quinta-feira, 12 de setembro de 2019

Rincão Gaia: um abraço na natureza - JORNAL "O INFORMATIVO"

FONTE : http://www.informativo.com.br/meio-ambiente-na-escola/rincao-gaia-um-abraco-na-natureza,319361.jhtml?fbclid=IwAR3P5rjxkdsUvVosoWnYoxf50Olog6olR0dz1vGSvo2FH1j8GFNIfxSFkjU

Rincão Gaia: um abraço na natureza

Espaço de 30 hectares, criado pelo ambientalista José Lutzenberger em Rio Pardo, é uma lição de preservação

 Créditos: Fernanda Mallmann 
Casa de José Lutzenberger no Rincão Gaia Lidiane Mallmann
Antes de mais nada, você escuta. É o som dos pássaros, dos periquitos que fazem a festa entre os galhos mais altos de uma e outra árvore. Depois, você vê. É um espetáculo de tons de verde, que ganham os olhos em cada direção que se foque. Há também o cheiro de ar puro. Entrar no Rincão Gaia é uma mistura de emoções, é se sentir abraçado pela natureza. Trata-se de uma propriedade de 30 hectares no município de Rio Pardo, no Vale do Rio Pardo. Um lugar peculiar pelo seu passado, mas, principalmente, extraordinário pelo que é no presente.

José Lutzenberger: um dos mais importantes ambientalistas gaúchos  (divulgação)

A jazida viraria lixão...
Nos anos 1950, a propriedade onde hoje está o Rincão Gaia tinha ativa uma jazida de basalto. Dali se extraiam pedras que eram levadas para construir rodovias. Duas décadas depois, nos anos 1970, uma nova área de exploração foi aberta. Desta vez maior, com dois hectares. A extração do basalto marcou a geografia da área. Uma grande cratera se abriu no solo e transformou em cinza a paisagem. Depois de ser retirado da área o que foi possível, o destino do grande buraco estava selado: tornaria-se uma área de depósito, um lixão.
Quem mudou a sorte daquele grande buraco na rocha de basalto e todo seu entorno foi o ambientalista José Lutzenberger. Ele conheceu o local no início do anos 1980. Na época, atuava como técnico ambiental e foi chamado para uma consultoria na área, que era uma paisagem degradada pela exploração de pedras e em que funcionava uma estância que criava búfalos. Inconformado com a ideia de que aquele lugar viraria um lixão, ele comprou a área. A terra em suas mãos, fez dela um santuário ecológico particular.
Para Alexandre de Freitas, que é monitor da Fundação Gaia há 21 anos, ao invés de lamentar a terra arrasada, Lutz (como era chamado) foi visionário. "Ele demonstrou otimismo, olhou para o problema destemidamente e ficou empolgado na busca por uma solução", revela. Deu certo: no lugar dos antigos buracos das pedreiras, existem hoje lagos e, no seu entorno, grande variedade de plantas típicas de ambientes áridos, que junto às rochas, formam jardins de rara beleza. O Rincão Gaia também é habitado por diversas espécies silvestres, como o martim-pescador, o ratão-do-banhado, a lontra e a coruja-das-torres. Era a natureza mostrando que, para ela, não existe impossível.

