segunda-feira, 21 de setembro de 2009

A ameaça da desertificação


Buenos Aires, 21/09/2009 – “A desertificação é o câncer da terra”, disse à IPS a geógrafa argentina Elea Abraham. “É uma degradação que não tem manifestações espetaculares, mas avança sorrateiramente e quando se torna visível já não há o que fazer e é preciso emigrar em busca de uma alternativa”, acrescentou. A advertência foi feita às vésperas da Nona Sessão da Conferência das Partes da Convenção das Nações Unidas de Luta contra a Desertificação, que começa hoje em Buenos Aires e vai até 02 de outubro, com as presenças de mais de 2.500 participantes de 193 países, entre funcionários, cientistas e representantes de organizações não-governamentais.

A Convenção foi assinada em 1994 e entrou em vigor dois anos depois. A Conferência das Partes (COP), ou Conferência Mundial sobre Desertificação, foi realizada anualmente entre 1997 e 2001 e a partir e então a cada dois anos. Neste nono encontro, ou COP 9, os países avaliarão o plano estratégico decenal (2008-2018) adotado na conferência de Madri, em setembro de 2007; acordarão indicadores comuns para medir a degradação dos solos e buscarão dar maior visibilidade política ao problema da desertificação e reclamar mais recursos para combatê-la.

Dados da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal) mostram que 25% da superfície da região são formados por terras áridas, semiáridas e subúmidas secas, e 75% destas apresentam “sérios problemas de degradação” devido à mudança climática e pelo mau manejo produtivo. Na Argentina, no México e Paraguai mais da metade do território está afetada. No Brasil, a área vulnerável é o semiárido nordeste. Mas a degradação também afeta Bolívia, Colômbia, Cuba, Equador, Guatemala, Haiti, Jamaica, Peru, República Dominicana e Uruguai, alem de varias ilhas do mar do Caribe oriental.

Na Guatemala, 12% do território são áridos e ali vivem1,2 milhão de pessoas. O presidente Álvaro Colom acaba de declarar estado de calamidade pública nessa região afetada por uma prolongada seca que prejudica a segurança alimentar de centenas de milhares de famílias. Entre janeiro e junho morreram 462 pessoas por desnutrição em todo o país. “A situação é seria praticamente em todos os países da região”, alerta um estudo publicado em 2008 pela Cepal intitulado “Pobreza, desertificação e degradação dos recursos naturais”. Isto ameaça a subsistência de “uma parte importante” dos 120 milhões de latino-americanos que vivem em áreas rurais, destaca o documento.

A Argentina é o país da região mais afetado. “É exatamente o contrário do que se acredita: o Pampa úmido é 25% do território e o resto é árido”, disse à IPS Octavio Pérez Pardo, diretor de Conservação do Solo e Luta Contra a Desertificação, da Secretaria de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável. Estas áreas secas, particularmente frágeis, estão degradadas por fatores climáticos e pela atividade humana. “A causa mais importante da desertificação na região é a extensão da fronteira agropecuária”, explicou Elea Abraham, diretora do Instituto Argentino de Pesquisas das Zonas Áridas (Iadiza).

Abraham mencionou em seguida o desmatamento indiscriminado, que deixa uma fraca cobertura de solo exposto à intempérie, ao excesso de pastagem, às técnicas inadequadas de cultivo e irrigação e, sobretudo, a acelerada urbanização nessas áreas tão vulneráveis. “O problema é complexo porque não se trata apenas do impacto no suporte físico-biológico. Se as terras secas são submetidas a um processo produtivo intensivo, obriga-se os grupos sociais a migrar para sobreviverem na pobreza”, alertou.

Estas são ligações que se busca tornar visíveis nesta conferência, segundo Pérez Pardo. “Há milhares de pessoas que emigram da África para a Europa, da América Latina para os Estados Unidos, ou do campo para as cidades dentro dos países, e uma alta porcentagem o faz porque seus solos deixaram de ser produtivos”, ressaltou. “Quanto menos terra há para explorar e mais população há para alimentar, temos de conseguir maior produtividade por unidade de superfície. Se os solos se deterioram, há ameaça para a segurança alimentar”, insistiu Pérez Pardo.

Abraham disse que no Brasil o território seco constitui 15% do total, uma porcentagem menor do que a da Argentina. Porém, ao contrário deste país, no Brasil a zona árida é muito povoada e esse fator não só aumenta a pressão sobre o solo como agrava as condições para a sobrevivência humana. Diante deste panorama, que afeta mais de cem países do mundo e dois bilhões de pessoas, a COP 9 quer contar com parâmetros comuns de medição. “Precisamos ver o alcance da deterioração, e para isso devemos contar com indicadores efetivos”, afirmou Pérez Pardo.

Assim como a mudança climática é controlada a partir das emissões de gases causadores do efeito estufa, os especialistas precisam medir a degradação do solo. Para isso, a COP incluirá uma conferência científica de especialistas de todo o mundo, que acontecerá entre amanhã e quinta-feira. “Devemos instalar a cultura da medição”, enfatizou Abraham. “O objetivo dos cientistas neste encontro é compatibilizar métodos de monitoramento, fixar padrões. Porque temos medição, mas em escala local, não nacional, e então não se pode comparar países nem medir a evolução” do problema, acrescentou.

Pérez Pardo disse, ainda que os delegados analisarão mecanismos de financiamento oferecidos pelos organismos multilaterais. “Há um déficit de recursos para a luta contra a desertificação. É o problema ambiental global que capta menos fundos”, disse, em comparação com a perda de biodiversidade e a mudança climática. “Os indicadores de medição e o financiamento são os dois grandes eixos internos desta conferência e são absolutamente estratégicos”, disse o funcionário, que será o coordenador da reunião. “Daí dependerá o êxito ou o fracasso das políticas das Nações Unidas neste tema”, ressaltou.

Os delegados tentarão avançar na vinculação entre desertificação e mudança climática oferecendo os solos como fixadores de carbono a partir do reflorestamento, e mostrarão que a degradação das zonas secas não é menos importante do que o aumento gradual da temperatura, mas que os fenômenos ocorrem paralelamente, estão vinculados e têm consequências similares. “Qual de ser a política de comunicação para conseguir com a desertificação o entendimento e a consciência que se obteve em relação à mudança climática? Esta é a grande pergunta que será feita nesta conferência, para se tentar encontrar uma resposta”, finalizou Pérez Pardo.
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FONTE : Marcela Valente, da IPS (IPS/Envolverde)

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