quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Reduzir, reciclar e reutilizar – e repensar – se aprende na escola

Todo começo de ano é a mesma coisa. Junto com o calor do verão e as chuvas típicas da estação, chegam as contas dos vários impostos que precisam ser pagos em janeiro e, para aqueles que têm filhos em idade escolar, a temida lista de material. Além de dispendiosa, ela muitas vezes pode conter itens desnecessários ou em quantidade exagerada. Por isso, antes de ir às papelarias e livrarias, é bom pensar quais compras realmente são necessárias e se é possível reutilizar ou reaproveitar materiais do ano passado. Com isso, evita-se não só o desperdício de dinheiro, mas dos recursos naturais gastos na fabricação desses produtos.

Edileine Cristina Ferreira, enfermeira de 42 anos, que tem dois filhos adolescentes, faz a lição de casa direitinho há alguns anos. “Assim que chega a lista do material escolar, sento com meus filhos para conferir tudo o que ainda temos dos outros anos. Este ano foi um pouco diferente, pois meu filho mais velho está prestando vestibular. Fomos só eu e a caçula, Beatriz, de 14 anos. Fazendo a comparação, vimos que a caixa de lápis de cor, de canetinhas, o esquadro, a régua, o compasso e também o estojo poderiam ser reutilizados. Os materiais quase não estão gastos, e comprar outros novos seria um grande desperdício, tanto para a natureza quanto para o nosso bolso. Além disso, na hora de comprar papel sulfite, sempre optamos pelo tipo reciclado”, conta ela.

Com relação aos cadernos, ela tem uma regra: mesmo que a escola peça mais, eles compram dois cadernos grandes: “É que nossa experiência dos outros anos diz que comprar mais do que isso é desperdício, pois dois cadernos é a conta exata para as lições e matérias do ano todo”. Grande parte dos exercícios é feita nas apostilas adotadas pelo colégio, que, no fim do ano, ficam inutilizáveis. Mas, pelo menos, são enviadas para a coleta seletiva de lixo.

Ensinando a cuidar

Na Escola Estadual Capitão Aviador Sandi Miyake, em Guarulhos, São Paulo, os livros didáticos que os alunos usam durante o ano devem ser muito bem cuidados. É que, no fim do ano letivo, eles são devolvidos e repassados aos próximos alunos daquela série. Como eles sabem que vão utilizar livros de outras crianças, e que outras crianças vão utilizar os livros deles, fica mais fácil aprender a zelar por esses bens. “Desde cedo, ensinamos aos alunos a importância de cuidar bem dos materiais que usam em sala de aula. Os livros pertencem ao governo do Estado, e, com esse ‘intercâmbio’, servem muitos e muitos alunos por vários anos”, explica Ellen Meire Mariano de Souza, de 30 anos, professora do ensino fundamental da escola.

Quando há uma atualização no conteúdo dos livros, como ocorreu no ano passado com a reforma ortográfica, eles precisam ser trocados. “Na hora de trocar os livros, houve um acordo com as editoras e, ao levarmos os livros antigos, que não seriam mais usados por estarem com o conteúdo defasado, recebemos desconto na compra dos novos. Assim, em vez de irem para o lixo, os livros velhos foram reciclados e puderam ser usados na confecção de novos produtos”, explica Ellen.

Além disso, os professores da escola de Guarulhos sempre orientam pais e alunos a reaproveitarem os materiais usados nos outros anos. “Sabemos que canetinhas, giz de cera e outros materiais de desenho muitas vezes não são totalmente usados pelos alunos. E que também é comum sobrarem folhas de caderno de um ano para o outro. Incentivamos os pais a só comprarem o que for realmente necessário, e também a usar a imaginação, como criar agendas usando as folhas em branco dos cadernos antigos”, conta Ellen.

Só o que é necessário vai para a lista

Marly dos Santos Fernandes, assistente de direção e coordenadora geral do colégio Campos Salles (com unidades na Freguesia do Ó e na Lapa, em São Paulo), conta que todos os funcionários da instituição são muito preocupados com o uso sensato dos recursos e com a importância de evitar o desperdício. Por isso, desde pequenas as crianças são colocadas em contato com esse pensamento. Na lista de material escolar só vai o que realmente falta para cada aluno. “Aqui, cada criança tem uma caixinha individual com seus próprios materiais. Eles vão sendo usados conforme necessidade e só pedimos mais itens para os pais quando aqueles acabam. E, na hora que enviamos a listinha, orientamos os pais a comprar sempre os produtos mais simples. Nada de itens importados, pois é apenas um gasto desnecessário”, conta Marly.

