quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Homem, o maior dos parasitas planetário


planetaPor Júlio Ottoboni*
Enquanto o planeta agoniza para o ser humano e se torna cada vez mais ameaçado de não comportar  a sobrevivência de diversas outras espécies, os entraves da Cop21 só reforçam a percepção que vivemos sob a influência de um autismo que desconectou complemente o homem da realidade planetária. Tratam os problemas globais sob a ótica separatista, excludente, territorialista e norteada pelo poder e interesses econômicos
O sistema projetado para vivermos no que denominamos de Terra é o reflexo de nossa própria estupidez, arrogância e soberba.
Aos governantes mundiais presentes no encontro de Paris, bastaria dizer que o analfabetismo ambiental não pode ser confundido com ganância e mentira. Criar uma nova cortina – literalmente – de fumaça para esconder as obrigações que seus governos têm com as grandes corporações econômicas e financeiras, com um modelo de desenvolvimento absolutamente insustentável só acelerará o processo de autodestruição.
Essa postura adotada é o mesmo que decretar a extinção em massa da vida por ação antrópica, o último ato de uma espécie que acredita ser superior às outras e compreende ser sua existência mais valiosa que a de outros seres viventes.
O planeta é um só, seja em seu clima, em suas porções de terra e seus oceanos. Na verdade, essa terceira rocha a partir do Sol continuará sua trajetória, seja no tal ‘cinturão verde’ com ou sem o homem sobre ou sob sua superfície. O rumo cósmico não pode ser definido pelas vontades humanas e nem de seus deuses. O planeta seguirá em sua evolução permanente.
A política se mostra a arte da enganação, do cinismo e da hipocrisia. Particularizar a discussão ambiental sobre quem financiará a suspensão do suicídio coletivo ou datar ações emergenciais para 20 ou 30 anos é dar mais fôlego a um sistema econômico falido, autofágico e, crucialmente, ecocida. O tempo e as consequências serão, no resultado final, os mesmos para todos. Mas para tal sistema, que se posta como um louco agressivo, também não haverá escapatória.
Nesta alucinação geral sobram culpados sobre procedimentos criados pelo próprio homem. Responsabilizam as emissões dos combustíveis fósseis, das queimadas e desmatamento de florestas, a falta de água doce, desertificação, poluição em diversos níveis e formas, aumento da temperatura troposférica entre outros aspectos. Mas nunca se toca diretamente no problema, que é a falta de uma visão holística, planetária, sem fronteiras geopolíticas, algo que abranja e corrija o todo e altere uma rota de comportamento diretamente relacionado ao modo de vida e consumo.
Mas somos uma espécie introjetada, mergulhada profundamente em sua dissociação com o meio natural. Criamos um Deus a nossa própria imagem e semelhança e nos devotamos a ele. O homem é devoto do homem. Por isso um Deus bipolar, hora vingativo, vaidoso, predador e  num outro instante compreensivo, afetivo e pacificador.
No livro do Gênesis, na Bíblia judaica – cristã, que contempla elementos de outros livros sagrados, surge a origem de boa parte da linha condutora do raciocínio e comportamento do senso comum. Então disse Deus: “Cubra-se a terra de vegetação: plantas que deem sementes e árvores cujos frutos produzam sementes de acordo com as suas espécies”. E assim foi. A terra fez brotar a vegetação: plantas que dão sementes de acordo com as suas espécies, e árvores cujos frutos produzem sementes de acordo com as suas espécies. E Deus viu que ficou bom.
Momentos mais tarde, no quarto dia: Disse também Deus: “Encham-se as águas de seres vivos, e voem as aves sobre a terra, sob o firmamento do céu”. Assim Deus criou os grandes animais aquáticos e os demais seres vivos que povoam as águas, de acordo com as suas espécies; e todas as aves, de acordo com as suas espécies. E Deus viu que ficou bom. Então Deus os abençoou, dizendo: ”Sejam férteis e multipliquem-se! Encham as águas dos mares! E multipliquem-se as aves na terra”.
