quarta-feira, 3 de março de 2010

Parque Tecnológico – para que e para quem serve teu conhecimento?

A produção de ciência e tecnologia é um dos pilares das Universidades, pois contribui para o desenvolvimento da sociedade nas mais diversas esferas, e pode auxiliá-la a ser mais livre e soberana. Para que isso ocorra, contudo, é preciso que o conhecimento produzido esteja em consonância com as reais necessidades da população. É, portanto, uma condição sine qua non que este seja de domínio público. Infelizmente não é esse o projeto que está sendo apresentado pela Reitoria da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

A “UFRGS-TEC” será um “espaço destinado à implantação de empresas nos campi da UFRGS, incluído no conjunto de ações desenvolvidas visando o pleno desenvolvimento da interação universidade-empresa em nossa Universidade” (Proposta de Implantação do Parque Tecnológico, artigo 2 – Objeto). Ou seja, aprimoramentos tecnológicos e inovações científicas voltados às empresas participantes. Uma materialização da lógica da apropriação dentro de um espaço público. Segundo o próprio projeto “o estabelecimento que possibilitem o fluxo de informações entre empresas, universidades e centros de pesquisa”, sem dar espaço à produção intelectual social, que vise a constituição tecnológica para a sociedade como um todo e não apenas setores dela, tolhindo a capacidade e a potencialidade de se inovar não apenas para alguns, mas para o povo.

Infelizmente a lógica da apropriação privada do público já é uma realidade na UFRGS, materializada “nos mecanismos de transferência de tecnologia que já são prática na instituição” (idem, p.3). O Parque Tecnológico virá a aprofundar esses mecanismos, explicitada na concepção e missão contidas no projeto, “transferindo a tecnologia de P&D da Universidade para sociedade através do setor produtivo [empresas privadas] e administrar o fluxo de conhecimento e tecnologia entre a Universidade, empresas e mercados”.

Mas vejamos alguns dos objetivos específicos…

“1. Criar um ambiente propício e ágil, para a transferência de tecnologia, orientado pela excelência da pesquisa desenvolvida na Universidade, para uso do setor produtivo, gerando riqueza para a região e retorno para a Universidade.”

“6. Facilitar a transferência de tecnologia da Universidade às empresas instaladas.”

O ritmo da produção científica não deveria ser ditado pelos imperativos do mercado e sua necessidade de inovação para aprofundar a acumulação de riqueza entre poucos. O retorno para a Universidade é demasiado pequeno em relação às vantagens obtidas pelas empresas que se instalarem no Parque.

“2. Considerar os aspectos geográficos de distribuição espacial das diferentes unidades acadêmicas, contemplando as diversas Unidades Universitárias que apresentam vocação para a interação com o setor produtivo, seus recursos humanos e os seus laboratórios localizados nos quatro (4) campi da UFRGS.”

Ou seja, as Unidades que apresentem projetos de interação que não visem imediatamente à produção estarão de fora das atividades do Parque.

“15. Oportunizar a integração do papel da educação superior na sociedade bem como incremento da cultura da inovação das empresas.”

Caberia perguntar: qual o papel da educação superior na sociedade segundo a concepção contida nesse projeto?

“21. Promover e organizar atividades de formação tecnológica avançada, dirigidas a pessoal e quadros das empresas associadas.”

Essa atividade seria considerada como Extensão? Qual o papel e a concepção de Extensão que queremos?

Segundo o projeto, “A extensão também poderá ocorrer através da prestação de serviços (como ensaios de materiais, p.ex.) qualificada, oferecida às empresas do Parque por laboratórios especializados da UFRGS”. A Extensão aparece reiteradamente com seus objetivos invertidos segundo os pressupostos do Parque.

Para coroar todo o processo de desvirtuamento do papel da Universidade, da relação que deve estabelecer com a sociedade, há um evidente ataque ao controle e destinação públicos de suas atividades. O Conselho Diretor da UFRGS-TEC não conta com a representação dos três segmentos da comunidade acadêmica (docentes, discentes e técnicos) e ao passo que há representação das entidades de classe empresariais, não há nenhuma representação dos trabalhadores, através de suas Centrais sindicais ou entidades representativas.

Por essas e outras questões, convidamos-te a defender uma UFRGS pública e popular, que não coloque sua estrutura física e humana a serviço de interesses privados. Diga não a esse Parque Tecnológico!

