domingo, 12 de março de 2017

UM NOVO DIA PARA AS MULHERES

Por Maria Helena Masquetti* 
“O que realmente querem as mulheres?”, “Dez passos para entender as mulheres”, “As mulheres nunca estão satisfeitas”. Presentes na literatura clássica ou especializada, nos programas de TV, na internet e nas mais superficiais revistas expostas nas bancas, geralmente estas perguntas continuam indo do nada a lugar nenhum por tentar convencer as mulheres de que suas já tão banalizadas insatisfações se resumem a questões triviais. Na verdade, a insatisfação é mais antiga. O dia 8 de março de 1857, que deu origem ao Dia Internacional da Mulher, não fala de glamour nem de flores como convém ao marketing, mas da repressão policial violenta a um movimento feito por trabalhadoras de uma indústria têxtil de Nova Iorque pela igualdade de direitos trabalhistas e pelo direito de voto.
Se a cultura da competição e a ignorância cristalizaram tal desigualdade de direitos entre os sexos, isso não quer dizer que a natureza tenha se adaptado à ideia. Entre as insatisfações atribuídas a cada mulher, nobre ou pobre, reside latente e ancestral a inconformação sobre os direitos que lhe têm sido roubados. Em números, eles estão representados pela diferença de quase 30% a menos nos salários¹ em relação a homens em função similar; pelos 63 mil relatos de violência doméstica registrados em menos de um ano²; pelas diversas formas de assédio sofridos cotidianamente e pela média sinistra de 500 mil mulheres estupradas no país por ano³, das quais cerca de 70% são crianças e adolescentes. E urge somar aí os interrogatórios constrangedores a que muitas são submetidas a ponto de se calarem pelo medo de denunciar o crime.
Como pode uma espécie, ainda mais a humana, discriminar justamente a outra (e única) parte responsável por sua própria continuidade? E como classificar de guerra dos sexos uma luta onde, há séculos, um lado perde continuamente por lutar praticamente sem armas, principalmente as legais? E sem entender porque deveria, enfim, guerrear. Diante disso, tentar responder sobre o que as mulheres realmente querem com argumentos frívolos e mensagens comerciais oportunistas chega a ser mais uma violência contra a dignidade feminina.

Foto: © DR

Desnecessário recorrer a pesquisas para constatar o quanto as mulheres são habitualmente a maioria onde o futuro da raça humana está em jogo. Que o digam as salas de aula do mundo onde, pelas mãos delas, exércitos de meninas e meninos constroem uma parte fundamental de suas historias! Que o digam as maternidades onde a cada segundo, uma mulher assegura a continuidade da vida! Que o digam os lares onde, sob o desvelo maternal, as crianças ensaiam seus primeiros passos! Que o digam a solidariedade, os colos acolhedores, as lágrimas de compaixão e a oposição inflexível às guerras, geralmente tão mais explícita na natureza materna! Como pode alguém tão imprescindível ser tão subestimado somente a estupidez e a ganância podem explicar.
Quando perguntada sobre o que era a mulher em seu tempo, a escritora Virginia Woolf respondeu: “Não acredito que alguém possa saber até que ela tenha se expressado em todas as artes e profissões abertas à habilidade humana”. Se ainda estivesse aqui, oitenta anos depois, Virginia provavelmente se espantaria por ver o quão pouco o mundo evoluiu na equiparação dos direitos entre mulheres e homens. Apesar disso, resta lembrar que esta desigualdade foi forjada pela vontade humana e, sendo assim, do mesmo modo, pode ser revogada por ela. A vontade da sociedade aliada à vontade política são decisivas para nos transformar, como diria Ghandi, na mudança que queremos ver no mundo. Que não esteja longe, portanto, o dia em que, em lugar de parabéns num dia 8 de março, as mulheres recebam de todas as partes do mundo um pedido histórico de desculpas por meio de uma consciência global renovada, acompanhado pelo ressarcimento, mesmo que apenas moral, de tudo o que a humanidade lhes deve. (#Envolverde)
Referências 

* Maria Helena Masquetti é graduada em Psicologia e Comunicação Social, possui especialização em Psicoterapia Breve e realiza atendimento clínico em consultório desde 1993. Exerceu a função de redatora publicitária durante 12 anos e hoje é psicóloga do Instituto Alana.

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