terça-feira, 15 de setembro de 2009

O fetichismo do Produto Interno Bruto


“As estatísticas do PIB per capita podem não refletir corretamente o que a maior parte dos cidadãos experimenta. Um bom índice de medida para compreender como estamos procedendo deve levar em consideração a sustentabilidade. As contas da nossa nação devem refletir o exaurimento dos recursos naturais e a degradação do nosso meio ambiente.”

Essa é a opinião de Joseph E. Stiglitz, professor da Columbia University, prêmio Nobel de Economia em 2001 e ex-presidente da Comissão Internacional sobre a Medida da Performance Econômica e do Progresso Social, em artigo para o jornal La Repubblica, 12-09-2009. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Os esforços voltados para dar nova vida à economia mundial e, ao mesmo tempo, responder adequadamente à crise global do clima fizeram surgir uma difícil pergunta: as estatísticas estão nos dando “sinais” corretos e confiáveis com relação ao que estamos fazendo? No nosso mundo concentrado na performance, as interrogações relativas à confiabilidade das medidas ganharam uma importância sempre maior: o que medimos influencia no que fazemos.

Se dispusermos de pesquisas inadequadas, o que nos esforçamos de todos os modos para conseguir (por exemplo, aumentar o PIB) pode, na realidade, contribuir para piorar os padrões de vida.

Poderemos também nos encontrar diante de escolhas falsas, vendo compromissos entre produtividade e proteção ambiental que, de fato, não existem. Pelo contrário, melhores medidas das performances econômicas poderiam colocar luz no fato de que as iniciativas tomadas para melhorar o ambiente se tornam vantajosas também para a economia.

Há 18 meses, o presidente francês Nicolas Sarkozy instituiu a Comissão Internacional sobre a Medida da Performance Econômica e do Progresso Social, estando insatisfeito - junto com muitos outros - com o atual estado das informações estatísticas que se referem à economia e à sociedade. No dia 14 de setembro, essa comissão irá publicar o seu tão esperado relatório.

A pergunta mais importante à qual é preciso dar uma resposta é se o PIB constitui ou não um indicador válido dos padrões de vida. Em muitos casos, as estatísticas sobre o PIB parecem sugerir que a economia está em condições claramente melhores das percebidas pela maioria dos cidadãos. Além do mais, centrar a atenção sobre o PIB desencadeia conflitos: os líderes políticos dizem para amplificar sua importância, mas a sociedade exige que uma atenção análoga seja garantida também para melhorar a segurança, reduzir a poluição acústica, do ar e da água, e assim por diante - todos aspectos que poderiam contribuir para reduzir o crescimento do PIB.

Há muito tempo, naturalmente, bem se sabe que o PIB pode ser um índice de medida inadequado do bem-estar e até das atividades de mercado, mas as mudanças sociais e econômicas podem ter acentuado os problemas justamente quando os progressos no âmbito da economia e das técnicas estatísticas forneceram a ocasião de melhorar as nossas pesquisas.

Por exemplo, enquanto se supõe que o PIB mede o valor da produtividade das mercadorias e dos serviços, em um setor crucial - o governo - normalmente não temos como fazê-lo, por isso, muitas vezes, medimos seu output simplesmente com base no input. Se o governo gasta mais - mesmo que de modo ineficiente - o output aumenta. Nos últimos 60 anos, o percentual do output de governo no PIB cresceu de 21,4% a 38,6% nos EUA, de 27,6% a 52,7% na França, de 34,2% a 47,6% no Reino Unido e de 30,4% a 44% na Alemanha. Portanto, aquele que era um problema relativamente secundário se tornou agora um problema de primeira importância.

Do mesmo modo, o atual aumento do PIB se deve em boa parte às melhorias da qualidade - por exemplo, automóveis melhores em vez de um número maior de automóveis. Mas avaliar as melhorias da qualidade é difícil. A assistência de saúde exemplifica muito bem esse problema: ela é fornecida publicamente, e muitas das melhorias ocorreram com relação à qualidade.