Grupo de Trabalho Universidade Popular -

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PARECER DE VISTA AO PROCESSO Nº 23078.032080/09-01

Através da autonomia universitária, organizamos nossa estrutura e planejamento a fim de cumprir os diversos papéis que nossa instituição representa ou já representou para a sociedade.
Como uma entidade pública, nossos objetivos deveriam sempre buscar compreender a sociedade como um todo, com o discernimento de utilizarmos o princípio da equidade de forma correta, tratando os segmentos que se apresentam na sociedade em patamares desiguais também com uma atenção desigual, almejando assim romper a atual tendência de concentração de riquezas e efetivamente contribuirmos com o desenvolvimento de uma sociedade igualitária.
Segundo os proponentes do Parque Tecnológico, “existem diversos elementos que permitem afirmar que o parque científico e tecnológico da UFRGS já é uma realidade, materializado nos mecanismos de transferência de tecnologia que já são prática na Instituição” explicitando ainda que “atualmente existem, na UFRGS 562 parcerias institucionais envolvendo protocolos, convênios e contratos: 101 com instituições internacionais, 235 com instituições públicas, 79 com instituições privadas e 147 com ONG’s, sindicatos e associações”.
Demonstrando que a nossa qualidade e excelência em pesquisa se mantêm e, segundo dados dos próprios proponentes, segue um crescimento contínuo a partir de acordos com instituições que, em sua maior parte, não funcionam a partir da lógica de mercado.
Os proponentes deixam claro que “o parque pode se configurar no entorno da Universidade atraído pelas ‘leis do mercado’” sendo que, como órgão especial de apoio de uma universidade pública, os critérios para a escolha de instituições parceiras não deveria seguir uma lógica privada e sim respeitar os princípios e objetivos de nossa Universidade.
A partir da explicação dos proponentes que “a extensão também poderá ocorrer através da prestação de serviços (como ensaios de materiais, p. ex.) qualificada, oferecida às empresas do parque por laboratórios especializados da UFRGS.” e ainda que “o parque estará também fortemente vinculado às atividades de ensino da UFRGS” através da oferta de estágios, observa-se que o conceito de extensão é confundido com a idéia de prestação de serviços e que existe uma inversão de critérios quando um espaço público que deveria servir para a construção de estruturas que atendessem ao ensino de todos os estudantes da UFRGS é restringido ao acesso de poucos estagiários que poderiam ter acesso a estes estágios nas instalações das próprias empresas e não a partir da locação de espaços públicos.
Por todos os argumentos expostos aqui, pelo entendimento que o parque tecnológico estrutura-se como facilitador institucional para implementação de linhas de pesquisa e estruturas físicas que são regidas pelo conceito de “iniciativas de concorrência”, em detrimento de outros empreendimentos com sistemática e funcionamento diferenciado e que não receberão essa facilitação e a partir do entendimento de que toda a área da universidade, assim como sua estrutura e conhecimento deve ser pública e servir a toda a sociedade e não a uma pequena parcela, aqui entendida como as empresas que serão beneficiadas dentro de um sistema de concorrência que prejudicaria tantas outras que não terão este mesmo acesso, não se reconhece o mérito do projeto como adequado a uma universidade pública como a UFRGS e não há o entendimento de que exista uma efetiva necessidade de sua implantação.
É o parecer.
PAULA BRITTO AGLIARDI
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FONTE : CEA - Centro de Estudos Ambientais

Um comentário:

Gilnei Fróes disse...

É preciso fatores de Inteligência Tecnológica para implantação de um Parque Tecnológico. E, antes do êxito ou sucesso que se percebe – teórico – das entrevistas, vem o conhecimento e muito trabalho, além das estratégias para se oportunizar os primeiros passos em “C&TI” configurando-se projetos instrumentais de P&D, envolvendo “EBTs” e “PMEs” órfãos de atenções, verbas e suporte técnico.
É preciso se programar e estabelecer políticas concretas para o direcionamento e apoio aos centros de inovação e suas incubadoras. Só assim será possível pensar em palavras chaves na prática – como “inovação” - para se otimizar a aplicação de recursos que nunca chegam às mãos dos cientistas e pesquisadores para que, desta forma, com projetos laboratoriais reais, se possa definir, priorizar e investir em “programas” essenciais e prioritários, de relevante interesse e necessário investimento e desenvolvimento à sociedade e ao país.
A coisa funciona como uma orquestra sinfônica. Como maestro – conheçendo o mecanismo dessa partitura tecnológica – creio que a Vossa noticia pode ser lido e anunciado aos 4 pontos cardeais aos leigos, mas para os que lêem partitura e tocam de ouvido, este parque tecnológico está desafinado na realidade.

Queriam um parecer? Ei-lo! E indago: está funcionando à pleno? Quantas patentes efetivou? Que projetos ambientais são parceiros?
Obrigado.
Dr. Gilnei Fróes