terça-feira, 17 de abril de 2018

Pesquisa identifica e classifica áreas prioritárias para conservação na Amazônia e Mata Atlântica

Prioridade para conservação com olho no passado

Por Peter Moon | Agência FAPESP

Pesquisa identifica e classifica áreas prioritárias para conservação na Amazônia e Mata Atlântica a partir da modelagem de nichos ecológicos e da comparação de condições atuais com as existentes há milhares de anos (imagem: Acta Oecologica)
Pesquisa identifica e classifica áreas prioritárias para conservação na Amazônia e Mata Atlântica a partir da modelagem de nichos ecológicos e da comparação de condições atuais com as existentes há milhares de anos (imagem: Acta Oecologica)

Identificar locais prioritários para ações é um desafio importante em projetos de conservação de biodiversidade. Uma alternativa adotada por um grupo de pesquisadores é olhar para o passado, de modo a procurar entender quais foram as condições climáticas das regiões analisadas.
“As regiões que menos sofreram com mudanças climáticas nos últimos 21 mil anos são aquelas onde ocorreram menos extinções locais. Assim, essas regiões possuem maior riqueza de espécies e, consequentemente, maior diversidade genética entre as espécies, ou seja, maior variabilidade dos genes dentro de uma mesma população”, disse o biólogo Thadeu Sobral-Souza, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), campus de Rio Claro.
Quanto maior a diversidade genética de uma população, maiores são as chances de sobrevivência às mudanças ambientais. Sobral-Souza é um dos autores de um trabalho que busca criar metodologia para identificar, na Amazônia e na Mata Atlântica, regiões climaticamente estáveis e alvos prioritários de estratégias de conservação. A pesquisa também busca verificar quais unidades de conservação se encontram dentro de áreas climaticamente estáveis.
Resultados do trabalho foram publicados na revista Acta Oecologica. A pesquisa tem apoio da FAPESP em projeto coordenado pelo professor Milton Cezar Ribeiro, do Departamento de Ecologia da Unesp.
De modo a estabelecer quais são as áreas climaticamente mais estáveis foi preciso estimar como era a distribuição de ambas as florestas no passado, particularmente antes da destruição da maior parte da Mata Atlântica. Para tanto, os pesquisadores usaram a técnica de modelagem de nicho ecológico como meio de inferir a distribuição presente e a distribuição no passado na Amazônia e na Mata Atlântica.
Novas tecnologias têm favorecido o desenvolvimento de enfoques metodológicos que permitem gerar informação útil a partir de dados incompletos. É o caso da modelagem dos nichos ecológicos das espécies. Sejam animais ou plantas, as espécies obedecem a regras ecológicas que determinam sua distribuição geográfica.
Uma vez que se conhece a distribuição geográfica atual – ainda que parcialmente – de uma determinada espécie, assim como os níveis de variação ambiental (temperaturas máxima e mínima, variações pluviométricas e outros dados) que são tolerados pelos indivíduos, faz-se uso de algoritmos computacionais e de ferramentas de geoprocessamento para se obter uma representação quantitativa da distribuição ecológica daquela espécie.
A partir de dados incompletos de localização geográfica de uma espécie, consegue-se descobrir qual é a sua distribuição atual (ou potencial) no meio ambiente. Da mesma forma, ao se empregar estimativas climáticas do passado, consegue-se simular qual teria sido a distribuição espacial das espécies em épocas pretéritas.
“Muito embora a modelagem de nicho ecológico seja normalmente usada para inferir a distribuição de espécies, a técnica também é empregada para predizer a delimitação de um bioma, a partir da modelagem do bioma”, disse Sobral-Souza.
Para prever a distribuição de um bioma ao longo do tempo, os autores selecionaram pontos de ocorrência usando um filtro geográfico baseado na delimitação atual do bioma amazônico e na extensão da Mata Atlântica. Existem diversos modelos de circulação global atmosférico-oceânica que fazem inferências sobre climas globais passados. “Cinco desses modelos serviram como fonte de dados para as simulações climáticas da Amazônia e da Mata Atlântica no passado”, disse Sobral-Souza.
A partir de dados como temperatura média anual e índices anuais de precipitação, os pesquisadores estimaram a distribuição presente do bioma amazônico e da Mata Atlântica. Os modelos foram construídos com base no cenário climático atual e então projetados para as condições climáticas reinantes no passado, no auge da última idade do gelo há 21 mil anos no final do Pleistoceno e também há 6 mil anos, no meio do Holoceno.
De acordo com o estudo, a área potencial da floresta amazônica há 21 mil anos era de 4,46 milhões km², e hoje é de 3,28 milhões km². Já a Mata Atlântica cobria 3,85 milhões km², área reduzida hoje em 80%, para menos de 770 mil km².
Para calcular as áreas climaticamente estáveis dos biomas analisados, os dois paleomapas – com as distribuições dos biomas há 21 mil e há 6 mil anos – foram sobrepostos ao mapa com a distribuição atual dos biomas. Desse modo, foram selecionadas nos mapas as áreas previstas como adequadas para a ocorrência do bioma em todos os cenários climático-temporais estudados.
