terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Cientistas preveem consequências devastadoras das mudanças climáticas se ação humana não mudar

Copenhague e Cancún já são passado na história das mudanças climáticas. Depois de duas conferências das Nações Unidas marcadas por excesso de discussões diplomáticas e poucos avanços práticos, chegou a hora de pensar em Durban, cidade da África do Sul que vai sediar, daqui a um ano, a COP-17. Às vésperas do fim da primeira fase do Protocolo de Kyoto, o momento será decisivo. Se não houver acordo, o mundo poderá ficar sem um documento vinculante, com força de lei, para nortear as políticas de contenção das emissões de CO2 na atmosfera.

Enquanto negociadores de todo o globo se digladiam devido às questões econômicas inerentes às mudanças climáticas, a ciência é pouco ouvida nas reuniões preparatórias e nas conferências da ONU. Diversos estudos, porém, alertam que, sem um acordo realmente ambicioso, pode-se esperar um futuro marcado por catástrofes naturais, provocadas pela intervenção humana no ecossistema. Reportagem no Correio Braziliense.

Na edição desta semana da revista da Academia de Ciências dos Estados Unidos, um grupo de pesquisadores mostra as consequências devastadoras das mudanças climáticas justamente no país que se recusou a ratificar Kyoto. “Se as projeções sobre o clima se confirmarem, as florestas do sudeste dos EUA vão enfrentar um futuro sombrio, com mais severos — e mais frequentes — incêndios florestais, mais infestações de insetos e maior taxa de morte de árvores”, disse ao Correio o pesquisador Park Williams, do Departamento de Geografia da Universidade de Califórnia de Santa Bárbara. “Nessa parte do país, as florestas são mais sensíveis ao aumento de temperatura durante a primavera e o verão. Justamente nesses períodos, está ficando cada vez mais quente”, constata.

O estudo, realizado a partir de medições de anéis das árvores, mostra que a devastação florestal traz consequências graves aos norte-americanos. “Mudanças grandes e rápidas na vegetação podem ter diversos significados: desde o fornecimento de água ao aumento das erosões, passando por enchentes e inundações”, lembra Williams. “A intensidade e a frequência dos incêndios também vai aumentar. Uma mudança na paisagem da região também seria catastrófico para o turismo, que depende basicamente da natureza no local.”

Alerta
Na semana passada, um dos maiores especialistas em mudanças climáticas, Lonnie Thompson, da Faculdade de Ciências da Terra da Universidade de Ohio, lançou um alerta sobre o uso desenfreado dos combustíveis fósseis. Segundo ele, se não forem exploradas imediatamente novas formas de energia, as consequências ambientais, sociais e econômicas pegarão a humanidade de surpresa: “Antes que pudermos nos adaptar, elas estarão aí”, disse Thompson, na revista especializada The Behavior Analyst.

Para o especialista, não há dúvidas sobre a ação antropogênica no ritmo das mudanças climáticas. Nas últimas três décadas, Thompson liderou 57 expedições a alguns dos mais remotos lugares do mundo, para verificar os estragos humanos no ecossistema, como a deglaciação das geleiras. “Minhas opiniões não são uma hipérbole, mas estão baseadas em evidências científicas que documentam o quanto a Terra está aquecendo, e que esse aquecimento é fundamentalmente devido à atividade humana”, disse ao Correio. O especialista diz que não há mais espaço para ceticismo. “A não ser que um grande número de pessoas tomem as iniciativas certas, incluindo regulações governamentais com objetivo de reduzir as emissões de gás de efeito estufa, nossas únicas opções serão adaptação e sofrimento”, escreveu Thompson, no artigo da The Behavior Analyst.

Para quem não acredita na ação antropogênica sobre as mudanças climáticas, o especialista fornece algumas evidências: desde 1912, o Monte Kilimanjaro, na Tanzânia, perdeu 85% da cobertura nevada; a calota de gelo de Quelccaya, no Peru, a maior área glaciar dos trópicos, retraiu 25% desde 1978; 98% das geleiras no sudeste do Alasca encolheram, e, no Polo Norte, o nível do mar tem aumentado à medida que a cobertura de gelo diminui anualmente. “Claramente, a mitigação é nossa melhor opção, mas até agora, as maior parte das sociedades ao redor do mundo, incluindo os Estados Unidos e outros grandes emissores de gases de efeito estufa, fizeram pouco mais do que falar sobre a importância da mitigação”, critica.

Para o professor de Biologia da Universidade de Penn State Eric Posto, não apenas os formuladores de políticas públicas, mas todas as pessoas, precisam tomar atitudes em relação às mudanças climáticas. Autor de um recente artigo publicado sobre o assunto na revista especializada Nature, Posto diz que o aumento da temperatura e a alteração nas precipitações são questões importantes, mas a forma como os homens respondem a essas condições pode piorar ainda mais uma situação já crítica. Segundo ele, muitas árvores tropicais são resistentes ao aumento dos termômetros e mesmo à seca.

