quarta-feira, 20 de abril de 2016

"ÓPERA CIRCENSE" - James Pizarro (jornal A RAZÃO, 20/4/2016)

COLUNISTAS

Ópera circense

James Pizarro
por James Pizarro em 20/04/2016
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Não sou daqueles que sentem muita surpresa diante do comportamento pessoal, do conteúdo dos discursos, do vocabulário usado pelos parlamentares federais durante a longa e cansativa sessão que votava a admissibilidade do impeachment. Não esperava outra coisa porque a Câmara dos Deputados retrata fielmente a composição do conjunto da população brasileira. Ela é a “caixa de ressonância” da realidade da sociedade brasileira. Um povo carente de educação, de escolaridade, de formação ética, de formação patriótica. Queriam que a sessão fosse um exemplo de fidalguia e exemplo para o Primeiro Mundo?
A Câmara dos Deputados reflete (infelizmente) a realidade do país: uma fauna bizarra que abriga todo e qualquer tipo de pessoa. Desde médicos até palhaços profissionais. De bancada evangélica à bancada ruralista. De representantes das minorias sexuais a simpatizantes da volta dos militares. De pessoas de ideologia comunista (que defendem a democracia...) a pessoas de direita. De pessoas centradas, equilibradas a pessoas histéricas e confusas.
Por incrível que possa parecer, o mais educado ao votar foi o controvertido Paulo Maluf, que se aproximou do microfone e apenas disse: “Voto SIM”. Porque os outros 500 e poucos deputados patrocinaram - salvo minguadas exceções - um festival de asneiras ao anunciarem seu voto, quase sempre longo (alguns com mais de 5 minutos),quando haviam acordado com a presidência da Casa que cada pronunciamento duraria 10 segundos. Eles mesmos jamais cumprem com o combinado.
Quase todos dedicaram seus votos a Deus (até os ateus). Dedicaram votos às esposas, filhos, netos, sobrinhos, pais, avós. Dedicaram seus votos aos seus estados, cidades, vilas, professoras. Não vi ninguém dedicar votos às sogras e às amantes...
Teve deputado que soltou rojão de estrelinhas prateadas por mais de uma vez. Grande número deles enrolados em bandeiras de seus estados ou bandeiras do Brasil. Além do grande número de cartazes que lembravam clima de uma assembleia de grêmio estudantil da década de 60.
Mas quando um deputado chamou o outro de “viado queima-rosca” e este respondeu com uma cusparada, eu fui acometido de um pensamento melancólico e sombrio. Os próximos anos serão infernais. Pesados. Tristes. O Brasil não merece este tipo de cena nem este tipo de representantes. Estamos literalmente perdidos. Condenados. Fritos.

James Pizarro

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