“Uma vez identificados os pontos sobrepostos que são climaticamente estáveis nos três cenários, foi a vez de analisar a eficiência das áreas atualmente protegidas”, disse Ribeiro.
Um novo mapa com as unidades de proteção da América do Sul foi sobreposto aos mapas anteriores, de modo a visualizar quais áreas protegidas se encontram dentro ou fora das áreas climaticamente estáveis.
Para propor áreas de conservação prioritárias foram mapeadas as áreas climaticamente estáveis desprotegidas. Foi então usada a base de dados Intact Forest Landscapes, de modo a inferir quais áreas climaticamente estáveis e desprotegidas têm remanescentes intactos de floresta primária livre de modificações antropogênicas. Foram considerados apenas trechos grandes e conectados, excluindo-se os remanescentes pequenos ou desconectados.
Estabilidade climática
A seguir, os pesquisadores classificaram cada um desses trechos de floresta em uma de três categorias prioritárias de conservação. As áreas com a prioridade muito alta de conservação são as climaticamente estáveis, não protegidas e onde há grandes trechos de floresta intacta.
A segunda categoria é a das áreas com alta prioridade de conservação: climaticamente estáveis, não protegidas e com fragmentos e remanescentes florestais. Já a terceira categoria, de prioridade média de conservação, são as áreas climaticamente estáveis mais recentes, nos últimos 6 mil anos, com remanescentes desprotegidos de floresta intacta.
“Os resultados revelaram três blocos desconexos de áreas climaticamente estáveis na Mata Atlântica, todos próximos ao litoral”, disse Ribeiro. O bloco mais ao norte fica nas Zonas da Mata da Paraíba e de Pernambuco. O segundo coincide com o desenho da Serra do Mar e da Serra da Mantiqueira no oeste de São Paulo e da Serra do Órgãos no Rio de Janeiro e no Espírito Santo, terminando na Zona da Mata do noroeste de Minas Gerais.
“No caso da Amazônia, as áreas climaticamente estáveis são amplas, contínuas, e cobrem a maior parte do bioma atual. A maioria das áreas climaticamente estáveis ocorre na região leste da Amazônia, enquanto que remanescentes menores são encontrados ao longo dos limites ocidental e meridional da floresta”, disse Ribeiro.
Com relação ao índice de eficiência das áreas protegidas existentes, inferiu-se uma eficiência maior das áreas protegidas amazônicas, em comparação com aquelas da Mata Atlântica. A constatação foi que 40,1% das áreas climaticamente estáveis da Amazônia encontram-se protegidas, percentual que cai para somente 7,1% das áreas climaticamente estáveis da Mata Atlântica.
“A Amazônia é mais estável climaticamente do que a Mata Atlântica e as áreas protegidas da Mata Atlântica são menos eficientes do que as que ficam na Amazônia”, disse Ribeiro.
Na Amazônia, o estudo identificou áreas climaticamente estáveis nas três categorias de análise, aquelas com muito alta prioridade de conservação, alta prioridade de conservação e prioridade de conservação média. As áreas amazônicas com prioridade muito alta de conservação são regiões de floresta primária no oeste do estado do Amazonas, na região de fronteira com Peru, Colômbia e Venezuela.
“Sua proximidade geográfica com áreas protegidas sugere que a criação de novas áreas protegidas, ou então o aumento nas áreas existentes que incorpore essas áreas de alta prioridade, pode ser uma estratégia de conservação eficaz”, disse Sobral-Souza.
As áreas amazônicas de alta prioridade de conservação são florestas fragmentadas em áreas climaticamente estáveis que, portanto, necessitam de restauração. As áreas de alta prioridade de conservação na Amazônia Ocidental ficam próximas a áreas protegidas ou a fragmentos intactos existentes. Já no leste da Amazônia, as áreas de alta prioridade de conservação são porções de floresta cercadas pela agricultura e pecuária, distantes das regiões de floresta intacta.
“Nesses casos, ações de reflorestamento são necessárias para aumentar a eficiência das áreas protegidas da região. A Amazônia ainda tem uma grande oportunidade para ampliar as áreas de conservação”, disse Ribeiro.
Sobral-Souza destaca que, quanto à Mata Atlântica, o cenário é catastrófico. “Não foram identificadas áreas com muita alta prioridade de conservação, porque nestas áreas não existe mais floresta. Não tem mata intacta, não tem fragmento florestal, não tem nada. Foi tudo cortado nos últimos 500 anos”, disse.
As principais áreas climaticamente estáveis da Mata Atlântica são pequenas. São fragmentos florestais classificados como áreas de alta prioridade de conservação. Apenas alguns poucos remanescentes têm mais de 10 mil hectares, e muitos ocorrem em áreas com baixa estabilidade climática. As áreas climaticamente estáveis da Mata Atlântica ficam na Zona da Mata de Pernambuco ou no Parque Estadual da Serra do Mar, “o maior remanescente de toda a Mata Atlântica brasileira”, disse Sobral-Souza.
O artigo Efficiency of protected areas in Amazon and Atlantic Forest conservation: A spatio-temporal view (doi: https://doi.org/10.1016/j.actao.2018.01.001), de Thadeu Sobral-Souza, Maurício HumbertoVancine, Milton Cezar Ribeiro e Matheus S.Lima-Ribeiro, está publicado em www.sciencedirect.com/science/article/pii/S1146609X17302758?via%3Dihub.

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 17/04/2018


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