sábado, 25 de dezembro de 2010

A água invisível

“As futuras gerações nos lembrarão e abençoarão por nosso clarividente patriotismo e sobre nós será dito, como há muito tempo disse Isaías: eles fizeram um caminho na terra virgem e rios no deserto” (primeiro-ministro John Forrest, 1903) (1). A abertura da tubulação de água Kalgoorie Goldfields, na Austrália Ocidental, em 1903, foi, então, um acontecimento para ser comemorado. Esse triunfo da engenharia, de 557 quilômetros de comprimento, fornecia água de rios represados e de bacias hidrográficas nos arredores de Perth à mineração e à população, por meio de uma infraestrutura realizada como se fosse arte.

Pode-se, talvez, compreender a poética confiança do primeiro-ministro Forrest na capacidade da engenharia e da indústria para criar rios no deserto. A mesma confiança levou engenheiros como Sir Arthur Cotton a supervisionarem projetos na Índia e no Paquistão, que em 1974 deixaram uma herança de cem mil quilômetros de canais criados para desviar água para irrigação.

Agora, 40 mil hectares de terras de cultivo arruinadas pelo sal são abandonadas anualmente no Paquistão, e o Rio Murria, na Austrália, luta para chegar ao mar (2). Hoje, nos damos conta da destrutiva ingenuidade desses primeiros defensores da indústria. O que permitiu essa mudança na percepção foi a entrada do problema da água na consciência social, a compreensão sobre a fragilidade e a situação crítica dos sistemas hidrológicos. Entretanto, esta mudança na consciência ainda não foi suficientemente longe. Qualquer um que use torneiras e banheiros compreende isso.

Elizabeth Shove, destacada socióloga britânica, propõe uma evolução conjunta tanto dos objetos (como torneiras e acessórios de banheiro) e sistemas vinculados ao uso da água quanto dos hábitos dos usuários (3). A pura comodidade de usar uma torneira e a eficiência de nosso serviço local criam a ilusão de que a água é inesgotável. Só quando não sai água da torneira, quando sai de cor marrom ou quando o banheiro entope, então a água entra em nossa consciência.

A este respeito, as empresas não são diferentes das pessoas. No meio empresarial a consciência sobre os recursos locais de água está recém-nascendo em algumas das maiores empresas. Porém, na medida em que se faz mais destacada a tensão do tema e as empresas devem competir com outros usuários dos recursos locais de água, esta começa a penetrar na consciência empresarial.

Nas próximas duas décadas, prevê o 2030 Water Resources Group, o fornecimento local de água atenderá apenas 75% da demanda na China e 50% da demanda na Índia (4). Isso colocará as empresas que fazem uso intensivo de água, como a unidade da Intel Corp. na China e as unidades de engarrafamento da Coca-Cola Co., em direta competição com os 1,6 bilhão de pessoas já em dificuldade com o abastecimento de água nessas regiões.

A novidade do problema da água para algumas companhias e a falta de dados sobre como lidam com ele inspiraram a criação do novo programa do Carbon Disclosure Project, o chamado CDP Water Disclosure, que este ano distribuiu um questionário apoiado por 137 investidores que representam U$ 16 bilhões em ativos, perguntando a 302 corporações sobre administração da água, dos riscos e das oportunidades neste campo. Das respostas, 50% diziam que a água está na agenda dessas empresas que fazem uso intensivo da água (5).

Entretanto, os resultados indicam os diferentes comportamentos das companhias. Por exemplo, 100% das pertencentes ao setor químico responderam ao questionário, enquanto as de alimentos, bebidas e tabaco informaram que possuem metas especificas na utilização e no rendimento industrial da água. Outros setores responderam que precisam se preparar sobre o assunto. Apenas 29% do setor de hidrocarbonos respondeu e somente um entrevistado disse ter meta específica vinculada com a água.

A água virtual é a água usada para criar um produto e pode ser inesperadamente alto. Uma camiseta de algodão, por exemplo, consome 2.700 litros. A quantidade de água virtual para usos produtivos é frequentemente tão considerável como a correspondente ao uso direto e pode proporcionar os meios para que regiões com escassez de água possam atender suas necessidades por meio da importação, em lugar de produzir bens que exijam uma utilização intensiva do recurso.

No entanto, mais da metade dos entrevistados do setor de vendas não conseguiu identificar a quantidade do consumo procedente de regiões com problemas de fornecimento de água. Se o modo como usamos água diretamente é oculto, a água vinculada à produção de bens é verdadeiramente invisível.

Apesar dos resultados desiguais, há também grandes êxitos. Entre estes estão a Anglo-American, que reduziu o uso de água potável em 11% em 2009, a Colgate-Palmolive, que reduziu o uso absoluto de água em 29,8% entre 2002 e 2009, e a Ford Motor, que reduziu em 62, 4% desde 2000.

Além disso, a PG&E promove a Iniciativa da Cadeia de Fornecimentos Ecológicos, enquanto a General Electric faz grandes progressos em sistemas de alta tecnologia para medição da água, e a Taiwan Semiconductor Manufacturing avança na qualidade da água por seu cuidadoso manejo das técnicas de reciclagem e purificação desse recurso.

É por esta capacidade da água de entrar na consciência empresarial e social e pela habilidade das companhias em mostrar liderança no manejo da água que acredito que será possível evitar que as futuras gerações nos olhem como olhamos agora as tentativas de Forrest e Cotton de fazer rios no deserto. Envolverde/IPS

(1) Citado em Sofoulis, Z. (2005) ‘Big Water, Everyday Water: A Sociotechnical Perspective’ Continuum. 19:4, 445-463.

(2) Pearce, F. (2006) When the Rivers Run Dry, Eden Project Books, Londres.

(3) Shove, E. (2003) Comfort, Cleanliness and Convenience: The Social Organization of Normality. Berg, Oxford.

(4) 2030 Water Resources Group (2009) Charting our Water Future: Economic frameworks to inform decision-making.

(5) Water Footprint Network 2010 Water Footprint Product Gallery. Accessed online http://www.waterfootprint.org/?page=files/productgallery&product=cotton
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FONTE : Chris Hedemann é account manager da CDP Water Disclosure (http://www.cdproject.net/en-US/Programmes/Pages/cdp-water-disclosure.aspx)
**este artigo é parte de uma série de artigos de opinião e entrevistas sobre a responsabilidade social e ambiental das empresas, patrocinada por Anheuser-Busch InBev. (IPS/Envolverde).

Um comentário:

Leilane Marina disse...

Sou estudante de Ciências Biológicas/Ambientais e acredito que o ideal para o manejo da água seria não só polpa-la de forma subsistente, mas também, evitar o desmatamento e plantar mais árvores, pois sabe-se que boa parte da água da chuva provem da saida do vapor de água que sai pelos estomatos dos vegetais. Talvez se nós passarmos a apenas economizar a água estariamos apenas adiando o desaparecimento desta.