domingo, 30 de maio de 2010

BARRA DA LAGOA, FLORIANÓPOLIS : O mar é salgado; o diálogo, doce


O mar é salgado. Mas o diálogo é doce.

– Não chora, meu filho. Se perdeu, paciência.

O colóquio de um pai consolando o filho que parece ter perdido um brinquedo. Cena comum, não fosse a idade e as circunstâncias. Esmeraldino, o pai, tem 87 anos. Sílvio, o filho, 41 anos. Não existem brincadeiras. Mas uma realidade que há dias tira o sono de uma das mais tradicionais famílias da Barra da Lagoa.

– Olhem o que o mar fez com os 52 anos de vida de pescador do meu pai – diz Sílvio Timóteo, abraçado ao pai e a mãe, Odete, 78 anos, no pedaço que resta do bar da família. O prédio foi ao chão pela força das ondas.

Trabalhadores do mar, gente simples, com pouca escolaridade. Assim é a vida dos Timóteo. Do casamento entre Esmeraldino e Odete nasceram 15 filhos que esparramaram uma penca de netos e bisnetos. Vida humilde, cidadãos corretos. Enquanto o marido trabalhava na pesca em Rio Grande, Extremo-Sul do Brasil, Odete fazia renda de bilro e cuidava das crianças.

Com as economias, ajudaram a casar os filhos e compraram o terreno onde moram. Aposentados, engordam a renda com o aluguel do bar batizado de Sombrero. Lugar simples, que nos meses de temperada serve petiscos à base de frutos do mar.

Desde o começo da semana, as paredes verdes vão aos poucos sendo tragadas pela água.

A família se juntou e, com pedras e areia, tenta conter o avanço do mar. Entre quinta e sexta-feira depositaram 2.500 sacas. Carregavam entulho de uma obra e areia de uma construção. Utilizavam carrinho de mão e sacolas.

– Sou um homem sem vergonha de chorar. A gente sabe o que significa este lugar para nossos pais – conta Sílvio – com os pés e dedos sangrando.

Odete é cardíaca e se mostra acuada. Esmeraldino tem um ferimento na perna e está tenso.

– Tudo o que temos foi construído em cima do mar – conta Sílvio, que depois da separação voltou a morar com os pais.

Descendente de açoriano, o casal deu origem a uma família que conserva os hábitos dos típicos moradores do distrito da Barra da Lagoa: gente que gosta de pirão d’água, de boi-de-mamão, com histórias de bruxas e que mantém a fé em São Pedro, o padroeiro dos pescadores. Localizada entre o Oceano Atlântico, a Lagoa da Conceição e o Morro da Galheta, a Barra da Lagoa é traspassada pelo Canal da Barra.

A vida simples dos Timóteo talvez tenha-lhes tirado o direito de conhecer o poeta Fernando Pessoa. É dele Mar Português, e seus épicos versos Ó mar salgado, quanto do teu sal/São lágrimas de Portugal. Para a família Timóteo, o mar é mesmo salgado.

Por sorte, o diálogo é doce.
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FONTE : jorn. ÂNGELA BASTOS, Diário Catarinense, 30/5/2010.

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