domingo, 26 de dezembro de 2010

A ilha do tesouro exposta a piratas

O sucesso de pesquisadores da Jamaica no aproveitamento de plantas nativas para uso medicinal colocou sobre a mesa a insuficiência de leis locais para proteger a rica diversidade biológica da ilha. Dois dias depois de o zoólogo Laurence Williams, anunciar uma patente internacional para um composto anticancerígeno derivado da erva guiné (Petiveria alliacea), outro cientista local, Henry Lowe, informou que fará testes clínicos com um composto extraído de um musgo jamaicano também com propriedades contra o câncer.

São apenas duas das 334 plantas desse país pesquisadas por suas propriedades medicinais. Laurence, do governamental Centro de Pesquisa Científica (SRC), descobriu um complexo de proteínas – dibensyl triulphide – com capacidade de matar vários tipos de câncer, incluindo o melanoma, de pulmão e de mama, disse à IPS.

Os iminentes testes clínicos de um nutracêutico (alimento ou composto benéfico para a saúde humana) gerado a partir de um musgo conhecido como barba-de-velho (Tillandsia recurvata), para tratar câncer de próstata, foram recebidos com entusiasmo e algum ceticismo. Por trás da iniciativa está Henry, um bioquímico jamaicano, e outro pesquisador, Joseph Bryant.

Até agora, a planta é relacionada pela maioria dos jamaicanos como um parasita, que invade árvores e afeta cabos de eletricidade. Muitos pensam que estas plantas nativas podem produzir compostos de alta qualidade medicinal ou nutracêuticos, muito similares ao café, coco, gengibre e pimenta jamaicana.

“Não há nada para proteger as plantas. Não temos Lista Vermelha”, disse à IPS o biólogo Andreas Oberli, referindo-se à falta de informação recente para a lista de espécies ameaçadas da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN). A Autoridade para a Conservação dos Recursos Naturais da Jamaica e as leis de proteção da vida silvestre, que regem a preservação dos recursos biológicos da ilha, quase não falam de espécies de plantas.

Somente as plantas que no passado foram incluídas pela UICN estão cobertas, e a flora das terras privadas não se beneficia da limitada proteção das leis. O resultado, segundo Andreas, é que “muitos dos tesouros biológicos da ilha estão sendo perdidos, especialmente nas áreas costeiras onde as florestas virgens e as cavernas estão sendo destruídas para construção de hoteis”. No interior, os agricultores destroem as florestas, afirmou.

A rica diversidade biológica da Jamaica coloca este país em quinto lugar no mundo em termos de endemismo, isto é, exclusividade de determinadas espécies em um determinado espaço geográfico. Entretanto, estão catalogadas apenas 200 das mais de 3.300 espécies de plantas com flores. Segundo a Agência Nacional de Meio Ambiente e Planejamento (Nepa), encarregada de preservar a biodiversidade da ilha, aproximadamente 923 das plantas conhecidas no mundo estão presentes apenas na Jamaica.

No contexto da Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies Ameaçadas de Fauna e Flora Silvestres (Cites), a Nepa só outorga permissões a equipes de pesquisadores que tenham um especialista jamaicano. A Agência também exige que as mostras utilizadas sejam conservadas no Instituto da Jamaica, explicou o zoólogo Karl Aiken, da Universidade das Índias Ocidentais (UWI).

Com a quantidade de espécies de plantas ainda desconhecidas e com as novas variedades que são descobertas a cada dia, os cientistas locais dizem que o valor da diversidade biológica da ilha é infinitamente ignorado. Muitos estão interessados em realizar avaliações econômicas dos setores com altos níveis de endemismo, mas até agora apenas limitados projetos seguiram esse caminho.

Andreas está preocupado porque a grande biodiversidade da Jamaica não está sendo desenvolvida, e perde-se antes que possa ser registrada ou descoberta. Ele descreveu as reservas naturais declaradas pelo governo como “parques de papel”. Um exemplo é a protegida península Palisadores, onde uma estrada está sendo construída no único hábitat conhecido de um raro cacto endêmico.

