as localidades de Suez e Hurghada, estes são suficientes para gerar 20 mil megawatts de eletricidade. Pesquisadores egípcios e dinamarqueses estimaram que a velocidade do vento supera os nove metros por segundo nessa região, comparável às condições do mar do Norte. Outras possíveis localizações para instalar parques eólicos são o vale do alto Nilo e o deserto ocidental, onde a velocidade do vento é de seis a sete metros por segundo.

O governo identificou mais de oito mil quilômetros quadrados, semelhante à superfície de Porto Rico, para construir parques eólicos. Alemanha, Dinamarca, Espanha e Japão contribuíram para o financiamento destes parques, alguns em construção e outros já operando na costa do mar Vermelho. Além disso, as autoridades buscam investidores privados para projetos que forneçam a energia à rede nacional de eletricidade. “Estamos perto de conceder o primeiro projeto de 250 megawatts”, disse Mohammad à IPS. Mais de 30 empresas locais e estrangeiras disputam o contrato, acrescentou.

A estratégia da Aner inclui a construção de parques eólicos de 150 quilômetros quadrados em Zafarana, no golfo de Suez, com capacidade para 600 megawatts. Um outro, de 200 metros quadrados, está sendo construído mais ao sul, em Gebel El-Zeut, com capacidade para 720 megawatts. Existe uma faixa costeira de 1.300 quilômetros quadrados entre as duas localidades que foi cedida a investidores privados para gerar seis mil megawatts. Além disso, o governo reservou outros 6.500 quilômetros quadrados de terras estatais em três partes do rio Nilo para instalar geradores ólicos. “A Aner construirá em uma delas e as outras reservará para projetos privados”, disse Mohammad.

Um dos obstáculos para plano tão ambicioso, segundo vários analistas, é que a política energética do Egito foi criada para garantir o fornecimento de energia de origem fóssil às residências e à indústria. Os preços do gás e dos derivados de petróleo são dos mais baixos do mundo, o que desestimula toda tentativa de mudar para alternativas mais limpas. “O impedimento básico para desenvolver energias renováveis na região é o aumento do custo”, explicou Kilian Baelz, diretor do Centro Regional de Eficiência Energética e Energia Renovável, com sede no Cairo.

“As tecnologias mais aptas, como o vento no Egito, ainda não são de todo rentáveis”, disse Baelz. “Isso ocorre em todas as partes. Na Europa, por exemplo, os países que desenvolvem energias renováveis são aqueles cujos governos oferecem incentivos, como Alemanha e Dinamarca”, acrescentou. A Alemanha, uma das nações de ponta em matéria de energia eólica, tem capacidade instalada de 24 mil megawatts, um quinto da produção mundial. A Dinamarca, com 3.100 megawatts, usa turbinas de vento para atender mais de 20$ da demanda por eletricidade.

O Egito está disposto a retirar progressivamente os subsídios ao gás e ao petróleo e privatizar a produção e distribuição de eletricidade, o que, segundo diversos analistas, incentivará o investimento em energia eólica. Também foi reduzida a tarifa para importação de equipamentos, como as turbinas, e criou-se um fundo para ajudar a compensar os custos que representa a nova tecnologia. Um projeto de lei em análise no parlamento, cuja aprovação está prevista para o final deste ano, irá regulamentar os acordos de compra de energia, pelos quais se pauta a companhia estatal para adquirir a eletricidade de geradores privados a determinado custo e por um período específico.

“Os incentivos propostos para obrigar as empresas que fornecem eletricidade comprar energia de fontes renováveis impulsionarão o investimento dos provedores da rede nacional”, disse Mohammad. Os parques eólicos também podem fazer parte do mercado de créditos de carbono, através do Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL) do Protocolo de Kyoto sobre mudança climática. A Aner já registrou um projeto de 120 megawatts como projeto dentro do MDL, e está em processo de inclusão de mais três.

O plano do Egito para gerar 7.200 megawattas conseguirá reduzir as emissões anuais de gás estufa em 17 milhões de toneladas de dióxido de carbono, um dos gases que aquecem a atmosfera e provocam a mudança climática. Investidores estrangeiros fazem fila antecipando-se à mudança de políticas na matéria e criam a necessidade de contar com empresas que possam fornecer tecnologia eólica, projetada para o contexto local. “A tecnologia está disponível, mas é necessário adaptá-la às condições do mar Vermelho, ventos muito fortes o ano todo e altas temperaturas”, explicou Baelz.

A empresa El Sewedy Group criou em 2008 El Sewedy for wind energy generationj (El Sewedy para a geração de energia eólica – SWEG) para fabricar moinhos de torre e seus componentes, fornecer soluções pré-fabricadas a produtores privados, gerenciar projetos e oferecer contratos de serviços. O SWEG comprou há pouco tempo 30% das ações da fabricante de turbinas de vento M. Torres Olvega e espera poder melhorar a experiência desta empresa espanhola no projeto e construção de moinhos de torre. “Ter uma empresa local resolve os principais problemas logísticos, o que reduz os custos”, explicou Faisal Eissa, gerente do SWEG.

O grande investimento inicial dos projetos eólicos é um obstáculo para os produtores privados. A instalação de um parque para gerar 200 megawatts custa 340 milhões de euros (US$ 490 milhões). “Os projetos de energia eólica exigem um grande desembolso inicial, o que supõe contar com fundos prévios e poder ter acesso a um empréstimo”, disse Eissa. “Com um mecanismo local especializado que ofereça financiamento, como na Europa, o custo final seria menor”. Os especialistas têm esperança de que quando o Egito contar com um marco regulador adequado os bancos emprestem o dinheiro necessário.
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FONTE : Cam McGrath - Este artigo é parte de uma série produzida pela IPS (Inter Press Service) e pela IFEJ (Federação Internacional de Jornalistas Ambientais) para a Aliança de Comunicadores para o Desenvolvimento Sustentável (www.complusalliance.org).(Envolverde/IPS)

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