domingo, 2 de novembro de 2008

OS ESTRAGOS DA CONSTRUÇÃO CIVIL


No final dos anos 70/80, num verdadeiro ato "patológico", tentei explicar à comunidade através da mídia, com clareza e sem rodeios, o verdadeiro impacto ambiental provocado pela construção civil, sem controle, em nosso município. Eu tinha a intenção de fazer com que as empresas construtoras exigissem dos fornecedores certificados de que estes estavam agindo de acordo com as normas ambientais (leis, códigos, certificados de impacto ambiental, etc...). Muitos engenheiros e construtoras foram sensíveis ao tema, tendo entrado em contato comigo num primeiro momento. Mas a maioria das pessoas ligadas à área tratou de me ridicularizar, acusando-me de ser contra o progresso da cidade. Lembro de uma declaração do Dr. Wilson Aita, docente do Curso de Engenharia Civil da UFSM, que disse - em meu socorro - "que era necessário que a exploração dos recursos naturais fosse feita de maneira racional e organizada". Eu entendia que essa transformação iria precisar de tempo, de compreensão, de paciência e que, principalmente, estruturas mínimas deveriam ser criadas para permitir a adequação dos exploradores, tais como linhas de financiamento, custos compatíveis.Nunca fui cretino nem catastrófico para querer paralisar a construção de edifícios ou algo nesta linha. Mas queria que a cidade raciocinasse sobre a utilização dos recursos da Natureza para o bem-estar do homem, utilização adequada e dentro das normais ambientais vigentes, ações que minimizassem os danos e, também, meios de reparar os danos causados. Na realidade, eu queria expor - há 38 anos atrás - para um público de visão paroquiana, sem cultura ecológica, uma verdade que saltava aos olhos : a construção civil é, na verdade, a ponta de uma longa cadeia de danos ambientais.A madeira usada naquela época na construção civil (creio que ainda hoje) vem de onde ? Esta madeira possui "selo verde" ? Ou grande parte dela representa uma gigantesca fatia retirada de florestas que estão em extinção acelerada ? Rochas usadas no piso e no revestimento das construções (granito, ardósia, quartzitos) são degradação em estado bruto. De onde vem este material ? Onde são extraídos não se formam crateras lunares, montanhas de rejeitos, desmatamento e assoreamento dos cursos de água ? O que falar do processo de extração e beneficiamento do calcário, que dá origem ao cimento, principal insumo da construção civil ? Já foi feito um levantamento criterioso da destruição de grutas, de cavernas, da poluição dos rios e do ar ? Quais os responsáveis pela fiscalização desse setor de mineração, que relatórios públicos a população pode consultar ? Uma particularidade curiosa em tudo isso é que esta poluição causada, direta ou indiretamente, pela construção civil não lhe produz o ônus social da degradação. Os impactos são, em sua grande maioria, invisíveis aos que moram na cidade. Mas existem os danos diretos, visíveis, causados pelos canteiros de obras, encontrados nas ruas e avenidas dos centros urbanos. Os danos são múltiplos, tais como a destruição do patrimônio arquitetônico, onde casas antigas, tradicionais, tombam como se fossem árvores na floresta. Apenas para exemplificar, cito a recente demolição da bela casa da família Aita, derrubada da rua do Acampamento. O espaço aberto é diminuído rapidamente, às vezes na calada da noite, devorado pela ocupação desordenada dos terrenos. Há o carreamento dos resíduos de construção para os sistemas de drenagem urbana, entupindo bueiros, bocas-de-lobo, galerias, poluindo margens de córregos, ajudando a aumentar enchentes, alagamentos e derrubando casebres e ferindo gente.A repórter Elen Almeida, que está se tornando uma exímia e talentosa "expert" na área de meio ambiente urbano, publicou em "A RAZÃO" há poucas semanas a destruição de centenas de árvores em pleno centro da cidade para que, em seu lugar, fosse construído um imenso conjunto de prédios residenciais. O empresário Carlinhos Costa Beber fez coro aos meus protestos no programa "Sala de Debate", da rádio Antena Um. Mas a destruição estava feita. E nem ao menos se ficou sabendo, à época, se havia licença para que aquilo fosse feito.
Poderia citar o vidro empregado nas construções, a extração de areia e a alteração da paisagem, com assoreamento dos cursos de água e destruição da paisagem. O alumínio e a fantástica quantidade de energia usada em sua fabricação, além da poluição causada pela extração da bauxita. A brita e os problemas causados pelas pedreiras, com destruição de áreas de preservação permanente, explosões que perturbam o sossego público, o desmatamento muitas vezes produzido. A fabricação de tijolos e a fantástica quantidade de lenha que é consumida em sua fabricação, além do que a extração de argila afeta as zonas baixas, lagoas e matas ciliares.
Além da construção civil, o setor moveleiro e as indústrias de embalagens poderiam ajudar a frear a retirada ilegal e indiscriminada de madeira das florestas se passassem a exigir com firmeza de seus fornecedores a certificação ambiental. Mas tudo isso passa por sensibilidade, por educação ambiental, por vontade política, por diminuição de ganância, por mudança de comportamento.
Graças ao apoio da Promotoria Pública, numa grande campanha que promovi contra as pedreiras instaladas dentro do perímetro urbano e que destruíam áreas de preservação permanente, os morros que cercam a cidade estão preservados. Consegui, mediante denúncia sistemática em Porto Alegre e Brasília, com apoio da Justiça local, na década de 80, o fechamento da pedreira da UFSM (onde eu era professor de Ecologia do Departamento de Biologia), pedreira Link, pedreira do Morro do Cechella, pedreira da Viação Férrea, etc...Mas a maior vitória nesse sentido foi o fechamento da pedreira do Morro do Cerrito, explorada pela Prefeitura Municipal no governo Evandro Beher, atividade proibida por lei municipal e pelo Código Florestal vigente na época, por constituir-se aquele morro no último resquício de mata nativa situado dentro do perímetro urbano. Foi talvez, a maior vitória que consegui como vereador nessa cidade, com uma proposta ecologista de mandato. Dia destes, ouvindo uma rádio local, fiquei a escutar atentamente uma entrevista dada pelo Dr. Walter Bianchini, dono das fábrica de facas Coqueiro, de Arroio do Só, professor aposentado da UFSM e ex-secretário dos governos do Rio Grande do Sul e de Roraima. Ele dizia claramente : "Os morros de Santa Maria continuam de pé por causa da obstinação do professor James Pizarro". Tão acostumado a levar somente bordoadas, fiquei emocionado em ouvir este reconhecimento público. E fui dormir feliz aquela noite...

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