quarta-feira, 23 de setembro de 2009

ANDI Mudanças Climáticas entrevista Dal Marcondes


Adalberto Marcondes é jornalista e empreendedor na área de meio ambiente e responsabilidade social, hoje ocupa o cargo de diretor da Agência de Notícias Envolverde (www.envolverde.com.br), fundada em 1997. Em entrevista à ANDI, ele avalia a cobertura da mídia brasileira sobre a agenda climática e aponta: é preciso incorporar o senso de urgência.

O debate sobre desenvolvimento está no cerne do tema mudanças climáticas. O aumento da cobertura, registrado nos últimos anos, vem contribuindo para que jornalistas superem as dificuldades para fazer a relação entre essas agendas?

É possível visualizar avanços, mas eles ainda não adquiriram a abrangência necessária. A mídia ainda tem muita dificuldade para fazer a ligação entre mudanças climáticas com o cotidiano do business as usual. Mesmo que tenhamos jornalistas em grandes veículos que já possuem uma visão mais ampla de transversalidade desse tema, a maior parte dos profissionais ainda não incorporou o senso de urgência que está presente no discurso científico.

Ao acompanhar a cobertura sobre as fortes chuvas no sul do país, por exemplo, ainda temos predominantemente o modelo “cobertura da tragédia” que mostra as casas destelhadas e os desabrigados, mas não aponta sistematicamente quais forças climáticas e quais fatores ambientais devem ser levados em consideração.

A análise de mídia que a ANDI acaba de lançar aponta um razoável aumento no numero de noticias que apresentam enquadramento econômico ( de 15% para 18,7%) ou político ( 11,5% para 15,8%) nos períodos de 2005 e 2007 e de 2007 até o final de 2008, analisados no estudo. Você consegue enxergar esse avanço?

A imprensa tem um potencial imenso na transformação da economia, mas não está exercendo esse papel estrutural. É preciso contextualizar, aprofundar o debate e estar atento sobre se e como o governo coloca a agenda climática de forma transversal em suas ações.

Ainda de acordo com a análise de mídia, houve aumento de interesse por parte dos jornais em abordar assuntos domésticos. Na sua observação cotidiana das matérias reproduzidas e elaboradas pela agência Envolverde, há de fato uma pressão crescente sobre o governo?

Há uma pressão sim, mas que deve avançar. O que existe hoje é basicamente uma cobrança direcionada aos compromissos que devem ser assumidos para Copenhague, na COP-15. Além disso, na minha avaliação, a mídia ainda não compreende a fundo qual o papel do governo. Eu já li textos que, da forma como estavam escritos, deram a impressão de que o governo pode acabar com as mudanças climáticas por meio de um decreto.

O desafio é cobrar do governo a respeito do tipo de política pública que está sendo aplicada e que resultados podemos esperar. É preciso trabalhar com a análise de potenciais e de resultados das iniciativas governamentais.

Um exemplo recente: não há uma reflexão sobre mudanças climáticas e a exploração da camada pré-sal. O que vemos é uma cobertura ufanista, valorizando o fato de que o Brasil pode entrar na Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) e será um dos maiores produtores e exportadores mundiais. Porém onde está a pauta sobe como o governo pode agir para mitigar o impacto da exploração desse petróleo?

O governo está respondendo à pressão existente?

Em alguns pontos os governo reponde ao papel fiscalizador da imprensa, mas tudo depende da necessidade de fornecer essa resposta. Estamos entrando em ano eleitoral e por isso ele vai dialogar muito mais. Terminando esse período a situação muda. Isso acontece porque a relação do governo com a mídia é de uso. Quando o governo precisa, chama a imprensa, quando não, a ignora.

Como jornalista da área ambiental, qual saída você enxerga para que um profissional não especializado possa qualificar ainda mais a cobertura sobre mudanças climáticas?

Existe uma melhora nos últimos anos com trabalhos que muitas instituições estão realizando. A exemplo da própria ANDI, do Instituto Ethos, há iniciativas de capacitação que contribuem com a melhora da cobertura. Porém, é preciso ir alem do editor e do repórter. A decisão de abordar esse tema de forma mais qualificada tem que partir de cima. É preciso trabalhar em alto nível. Ainda não conseguimos envolver os diretores de jornais, de televisão, por exemplo. Essas são as pessoas que podem efetivamente mudar a linha editorial da publicação, do programa e dizer: “temos que olhar para esse tema de forma diferenciada”. Infelizmente, esse alto escalão enxerga o jornalista que trabalha com a pauta ambiental como eco-chato.
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FONTE : (Envolverde/ANDI Mudanças Climáticas)

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