O mesmo problema que surge fazendo-se comparações ao longo do tempo vale para as comparações feitas entre diversos países. Os EUA gastam mais do que qualquer outro país em assistência de saúde (seja per capita, seja em porcentagem com relação aos usuários), mas com resultados decisivamente inferiores. Parte da diferença entre o PIB per capita nos EUA e nos países europeus poderia se dever, portanto, às modalidades de medida adotadas.

Outra mudança relevante que ocorreu na maior parte das sociedade é o agravamento das disparidades: isso significa que há desigualdades em crescimento entre os ganhos médios (intermediários) e o ganho médio (ou seja, o da pessoa “média”, cuja renda se coloca na metade da escala de distribuição dos ganhos). Se um pequeno grupo de banqueiros enriquece, o ganho médio pode subir, mesmo que a maior parte dos ganhos individuais desce. Portanto, as estatísticas do PIB per capita podem não refletir corretamente o que a maior parte dos cidadãos experimenta.

Para avaliar bens e serviços, usamos o preço de mercado, mas agora até aqueles que sempre colocaram a máxima confiança nos mercados põem em discussão a confiabilidade dos preços de mercado, declarando-se contrários a avaliações mark-to-market. Os lucros dos bancos de antes da crise - um terço de todos os ganhos das corporações - parecem ter sido uma miragem.

Compreender isso permite que se ponha uma nova luz não apenas nas nossas medidas da performance, mas também sobre as deduções que tiramos delas. Antes da crise, quando o crescimento dos EUA (segundo as medidas padrões do PIB) parecia muito mais consistente do que o da Europa, muitos europeus defendiam que a Europa deveria adotar o capitalismo de marca norte-americana. Naturalmente, qualquer pessoa que assumisse a briga poderia constatar facilmente o crescente endividamento das famílias norte-americanas, e esse dado contribuiria muito para retificar a falsa impressão de sucesso transmitida pelas estatísticas sobre o PIB.

Os recentes progressos metodológicos permitiram-nos avaliar melhor o que contribui para o bem-estar da sociedade e de recolher as informações necessárias para fazer tais avaliações em intervalos regulares. Esses estudos, por exemplo, verificam e quantificam o que deveria ser totalmente óbvio: a perda de um posto de trabalho tem um impacto enormemente maior do que o que se poderia quantificar calculando apenas a perda de uma renda. Nesse sentido, esses estudos demonstram, além disso, a importância do fato de serem relacionados ao nível social.

Um bom índice de medida para compreender como estamos procedendo também deve levar em consideração a sustentabilidade. Exatamente como uma empresa precisa calcular a depreciação de seu capital, assim também as contas da nossa nação devem refletir o exaurimento dos recursos naturais e a degradação do nosso meio ambiente.

As tabelas estatísticas são concebidas para sintetizar o que ocorre na nossa complexa sociedade com números de fácil interpretação. Deveria ter sido óbvio que era impossível reduzir todas as coisas a um único números, o PIB. O relatório da Commission on the Measurement of Economic Performance and Social Progress levará - assim esperamos - a uma melhor compreensão dos usos e dos abusos desse indicador estatístico.

Além disso, o relatório oferecerá algumas linhas-guia para criar uma gama mais ampla de indicadores que possam representar mais acuradamente o bem-estar e a sustentabilidade, dando impulso para melhorar a capacidade do PIB e das estatísticas correlatas para avaliar a performance da economia e da sociedade. Reformas semelhantes nos ajudarão a dirigir os nossos esforços (e os nossos recursos) para metodologias que conduzam a uma melhoria em ambos os âmbitos.
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FONTE :Joseph E. Stiglitz é professor da Columbia University, prêmio Nobel de Economia em 2001 e ex-presidente da Comissão Internacional sobre a Medida da Performance Econômica e do Progresso Social (Envolverde/IHU - Instituto Humanitas Unisinos)

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