terça-feira, 2 de março de 2010

Catadores de lixo reconhecem o valor do próprio trabalho


Após participar de experiências em projetos de educação socioambiental com catadores de materiais recicláveis na Grande São Paulo, entre 1997 e 2008, a educadora ambiental Angela Martins Baeder aprofundou sua reflexão teórica sobre o tema em sua tese de doutorado defendida na Faculdade de Educação (FE) da USP. No estudo Educação Ambiental e Mobilização Social: Formação de Catadores na Grande São Paulo, ela analisou, do ponto de vista da educação ambiental, esses processos de pesquisa de intervenção que visam promover políticas públicas de inclusão social de catadores, bem como as atividades educativas em três projetos realizados entre esses profissionais.

Uma delas foi a associação de moradores do núcleo habitacional “Pedra sobre Pedra”, localizada na Zona Sul de São Paulo, próximo à represa Billings. Os moradores associados realizavam mutirões de limpeza, coletando grandes quantidades de material reciclável, recolhendo o lixo de porta em porta e evitando, assim, que ele fosse jogado no meio ambiente. Vários moradores tiravam dali o seu sustento.
A educação ambiental promoveu a autovalorização entre os catadores

Angela explica que o desafio do projeto era tornar essa prática um processo coletivo e sistematizado. “Nosso grupo de pesquisa do Laboratório de Ciências Humanas da FE, juntamente com técnicos da prefeitura, acompanhou a associação de moradores após mutirões de limpeza e tentou mobilizar e apoiar um projeto comunitário de educação ambiental de coleta seletiva. O objetivo era melhorar a qualidade de vida desses catadores, que já faziam um trabalho ambiental importante com a coleta numa região de mananciais”, conta.

A pesquisa foi participativa. O grupo de Angela realizou reuniões na associação e conseguiu a cessão de terrenos para a instalação de galpões, meios de transporte para os materiais, além de levantar fundos para o projeto.

A primeira reunião de grandes dimensões, em 2000, foi a que instituiu o “Fórum Recicla São Paulo”, que reuniu diversos grupos da Grande São Paulo. “No Fórum, fizemos um levantamento sobre a quantidade de pessoas e de materiais coletados por elas sem apoio do poder público”, relata a pesquisadora. O Fórum se tornou um movimento social de catadores, que contribuiu para a construção de uma identidade entre os trabalhadores. “Eles passaram a entender a importância do trabalho que realizavam”, completa.

Em 2003, sob demanda da Prefeitura de São Paulo, o grupo de apoiadores realizou a “Capacitação”, que foi um trabalho educativo para a inclusão de catadores no sistema de coleta da capital, nas chamadas “Centrais de Triagem”, que recolheria e triaria os resíduos recicláveis da região, gerando emprego e promovendo, assim, a inclusão social dos catadores.

O terceiro processo educativo analisado ocorreu no interior do “Projeto Coleta Seletiva Brasil Canadá”, elaborado por universitários e pesquisadores, catadores e representantes de prefeituras, no início de 2005. Os objetivos eram: buscar soluções, social e ambientalmente sustentáveis, para os resíduos produzidos nas grandes metrópoles; melhorar a qualidade de vida e de trabalho dos catadores; e aumentar a quantidade de resíduos reciclados.

A pesquisa analisou de forma interativa e participante esses três grandes projetos, identificando a importância dessas ações educativas voltadas para a autonomia dos catadores e para a gestão do problema socioambiental dos resíduos sólidos na cidade. “A importância do estudo está na identificação de elementos que contribuam para a superação das péssimas condições de vida, de trabalho e discriminação social a que está submetida uma grande quantidade de trabalhadores”, analisa Angela.

Para ela, o resultado mais importante do estudo foi, principalmente, a possibilidade de ampliar a autovalorização por parte dos catadores, que passaram a enxergar a importância do trabalho que realizam, e a necessidade de se organizar coletivamente (em cooperativas, associações, etc.) para competirem no mercado de trabalho de forma cooperativa e não competitiva.

Transição
Apesar dos resultados positivos dos projetos analisados no estudo, Angela ressalta que as políticas públicas e as questões ambientais ainda passam por um processo de transição e que muitas dificuldades ainda persistem, como os baixos preços pagos pelos materiais coletados, a dificuldade de interação com os novos governos e com as Centrais de Triagem de Coleta de São Paulo, entre outras. A professora continua envolvida com os catadores e ajuda a promover a articulação dos grupos de coleta seletiva da capital e da construção de políticas públicas com sua inclusão.

Segundo um levantamento feito pela Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP em 2006, existem no Brasil aproximadamente 200 mil catadores de lixo vivendo em situações de intensa exclusão social. Apesar de realizarem um trabalho de grande importância social, a maioria não consegue suprir as necessidades básicas, como comer e se abrigar.

Obs: O “Projeto Coleta Seletiva Brasil Canadá” teve o apoio da Canadian International Development Agency (Cida) e da Association of Universities and Colleges of Canada (AUCC).
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FONTE : Roberto Andrade (Envolverde/Agência USP de Notícias)

Um comentário:

Mimirabolante disse...

É uma grande profissão,povoada de muito preconceito.....Deveriam ser mais bem pagos,pois fazem o trabalho sujo dos outros.....Deveriam ter carteira assinada,melhores condições de trabalho,apoio jurídico,entre outras benfeitorias......