terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Agrotóxicos: Reformas de leis buscam ampliar presença ao invés de restringi-la. Entrevista com Graciela Gómez

O uso indiscriminado de agrotóxicos ainda é um desafio a ser enfrentado por muitos ambientalistas. Em Santa Fe, na Argentina, a situação não é diferente. Além do abuso de venenos, a população ainda tem que lidar com a indiferença das autoridades em relação ao tema.

Em entrevista à ADITAL, a advogada da ONG Ecos de Romang, Graciela Gómez, aponta os avanços e desafios ainda encontrados no combate à contaminação. Além disso, denuncia a falta de compromisso político com o assunto e o desinteresse de laboratórios em pesquisar os efeitos dos tóxicos manipulados frente aos incentivos para a mutação de sementes.

A advogada destaca ainda o papel de movimentos e organizações ambientais na informação e na luta pela proteção da natureza. Exemplo disso é o que ela mesma faz na internet: utiliza o espaço – denominado Ecos de Romang – para denunciar às pessoas os perigos do abuso e mal uso de agrotóxicos.

As informações e os estudos sobre tais produtos estão disponíveis em: http://ecos-deromang.blogspot.com.

Adital – Que balanço a senhora faz das políticas direcionadas ao uso indiscriminado de agrotóxicos em 2009? Houve avanços?

Graciela Gómez – O avanço é quantitativo em relação à denúncias de populações expostas. As esporádicas sentenças judiciais nas províncias onde impera a aplicação aérea e terrestre são superadas pelas ordenanças de cidades que proíbem às empresas de ferrovias a desmazelar as vias com herbicidas. Isto reflete a ineficácia de toda disposição sobre o manejo dessas substâncias. Os projetos de proibição nunca foram tratados.

As reformas a leis vigentes buscam ampliar ainda mais ao invés de restringir a desproteção existente com as fumigações. A indiferença dos órgãos responsáveis, que devem decidir sobre o tema e pôr um freio ao uso irracional destes venenos, demonstra a fragmentação de responsabilidades e a falta de estratégias para tratar a contaminação.

Adital – Quais são as expectativas com relação às ações para este ano de 2010?

Graciela Gómez – Não podemos falar a esta altura de que há desconhecimento. A saúde não pode esperar. Há energia para preparar campanhas eleitorais, mas não há vontade nem dinheiro para restaurar equipes deterioradas, por exemplo como as que realizam a análise residual de glifosato nas águas. Tem que realizar estudos epidemiológicos, mapas e estatísticas reais das crianças nascidas vivas com más formações. Aceitar que há diferentes formas de exposição em maior ou menor grau, mas que se relacionam com diferentes enfermidades.

Gastam-se fortunas em laboratórios somente para transformar sementes até o amorfo, mas não há conclusões eticamente sérias sobre o perigo dos tóxicos manipulados. Assim demonstrou um dos organismos que integra a Comissão de Pesquisa sobre a utilização de Agroquímicos. Esperamos decisões concretas levadas à prática não só a nível legal e científico, mas também político.

Adital – Todavia, a senhora crê que os movimentos, os ambientalistas tenham conseguido difundir mais as informações acerca dos organismos geneticamente modificados?

Graciela Gómez – Há um “Dever moral de informar ao mundo”, parafraseando um jornalista espanhol. Justamente porque não se pratica frequentemente, se desinforma. As tarefas estão invertidas: os movimentos e ambientalistas custodiam os recursos naturais, a saúde e o cumprimento das leis em um Estado ausente.

Advertem e resistem à “Destruição criadora” destas novas tecnologias que arrasam com as formas produtivas existentes, com culturas e costumes onde a Pachamama é sagrada. Difundem que é perigoso esquecer que o solo é um ser vivente biológico, não químico. Conquistamos por ele o título de “soldaditos” que levamos com orgulho de ser “verdes”. Algo que quem nos outorgou não obterá nunca, nem se pintando.
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FONTE : EcoDebate (Entrevista originalmente publicada pela ADITAL, Agência de Informação Frei Tito para América Latina)

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