domingo, 30 de outubro de 2016

Reflorestamento contra degradação do solo

Técnico do Instituto de Pesquisa Florestal do Quênia poda uma acácia no terreno seco do sítio de testes localizado em Tivu, no condado de Kitui. Foto: Justus Wanzala/IPS
Técnico do Instituto de Pesquisa Florestal do Quênia poda uma acácia no terreno seco do sítio de testes localizado em Tivu, no condado de Kitui. Foto: Justus Wanzala/IPS
Agoniado pela crescente degradação do solo que traga terras férteis, o Quênia dedica enormes esforços à recuperação de vastas zonas áridas e semiáridas a fim de deter a desertificação.
Por Justus Wanzala, da IPS – 
Nairóbi, Quênia, 27/10/2016 –  O ministro de Ambiente e Recursos Naturais, Charles Sunkuli, informou que foi lançado,em setembro deste ano,um programa para recuperar 5,1 milhões de hectares até 2030. Além disso, o país procurará estender sua cobertura florestal dos atuais 7% de seu território para um mínimo de 10%.
“Criamos um fundo de compensação para ajudar as comunidades que vivem em terras secas e degradadas a ganharem a vida e participar das iniciativas de recuperação”, disse Sunkuli, por ocasião da 15ª sessão do Comitê de Revisão da Implementação (CRIC15) da Convenção das Nações Unidas para a Luta Contra a Desertificação (UNCCD), realizada em outubro, em Nairóbi, capital do país.
O reflorestamento acontecerá principalmente em zonas áridas e semiáridas, que constituem 80% do território do país, mas também se estenderão a outras áreas.Para conseguir esse ambicioso objetivo, o ministro informou que está se implantando um programa para promover o plantio de espécies de árvores tolerantes à seca, como Melia volkensii (conhecida no país como mukau), nas zonas áridas.
O Quênia investe muito em pesquisa de árvores resistentes à falta de água para reflorestar as zonas secas e melhorar as fontes de renda das populações locais.Em Tiva, no árido condado de Kitui, no leste do país, o Instituto de Pesquisa Florestal do Quênia (Kefri) criou um centro de pesquisa para cultivar duas espécies ideais para plantar em regiões áridas e semiáridas, com apoio do governo e da Agência de Cooperação Internacional do Japão (Jica).
O diretor do Programa de Pesquisa da Ecorregião Árida do Kefri, James Ndufa, explicou que o crescimento da população e a transformação da selva em terras férteis para cultivar levaram a um uso pouco sustentável do solo e contribuiu para a degradação e a desertificação.E acrescentou que o centrode pesquisa de Tiva se concentra em adaptar duas espécies de árvores às condições mais quentes e mais secas, para que as zonas áridas se adaptem à mudança climática”.
A reprodução acontece pelo método convencional de selecionar as espécies que prosperam nas condições desejadas. A ideia é distribuir entre os agricultores as sementes melhoradas geneticamente de árvores tolerantes à seca, de rápido crescimento e que oferecem madeira de boa qualidade, além de forragem para os animais, destacou Ndufa. Com o tempo, a iniciativa permitirá recuperar as áreas degradadas e conservar a diversidade biológica, acrescentou.
A análise do DNA ocorre durante a seleção, e o enxerto é praticado para conseguir os resultados desejados. Assim, criaram uma horta de sementes e um sítio de provas das espécies modificadas de mukau e acácia. O projeto, iniciado em 2012, permite distribuir as sementes melhoradas geneticamente das duas espécies entre os agricultores.Além da Jica, o Kefri conta com a colaboração dos Serviços Florestais do Quênia, de universidades quenianas, do Instituto de Pesquisa de Florestas e Produtores Florestais do Japão e da japonesa Universidade de Kyushu.
O centro de pesquisa fica em uma zona semiárida que recebe apenas 700 milímetros de chuva por ano. Os produtores só conseguem magras colheitas, o que gera uma pressão sobre os recursos naturais pela consequente superexploração. Ndufa explicou que as comunidades locais dependem do corte de árvores, que usam para fazer carvão e vendê-lo em Nairóbi, o que acelera o desmatamento e a degradação do solo. Além disso, outros grupos de pessoas, de forma deliberada, recolhem areia e prejudicam a vegetação, o que também degrada a terra.
A madeira de mukau é vendida pelo equivalente a um dólar por pouco menos de meio metro. “E pode-se cultivar cerca de 400 árvores em um hectare, que quando maduras podem gerar entre US$ 200 mil e US$ 500 mil”, acrescentou Ndufa. As duas espécies com as quais trabalham foram superexploradas. A mukau, cuja madeira é roxa, tem valor equivalente ao mogno e é a preferida pelos fabricantes de móveis, enquanto a acácia é valiosa pelo carvão.
O objetivo é desenvolver árvores de rápido crescimento, que possam ser cortadas em 15 ou 20 anos. Foram plantadas cerca de três mil mukau e mil acácias em cem hectares do sítio de provas de Tiva, e já foram coletados aproximadamente 2.500 quilos de sementes.
Também são estudadas outras duas espécies com folhas mais duradouras, para que sirvam de forragem para os animais, especialmente para as cabras. O projeto também conta com atividade de extensão para distribuir as sementes e conscientizar sobre a importância das árvores,por meio de visitas de campo, demonstrações agrícolas e dias de campo.
Verónica Kioko, residente em Kitui, opinou que o pouco interesse demonstrado pelas árvores em algumas áreas pode estar relacionado com a insegurança alimentar e a pobreza. Os agricultores receberam a informação sobre os benefícios de plantar árvores, mas para eles é difícil esperar de 15 a 20 anos até ficarem prontas para o corte. De fato, as cortam principalmente para fazer carvão, mesmo antes de estarem maduras, ressaltou.
A seca e a fome exacerbam a situação. “As pessoas costumam ficar sem alimentos em caso de má colheita, e, não tendo dinheiro, cortam as árvores para fazer carvão e vendê-lo barato”, explicou Kioko. No tocante à acácia, Ndufa disse que a ideia é desenvolver uma variedade que produza muitas ramas e folhas para alimentar as cabras e os camelos, e madeira.
No entanto, para lutar contra a desertificação e a degradação são necessárias intervenções em escala nacional e transfronteiriça,  apontou Frank Msafiri, presidente do capítulo queniano da rede East African Sustainability (SusWatch), que reúne várias organizações da África oriental.
A grande preocupação é que a elevada pobreza, a pouca disponibilidade de água, o desmatamento e a degradação do solo avivem os conflitos, observou Msafiri. “Os atores de setores como água, silvicultura e agricultura, bem como dos centros de pesquisa da África, não devem perseguir estratégias contraditórias, mas harmonizá-las sob o guarda-chuva da gestão sustentável da terra”, explicou.
Por sua vez, a secretária executiva da UNCCD, Monique Barbut, disse no CRIC15 que muitos países que se dedicam à recuperação florestal conseguem resultados positivos. Ao citar o exemplo da Etiópia, afirmou que a terra recuperada graças a um plano específico suportou a seca provocada pelo fenômeno El Niño, que afetou a região da África austral e oriental no ano passado. Envolverde/IPS

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