quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Clima: “Não há desculpas para não se adaptar”


O governo das Filipinas deve tirar uma lição da passagem do tufão Ketsana, que deixou mais de 200 pessoas mortas e muita infraestrutura destruída, e tomar medidas para conter o impacto de fenômenos naturais devastadores. A tempestade tropical que assolou esta nação do sudeste da Ásia no dia 26 de setembro deixou evidente a vulnerabilidade do país diante dos fortes ciclones e da necessidade de uma estratégia integral contra os desastres naturais, disse Charlotte L. Sterret, assessora mundial sobre mudança climática da organização humanitária Oxfam, que tem sede na Grã-Bretanha.

“Os ciclones não vão desaparecer. A construção de abrigos, planos de preparação em escala comunitária e certas técnicas de construção simples podem ajudar as pessoas mais vulneráveis a lidar” com o problema, afirmou Sterret em entrevista à IPS. Os pobres são os mais desamparados diante de desastres naturais como o tufão Ketsana, disse Sterret, que viajou a Manila para um encontro da Oxfam com comunidades locais. “A pobreza obriga as pessoas a viverem em áreas vulneráveis às consequências dos ciclones, como as acentuadas ladeiras dos morros”, ressaltou.

Ketsana devastou a capital do país e a região setentrional de Luzon (a maior das ilhas do arquipélago), deixou pelo menos 240 mortos e cerca de 145 mil pessoas tiveram que abandonar suas casas. O tufão, que provocou as piores chuvas em 40 anos, mostra que as Filipinas já sofre as consequências da mudança climática. A Oxfam se dedica, entre outras coisas, a combater os efeitos da mudança climática, embora não seja possível dizer que Ketsana foi uma consequência direta deste fenômeno.

A ciência que estuda o aquecimento global e sua interação com os sistemas humanos é extremamente complexa. “Podemos garantir de forma categórica que a mudança climática é um fato, mas não precisar quais são suas consequências. São necessárias mais investigações”, explicou Sterret.

Mas isso não tira a necessidade de uma adaptação “sem desculpas”, no que se refere à importância de se preparar para qualquer desastre natural, imputável à mudança climática, ou não, insistiu. Sterret explicou à IPS as causas da vulnerabilidade à mudança climática de países com as Filipinas e quais medidas devem ser tomadas para mitigar seus efeitos.

IPS- Fala-se que Ketsana foi um dos piores tufões que já atingiram as Filipinas. Pode-se dizer que é uma consequência da mudança climática?

Charlotte L. Sterret- É muito difícil atribuir qualquer ciclone tropical à mudança climática com os conhecimentos que temos agora. O impacto desse fenômeno sobre os tufões é um dos assuntos mais polêmicos da ciência que estuda o clima por muitas razões. Os ciclones tropicais são fatos relativamente raros e variam enormemente de um ano a outro. Os registros históricos são ruins, eram anotados apenas os que tocavam a terra ou atravessavam um canal navegável. Nas últimas décadas podem ser detectados via satélite, mas é muito difícil comparar os dados e fica complicado identificar uma tendência.

Os padrões climáticos globais atuam em uma escala muito grande para “gerar” os ciclones tropicais. Devem ocorrer vários fatores para que existam os tufões: alta temperatura na superfície domar, poucas mudanças nos ventos ascendentes e um vórtice de grande tamanho na parte mais baixa da atmosfera. Cada um destes elementos se vê afetado de maneira distinta pela mudança climática.

IPS- Você acredita que a mudança climática pode fazer com que outro ciclone como o Ketsana afete as Filipinas?

CLS- O debate científico não é sobre o aquecimento global ter condições de criar uma tendência de ciclones tropicais de maior intensidade. A questão é a escala das mudanças que pode provocar: uma mudança relativamente pequena dentro de várias décadas ou uma transformação maior agora. As análises publicadas sustentam as duas conclusões, enquanto a teoria e os modelos numéricos se inclinam pela primeira.

Não há provas de que a quantidade anual de ciclones tenha mudado nas últimas décadas. Mas as observações sugerem que ficarão mais intensos. Os dados procedem principalmente da década de 70 no norte do oceano Atlântico e, apesar de haver informação similar de outras regiões, é de má qualidade. A suposta maior intensidade dos ciclones é um assunto polemico, mas, supondo que seja certo, não fica claro que se trata de um produto da mudança climática.

O Grupo Intergovernamental de Especialistas sobre Mudança Climática (IPCC) disse haver 66% de possibilidades de os ciclones tropicais ficarem mais intenso, com ventos mais fortes e chuvas mais abundantes. Mas, o aumento da intensidade do vento provavelmente seja modesto, e, por outro lado, seja maior o aumento das chuvas associadas aos ciclones.

IPS- As Filipinas são um país vulnerável à mudança climática?

CLS- A vulnerabilidade está relacionada com numerosos fatores, incluído o acesso aos recursos. As Filipinas são vulneráveis pela alta incidência da pobreza e da desigualdade entre populações urbanas e rurais. Mas, também por suas características físicas. As Filipinas ficam no cinturão de tufões. É uma nação insular com muitas comunidades costeiras. Qualquer aumento do nível do mar as prejudicará. A água salgada pode inundar terras agrícolas e contaminar outras fontes onde se obtém esse recurso. Um pequeno aumento do nível do mar também eleva a incidência de marés altas, de tufões e ciclones. É mais água que chega às terras cultiváveis e destrói moradias. Essa situação piora com a mudança climática.

IPS- Quais são os sinais mais preocupantes de que as Filipinas sofrem a mudança climática?

CLS- As comunidades com as quais a Oxfam trabalha dizem que agora as temperaturas são mais altas, que demora para ter início a temporada de chuvas e que é difícil diferenciar as estações.

IPS- Quais são os pontos essenciais que a delegação das Filipinas deve apresentar na 15ª Conferência das Partes da Convenção Marco das Nações Unidas sobre a Mudança Climática, que acontecerá em Copenhague entre 7 e 18 de dezembro?

CLS- Gostaríamos que as nações em desenvolvimento como as Filipinas assumissem uma postura forte em matéria de mitigação e adaptação. É importante que as negociações tenham por finalidade que os países reduzam suas emissões de gases causadores do efeito estufa porque as possibilidades de adaptação são limitadas. Os países industrializados devem ajudar os em desenvolvimento em sua adaptação, não apenas por meio de recursos econômicos, mas também com assistência técnica. O acordo global deve ser eqüitativo. As nações mais pobres devem continuar seu desenvolvimento de forma responsável. Para isso necessitam assistência financeira e técnica.

IPS- Além de se preparar para as negociações de Copenhague, o que mais o governo filipino pode fazer para reduzir o impacto da mudança climática?

CLS- O governo deve criar um plano de adaptação inclusivo e global. Deve consultar vários atores, não apenas cientistas e especialistas, mas também as comunidades afetadas. A Oxfam pretende maior participação dos setores sociais marginalizados, incluídos crianças, mulheres e populações indígenas. É importante que o plano de adaptação seja o mais inclusivo possível.

Também reclamamos a aprovação do projeto de lei sobre gestão de risco de desastres, que está pendente no Congresso e que visa mudar a política de resposta diante das catástrofes ambientais: passar de uma assistência de emergência para redução dos riscos.
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FONTE : Prime Sarmiento, da IPS (IPS/Envolverde)

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