sábado, 3 de abril de 2010

Dano ambiental causa fome

O afastamento das práticas tradicionais da agricultura e a falta de cuidado com o meio ambiente e a terra empurraram para a extrema pobreza centenas de produtores de pequena escala na Bolívia, que há 20 anos geravam excedentes alimentícios. A esta conclusão chegou o engenheiro agrônomo Wilfredo Quiroz, especialista em acompanhamento e avaliação do Projeto de Manejo de Recursos Naturais (Promarena), do Ministério do Planejamento do Desenvolvimento e que recebe o apoio do Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola (Fida).

O programa, que opera com um fundo de US$ 12 milhões do Fida, US$ 1,1 milhão do Estado e US$ 1,1 milhão dos beneficiários, tem por objetivo reduzir a pobreza e a insegurança alimentar em áreas rurais. Quiroz falou à IPS sobre o trabalho no Chaco, Valles Altos e zonas semitropicais dos departamentos de La Paz, Chuquisaca e Tarija, onde há 247 mil camponeses de regiões consideradas “pobres e extremamente pobres”. Posteriormente se somarão outras dos departamentos de Santa Cruz e Cochabamba, e com elas aumentará o número de municípios de 26 para 56, com 900 comunidades beneficiadas.

IPS: Qual a diferença entre o trabalho da Promarena e outros programas de ajuda a agricultores pobres?

WILFREDO QUIROZ: Respeitamos as decisões dos comunitários e eles criam mapas onde descrevem suas atividades produtivas há 20 anos, mostram o presente e apresentam o futuro. No passado, contam que tinham mais alimentos e eram suficientes para se alimentar, vender e guardar. Embora carecessem de serviços de educação e saúde, tinham alimentos em quantidade suficiente. Para o futuro, imaginam cabanas para criação de porcos, com bebedouro, currais, fontes de água e sistemas de irrigação.

IPS: Qual a situação econômica dessas pessoas em relação ao passado?

WQ: Em lugar de melhorar, empobreceram e sua capacidade de produzir alimentos não é a mesma de 30 anos atrás. Antes tinham água em abundância, e agora falam de fontes hídricas secas pelo desmatamento nas zonas altas onde se arava a terra e a vegetação era preservada da criação de gado. O pastoreio forçado nas zonas onde nasciam as fontes de água, a degradação dos solos, os deslizamentos e a mudança climática acabaram prejudicando essa fonte de vida.

IPS: E como mudou a vida das famílias?

WQ: O dano ambiental afetou a atividade produtiva das famílias, reduziu a quantidade de alimentos e nas regiões mais pobres permanecem apenas os adultos e as crianças. Os jovens foram para as cidades. Há dez anos, dados da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO) indicavam que as famílias produziam 80% de seus alimentos. Agora, apenas 60%.

IPS: Pode citar algum costume praticado antigamente para preservar as condições naturais?

WQ: Na localidade de Charazani, região andina que fica 272 quilômetros a noroeste de La Paz, uma montanha coberta de capinzais era protegida. A matéria-prima era extraída em determinada época do ano apenas para fazer os tetos das casas. Anos depois, os pastores não respeitaram esse costume, esgotaram o capinzal, afetaram as fontes de água e os moradores tiveram que comprar telhas de zinco para fazer o teto de suas casas. Outro hábito extinto é o descanso da terra por oito anos, até recuperar sua fertilidade e voltar a ser usada na agricultura.

IPS: E como afeta a deficiente rede viária nas zonas pobres?

WQ: Ao contrário das quentes planícies do departamento de Santa Cruz, onde as redes viárias são transitáveis, na zona andina as populações estão dispersas e há comunidades sem ligação terrestre. O camponês deve levar seu produto nos ombros durante caminhadas de até dez horas e, embora o custo diminua, a distância e a falta de caminhos aumenta o preço final e o exclui dos grandes mercdos.

IPS: Há uma fórmula para enfrentar este isolamento e a falta de políticas públicas de efetiva atenção às famílias camponesas?

WQ: Não existem macropolíticas para melhorar as condições de vida dos pequenos produtores. As ações são isoladas e dirigidas a médios empresários, e em alguns casos são escolhidas as subvenções para apoiar os camponeses de baixa renda. A Promarena deixa à escolha dos beneficiários os projetos relacionados ao cuidado do solo, pecuária, cuidado com a vegetação e de fontes de água, com uma ideia de preservação dos recursos naturais e criação de negócios. O modelo de apoio proporciona assessoria técnica para o desenvolvimento dos projetos e depois convoca as comunidades para um concurso que dá prêmio em dinheiro, que é simbólico, porque o valor da obra é muito maior. Esta experiência foi vivida com a recuperação das terras agrícolas pré-coloniais à qual se uniram muitas famílias, recuperaram áreas de produção e, após receber um prêmio, obtiveram o reconhecimento de suas comunidades e de seus municípios. No projeto, se aprende sobre a experiência da população, que é validada e depois o conhecimento é amplificado. Essa liberdade dos beneficiários torna diferente o modelo das tradicionais transferências de tecnologia.
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FONTE : Franz Chávez, da IPS (IPS/Envolverde)

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