Terra arrasada vira floresta
Não há mágica, mas existe o milagre da natureza. O Rincão Gaia é um exemplo de sucesso quando se fala de regeneração de espaços degradados. Numa área minerada, de devastação total, brotou floresta novamente. Como isso aconteceu é um processo que envolve pouco da mão do homem e muito da capacidade do ecossistema. "Isso aqui voltou a ser povoado aos poucos", diz o monitor Alexandre de Freitas. Ele explica que foram introduzidas espécies de alta valência ecológica, que são resistentes e importantes aos ambientes. Assim, o capim, formigas e cupins começaram a se proliferar.
Algumas árvores frutíferas também foram plantadas para se criar uma cobertura vegetal. Esse manto vegetal é um convite: com ele os animais circulam com mais conforto, o solo fica mais úmido e as sementes germinam com mais facilidade.
O primeiro passo dado, a segunda regra foi não atrapalhar. "Na sucessão ecológica, precisamos observar a habilidade que a própria natureza tem de criar as suas sequências e seus capítulos. Começamos com algumas árvores frutíferas, capim, formigas, cupins, que são extremante fortes e resistentes. Cada população dessas vai modificando o ambiente e tornando-o mais agradável para outras plantas mais frágeis e sensíveis. É um processo que vai em escalada até surgir uma floresta. Começa-se com plantas e animais muito rústicos e termina-se com orquídeas", diz Alexandre de Freitas, dando exemplo do poder da natureza.
O monitor estima que um terço do Rincão Gaia foi deixado em estado bruto para que a natureza fizesse o seu papel. "Ela fez o que bem entendeu e isso nos mostra que não é possível termos dogmas tecnológicos. Pode ser que a natureza nos dê outras sugestões, a gente tem que ser flexível. Temos que ter paciência e humildade para aprender a ver e ouvir os movimentos da natureza". A receita da regeneração de um ambiente, por incrível que pareça, é simples assim.
Vida em todo lugar
Banhados onde as capivaras fazem a festa. Árvores gigantes em que os pássaros têm ninhos. Lagos que peixes e tartarugas têm como habitat. O Rincão Gaia é casa para inúmeras espécies. De porcos, galinhas e vacas a abelhas e jabutis. Em estufas que simulam o ambiente de deserto, crescem suculentas e cactos. Em outras, vivem plantas carnívoras. Já nas áreas alagadas, um emaranhado de plantas aquáticas. Há vida por todos os lados no Rincão Gaia. Um estudo feito em parceria com a Pontíficia Universidade Católica (PUC/RS) apontou mais de 180 espécies de aves no local. Mas ainda não existe um levantamento florestal e de demais animais que fazem de Gaia o seu habitat. Mais importante do que saber quanto, é deixar que vivam e convivam em paz.

Ambiente criado por José Lutzenberger propicia convívio entre espécies (Lidiane Mallmann)

Amiga das abelhas
Se hoje o mundo começa a se preocupar com a extinção das abelhas - fonte de vida devido ao seu poder de polinização -, no Rincão Gaia elas têm campo fértil para viverem muito bem. Local repleto de espécies, as abelhas encontram alimento farto. Árvores como o espinilho são frequentes no lugar e sempre há abelhas em volta, confundindo-se com as florzinhas amarelas.
A planta é importante para a abelha e a abelha é fundamental para todos nós.

O legado
José Antonio Lutzenberger nasceu em Porto Alegre, em 17 de dezembro de 1926. Foi agrônomo, escritor, filósofo, paisagista e ambientalista e participou ativamente na luta pela preservação ambiental.
Filho de imigrantes alemães, formou-se como agrônomo especializado em adubos, e por muitos anos trabalhou para companhias do setor, a maior parte do tempo para a Basf, como um técnico e executivo da empresa. No fim dos anos 1960 começou a se desiludir com as políticas agrícolas danosas ao meio ambiente, e em 1970 deixou seu emprego para se dedicar ao ambientalismo.
Em 1971 fundou a Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (Agapan), uma das primeiras associações ecológicas do Brasil. Já em 1987, desligou-se da Agapan e criou a Fundação Gaia. Em 1990, foi convidado pelo então presidente Fernando Collor de Melo, para assumir a pasta do Meio Ambiente. Seu estilo crítico trouxe-lhe problemas, e após denunciar a corrupção no Ibama, em 1992, foi demitido.
Afastado da cena política, deu continuidade ao seu trabalho independente. O valor de sua contribuição foi reconhecido mundialmente, recebendo inúmeras distinções, como o Prêmio Nobel Alternativo.

