sábado, 30 de janeiro de 2016

Hidrelétrica concentra debate energético


Vista do lago General Carrera, o segundo maior da América do Sul situado na região de Aysén, na Patagônia chilena, um indômito território que é considerado o paraíso hídrico do país. Foto: Marianela Jarroud/IPS
Vista do lago General Carrera, o segundo maior da América do Sul situado na região de Aysén, na Patagônia chilena, um indômito território que é considerado o paraíso hídrico do país. Foto: Marianela Jarroud/IPS
A aprovação pelo governo do Chile de uma central hidrelétrica na Patagônia reavivou novamente a discussão sobre a sustentabilidade dessa fonte em sua forma tradicional e sua eficiência na construção de uma matriz energética limpa.
Por Marianela Jarroud, da IPS – 
Santiago, Chile, 29/1/2016 – “A hidroeletricidade como processo para obter energia pode ser limpa e viável, mas, para nós, todo tipo de energia deve ser desenvolvida em escala humana, e isso deve responder ao tamanho e potencial das comunidades”, ressaltou à IPS a porta-voz do movimento Patagônia Sem Represas, Claudia Torres.
Segundo a ativista, “ha vários fatores pelos quais os movimentos socioambientais estão contra as megarrepresas: pelos enormes impactos e pelo objetivo dessa eletricidade, destinada a saciar as necessidades da megamineração, que é outro descalabro (ambiental) no norte do país”.A luta desses movimentos contra as represas na região patagônia de Aysén teve uma importante derrota no dia 18 deste mês, quando foi aprovado o projeto da central do Cuervo nesse indômito ecossistema, destinado a gerar 640 megawatts (MW).
O Chile possui 17,6 milhões de habitantes e capacidade total instalada de 20.203 MW, distribuídos majoritariamente nos sistemas interligados Central (78,38%) e do Norte Grande (20,98%). A matriz energética chilena é composta por 58,4% de geração a diesel, carvão e gás natural, com dependência dos hidrocarbonos importados, que o país busca reduzir drasticamente por razões financeiras e por seus compromissos para mitigar a mudança climática. A mega-hidroeletricidade fornece 19,97% ao total da matriz, enquanto as fontes renováveis não convencionais somam 13,5%.
O país conta com enorme potencial de energias renováveis não convencionais, que permitiram ao governo da presidente Michelle Bachelet estabelecer,em 2014,uma agenda para o setor, que projeta para 2050 que 70% da geração de energia será fornecida por fontes renováveis.Em matéria de recursos hídricos, o país dispõe de aproximadamente 6.500 quilômetros de costa, 11.452 quilômetros quadrados de lagos e lagoas, 97 bacias hidrográficas e 34 rios transfronteiriços, segundo dados oficiais.
Aysén, no extremo sul do país, é considerada o paraíso hídrico do Chile por seus caudalosos rios, numerosos lagos e suas características lagoas. Seu território abriga o lago General Carrera, o segundo maior da América do Sul, atrás do Titicaca, na Bolívia.É para essa pouco povoada região que se volta o olhar para a exploração da hidroeletricidade, uma energia amplamente rechaçada por numerosos setores da sociedade civil, que a consideram obsoleta e uma ameaça ao bem-estar socioambiental da população.
Por outro lado, o professor Matías Peredo, especialista em energia hidráulica da pública Universidade de Santiago do Chile, assegurou que o potencial hídrico do país permite que a hidráulica seja “uma das fontes de energia que mais podemos desenvolver”. Peredo afirmou à IPS que “sempre é bom diversificar a matriz energética e a energia hidrelétrica, bem operada, é bastante sustentável”.
O professor acrescentou que um projeto hidrelétrico grande, mas bem administrado, “é melhor do ponto de vista ambiental e social do que vários projetos pequenos que somados conseguem a mesma quantidade de megawatts”. Peredo explicou que, para uma hidrelétrica ser operada como deve ser, é preciso conseguir um bom uso do recurso para evitar flutuações.