No quinto dia: “E disse Deus: Produza a terra seres vivos de acordo com as suas espécies: rebanhos domésticos, animais selvagens e os demais seres vivos da terra, cada um de acordo com a sua espécie”. E assim foi. Deus fez os animais selvagens de acordo com as suas espécies, os rebanhos domésticos de acordo com as suas espécies, e os demais seres vivos da terra de acordo com as suas espécies. E Deus viu que ficou bom.
Então disse Deus: “Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança. Domine ele (homem) sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu, sobre os grandes animais de toda a terra e sobre todos os pequenos animais que se movem rente ao chão”.
O ditado popular nunca foi tão correto, o que é dado de graça não tem valor. Como o astrofísico Neil Degrasse Tyson diz: “Não há barreiras científica e tecnológica para se proteger o planeta, mas sim o que realmente valorizamos”.
No universo paralelo da realidade, onde só habita o homem, o planeta real pouco interessa. Ele não se dá conta que o ‘homem é o lobo do homem’, citação suprema do livro Leviatã, publicado em meados do século 17,  pelo filósofo inglês Thomas Hobbes. Isso significa que o homem é o maior inimigo do próprio homem. Uma analogia sobre os lobos, que famintos na Pequena Idade do Gelo, compreendida entre os meados da Idade Média e até o início da Revolução Industrial, atacavam as aldeias e devoravam as pessoas.
Deixamos de ser caça para ser um voraz predador, despertando um instinto adormecido. E não isso apenas, mas de aniquilador, que pretende subjugar todas as coisas, inclusive a natureza.
A sexta maior extinção já está em curso. A água doce está cada vez em menor disponibilidade, apesar de há três bilhões de anos não ter entrado ou saída sequer um litro da crosta terrestre. A Era geológica do Cenozoico, dentro do período Quaternário, época do Holoceno deu espaço ao Antropoceno. Ou seja, o homem como fator de alteração do curso natural do planeta e causador de uma nova extinção em massa, a sexta em nossos registros.
A Terra entrou em um novo período de extinção em massa, segundo estudos feitos por três universidades americanas. A pesquisa desenvolvida por cientistas das universidades de Stanford, Princeton e Berkeley, mostra que os vertebrados estão desaparecendo a uma taxa 114 vezes mais rápida que o normal. Essa é a confirmação dos resultados da publicação da Universidade de Duke, ocorrida no ano passado.
O homem se multiplica a taxas insuportáveis para a própria natureza planetária. Ele próprio sequer conseguiu conceituar sua própria infestação sobre o corpo terrestre, como parasitas em um hospedeiro. Bastaria avaliar os números de sua proliferação como espécie no reino animal (algo que ele também não se compreende como parte integrante). Em 1812 havia um bilhão de pessoas no planeta, em 1912 cerca de 1,5 bilhão e em 2012 atingimos a marca de sete bilhões, inclusive com comemorações.
Para o cientista inglês e criador da Hipótese de Gaia, James Lovelook,  o planeta só suporta a manutenção de 2,3 bilhões de seres humanos.  A ideia da Hipótese de Resposta da Terra (denominação original) apresenta o planeta como ser vivo e que se manifesta, principalmente contra as agressões sofridas.
Resta uma conclusão, o homem é uma espécie deslocada da natureza, insana, um projeto capaz de construir e destruir coisas magnificas para sua compreensão, mas incapaz de se reconciliar com o tempo planetário.
A Cop 21 mostra que estamos mais para parasitas, que preferem matar o hospedeiro, que render-se a ele numa convivência mútua. Como diria o naturalista inglês e premiado jornalista da BBC, David Attenborough: “Somos muito mais filhos de desastres naturais que da própria evolução natural”.
E assim como surgimos, desapareceremos, num grande desastre natural.  Expulsos do “paraíso” por uma resposta  de Gaia contra os parasitas que insistem em inflamar e ferir seu dorso de água, terra e ar. (#Envolverde)
Júlio Ottoboni é jornalista diplomado, pós graduado em jornalismo científico. Tem 30 anos de profissão, atuou na AE, Estadão, GZM, JB entre outros veículos. Tem diversos cursos na área de meio ambiente, tema ao qual se dedica atualmente. 
** Artigo publicado originalmente no dia 4 de dezembro de 2015. A republicação faz parte de uma edição especial da Envolverde. 

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