t6 218x300 Marina Silva   Ambientalista desde a juventude, ela critica possíveis retrocessos na Conferência da ONU
Marina Silva.
A ex-senadora e ministra Marina Silva, em entrevista exclusiva ao Mercado Ético, faz uma leitura sobre os cenários e desafios que envolveram a Cúpula da Terra (Eco-92) e que se colocam nos bastidores da preparação da Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (Rio+20). Ela fala também sobre a importância da convivência com Chico Mendes em sua militância socioambiental.
Sua biografia conta com cerca de três décadas de vida pública, ocupando cargos como o de vereadora, deputada estadual e senadora, até o de ministra do Meio Ambiente (2003-2008). Em 2007, foi indicada pelo jornal britânico The Guardian como uma das 50 pessoas que podem ajudar a salvar o planeta. No mesmo ano, conquistou o “2007 Champions of the Earth”, o principal prêmio da Organização das Nações Unidas (ONU) na área ambiental.
Nascida no Acre, filha de seringueiros, Marina teve parte de sua infância e adolescência marcadas por esse contexto, que ajudaram a formar suas posições como ambientalista até hoje.
Mercado Étic – Qual é sua avaliação sobre as reais contribuições da ECO-92 para o cenário socioambiental no país e no mundo?
Marina Silva – A Eco-92 tem um referencial muito importante, que acontece num contexto de muita proatividade dos cientistas e dos movimentos socioambientais, desde o relatório “O Nosso Futuro Comum”, em 1987, apresentado pela Comissão Brundtland, em que ficou estabelecido os limites do planeta. Isso fez com que os movimentos políticos tivessem de dar resposta a esse comprometimento, com as perdas de biodiversidade, climática e com a desertificação. Os governos tiveram que tomar uma atitude diante da situação dramática, que veio por meio das três convenções nessas áreas, da Carta da Terra e da Agenda 21. Mas não foram acompanhadas por instrumentos econômicos e protocolos (efetivos) para implementação. Por outro lado, houve aumento da governança ambiental nos estados nacionais. Naquela época não participei da ECO-92 por um problema de saúde grave, que me atingiu por um ano e oito meses. Mas eu acompanhava as negociações, na expectativa de saírem grandes acordos para implementação e que tivesse, no Brasil, agenda de avanços. Nos últimos anos, aumentamos o marco legal e a implementação no país. Duas décadas depois, observamos que ocorreu um progressivo exílio da ciência do debate. A maior parte dos políticos foi se “domesticando”, sendo que deveriam ter continuado no esforço de implementação dos grandes acordos. Nos últimos anos, tanto nas Conferências das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, em Cancún (COP16), como em Durban (COP17), os processos caminharam para a burocracia. Em Durban, houve baixa participação de lideranças políticas. Os cientistas continuaram exilados.
ME – Você é acreana e conheceu Chico Mendes no contexto do movimento político e socioambiental. Fale um pouco sobre essa convivência e o que tira de mais significativo deste período.
MS - Tive uma vivência de aprendizagem com ele. Chico Mendes me deu os rudimentos de militância e ativismo autoral. Algo que foge do escopo do ativismo dirigido e busca respostas de co-autoria, de projeto que buscar a identificação de mundo. Ele tinha essa visão antecipatória do mundo. Lembro de participar com ele dos embates (nos seringais no Acre), que são formas pacíficas de impedir a derrubada das florestas, com a participação de crianças a idosos. Chico ia além e mobilizava uma rede, falando com contatos no Rio de Janeiro, no Paraná, em Nova York, aliados em diversos segmentos. Isso possibilitava que tivesse a autonomia sem se afastar do processo coletivo, que acreditava que não tinha de ser só dele e dos seringueiros. Dividia a autoria e o reconhecimento do que era feito. É o que está acontecendo com as mídias sociais hoje. Não é mais um ativismo dirigido pelos políticos, pelo mercado, pelas empresas. As pessoas querem se associar a causas e propósitos e podem ser sujeitos ativos e proativos nessas iniciativas.
ME – O Brasil é visto lá fora como referência em legislação ambiental. Isso é suficiente na prática?
MS - A legislação é muito boa e por isso está sob forte ameaça, porque, nos últimos 10 anos, ousamos implementá-la. Com isso, reduziu-se a emissão de 4 bilhões de toneladas de CO2 e foram constituídos milhares de hectares de unidades de conservação. Claro que houve a reação de setores contrários. Mas para as leis serem implementadas não basta só instrumentos de comando e controle. São necessários instrumentos econômicos na nova agenda para o desenvolvimento sustentável e economia de baixo carbono.
ME – Como o novo Código Florestal, aprovado recentemente no Congresso, pode afetar a política ambiental no país e a posição do Brasil na esfera das negociações internacionais das conferências das partes da mudança do clima e da biodiversidade?
MS - Não é admissível aprovar o projeto do novo Código Florestal para aumentar fronteiras agrícolas, já que é possível haver ganho por produtividade, sem necessidade de derrubar uma árvore. É preciso assistência técnica e inovação. O Brasil não está fazendo esses avanços por falta de visão estratégica. É importante que haja grande mobilização pública para que a presidente Dilma vete o PL e diga qual é a política agrícola e florestal para o desenvolvimento sustentável. O ideal é que o Serviço Florestal Brasileiro seja semelhante a uma Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). No campo internacional, o Brasil fez um movimento significativo, na COP15, em Copenhague, se comprometendo com mais de 80% de redução de desmatamento. Essa meta ficará comprometida se o PL for aprovado. O país também foi o que mais contribuiu para diminuir a perda de biodiversidade, mas legislações que tramitam, como em relação a terras indígenas, podem afetar os compromissos firmados internacionalmente, incluindo a convenção da desertificação. Os cientistas alertam que se houver grande perda de floresta na Amazônia, ela pode se transformar em savana, além de prejudicar outros biomas.
ME – Qual a sua avaliação sobre a Rio+20 e suas repercussões posteriores?
MS - Na Rio+20, o cenário é de retrocesso ambiental. Se os problemas continuam no mais alto nível à vida e suporte do planeta, precisa haver maior nível de cobrança. Se os líderes políticos não querem se comprometer e baixam as expectativas da Rio+20, cabe aos líderes morais da comunidade fazerem pressão. Chegamos ao cúmulo do exílio da Ciência na agenda. Hoje há a ameaça de mais de quatro graus de temperatura já apontada pelos cientistas. Fala-se de economia verde, de desenvolvimento social na programação da conferência, como se fosse possível tratar disso sem as questões ambientais. Atualmente, a sociedade continua proativa e é importante que não baixe sua guarda. Já a ciência tem o diagnóstico e deve ter espaço para colocar o estado da arte. Hoje existe um impeditivo para que tenha algum documento para ampliar o alcance das implementações.

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FONTE :  publicado originalmente no site do Mercado Ético.