quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Estudos alertam para a falta de comida em 2050


Respeitadas instituições internacionais para a alimentação e agricultura alertam que as mudanças climáticas terão grandes impactos na produtividade do campo e repetem o que já era evidente: os mais pobres sofrerão mais.

Já era esperado que o aumento da intensidade e da freqüência de fenômenos climáticos extremos, como secas e tempestades, devido às mudanças climáticas, causasse impactos na agricultura e na alimentação mundial. Agora, dois estudos recém publicados por respeitadas instituições internacionais dão ainda mais embasamento para essa possibilidade e trazem números preocupantes para o futuro do planeta.

Segundo a pesquisa “Mudanças Climáticas: Impactos na Agricultura e Custos de Adaptação” (“Climate Change: Impact on Agriculture and Costs of Adaptation”) do Instituto Internacional de Pesquisa em Política Alimentar (IFPRI), mais de 25 milhões de crianças sofrerão de má nutrição em 2050 devido aos impactos das mudanças climáticas.

“Este cenário pode ser evitado se US$ 7 bilhões forem investidos anualmente para ajudar os agricultores a se adaptar para os efeitos das mudanças climáticas. Os investimentos serão necessários em pesquisas agrícolas, irrigação e infraestrutura para aumentar o acesso ao mercado de pequenos produtores”, afirmou o principal autor do estudo, Gerald Nelson.

De acordo com a pesquisa, se os fazendeiros não adotarem novas tecnologias e realizarem ainda outras adaptações, as mudanças climáticas irão reduzir, por exemplo, em 30% a capacidade de irrigação na cultura de trigo nos países em desenvolvimento em 2050. A irrigação do arroz apresentaria uma queda de 15%.

Mesmo sem as mudanças climáticas, está previsto o aumento dos preços dos alimentos no futuro, porém o fenômeno irá agravar ainda mais este problema. O preço do trigo em 2050, por exemplo, subirá cerca de 40%. Com as temperaturas mais elevadas alterando o clima, o valor do produto registrará um crescimento de 170% a 194%. O arroz terá um aumento de 60% em um cenário de clima estável e 148% a 153% se a previsão de aquecimento global se confirmar.

Para chegar a estas conclusões, o IFPRI levou em conta projeções de modelos climáticos nos quais os padrões de temperatura e a chuva são alterados pelas mudanças climáticas. Depois, colocou esses dados no seu modelo econômico da agricultura mundial, analisando assim alterações na produção, consumo e comércio das principais commodities agrícolas.

A instituição alerta que o cenário pode ser ainda pior, já que não levou em conta várias possíveis conseqüências das mudanças climáticas como: a perda de terra produtiva devido ao aumento do nível dos oceanos, o proliferação de pestes e doenças, os efeitos da maior variação da temperatura nas culturas e a variação do fluxo dos rios devido ao degelo de montanhas.

De acordo com o estudo, os países em desenvolvimento serão os que mais irão sofrer com as mudanças climáticas e apresentarão as maiores quedas na produtividade. As regiões do sudeste da Ásia e a África serão particularmente atingidas.

“A agricultura é extremamente vulnerável às mudanças climáticas, já que é tão dependente do clima. Pequenos produtores em países em desenvolvimento serão os que mais vão sofrer. Porém nosso estudo mostra que este cenário de baixa produção, altos preços e crianças mal nutridas pode ser evitado”, disse o co-autor da pesquisa, o diretor da divisão de Meio Ambiente e Tecnologia de Produção do IFPRI, Mark Rosegrant.

Além de um aumento de recursos para o desenvolvimento rural, a pesquisa recomenda um comércio mais aberto para a agricultura, para que isso garanta às populações pobres acesso mais fácil à comida em momentos de crise. “Se os governos começarem a investir seriamente nisso agora, podemos evitar um futuro sombrio”, concluiu Rosegrant.
Pobre África

A Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO) também acaba de divulgar um artigo sobre os efeitos das mudanças climáticas na alimentação mundial, e a sua conclusão é semelhante à pesquisa do IFPRI: os pobres sofrerão mais.

Segundo a FAO, muitos países em desenvolvimento, principalmente os africanos, se tornarão cada vez mais dependentes da importação de alimentos, o que fragilizará ainda mais a já combalida economia nessas nações. De acordo com o artigo, a produção local de comida deverá ter uma queda de 9% a 21% em 2050.

A Organização alerta que o setor agrícola será vital para a segurança alimentar, redução da pobreza e na preservação de ecossistemas nos próximos anos.

O documento recomenda o aumento dos investimentos em melhores políticas, instituições e tecnologias para a área, e afirma que será fundamental o corte das emissões do setor, que responde por 14% de todos os gases do efeito estufa lançados na atmosfera.

O trabalho foi produzido para servir como uma das bases das discussões no Fórum “Como Alimentar o Mundo em 2050”, que será realizado em Roma em outubro. O evento irá examinar opções políticas que os governos devem considerar para garantir comida para 9,1 bilhões de pessoas, que é a população mundial projetada para 2050.

A FAO afirma que alcançar isto em um cenário de mudanças climáticas será um dos grandes desafios do século.

A Organização ainda destaca que até recentemente a agricultura era um tópico marginal nas negociações climáticas, com exceções apenas para assuntos ligados ao desmatamento e atividades de mitigação da degradação das florestas. Esse cenário já estaria mudando, porém é preciso dar ainda mais atenção para a agricultura, incluindo também nas conversas os projetos de seqüestro de carbono através de novos modelos de produção.

Tanto o artigo da FAO quanto o estudo do IFPRI serão apresentados e discutidos em Bancoc nos próximos dias, durante a penúltima rodada de negociações climáticas antes da grande conferência do clima de Copenhague em dezembro.
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FONTE : Imagem da FAO (Envolverde/CarbonoBrasil)

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