O especialista também disse que “a geração hidrelétrica no Chile depende da demanda e do fator de carga da central. Em outras palavras, a usina só pode operar com prévia autorização da Superintendência de Eletricidade e Combustíveis e dependendo da disponibilidade de água”. Peredo pontuou que “essa combinação faz com que a central hidrelétrica opere um tempo, depois deixe de operar, volte a funcionar e novamente pare. Então, gera flutuações importantes de caudal e isso produz um estresse muito grande no ecossistema”.
A lei que reforma e fomenta o setor das energias renováveis não convencionais agrupa nessa denominação a energia hidrelétrica de até 20 MW de potência, ou seja, as minicentrais hidráulicas. Organizações ambientalistas, como a Ecossistemas, consideram que as grandes centrais hidrelétricas geram comprovados impactos sociais e ecológicos muito negativos.Entre esses impactos estão inundação de grandes extensões de terra que destroem a flora e a fauna, e alteraçõesnos rios, o que provoca sua degradação bioecológica, entre outros problemas multidimensionais.
Junto a isso, as consequências sociais negativas das grandes represas são proporcionais aos seus múltiplos impactos ambientais, e por causa delas milhões de pessoas foram reassentadas ou deslocadas: entre 40 milhões e 80 milhões em nível mundial em 2000, segundo dados da Comissão Mundial de Represas.
“É importante diversificar a matriz energética para uso local, com um bom apoio, energias limpas, impactos bem menores e potencialização do consumo e do desenvolvimento dos territórios”, destacou a ativista Torres, de Coyhaique, capital da região de Aysén. “A geração descentralizada é fundamental” para avançar em matéria de energia limpa e sustentável, acrescentou, ressaltando que a população de Aysén busca sustentar sua matriz energética com base na energia eólica, solar e maremotriz (energia das marés), entre outras.
Peredo concordou com a importância estratégica da descentralização energética.“A geração distribuída é uma discussão que, sem dúvida, deve ser feita. Ganha muito sentido o fato de a geração elétrica ser fornecida de locais mais próximos”, acrescentou.
O movimento Patagônia Sem Represas obteve em 2014 um sucesso histórico, quando o governo rejeitou definitivamente o projeto da HidroAysén, que pretendia construir cinco centrais hidrelétricas para gerar globalmente 2.700 MW. Mas agora enfrenta o revés da aprovação da construção da central do Cuervo por um especial Comitê de Ministros, que é uma decisão inapelável no campo administrativo, deixando apenas a via judicial para impedir sua concretização.
Desenvolvida pela Energia Austral, uma empresa mista dos grupos Glencore (Suíça) e Origin Energy (Austrália), o projeto contempla investimento de US$ 733 milhões e será construído na nascente do rio Cuervo, a 45 quilômetros de Puerto Aysén, a segunda cidade da região. Para a linha de transmissão que levará a produção até o sistema interligado são estudadas opções de um traçado submarino e outro aéreo-submarino.
A polêmica sobre a central aumenta porque sua construção está projetada sobre a falha geológica Liquiñe-Ofqui, uma região formada por cones vulcânicos ativos, alertam especialistas no assunto. “É um risco iminente para a população”, afirmou Torres. Peredo ressaltou que “não se trata de um projeto bem operado” e que “desde sua concepção esteve mal desenhado. Deixaram de considerar aspectos relevantes, como a mescla dos rios Yulton e Meullin, que em algum ponto ocorre e que poderia ter consequências desastrosas para o ecossistema”.
Os opositores ao projeto já anteciparam que recorrerão à justiça e pressionarão social e politicamente, em um ano de eleições municipais no Chile. “Nosso objetivo é apenas um: que não se construa nenhuma represa na Patagônia, e assim será”, enfatizou Torres. Envolverde/IPS

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