terça-feira, 18 de outubro de 2016

Cada agricultor que migra, um consumidor

Pastores masai do Quênia levam seu gado ao mercado local. Foto: Vitale/FAO
Pastores masai do Quênia levam seu gado ao mercado local. Foto: Vitale/FAO
Para avaliar o impacto que a migração rural tem na produção de alimentos, a IPS entrevistou Peter Wobst, assessor do Programa Estratégico para a Redução da Pobreza Rural da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO).
Por Baher Kamal, da IPS – 
Roma, Itália, 18/10/2016 – O crescente processo de urbanização mundial (prevê-se que dois em cada três pessoas viverão em cidades até 2030) recorda a velha “equação” que indica que cada vez que um pequeno agricultor migra para uma zona urbana gera-se um produtor a menos de alimentos e um consumidor a mais. Essa equação repercute especialmente nos países em desenvolvimento, onde os pequenos produtores respondem por 60% a 80% dos alimentos.
Também afeta as condições de vida nos centros urbanos, já que impacta negativamente nas políticas destinadas a conseguir a sustentabilidade das cidades, tema que estará muito presente na Conferência das Nações Unidas sobre Habitação e Desenvolvimento Urbano Sustentável, conhecida como Habitat III, que começou ontem e termina no dia 20, na cidade de Quito, no Equador.
Para avaliar o impacto que a migração rural tem na produção de alimentos, a IPS entrevistou Peter Wobst, assessor do Programa Estratégico para a Redução da Pobreza Rural da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO). “Cada pequeno agricultor que se muda é um produtor a menos, isso é certo. Mas a realidade é mais complexa”, pontuou Wobst. A migração é um fenômeno comum, que ocorre durante a transformação socioeconômica das sociedades e economias, acrescentou.
“Queremos que isso aconteça para que as economias e regiões se desenvolvam. E hoje em dia, em uma economia mundial mais integrada, mais do que nunca. E os números falam por si só – um bilhão de pessoas não vivem nas comunidades onde nasceram”, destacou Wobst. Na medida em que o meio rural se transforma, os novos sistemas de produção exigem diferentes composições de habilidades, que por sua vez devem ser consideradas pelos sistemas de educação pertinentes, prosseguiu.
Segundo Wobst, algumas pessoas encontram oportunidades na economia rural em mudança, e outras as buscam em cidades próximas, ou, em última instância, se mudam para outro país. Tudo isso está certo, sempre e quando melhorem suas condições de vida relativas.
Peter Wobst, assessor do Programa Estratégico para a Redução da Pobreza Rural da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO). Foto: Cortesia do entrevistado
Peter Wobst, assessor do Programa Estratégico para a Redução da Pobreza Rural da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO). Foto: Cortesia do entrevistado
“O que obviamente não queremos é ver as pessoas de deslocando por necessidades econômicas, porque não podem lidar com as mudanças do entorno econômico rural e não veem outras oportunidades de vida em suas comunidades de origem. Para ser benéfica, a migração deve ser uma opção, não uma necessidade”, destacou Wobst.
Segundo Wobst, na FAO “estamos trabalhando para abordar as causas fundamentais da migração por necessidade, que trata dos problemas socioeconômicos que expulsam as pessoas das zonas rurais”. Quando um agricultor migra para a cidade, a equação pode ser evidente para uma pessoa individual, mas não se sustenta no longo prazo e após grande número de agricultores, apontou.
“Na medida em que as economias sofrem uma transformação estrutural, o movimento de pessoas em busca de melhores oportunidades de emprego em outros lugares é inevitável. Os produtores podem migrar para uma área urbana, mas também para outras zonas rurais, em curto (incluída a migração sazonal/cíclica) ou longo prazos”, disse o especialista da FAO. Mas, mesmo no caso da migração rural-urbana, em geral a “equação” – na qual a migração do campo para os centros urbanos implica menor produção e maior consumo de alimentos – não se sustenta, explicou.
Habitantes do Paquistão fogem de zonas inundadas em um trator. Foto: Haafez/FAO
Habitantes do Paquistão fogem de zonas inundadas em um trator. Foto: Haafez/FAO
“Se administrada adequadamente, uma migração segura e regular pode reduzir a pressão sobre os mercados de trabalho locais e fomentar mão de obra mais eficiente e salários mais altos na agricultura”, observou Wobst.“Alguns agricultores podem encontrar uma ocupação muito mais produtiva em zonas urbanas. Pode ser que alguns ainda tenham um estabelecimento agrícola em casa que apoiam com remessas enviadas para que seja mais produtivo, bem como com os novos conhecimentos e habilidades adquiridos”, acrescentou.
Alguns dos agricultores que ficam nas zonas rurais se tornam mais produtivos com o tempo, graças à transformação agrícola, ao avanço nas tecnologias, ao investimento, à melhor formação profissional, a serviços de extensão, entre outros fatores. A transformação agrícola e rural dará lugar a sistemas alimentares mais integrados, com mais oportunidades de trabalho na cadeia de valor, que inclui processamento, envasamento, transporte, venda no atacado e comércio varejista.
Wobst recordou que as remessas dos familiares que emigraram podem reduzir as limitações financeiras e fomentar os investimentos na agricultura e em outras atividades econômicas rurais com potencial de criação de emprego nos lugares de origem.“Além disso, os migrantes podem adquirir novos conhecimentos, novas habilidades e redes que lhes permitam se incorporar a um emprego mais produtivo e atraente, e as oportunidades empresariais vinculadas à volta, ou simplesmente facilitar essas oportunidades para os demais familiares ou membros da comunidade”, indicou.
Refugiados fogem de um conflito armado em Burundi. Foto: Linton/ FAO
Refugiados fogem de um conflito armado em Burundi. Foto: Linton/ FAO
Em 2015, havia 244 milhões  de migrantes internacionais, incluídos 150 milhões de trabalhadores, dos quais cerca de um terço tinha entre 15 e 34 anos, afirmou o especialista.A migração interna é um fenômeno maior, com 740 milhões de migrantes em 2013. Cerca de 40% das remessas internacionais são enviadas para as zonas rurais, o que reflete a origem de grande parte dos migrantes, detalhou. Por outro lado, em 2015, 65,3 milhões de pessoas foram deslocadas à força por conflitos armados e perseguições.
Quanto ao impacto da migração, Wobst acredita que gera tanto oportunidades como desafios para os países de origem, de trânsito e de destino. Nos países de origem, a diáspora, as redes e os migrantes repatriados podem incentivar a transferência de conhecimentos e tecnologia, bem como os investimentos para promover a agricultura e o desenvolvimento rural, assegurou. E nos países de trânsito e de destino, os migrantes podem ajudar a reduzir a escassez de mão de obra, indicou.
“Mas os grandes movimentos de pessoas apresentam desafios complexos. As zonas rurais de origem correm o risco de perder a parte mais jovem e com frequência mais dinâmica de sua mão de obra, enquanto nos países de trânsito e de destino a migração pode ser um desafio para que as autoridades forneçam serviços públicos de qualidade aos migrantes e às populações de acolhida, e pressiona mais a base de recursos naturais”, destacou Wobst.
“Portanto, a FAO trabalha para criar meios de subsistência alternativos e sustentáveis nas zonas rurais, com um enfoque especial nas mulheres e nos jovens, e aproveitar o potencial de desenvolvimento da migração interna e internacional”,concluiu o especialista. Envolverde/IPS

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