domingo, 23 de maio de 2010

A dívida da mudança climática

Nova York, 20/5/2010 – Os países mais próximos da linha do Equador serão os que mais sofrerão com a mudança climática, segundo o analista geopolítico canadense Gwynne Dyer, autor de um livro que explora as calamidades que serão causadas pelo aumento da temperatura no mundo.

“Climate wars: the fight for survival as the world overheats” (As guerras do clima: a luta pela sobrevivência enquanto o mundo esquenta) avalia o impacto que desse aumento no fornecimento de alimento, nos sistemas de saúde e padrões migratórios, entre outros aspectos.

À África será a mais prejudicada, disse Dyer à IPS, acrescentando que esse continente pode perder metade da sua produção de alimentos nos próximos 25 anos. A teoria de Dyer está baseada em entrevistas com cientistas de renome mundial, retrata um funesto panorama de fome, pandemias e guerras se não forem freadas as emissões de gases-estufa.

“Alguns poucos graus fazem uma grande diferença. Pensemos nessa diferença como ter ou não ter febre. Uns poucos graus a mais podem ser mortais para nosso organismo”, explicou à IPS, com quem conversou sobre como a mudança climática ameaça o planeta.

IPS: Boa parte de seu livro enfatiza a escassez de alimentos. Como a perda de cultivos afetará os países em desenvolvimento?

GWYNNE DYER: São duas as regiões afetadas em termos de fornecimento alimentar: o trópico e o subtrópico. No trópico chove muito. A mudança climática não trará falta de água, mas causará mais calor. Os principais cultivos (arroz, trigo, milho), que não são nativos dessa região, serão perdidos se a temperatura aumentar entre dois e três graus acima dos 35 graus, mesmo por poucas horas durante seu período de crescimento, que demora três semanas. Os cultivos nativos (batata-doce, sorgo) podem sobreviver, mas não alimentarão tanta gente.

IPS: O que acontecerá com os cultivos de alimentos nos subtrópicos?

GD: Estas grandes áreas de cultivo de grãos neste momento são semidesérticas. Se tirarmos a água, o solo ficará muito seco para a agricultura.

IPS: O derretimento das geleiras não compensará a perda de água?

GD: As geleiras levarão pelo menos cem anos para derreter.

IPS: Em seu livro, você diz que as pessoas que sofrem fome emigrarão para outros países.

GD: Isso já acontece. Um quarto da população do Zimbábue emigrou para a África do Sul devido à escassez de alimentos, causando distúrbios pelo argumento de que tiram o trabalho dos sul-africanos. O que acontecerá quando pessoas de todos estes países forem para outras partes para se alimentar? A resposta é que os países fecharão suas fronteiras como mecanismo de sobrevivência.

IPS: Como a mudança climática é um obstáculo à atenção com a saúde?

GD: Geralmente as novas doenças surgem nos trópicos e subtrópicos, onde as sociedades de camponeses vivem com seus animais. A escassez de alimentos levará a Estados falidos. Onde não há governo não há infraestrutura sanitária, nem um sistema de saúde que note os primeiros sinais de alerta de que está sendo incubada uma pandemia. Se uma doença se propaga, pode introduzir-se na população e seria impossível detê-la antes que se soubesse seu nome.

IPS: Há algum país seguro diante dos efeitos da mudança climática?

GD: Os países mais afastados do Equador, como Estados Unidos, Canadá e Rússia, terão melhor desempenho.

IPS: O que diz dos resultados da 15ª Conferência das Partes da Convenção Marco das Nações Unidas sobre Mudança Climática, de dezembro, em Copenhague?

GD: Isso foi um descarrilamento de trens: 192 países presentes, mas isso não é útil na hora de negociar. É preciso escolher 20 países que têm a maior parte dos alimentos e a maior parte do consumo, fazê-los assinar um acordo e conseguir a adesão dos demais.

IPS: Quais países deveriam tomar a dianteira?

GD: Os “velhos países ricos” (Estados Unidos, Rússia, França, Grã-Bretanha, Alemanha, Canadá, Japão) e os que agora estão em rápido desenvolvimento (Brasil, China, Índia). Mas eles não entram em acordo sobre como compartilhar a carga. Os “velhos países ricos” geram 80% do dióxido de carbono emitido pelas atividades humanas e que causam o problema.

IPS: Qual a solução?

GD: Os “velhos países ricos” devem frear suas emissões e ajudar as nações emergentes a aumentar sua produção com energias limpas, como a eólica e a solar, com usinas não alimentadas com carvão. É a dívida que temos de pagar pelo que fizemos.
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FONTE : Chryso D´Angelo (IPS/Envolverde)

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