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sexta-feira, 22 de julho de 2016

Olímpiada 2016: o que descobrimos

A Agência Pública acaba de lançar o Projeto 100, o maior levantamento multimídia já feito sobre as remoções ocorridas no Rio de Janeiro por conta das obras para a Olimpíada deste ano. Foram quatro meses de apuração, e o trabalho é resultado do primeiro laboratório Transmídia da Casa Pública – o primeiro Centro Cultural de Jornalismo do Brasil.
O projeto 100 é uma verdadeira maratona jornalística
Esta reportagem especial busca investigar o que aconteceu após as remoções causadas pelas grandes obras construídas para a Olimpíada de 2016. É o momento em que a sede jornalística pelo fato noticioso tende a murchar, deixando de lado uma parte vital da história: para onde as famílias foram removidas? As vidas das pessoas melhoraram? As promessas do poder público foram cumpridas?
As expulsões olímpicas deixaram um legado difícil de esconder: violências psicológicas e físicas, relações sociais dilaceradas, moradores endividados e sujeitos ao controle das milícias da zona oeste do Rio
As expulsões olímpicas deixaram um legado difícil de esconder: violências psicológicas e físicas, relações sociais dilaceradas, moradores endividados e sujeitos ao controle das milícias da zona oeste do Rio

Não existem dados oficiais detalhados e verificáveis sobre as remoções olímpicas no Rio, que se somam às massivas demolições ocorridas em nome da Copa do Mundo em 2014. Diante da falta de informações sobre essa penosa política, decidimos fazer o óbvio: escutar as famílias expulsas de suas casas.
Para isso, usamos como parâmetro a estimativa do Comitê Popular da Copa e Olimpíadas do Rio de Janeiro a respeito de três obras listadas como Legado dos Jogos Olímpicos – o BRT Transolímpica, o BRT Transoeste e o Porto Maravilha – e as obras para reforma do estádio do Maracanã, palco de partidas de futebol durante o evento esportivo. O comitê identificou 2.548 famílias removidas apenas para esse conjunto de obras. Decidimos ouvir 100 delas, uma amostra significativa do total (cerca de 4%). Trata-se do mais extenso levantamento já feito com essas vítimas de remoção, de interesse para pesquisadores, jornalistas, gestores de políticas públicas e qualquer um que queira ouvir seus relatos. Uma base de dados viva, e interativa.
Não foi fácil. Nossa equipe de reportagem, composta por quatro jornalistas mulheres, passou meses buscando contatos a partir de ex-moradores, lideranças, ONGs, o Comitê Popular, pastorais. Batemos também de porta em porta em conjuntos habitacionais construídos para receber esse contingente, os condomínios do programa Minha Casa Minha Vida.
Aos poucos, essas famílias foram abrindo suas portas e as suas vidas para nós. Muitas venceram o medo impingido por condições assustadoras – como a constante vigilância de milícias nos condomínios – para nos contar o que aconteceu depois da remoção, quando os gravadores e as câmeras das TVs já estavam desligados. O conjunto de histórias apresentado aqui revela padrões assustadores que serão sem dúvida um dos maiores legados das remoções forçadas por causa do megaevento. A síntese dessas revelações está na reportagem “O que descobrimos”.
Em maio, tivemos a ajuda de 19 alunos da universidade ESPM Rio, graças a uma parceria coordenada pela professora Monica Mourão e o coordenador de Jornalismo, Pedro Curi. Os intrépidos estudantes aprenderam em pouco mais de duas semanas como nós, da Pública, fazemos reportagens: com os pés na rua. Encararam as longas viagens de transporte público, lama nos sapatos, visitas a locais insalubres, muitos “nãos” e muitas lágrimas durante a apuração.
Também colaboraram a repórter Lena Azevedo e o fotógrafo JV Santos, que cederam histórias apuradas anteriormente a este projeto. E os fotógrafos AF Rodrigues e Luiz Baltar nos brindaram com seu cuidadoso olhar – são deste último as imagens do vídeo de abertura.
Graças ao empenho dos nossos repórteres, conseguimos entrevistar pessoalmente e registrar 62 histórias contadas pelos próprios moradores. Elas foram produzidas em formato multimídia e dispostas pela equipe da editora criativa Olga Lucía Lozano neste especial online, no qual cada usuário pode navegar como preferir, permitindo uma multiplicidade de leituras e descobertas. O design é da colombiana Lorena Parra e o desenvolvimento do iraniano Babak Fakhamzadeh. Conheça aqui toda a equipe que tornou esse projeto realidade.
Agora, os 38 depoimentos que faltam só serão concluídos se o público se engajar. Por isso, lançamos um chamado a moradores removidos, jornalistas, midialivristas, estudantes de jornalismo, ativistas, pesquisadores que queiram contribuir com essa maratona, nos ajudando a completar nosso pódio de expulsões e violações de direitos humanos, o maior Legado da Olimpíada de 2016: 100 histórias, 100 expulsões olímpicas.
O projeto 100 ultrapassa, ainda, este site na internet. Ele é mais que um projeto de jornalismo multimídia. Ele se completa com objetos artísticos dispostos na Casa Pública, o primeiro centro cultural de jornalismo do Brasil, em Botafogo, na capital fluminense, numa transposição do jornalismo para novas linguagens – a arte, a fotografia, a instalação – que juntas formam o primeiro especial transmídia da Agência Pública.

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