domingo, 13 de fevereiro de 2011

Um prato cheio para os gaúchos

O consumo consciente veio para ficar. Depois da consagração dos hortigranjeiros orgânicos, é chegada a hora do Rio Grande do Sul agregar mais um diferencial à sua pecuária. O chamado boi orgânico, com criação alicerçada nos estados do Mato Grosso e do Mato Grosso do Sul, também será criado nos pampas, em pasto sem agrotóxico nem adubação química, tratado apenas com homeopatia.

O pontapé foi dado pelo Ministério da Agricultura e o governo do Estado, que lançaram, neste mês, o programa Pecuária de Corte Orgânica da Zona Sul. As ações começam a engatinhar com o diagnóstico dos produtores aptos a aderir a esse trabalho. Segundo o secretário adjunto da Agricultura do RS, Claudio Fioreze, o projeto é um dos braços do programa "Melhor Carne do Mundo", promessa de campanha do governo Tarso Genro.

Conforme a assistente técnica da Emater de Pelotas, Sônia Desimon, o gaúcho já utiliza o meio ambiente como aliado e será fácil converter a pecuária convencional em orgânica. Para isso, técnicos da Emater estão visitando propriedades em municípios da Metade Sul para identificar o que é preciso para adaptar as propriedades e adequar o manejo. "É um trabalho promissor, que envolverá o produtor familiar." A ideia é trabalhar com os 22 municípios que integram a Azonasul.

A carne orgânica está baseada em um conceito de produto padronizado e criação responsável. A prática introduz valores de sustentabilidade ambiental e social no sistema produtivo. Na criação, o gado orgânico, para ser certificado, tem que ser rastreado do nascimento ao abate. É um bovino com identidade. No cardápio do boi orgânico, a pastagem, preferencialmente a sombreada. Tratamento, só com fitoterápicos e homeopáticos. Tudo deve ser natural, mas são obrigatórias as vacinas estabelecidas por lei. O consumidor precisa da certeza que recebe um alimento livre de agrotóxicos e hormônios sintéticos. Os americanos, japoneses e europeus adoram essa filosofia, que deve garantir incremento de 30% ao ano na pecuária orgânica do Brasil.

O que impede que a evolução seja ainda maior é a visão conservadora de muitos criadores. O consultor de pecuária da Farsul, Fernando Adauto, defende que o entrave está na baixa recompensa. "A pecuária do RS é a mais natural do mundo. Mas as exigências do gado orgânico fariam com que a produção diminuísse em 50% frente a um ganho financeiro de 10%. Não investimos mais em orgânicos porque precisamos apostar em competitividade e a carne gaúcha já é reconhecida pela qualidade das raças Angus e Hereford, criadas exclusivas a pasto."

Segundo o presidente da Associação Brasileira de Pecuária Orgânica (ABPO), Leonardo de Barros, são muitas as exigências a serem cumpridas até conseguir a certificação como gado orgânico. "Nos dois primeiros anos, gasta-se de 10% a 15% mais para adaptar a propriedade, mas o custo de produção é menor do que o convencional, uma vez que não se compra químicos, por exemplo. As aplicações trazem benefício a longo prazo. São resultado de um trabalho de gestão." E essa organização é, geralmente, o gargalo da criação. Por isso, alerta o pesquisador da Embrapa André Moraes, a migração requer cautela. O segredo, diz, está em facilitar o acesso à água e aos alimentos e respeitar as taxas de lotação.
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FONTE : Correio do Povo, ANO 116 Nº 136 - PORTO ALEGRE, DOMINGO, 13 DE FEVEREIRO DE 2011

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