“Mas não há como resistir às queimadas feitas pelo homem. Então, atividades como essa podem ser muito mais perigosas para a biodiversidade tropical do que apenas um crescimento da temperatura”, argumenta. Posto explicou ao Correio que, com as condições climáticas alteradas, o acesso do homem às florestas aumenta. Sem chuvas e com clareiras, é mais fácil adentrar as áreas antes quase intocadas. “O aumento do acesso leva a mais queimadas, caçadas e incêndios, um ciclo potencialmente destrutivo”, diz.

O pesquisador israelense Guy Pe’er, um dos primeiros do país a estudar os efeitos das mudanças climáticas, há 10 anos, diz que é hora de parar com o ceticismo. Autor de um relatório sobre a situação do clima em Israel, endereçado ao Ministério do Meio Ambiente do país, ele alertou, ainda em 2000, que haveria queda nas precipitações, seca e aumento da temperatura, o que poderia aumentar o risco de incêndios. De acordo com Pe’er, um crescimento de 1,5 grau em 2100, cenário considerado bastante moderado agora, fará com que o deserto se alastre por 500km, alterando gravemente o ecossistema do Mediterrâneo.

As predições do especialista já começaram a se tornar realidade. Neste ano, um incêndio próximo a Haifa, no Monte Carmelo, matou 42 pessoas e incendiou 250 casas, provocando danos de mais de US$ 55 milhões. Foi o pior incêndio florestal da história de Israel, com uma área total devastada de 5 mil hectares. De acordo com Pe’er, a tragédia suscitou um debate no país: qual a responsabilidade do governo e das brigadas de incêndio no fato? Para o especialista, a resposta não está aí, mas tem um nome bem conhecido: mudança climática. “É uma questão do jeito como consumimos, dos hábitos da nossa sociedade. Nós consumimos mais do que precisamos e mais do que a Terra pode aguentar, e dessa forma estamos arriscando nosso próprio futuro. Será que podemos nos comportar como seres humanos e mudar nossos hábitos?”, convida.

Planeta em transe
Veja algumas mudanças já provocadas pelo aquecimento global:

Estados Unidos
» 2009 foi o segundo ano consecutivo com maior temperatura registrada. Nos últimos 30 anos, o aumento médio por década foi de 0,4ºC. Nevou menos no inverno, sendo que em Washington o nível registrado de neve ficou 50% abaixo do esperado. Ao mesmo tempo, as tempestades de neve ficaram mais severas no Texas, em Oklahoma e no Kansas, que chegou a acumular 76cm de neve no solo em apenas um dia, no mês de março.

Caribe
» Dezesseis massas de ar frio atingiram a Costa Rica, e outras 12 chegaram a todo o mar do Caribe em 2009. A média por ano era de 12 eventos. Em El Salvador, enchentes e desabamentos, associados em parte ao furacão Ida, mataram 192 pessoas. Em Cuba, agosto e setembro e outubro foram os meses mais quentes desde 1970.

Brasil
» No ano passado, a temperatura sofreu oscilações inesperadas: até 4ºC mais quente e 4ºC mais fria do que o esperado. Em 24 de julho, a cidade catarinense de São Joaquim registrou 6,2ºC. O país sofreu com secas e enchentes. Na região amazônica, a precipitação ficou 200mm acima do normal. O Rio Negro, em Manaus, atingiu seu maior nível em 107 anos de medições em julho. No nordeste amazônico, 49 pessoas morreram e mais de 400 mil ficaram desabrigadas por causa das chuvas. Já na região nordeste do país, oito pessoas morreram por causa da queda de uma barragem no Piauí e 600 famílias tiveram de abandonar suas casas.

Sudeste da África (África do Sul e Zimbábue)
» Na África do Sul, 27 estações climatológicas registraram um aumento de 0,4ºC na temperatura, em relação ao período de 1961-1990. Isso fez de 2009 o 15º ano mais quente desde 1961. Em algumas regiões sul-africanas, as precipitações ficaram até 150% mais altas, comparando-se à década de 1990. Em Cape Town, uma enchente desabrigou 1,7 mil pessoas em 17 de maio. Na região costeira, os fortes ventos criaram ondas de 9m.

Península ibérica (Portugal e Espanha)
» Os países ibéricos vivenciaram um clima atípico em 2009. O ano começou com uma temperatura anormal, de -0,7°C, seguido por uma primavera mais quente que o usual (1,57°C a mais que a média). Foi o terceiro ano mais quente na Espanha desde 1961. Em 24 de janeiro, o norte da Espanha foi atingido por um forte tornado a 190km por hora. Foi o pior na região nos últimos dez anos. Em setembro, fortes chuvas quebraram recordes no sudeste da península. Em Alicante, o nível de água chegou a 309mm.
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FONTE : National Oceanic and Atmospheric Administration (todo os dados referem-se a 2009). (EcoDebate, 21/12/2010).

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