sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Um roedor andino ajuda a autonomia das mulheres no Peru


Nos Andes peruanos, muito perto e muito longe da turística e histórica cidade de Cusco, o cuy, um roedor originário da região, se transformou no melhor aliado das mulheres para obter recursos para a sobrevivência de suas famílias e para aprender a defender seus direitos.

A cerca de 15 quilômetros da cidade que foi capital do império inca e do vice-reinado colonial, no povoado de Pucyura, no sul do país, as mulheres lideram as associações de produtores de cuyes e em torno dessa atividade começaram a se organizar até criar uma entidade para defender seus direitos.

Teófila Anchachua é uma destas mulheres. Ela possui galpões com mais de cem cuyes separados por raças, idades e tamanhos. “Os cuyes recém-nascidos devem ficar sozinhos com suas mães porque se forem colocados com os demais não poderão se alimentar bem. É preciso lhes dar concentrado de nutrientes, não apenas alfafa”, explicou essa produtora de 58 anos.

Ela viajou várias regiões do sul do país para se capacitar na criação de cuyes como parte do projeto Corredor Puno-Cusco, que até o final de 2008 foi financiado pelo Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola (Fida) para apoiar iniciativas camponesas e microempresárias entre os 380 quilômetros que separam as duas cidades.

“Com a criação destes animaizinhos pude alimentar meus filhos e meus netos sem descuidar de minha família, porque posso fazer negócios sem sair de casa”, contou Anchachua à IPS enquanto sua filha Milagros, de 8 anos, a ajudava a alimentar os cuyes com alfafa, seu principal alimento.

Pucyura é um povoado que fica a 3.300 metros de altitude, a mais de 1.550 quilômetros ao sul de Lima e com mais de 3.500 habitantes, majoritariamente indígenas e dos quais 65,7% vivem na pobreza e 31,2% na miséria, segundo o Instituto Nacional de Estatística e Informática (INEI).

Tudo começou com o negócio

Algo começou a mudar há quatro anos, quando o cuy deixou de ser criado apenas como animal doméstico e para consumo familiar, para se transformar em um negócio que se sustenta na produção comercial e com a venda em escala mediana.

O cuy (Cavia porcellus), também conhecido como curi, cobaia ou coelho das índias, é um roedor próprio dos Andes, explorado em cativeiro desde tempos imemoriais e cuja carne é consumida na faixa ocidental da América do Sul, desde a Colômbia até o norte da Argentina.

Mas é no Peru onde adquire valores simbólicos, sociais e familiares que transcendem suas qualidades nutritivas e o convertem no mundo rural em um reforçador de relações sociais, de prestigio e de virtudes medicinais, além de mascote, segundo o especialista em saúde animal Ernando Castro.

Seu alto valor nutritivo e seu reduzido custo de produção o transformaram também em um suporte da segurança alimentar de famílias rurais e de baixos recursos, além de integrar parte apreciada da gastronomia do Peru, seu maior consumidor mundial.

Atualmente, cerca de 500 produtoras do povoado formam sete organizações, agrupadas todas na Associação Central de Mulheres de Pucyura, contou à IPS sua presidente, Indira Núñez.

“Como já estávamos organizadas pelo comércio, decidimos levar adiante uma associação ara defender nossos direitos em casa e em nossa comunidade, onde a mulher nem sempre é vem valorizada”, explicou a dirigente de 34 anos.

“Em nosso povoado há muita necessidade econômica e é importante que possamos ajudar nossos maridos e termos acesso a um trabalho que nos coloque em uma posição melhor. Eu fui em frente com a venda dos cuyes”, disse Núñez.

Graças aos cuyes, ganha o equivalente a US$ 200 mensais, pouco mais do que o chamado salário mínimo vital. “É uma grande ajuda para nós diante das poucas possibilidades que temos de melhorar nossa renda porque as autoridades pouco promovem o desenvolvimento das mulheres”, assegurou Núñez.

De acordo com o INEI, 82,9% dos habitantes do povoado têm como principal fonte de renda as microempresas. Pucyura vive fundamentalmente da agricultura, pecuária e da criação de animais como o cuy e os porcos.

A instalação no povoado do Centro de Informação Comercial, como parte do projeto Puno-Cusco, também contribuiu para que seus habitantes tivessem acesso à informação via Internet, para se capacitarem na criação dos cuyes ou ampliar suas receitas de pratos preparados com esses animais.

