terça-feira, 29 de setembro de 2009

Passando o chapéu para enfrentar a mudança climática


A necessidade de financiar adequadamente a ajuda para que os países em desenvolvimento respondam ao desafio da mudança climática ficou clara ontem na capital da Tailândia, ao se abrirem duas semanas de negociações internacionais a respeito. Noeleen Heyzer, secretária-executiva da Comissão Econômica e Social das Nações Unidas para Ásia e Pacífico (Unescap), exortou no sentido de se abrir, no encontro de Bangcoc, o diálogo entre as partes da Convenção Marco sobre Mudança Climática (CMNUCC). “Pudemos encontrar o dinheiro para impedir a débâcle de nosso sistema financeiro. Precisamos do mesmo compromisso e dos recursos para impedir a débâcle do planeta”, disse Heyzer.

A reunião na Tailândia é uma das rodadas finais de negociações com vistas à 15ª conferência da CMNUCC que acontecerá de 7 a 18 de dezembro em Copenhague, prevista para “selar um acordo completo, justo e efetivo” em matéria de mudança climática que substitua o Protocolo de Kyoto quando este encerrar sua vigência, em 2012. Este Protocolo da CMNUCC, acordado na cidade japonesa de Kyoto em 1997 e vigorando desde 2005, obriga 37 países industrializados a reduzirem até 2012 as suas emissões de gases causadores do efeito estufa em pelo menos 5,2%, com relação aos níveis de 1990.

Os temores sobre a dificuldade para obter o financiamento maciço para reduzir a mudança climática e mitigar seus efeitos surgem pela crise econômica mundial, desatada depois da 14ª conferência, realizada na ilha de Bali (Indonésia) em dezembro de 2007. A economia mundial recebeu contribuições de fundos públicos no valor de milhares de milhões de dólares desde o ano passado para atacar a crise financeira internacional surgida após o colapso hipotecário e bancário nos Estados Unidos.

A CMNUCC considera necessário aumentar os gastos previstos para atender o impacto da mudança climática entre US$ 36 bilhões e US$ 135 bilhões até 2030. os países industrializados devem “se comprometer urgentemente a destinar um apoio financeiro pela via rápida”, exortou em Bangcoc a ministra de Clima e Energia da Dinamarca, Connie Hedagaard. Isso é “necessário para atender as necessidades urgentes de adaptação já identificadas e para dar o pontapé inicial às ações de mitigação e consolidação de capacidades” contornando, ao mesmo tempo, a crise climática, afirmou a ministra.

Representantes de uma organização não-governamental descreveram o financiamento ara o desenvolvimento e as políticas de adaptação como o “elefante branco dentro da loja” da sessão inaugural da reunião de Bangcoc. Mais de quatro mil delegados, observadores e jornalistas se credenciaram para participar das reuniões, consideradas um passo fundamental para a conferência em Copenhague. Trata-se da penúltima instância de negociações antes de dezembro, pois em novembro as delegações voltarão a deliberar em Barcelona (Espanha), durante cinco dias.

Hedagaard expressou mal-estar com o resultado da cúpula da semana passada em Pittsburg (EUA) do Grupo dos 20, que reúne os países mais industrializados e as principais economias emergentes. “Honestamente, estou desiludida. Não tomaram as decisões que se esperava sobre financiamento climático”, afirmou. No começo deste mês, a Comissão Européia, braço executivo da União Européia, alertou em um informe sobre as consequências para a economia outro fracasso na luta contra a mudança climática. O estudo situou as perdas potenciais de algumas nações devido ao fenômeno em cerca de 20% da produção nacional.

“O acordo mundial deve contemplar as necessidades dos países em desenvolvimento para adaptarem-se ao impacto da mudança climática, sem desatender seu crescimento sócio-econômico e a erradicação da pobreza”, afirmou na reunião o ministro de Recursos Nacionais e Meio Ambiente da Tailândia, Suvit Khunkitti. Enquanto os delegados chegavam a Bangcoc eram conhecidos os primeiros balanços da devastadora tormenta que assolou as Filipinas no final de semana, que reportavam 70 mortos e cerca de 330 mil desabrigados.

Organizações não-governamentais aproveitaram o evento meteorológico para chamar a atenção para a ameaça das condições climáticas extremas e seu custo para a população e as comunidades. “As inundações nas Filipinas deveriam recordar aos delegados reunidos para as negociações climáticas das Nações Unidas em Bangcoc que não estão discutindo sobre uma montanha de papeis, mas sobre o destino de milhões de pessoas”, afirmou em uma declaração divulgada ontem Fundo Mundial para a Natureza (WWF). No mesmo dia, a fundação Oxfam Internacional alertou que a quantidade de seres humanos afetados pelas crises climáticas aumentará 54%, chegando a 375 milhões, nos próximos seis anos, o que colocará o mundo em dificuldades para responder adequadamente.

O secretário-executivo da CMNUCC, Yvo de Boer, considerou crítico o objetivo de alcançar um acordo sobre financiamento. “O plano de ação de Bali é muito claro em estabelecer que o compromisso das nações em desenvolvimento dependa do apoio financeiro dos países ricos’, disse de Boer à imprensa. O custo das limitações às emissões de gases de efeito estufa no Sul pobre e da adaptação das comunidades à mudança climática é estimado em milhares de milhões de dólares. É realmente importante que em Copenhague se acordo algum tipo de fórmula para compartilhar os custos no longo prazo, de modo a não enfrentar negociações anuais, pois as necessidades aumentarão”, assegurou.
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FONTE : (Envolverde/IPS)

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