Lago das Estrelas nasceu no buraco da antiga jazida (Lidiane Mallmann)

Lago das Estrelas
A imagem é desconcertante. Um lago com água esverdeada que, talvez seja, o ponto mais bonito dentro do Rincão Gaia. O Lago das Estrelas nasceu no buraco da pedreira. Tem dois hectares e, em alguns pontos, alcança até 17 metros de profundidade. Levou quatro anos para encher com a chuva. Hoje, tem 150 milhões de litros de água semipotável, que abastece toda a estrutura do Rincão. Além disso, é água cheia de vida com diversidade da fauna subaquática. Os peixes foram parar no lago sem intervenção do homem, apenas da natureza. Alexandre de Freitas ensina que aves e capivaras trouxeram os ovos de peixe até o local, por meio de suas patas. "Era pedreira aberta, um buraco na rocha, viraria um lixão, e se tornou esse lago repleto de vida. É uma história muito poderosa de virada de mesa", reflete. No Lago das Estrelas também são feitas oficinas de mergulho. Poderia ser um lugar malcheiroso, mas é local para deleite dos olhos e paz no coração.

Homenagens
O ambientalista recebeu diversas homenagens tanto em vida como após a morte. Dá nome a locais emblemáticos como a Reserva Biológica do Lami José Lutzenberger, um jardim na Casa de Cultura Mario Quintana, ambos em Porto Alegre, e o Parque Estadual José Lutzenberger (mais conhecido como Parque da Guarita), em Torres. Aliás, junto com o paisagista Burle Marx, Lutzenberger definiu o projeto paisagístico da área de uso público do Parque Estadual da Guarita.

Alexandre de Freitas é o monitor mais antigo do Rincão Gaia (Lidiane Mallmann)
Discípulo de Lutz
Na vida do técnico agrícola Alexandre de Freitas, nada é por acaso. Ele nasceu e viveu a infância em Charqueadas. "Me criei em ambiente de carvão, de cinzas e sobras de siderurgia, então, natureza era algo distante", recorda. Quando tinha cerca de dez anos, ele lembra que um dia passou em frente à tevê e José Lutzenberger dava uma entrevista sobre como fazer um produto caseiro para matar baratas. "Aquilo me marcou porque ele falava muito comovido sobre a necessidade de não usar veneno. E, para mim, naquela época, veneno era uma coisa comum."
Aquela lição de Lutzen­berger ficou. Quando chegou a hora de fazer Ensino Médio, Freitas foi estudar num Colégio Agrícola. "Queria matar essa vontade de saber mais sobre plantas, animais". Anos depois, ingressou no curso de Biologia. "Era 1984 e o José Lutzenberger estava no auge. Só se falava nele e eu ia à biblioteca para procurar os materiais, os livros dele. Nessa época, eu fui pedir um estágio para trabalhar com o Lutz. Não deu certo, mas, em 1998, fiz uma seleção para ser monitor do Rincão Gaia e passei. Tive chance de conviver, de aprender e de ser amigo de Lutzenberger", conta. Hoje, dos sete monitores do Rincão, Freitas é o mais antigo deles. Conhece a trajetória, as ideias e os sonhos que o ambientalista tinha como poucos. E se empenha em difundir e entusiasmar os outros. "Gostaria que Lutz tivesse o legado mais conhecido, ele foi um visionário. Ele dizia: 'só reclamar não adianta, temos que arregaçar as mangas'. Hoje, precisamos fomentar essa atitude ecocidadã", avalia Freitas, amigo de Lutz e seguidor da sua filosofia.

Gaia, a deusa Terra
Na mitologia grega, Gaia é o nome da deusa Terra, companheira de Urano (céu) e mãe dos Titãs (gigantes). Gaia é a personificação do planeta Terra, representada como uma mulher gigantesca e poderosa. Em homenagem à deusa grega, a Teoria de Gaia (também conhecida como Hipótese de Gaia) foi criada pelo cientista britânico James E. Lovelock. Nela, ele descreve o planeta Terra como um organismo vivo, que apresenta algumas características como a atmosfera com química e a capacidade para manter e alterar suas condições ambientais - o que não acontece com outros planetas do sistema solar.