As inovações culinárias ajudam a incentivar o consumo do cuy por meio de festivais gastronômicos nos quais são ressaltados seus valores nutritivos, como, por exemplo, que sua carne quase não possui gordura e proporciona mais proteínas do que as carnes de ave, ovelha, suína ou bovina.

Produtoras unidas contra a violência

“As mulheres têm muita habilidade para o negócio, elas sabem oferecer como ninguém nossos produtos”, assegurou à IPS Raúl Nolasco, que preside uma associação de venda de derivados de porco integrada em 40% por mulheres.

Nolasco reconheceu que é necessária maior capacitação para o comércio, tanto para homens como para mulheres, mas as autoridades não priorizam este aspecto em seus investimentos.

Com o projeto Puno-Cusco, as mulheres foram capacitadas na criação e comercialização desses prolíficos mamíferos que em todo o mundo são procurados também por seu pelo e para experiências científicas e cujas raças peruanas são as maiores.

Mas, ao terminar o apoio do Fida, a produção comercial enfraqueceu este ano.

“Devemos reconhecer que nem todas são organizadas e unidas. Algumas querem sair na frente por conta própria, outras perdem o interesse. Nem todos avanços por igual”, explicou à IPS a criadora de 52 anos Elbertina Santoyo.

A isto se somou a queda da produção de alfafa que as mulheres cultivam para alimentar seus cuyes, já que comprar a leguminosa é muito caro. Um fardo de alfafa (11,5 quilos) custa o equivalente a US$ 5,00, quando um cuy é vendido no máximo por US$ 3,00.

“O tempo não esteve bom para cultivar alfafa e quase tudo foi perdido. Por isso vendi meus cuyes e fiquei com uns poucos porque do contrário acabaria trabalhando para alimentá-los e já não me seria rentável”, explicou Julia Quispe, de 42 anos.

Várias das entrevistadas coincidiram em afirmar que seus maridos se opuseram quando começaram a se ausentar continuadamente de casa para participar de reuniões.

“Enquanto cuidamos do cuy em casa tudo vai bem, ou quando trabalhmos na chácara, mas, se nos reunimos para nos organizarmos ou para defender nossos direitos, os homens começam a reclamar, por causa do machismo”, assegurou Quispe.

“Eles sempre pensam ter mais direito de falar do que nós. Mas isto de mudar”, acrescentou.

Ao mesmo tempo em que aprenderam a produzir comercialmente e vender cuyes, “as mulheres aprenderam que são capazes de empreender projetos próprios e colaborar significativamente com a economia familiar”, explicou Quispe.

Mas, mais importante ainda, as produtoras de cuyes perceberam que organizadas podiam defender melhor seus direitos e serem ouvidas, então formaram a Associação Central de Mulheres de Pucyura, com o objetivo inicial de enfrentar os altos índices de violência familiar em seu povoado, contou Núñez, sua presidente.

O prefeito, Tomy Loayza, admitiu à IPS a existência dessa violência e a vinculou ao alcoolismo, um importante problema de saúde na região.

Pro essa situação, as próprias mulheres incentivaram a criação de defensorias de mulheres e crianças com cooperação estrangeira e recursos estatais.

“Trabalhamos com toda a comunidade para reduzir os maus-tratos físicos contra as mulheres, mas ainda continua sendo um desafio”, explicou.

“É importante que as mulheres se organizem e dêem sua contribuição, porque a equidade é valiosa. Nós estamos fazendo algumas coisas para ajudá-las, mas reconhecemos que ainda falta maior apoio”, disse Loayza.

Núñez informou que existe um novo projeto de comercialização de cuyes de uma organização não-governamental que pode ajudar a lhes dar novo impulso.

“Não queremos depender sempre da ajuda de outros. Se as autoridades nos dessem informação e nos capacitassem para termos acesso às diversas alternativas de trabalho, talvez isto fosse diferente”, ressaltou.

“Mas, o que se pode escrever é que para trás não iremos, que aprendemos a fazer e a pensar diferente, e isso não muda mais”, concluiu, enquanto limpava os galpões de seus cuyes, seus aliados.
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FONTE : Milagros Salazar (Envolverde/IPS)

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