sábado, 19 de junho de 2010

BALEIA FRANCA : a história vem à tona


Ressaca do mar em Garopaba expõe mais do que ossadas do mamífero caçado ali desde o século 18. Mostra também a necessidade da criação de um museu que abrigue este patrimônio histórico e cultural

A ressaca que tantas casas destruiu no Litoral catarinense, em Garopaba, no Sul do Estado, revelou o que a natureza conservou escondido por quase 200 anos. As 10 ossadas de baleia trazidas à tona no dia 28 de maio expuseram a história que poucos haviam ouvido falar ou aprendido nos livros. Mais do que revelar um capítulo quase desconhecido, as carcaças imprimiram a necessidade da criação de um museu que abrigue o que os historiadores classificam como patrimônio histórico e cultural.

De acordo com a chefe de unidade da Área de Proteção da Baleia Franca (Apa/CNBio), Maria Elizabeth da Rocha, as ossadas foram expostas dentro da Apa, que compreende uma área de 130 quilômetros entre Florianópolis e Içara, no Sul do Estado. Algumas pessoas não respeitam as regras ambientais, levaram ossos para casa e chegaram a vendê-los como artigos de decoração. A chefe da Apa alerta que comercializar produtos de fauna silvestre, nativa ou em rota migratória é crime, com pena de seis meses de detenção e pagamento de multa.

O empresário Murilo Ternes foi um dos que retiraram as ossadas da praia. Ele tem autorização para manter o material em sua loja na praia central. Ternes é considerado o fiel signatário das peças (até a criação de um lugar adequado para receber as ossadas, ele tem a guarda provisória do material).

Em uma pousada, dois crânios de baleia e mandíbula ornamentam o local. De acordo com o dono, Marcelo Prietro, o pai chamou muitos amigos para rebocar os ossos há mais de 20 anos, quando uma ressaca as revelou. Ele lembra que na época não se falava em crime ambiental e que a família os preserva.

Para evitar que as ossadas sejam levadas, em consenso com a Apa/CNBio, optou-se por abrigá-las em locais temporários e criar um ecomuseu.

– O projeto de criação já foi aprovado pelo governo federal, mas ainda não temos previsão do início das obras – afirma o secretário de Indústria, Comércio e Turismo da cidade, Marcus Israel.

Enquanto o ecomuseu não entra em funcionamento, uma parte da história corre o risco de ser perdida. Sem o tratamento adequado, expostas ao tempo e à maresia, as ossadas podem virar farinha.

Aposentados ou ainda na atividade, os pescadores que participaram da caça às baleias

em Garopaba lembram que matá-las, naquela época, não era crime ambiental como hoje.

Alguns se arrependem quando recordam da baleia agonizando para morrer. Outros

confessam que a profissão exigia sangue frio. A renda que conquistavam nos

três meses de caça era muitas vezes maior do que a obtida durante o resto do ano.

“O pai era contra matar”

O pescador Anastasio Silveira, 79 anos, nasceu e se criou na Praia do Ouvidor. Hoje, mora na Praia do Rosa, ainda mantém o rancho à beira-mar no Porto Novo e enfrenta o Gigante quase que diariamente.

Seu Anastasio remava os barcos que levavam as baleias abatidas na Praia do Rosa e Praia da Barra para Imbituba. Lá, os cetáceos eram industrializados. Quando a água estava “contra” (o vento não estava a favor da maré), o percurso durava até um dia. Em situações de água “a favor”, o trajeto durava oito horas.

– O pai era muito rígido, era contra matar baleia e nunca nos deixou nem pensar nisso. Puxar, ele deixava. Era bem difícil ficar um dia inteiro remando.

Anastasio lembra a dificuldade de retirar a baleia da água mais profunda para descarná-la na Praia da Barra. Cerca de 40 homens ajudavam a trazer o mamífero.

“Dinheiro da caça era bom”

Seu Joaquim Francês Alexandrino, 77 anos, foi o caçador que matou a última baleia franca em Garopaba. Ele não lembra o dia, mas recorda com precisão que o ano era 1969. Nativos de Garopaba, ele e o irmão faziam as expedições de caça à baleia.

– Elas eram muito mansas. Chegavam bem perto da gente e não tinham medo. Quando estavam feridas ou quando o filhote estava perto, elas se tornavam agressivas. Sei de baleia que partiu lancha e leme.

Seu Joaquim caçou baleia com o arpão manual, quando se precisa estar a poucos metros do mamífero para lançar o ferro e empurrá-lo para dentro do corpo, com fósforo e dinamite.

– Às vezes, eu tinha pena. Mas o dinheiro que a caça rendia era muito bom. Comprei uma lancha com o que ganhei de uma baleia.

Baleia franca
Gênero: Eubalaena Família: Balenidae
- No verão vive na Antártica, e no inverno migra para regiões de águas quentes para se reproduzir, dar à luz e cuidar dos filhotes.
- É um cetáceo (classificação de baleias, botos e golfinhos) de grandes dimensões. As fêmeas são maiores e podem atingir até 18 metros de comprimento e 60 toneladas. Os machos atingem cerca de 14 metros e podem pesar até 45 toneladas.
- O filhote nasce com cerca de cinco metros de comprimento e pesa entre quatro e cinco toneladas. Engorda 50 quilos por dia.
- A franca tem grande longevidade. Pode chegar aos 80 anos.
- O esguicho em forma de “V” é característico da espécie e atinge de cinco a oito metros de altura. É mais visível em dias frios e com pouco vento.
- O animal tem verrugas no alto e laterais da cabeça, onde se acumulam colônias de ciamídeos, crustáceos que colonizam essas calosidades naturais. O formato diferenciado de cada colônia torna possível que pesquisadores identifiquem individualmente cada baleia.
- Alimenta-se de krill (pequeno crustáceo), enquanto está nas águas geladas da Antártica. Durante a viagem para a reprodução, não se alimenta.

Crueldade artesanal e rudimentar

De acordo com historiador Vilson Farias, as armações baleeiras eram empreendimentos comerciais de abate de baleias. Tinham alto custo e mão de obra artesanal. Exigiam frotas de navio, fábrica de transformação do óleo e estrutura suficiente para captar e abater a franca.

A perseguição às baleias era feita em lanchas impulsionadas a remo e à vela em alto-mar. Os animais eram arpoados com um arpão rudimentar de ferro batido com farpas e uma haste de madeira, preso à lancha por um cabo. Após arpoada, era comum que a baleia arrastasse a lancha por várias horas, antes de, exausta, morrer.

A morte do cetáceo podia demorar até 24 horas, quando era levado até a praia, e descarnado à meia-água. Escravos retiravam as fatias de toucinho e derretiam o óleo.

Conforme lembra o historiador Fernando Bitencourt, o consumo da carne nunca foi o objetivo das capturas de baleias. Elas foram dizimadas por causa da espessa camada de gordura que reveste o corpo. Derretido, o óleo era destinado à iluminação, lubrificação.

As barbatanas eram vendidas para a fabricação de espartilhos e utilizadas como liga na produção de argamassas usadas em igrejas e fortalezas.
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FONTE : jorn. Francine Cadore, DIÁRIO CATARINENSE, edição de 20/junho/2010.

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