sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Tese identifica substâncias tóxicas presentes na fuligem da queima da cana-de-açúcar


Tese de doutorado identifica, pela primeira vez, as 172 substâncias orgânicas presentes na fuligem da queima da cana-de-açúcar – algumas delas capazes de alterar o regime de chuvas e de provocar câncer
GABRIELA VILAS BOAS
De Ribeirão Preto
O Brasil acaba de ganhar seu primeiro banco de dados que identifica os compostos orgânicos presentes na poeira e na fuligem originadas da queima da palha da cana-de-açúcar, chamados de material particulado atmosférico. O sistema traz a concentração de 172 substâncias orgânicas presentes em amostras de material particulado de regiões agroindustriais do Estado de São Paulo. O banco é resultado da tese de doutorado da química Roberta Cerasi Urban, defendida na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP) da USP.
As altas concentrações de duas substâncias, n-alcanos e os hidrocarbonetos policíclicos aromáticos, foram o que mais chamou a atenção de Roberta. Os n-alcanos são compostos orgânicos que possuem apenas átomos de carbono e hidrogênio. “Os n-alcanos são hidrofóbicos, ou seja, repelem a água, e isso pode dificultar a formação de nuvens e, consequentemente, alterar os regimes de chuva da região”, diz a autora do trabalho.
Além de poder alterar o clima, as substâncias provenientes da queima de biomassa são tóxicas e têm alto potencial cancerígeno e mutagênico, ou seja, podem causar dano à molécula de DNA. “Já foi evidenciado, também, que o material particulado gerado por essas queimadas durante o período da safra da cana, ao penetrarem o corpo humano, também podem causar doenças respiratórias e cardiovasculares”, enfatiza Roberta.
Queima de cana-de-açúcar no interior de São Paulo. Foto: Francisco Emolo/Arquivo Jornal da USP
Nesse sentido, diz Roberta, os hidrocarbonetos policíclicos aromáticos, encontrados no material particulado, são uma classe de compostos químicos que a literatura já demonstrou ter alto risco à saúde humana, pois vários deles podem causar câncer. “Sua concentração durante o período da safra da cana-de-açúcar foi até 2,3 vezes maior que os valores recomendados pela Organização Mundial da Saúde (OMS).”
As amostras analisadas no trabalho foram coletadas em 2010 e 2011, quando a mecanização da colheita correspondia a 60% no Estado de São Paulo. “Isso demonstra que, mesmo após uma significativa redução da queima da palha, o impacto na saúde humana ainda era grande”, diz a pesquisadora.
Esses resultados, diz Roberta, corroboram o alerta já feito pelos profissionais que trabalham nas áreas de ambiente e saúde pública, de que a queima da cana causa impactos diretos na vida das pessoas.
Segundo Roberta, entre as 172 substâncias identificadas estão o levoglucosano (L), o manosano (M) e o galactosano (G). Essas substâncias são açúcares formados unicamente pelo processo de combustão de plantas, e por isso são chamadas de “impressão digital” das queimadas (queima de biomassa).
“Foi descoberto ainda que a queima da palha da cana gera uma razão próxima de 9 entre os compostos L e M, que é bem diferente daquela calculada para a queima de plantas da floresta na Amazônia (~20).” Ao se coletar um material particulado em Ribeirão Preto, por exemplo, pode-se usar a razão L/M para definir se o material particulado vem da cana ou da queima de floresta. “Sabe-se que um material fino pode viajar por dias com o vento e por milhares de quilômetros”, lembra Roberta.
Foto: Marcos Santos
A pesquisadora ressalta que a utilização do levoglucosano (L) como marcador de queima de biomassa é muito eficiente, mas demanda tempo, equipamentos sofisticados e tem um alto custo. Roberta também realizou trabalho que propõe o uso de açúcares totais como marcadores de queima de biomassa, pois estes são produzidos em alta quantidade na queima de biomassa e sua análise é muito mais simples, rápida e de baixo custo.
Poeira sem fim – De acordo com o Protocolo Agroambiental do Estado, a eliminação da queima da palha da cana-de-açúcar deve chegar a 100% até 2017. Entretanto, as emissões decorrentes da queima do bagaço da cana devem continuar a curto e médio prazos, pois o bagaço continuará sendo utilizado como fonte de energia pelas indústrias ou para a geração de energia elétrica.
Para Roberta, haverá uma grande redução na queima de biomassa, mas haverá também um grande aumento no número de maquinários agrícolas, gerando um crescimento das emissões de partículas presentes no solo devido à circulação das máquinas. “Espera-se alteração na composição química das partículas presentes na atmosfera no Estado de São Paulo, em função de os maquinários revirarem o solo”, afirma Roberta.
O principal objetivo da tese foi o entendimento dos impactos sociais do material particulado atmosférico nas regiões canavieiras, na saúde humana e no regime de chuvas. Para Roberta, os resultados obtidos são muito importantes para a sociedade, pois podem contribuir para a elaboração de políticas públicas voltadas, principalmente, para a saúde da população. “Outro passo importante é a conscientização da população e a imposição de legislação municipal quanto às queimadas urbanas. As pessoas pensam que, porque as folhas são ‘naturais’, sua queima não causa mal à saúde.”
A pesquisadora diz que no Brasil esse tipo de pesquisa ainda é escasso e muitos resultados obtidos são inéditos para a ciência. “A próxima etapa da pesquisa já está em andamento”, afirma Roberta. A pesquisadora está desenvolvendo estudo do material particulado da Amazônia para entender as diferenças e similaridades entre as duas regiões.
A tese de Roberta, intitulada “Material particulado de regiões canavieiras: caracterização química, identificação de marcadores, implicações ambientais e na saúde”, foi defendida em 2014 no Programa de Pós-Graduação em Química da FFCLRP, com orientação da professora Maria Lúcia Arruda de Moura Campos. O trabalho foi contemplado com Menção Honrosa no Prêmio Tese Destaque USP 2015, na área de Ciências Exatas e da Terra, e está disponível na Biblioteca Digital de Teses e Dissertações da USP (www.teses.usp.br).
Do Jornal da USP n°1081, in EcoDebate, 23/10/2015

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