sexta-feira, 19 de junho de 2009

Questão energética precisa de números mais realistas


FOTO : JOSÉ GOLDEMBERG,físico e professor da USP
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Os dados contraditórios sobre a geração de energia no Brasil podem ser um empecilho para o entendimento entre governo e ambientalistas.

“O governo não deve colocar toda a culpa no ambiental para justificar entraves na produção energética, sob pena de provocar uma radicalização maior por parte dos ambientalistas. Por outro lado, os números sobre a matriz energética brasileira devem ser retrabalhados e refletir um cenário realista”. Foi dessa maneira que José Goldemberg, físico da Universidade de São Paulo, esquentou a plenária da manhã do terceiro dia da Conferência Ethos.

Goldemberg se referiu à dança dos números apresentados tanto de um lado quanto de outro. “As partes, governo e entidades ambientais, devem chegar a um consenso, do contrário não haverá diálogo e entendimento possível sobre os caminhos do investimento em energia no País”. O professor moderou a mesa que discutiu as “Oportunidades geradas pela busca de uma matriz energética sustentável”.

Participaram do debate um representante governamental, Maurício Tolmasquim, presidente da Empresa de Pesquisa Enegética (EPE) do Ministério de Minas e Energia; uma entidade não governamental, na figura de Marcelo Furtado, diretor executivo do Greenpeace Brasil; e um empresário, o diretor geral da IMPSA, empresa de negócios em energia eólica Luis Pescarmona.

Goldemberg criticou a panacéia sobre a energia renovável – “Não é realista pensarmos em 80% de energia advinda de fonte eólica como propõe o Greenpeace. Além disso, o NE não deveria ser o ponto focal para usinas de ventos, como afirma o último relatório da entidade. Os estados do Norte (voltados para o Caribe) ou do Sul são os lugares ideais”, declarou Goldemberg à reportagem da Envolverde.

O rico debate para a complexa questão da produção e consumo energético mobilizou Marcelo Furtado, que respondeu à fala de Tolmasquim. O Greenpeace insiste que a solução para o País em termos da preservação ambiental e efeitos do aquecimento global é a descentralização (pequenas hidrelétricas regionais) e a diversificação (matriz com 80% de fonte eólica e solar, além da água e biocombustíveis) da geração elétrica e térmica no Brasil. Corrobora com Furtado o argentino Luis Pescarmona, cuja empresa já investe na produção de 417 MW de energia eólica no Brasil (200 MW no Ceará, e 217 MW em Santa Catarina).

Maurício Tolmasquim fez questão de comprovar que a matriz energética nacional já é limpa, e é um exemplo para o restante do mundo. Com uma apresentação dos números brasileiros para a energia hidráulica destinada à produção de eletricidade, o presidente da EPE observou que os Estados Unidos consomem sete vezes mais energia que o Brasil em kW/hora por habitante, lembrando que somos responsáveis por 45,9% da produção de energias renováveis no mundo.

Para o governo, a meta é levantar soluções para o consumidor das classes mais desfavorecidas, que aumentará nos próximos anos. O representante governamental alerta ainda para ao fato de os leilões mais recentes terem negociado 46% de energia provinda de recursos fósseis por falta de usinas hidrelétricas habilitadas pelas instâncias ambientais.

Segundo Furtado, do Greenpeace, o debate deve contemplar mudanças dos parâmetros da política pública brasileira. O ambientalista alerta para o fato de os rumos do Brasil estar nas mãos de Lula: “a academia e a sociedade civil tem avançado mais rápido que o governo em propor inovação, soluções e rumos para uma economia sustentável - o governo não quer ouvir as propostas da sociedade civil”, insta ele. Ao final da Roda de Diálogos, que se seguiu à Plenária, ficou a proposta de constituição de um fórum de debates (e decisões) mediado pelo Instituto Ethos. (Envolverde)

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