As pesquisas relacionadas a medicamentos na Jamaica frequentemente derivam de remédios tradicionais, como a Cannabis sativa (maconha), que, afirma-se, melhora a visão dos pescadores ou é usada por avós para aliviar a asma em crianças. Também uma variedade de melão-de-São-Caetano (Momordica charantia), usada há muito tempo para tratar diabete e curar dor de estômago, entre outros males. A árvore da fruta-pão serve para tratar hipertensão.

A pesquisa com plantas na Jamaica remonta a 129 anos, mas a pesquisa de produtos naturais começou em 1948 com a fundação da UWI. Desde então, os cientistas testaram o conhecimento dos curandeiros locais, estudando o valor medicinal de centenas de espécies e testando 193, incluindo 31 endêmicas por seus componentes bioativos e químicos que permanecem estáveis durante o processo. O Grupo UWI informou que cerca de um quarto das plantas endêmicas examinadas possuíam componentes bioativos.

Em 1987, o professor de farmacologia Manley West e seu companheiro, o oftalmologista Alfred Lockhart, desenvolveram com sucesso o Canasol, para tratamento de glaucoma, o Asmasol, para asma bronquial, e o Canavert para enjoo. Todos derivados de variedades de Cannabis sativa cultivadas localmente, conhecidas como ganja. Em 2008, a dupla novamente teve sucesso com outro remédio derivado da cannabis, o Centimal, também para tratar glaucoma.

Com a criação de outras universidades locais, e agora do Instituto de Pesquisa Biotecnológica e Desenvolvimento, uma colaboração entre as três universidades mais antigas (UWI, Universidade de Tecnologia e Universidade do Norte do Caribe - NCU) junto com o SRC, conseguiu-se mais êxitos ainda. Na NCU, cientistas pesquisam as propriedades do hibisco (Hibiscus sabdariffa) para combater o câncer, conhecido também como flor da Jamaica e usado para elaborar a tradicional bebida de Natal deste país.

Cultivada em três variedades, a produção de hibisco fornece um composto que, segundo os pesquisadores, permitiria grandes avanços no tratamento do câncer de pulmão e fígado. A NCU também descobriu que o alho faz as células cancerígenas de pulmão e fígado diminuírem e eventualmente morrerem.

Pesquisadores da UWI estudam os efeitos de ervas locais em doenças como hipertensão, diabete e glaucoma. As taxas de câncer de próstata e diabetes na Jamaica estão entre as mais altas do mundo. O problema que os cientistas jamaicanos enfrentam agora “é estar diante da competição”, disse Henry no dia 2, durante o lançamento de uma nova entidade de pesquisa na ilha.

Ao batizar as plantas de onde são extraídos os compostos, Henry e outros estão preocupados porque grandes companhias produzirão versões comerciais antes deles. Por exemplo, a vincapervinca foi tradicionalmente usada para tratar diabete durante muitos anos, até que os cientistas locais isolaram um composto para tratar câncer. Seu trabalho foi usado para desenvolver os atuais medicamentos líderes no mundo contra leucemia (Vinblastine e Vincristine), sem o reconhecimento da propriedade intelectual jamaicana.

Apesar dos desafios decorrentes da limitação de recursos, dos altos valores das patentes e inadequada proteção dos recursos biológicos, os pesquisadores estão tomando a dianteira e esperando que a legislação se modernize.
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FONTE : Zadie Neufville, da IPS (Envolverde/IPS)
* Este artigo é parte de uma série de reportagens sobre biodiversidade produzida por IPS, CGIAR/Bioversity International, IFEJ e Pnuma/CDB, membros da Aliança de Comunicadores para o Desenvolvimento Sustentável (http://www.complusalliance.org).

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