Na lista deste ano, para evitar o uso de copinhos descartáveis, o colégio pediu que os pais adquirissem um squeeze para seus filhos. Com a garrafinha, cada criança vai poder tomar água do bebedouro sem fazer uso dos copinhos de plástico. Para a coordenadora, é muito bom perceber que essas medidas fazem com que os pais comecem a ter iniciativas próprias, como no uso do uniforme escolar. “Vejo muitas mães trocando os uniformes entre si. É que as crianças crescem muito depressa e perdem as roupas rapidamente. Assim, peças que estão quase novas são passadas para outras crianças. Muitas vezes, algumas mães pedem para que eu intermedeie a troca, e então eu ofereço os uniformes que não serão mais usados para outros pais”, explica.

A consciência dos impactos

No Colégio Sir Isaac Newton, na Vila Gustavo, em São Paulo, os professores pesam o impacto ambiental da lista de material antes de elaborá-la. “Pensando nisso, o isopor, por exemplo, foi retirado da lista desde o ano passado”, conta Alessandra Franco, 30 anos, professora de inglês do colégio. Para evitar o desperdício, alguns professores aboliram os cadernos de suas disciplinas. “Como em algumas matérias o uso dos cadernos não é tão freqüente, os professores optaram por usar folhas de papel sulfite avulsas. Assim, os alunos só utilizam aquilo de que realmente precisam”, explica.

Para Alessandra, é interessante observar que, quando há essa preocupação partindo da escola, é natural que os alunos também adquiram essa consciência: “Há uma grande movimentação por parte dos alunos para a troca de livros usados, por exemplo. Vejo que eles trocam com primos, irmãos e colegas de outras séries, ou até mesmo anunciam os livros disponíveis nas redes sociais online, como o Orkut”. É bom para todo mundo: os pais não precisam gastar para adquirir um livro novinho, os livros antes considerados velhos e inutilizáveis ganham sobrevida e todos compartilham a consciência dos impactos de seu consumo.

Dicas e recomendações do Akatu para a compra de material escolar

* Analise a lista de material para ver se todos os itens solicitados devem realmente ser comprados ou se é possível usar os do ano anterior. Nem sempre é preciso adquirir uma nova mochila, pastas, estojos e até mesmo lápis de cor e canetas.

* Dê preferência a produtos escolares que utilizam material reciclado em sua confecção, como cadernos e agendas, pois isso diminui o custo ambiental de sua fabricação ao reutilizar material que, de outra forma, viraria lixo.

* Opte por usar lápis feito com madeira certificada. Esse lápis tem estampado no seu rótulo o selo FSC. Esse selo indica que aquele produto foi feito com madeira de manejo sustentável (tanto de mata nativa como de reflorestamento), cumprindo a legislação ambiental e a trabalhista e não contribuindo com o desmatamento ilegal.

* Faça uma pesquisa em vários pontos de venda de sua região, pois a variação de preços entre os estabelecimentos costuma ser muito grande. Outra alternativa para diminuir os gastos no início das aulas é fazer compras coletivas para todos os alunos de uma classe, já que alguns estabelecimentos concedem bons descontos para grandes quantidades.

* Antes de comprar os livros da lista, verifique se não podem ser emprestados da Biblioteca da escola ou da cidade. Os livros, se forem bem cuidados, podem ser repassados para os irmãos mais novos, para outras crianças ou contribuir para formar uma biblioteca comunitária.

* Envolva as crianças e os adolescentes no processo de escolha do que será comprado. Explicar os impactos negativos e os positivos de cada opção, de maneira que o estudante entenda o porquê de cada escolha, facilita negociar. E ouvir o que o jovem tem a dizer é a garantia de que o diálogo está sendo estabelecido. Dessa forma, os pais podem ajudá-los a desenvolver uma relação mais saudável com o ato de consumo, desde a infância.

* Aproveite as compras escolares para ensinar as crianças a fazer escolhas com critérios mais amplos do que apenas preço e qualidade ou a admiração por personagens famosos da TV e do cinema, buscando também englobar os impactos da fabricação dos produtos sobre a sociedade e sobre o meio ambiente. Geralmente, os produtos com personagens custam bem mais caro do que os produtos “genéricos”, mas a qualidade é semelhante.

* No caso de cadernos, agendas ou estojos, pode-se comprar produtos de boa qualidade e mais baratos, sem os personagens de TV e cinema, e sugerir às crianças que encapem ou decorem esses materiais com um toque pessoal.
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FONTE : Sabrina Cano, especial para o Instituto Akatu (Envolverde/Instituto Akatu)

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