quarta-feira, 16 de maio de 2012

Milhares de pelicanos morrem devido ao aquecimento das águas da costa do Peru

De várias semanas para cá, não há um dia no Peru que passe sem que apareça o corpo de um pelicano morto em uma das inúmeras praias do país. Segundo as autoridades, mais de 5.000 pássaros já encalharam desde o final de março, ao longo dos mil quilômetros de litoral que separam Piura, ao norte, da capital Lima. Matéria de Chrystelle Barbier, Le Monde.
Uma calamidade que se soma à misteriosa morte de centenas de golfinhos entre janeiro e abril. Durante esse período, os especialistas do Ministério do Meio Ambiente registraram 877 cadáveres de cetáceos, que encalharam em 250 quilômetros de praia ao norte do Peru. Um balanço subestimado, na opinião de Francisco Ñiquen, presidente da Associação dos Pescadores Artesanais de San Pedro de Porto Etén –a região onde apareceram os corpos dos mamíferos marinhos–, já que ele calcula que quase 3.000 cadáveres chegaram até a costa no espaço de quatro meses.
“Foi o maior encalhe de golfinhos da história do país”, observa o vice-ministro de Desenvolvimento Estratégico dos Recursos Naturais, Gabriel Quijandria, que, no domingo (13), ainda não tinha condições de dar uma explicação oficial para a morte dos cetáceos.
Diante desse mistério, o Ministério da Saúde acabou lançando um alerta sanitário, recomendo que a população “não vá para as praias” até segunda ordem. O alerta, tardio, acentuou a preocupação dos peruanos.
Mas várias pistas já começam a se esboçar. Sabe-se que os dois encalhes não estão relacionados. “A morte dos pelicanos não tem nada a ver com a dos golfinhos”, afirma Quijandria, que na quinta-feira (10) apresentou as primeiras conclusões da comissão encarregada de determinar a causa das mortes. “No caso dos pelicanos, foi a falta de alimentos disponíveis, devido a um aquecimento das águas do norte do país, que provocou sua morte”, explica o vice-ministro. As costas peruanas são acompanhadas pela corrente fria de Humboldt, uma corrente de superfície rica em plânctons, que faz desse litoral um dos mais ricos em peixe do mundo.
A presença de águas mais quentes desde fevereiro –alguns cientistas falam de uma elevação de 6ºC em relação à média sazonal– teria levado as anchovas e outros peixes, base alimentar dos pássaros, a nadarem mais profundamente e a migrarem para o sul em busca de águas mais frias. Diante dessa escassez de comida, os mais jovens, pescando na superfície, não sobreviveram. “Se essa massa d’água quente persistir, os pássaros vão continuar morrendo”, avisa Gabriel Quijandria, ciente de que as anchovas também são constantemente ameaçadas pela pesca excessiva praticada no Peru, apesar das cotas existentes.
Enquanto a morte dos pelicanos por causa da inanição parece ser consenso dentro da comunidade científica, a dos golfinhos é alvo de intensos debates. O diretor da Organização para a Pesquisa e a Conservação de Animais Aquáticos (ORCA), Carlos Yaipén, chamou a atenção garantindo que a morte dos cetáceos se devia a uma “síndrome de descompressão devido a um impacto acústico”. “Nos 30 espécimes que nós estudamos, encontramos lesões nos ouvidos e nos órgãos internos que nos permitem ser categóricos”, alega o veterinário, que calcula que a fonte sonora deve ter sido “forte, violenta e constante” para ferir os golfinhos. De onde poderia ter vindo tal barulho? “De um avião militar supersônico, de uma prospecção sísmica e geológica ou de explorações submarinas de petróleo ou de gás”, diz Carlos Yaipén.
Embora a hipótese do impacto acústico tenha sido descartada pelo governo, os argumentos da ONG despertaram o interesse dos pescadores do porto de Etén, que não escondem sua desconfiança em relação às empresas que realizam explorações sísmicas submarinas em seu setor.
“Esperamos que o governo esclareça esse caso”, diz Francisco Ñiquen, que vê com bons olhos a investigação lançada em sua região pelo procurador do meio ambiente, Vladimir Rojas.
O diretor da ONG peruana Mundo Azul, Stefan Austermuhle, considera a hipótese do impacto acústico pouco plausível. “Milhares de prospecções sísmicas submarinas foram feitas no mundo e elas nunca provocaram a morte de tantos animais”, afirma o biólogo alemão, que, assim como o governo, pende para a hipótese de uma doença.
“Tendo descartado as hipóteses da poluição das águas e da presença de infecções bacterianas, a hipótese mais provável continua sendo a de um vírus, que teria sido ativado pelo aquecimento das águas”, conta Gabriel Quijandria.
No domingo (13), o Ministério do Meio Ambiente ainda não havia recebido os resultados das análises que permitem verificar a existência ou não desse vírus. “Não temos as capacidades suficientes para reagir a esse tipo de catástrofe”, reconhece o vice-ministro. O Peru, apesar de seus 2.200 quilômetros de costas, não possui uma rede de monitoramento do litoral.

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FONTE : Tradutor: Lana Lim. Matéria do Le Monde, no UOL Notícias. EcoDebate, 16/05/2012

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