Visitação
O Rincão Gaia possui diversas modalidades de visitação tanto para escolas como para grupos interessados em conhecer o local. As atividades mostram a história e a diversidade dos ambientes, estimulando tanto a curiosidade e a interação com a natureza, como a reflexão sobre os desafios sócio-ambientais atuais e, também, a adoção de uma postura ecocidadã de preservação da vida. Para quem pensa em viver mais profundamente o Rincão, há possibilidade, inclusive, de hospedagem no local, com pacote de alimentação e monitor. Para escolas, é possível escolher cursos e atividades com temas específicos. Mais informações pelo e-mail reservas@fgaia.org.br ou pelos telefones (51) 99725-3685 e (51) 99725-3686.

Ambientalista até o fim
Lutzenberger continuou trabalhando em vários projetos relacionados ao meio ambiente até o fim de sua vida. Dedicou-se à coordenação das equipes técnicas de sua empresa, a Vida Produtos e Serviços em Desenvolvimento Ecológico Ltda.; deu assessoria na área ambiental; continuou dirigindo a Fundação Gaia, desenvolvendo técnicas de agricultura sustentável e recuperação de áreas degradadas. A partir de 1998 seus novos alvos de ataques foram a indústria dos transgênicos e as ameaças de privatização das reservas mundiais de água potável. Em entrevista concedida em 2001, pouco antes de falecer, estava otimista. "Enquanto que uns 30 anos atrás quem levantava esta questão da maneira como eu levantava era considerado meio louco, hoje, o esquema oficial, pelo menos para o Rio Grande do Sul, está querendo levar a agricultura para o caminho ecológico sustentável e a gente vê, a cada dia, notícias nos meios de comunicação de agricultores que por iniciativa própria estão procurando caminhos de produção sem veneno. Por isso, já não estou nem brigando contra os agrotóxicos. A luta intelectual já está ganha. O que nós temos que fazer agora é promover uma agricultura sadia", declarara.

Corpo de José Lutzenberger foi enterrado direto na terra, no Rincão Gaia (Lidiane Mallmann)

O descanso do ícone
A passagem de Lutz se deu entre um misto de tristeza, de ode à vida e de poesia. Ele faleceu em 2002, com 75 anos, de um ataque cardíaco, depois de sofrer várias crises de asma. Na época, o governo do Rio Grande do Sul decretou luto oficial de três dias e sua morte foi noticiada no Brasil e no exterior, com muitos louvores à sua carreira brilhante. Foi sepultado em um bosque no Rincão Gaia como pediu: com meias pretas, calça jeans e camisa de algodão, envolto em um lençol de linho, sem caixão e sem deixar marcas no ambiente. "E sem discursos de políticos. Ele disse que não queria isso", acrescenta o monitor do Rincão, Alexandre de Freitas, que foi amigo pessoal de Lutz e ajudou a cobrir a cova onde seu corpo foi enterrado no Rincão.
Quando a última pá de terra foi colocada na cova do ambientalista, a fina garoa que caía no Rincão se transformou em uma forte chuva. Atingiu o pequeno bosque de eucalipto e chegou a derrubar uma árvore. "Algumas pessoas que acompanhavam o funeral correram, ficaram assustadas com o temporal. O galho de uma árvore mais antiga caiu. Quem conhecia o Lutz até comentou, naquele momento, que aquela só podia ser mais uma das brincadeiras dele", relembra Freitas. Dezessete anos após sua morte, seus restos mortais seguem junto à terra que tanto amou.

'Sinfonia Inacabada'
Três anos após sua morte, em 2005, foi lançada a biografia do ecologista José Lutzenberger. Sinfonia Inacabada, obra da jornalista Lilian Dreyer, descreve a trajetória do agrônomo gaúcho que, aos 44 anos, abandonou o trabalho na indústria química e iniciou uma jornada que o tornou um dos grandes nomes do ambientalismo internacional.

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