sexta-feira, 2 de agosto de 2019

PRÁ CONHECER UM ÍNDIO

por Ulisses Capozzoli – 
Quem quiser conhecer um índio deve visitá-lo em sua casa, na floresta. O que nem sempre é possível e isso os separa de nós. O índio que aparece, quase sempre, na TV e no jornal, pintado e repleto de adornos, é um índio em dia de festa. No cotidiano, são despojados. Devem cultivar as roças: milho, batata, abacaxi, banana e, claro, a mandioca, base da comida e bebida. Além disso, há a pesca, feita de muitas maneiras: solitária ou coletiva. Com anzol, rede ou flecha, quando a abundância permite. Tambaquis amazônicos, com seus corpos prateados, podem ser abatidos com flecha, no caso de uma pontaria refinada, o que todo índio tem, de uma ou outra maneira. Por um longo aprendizado e tradição. Índios adoram armas leves, calibre 22, para a caça de macacos, veados, paca e animais menores. Onça não é motivo de caça. É vingança, contra as mais atrevidas que podem invadir uma aldeia e levar um cachorro, o que deixa um índio indignado. Pela perda de um amigo próximo e fiel.
Na pesca coletiva, cada um pega, dos que estão pescando, com timbó, em lagos à margem de rios, quanto peixe precisar. Dependendo do tamanho da família. Nem mais, nem menos. As índias, que recolhem os peixes, retiram suas escamas com um movimento hábil de unhas, deslocando-as como uma cunha, no sentido cauda-cabeça. E num fogo pequeno, de madeira resinosa e perfumada, em poucos minutos ele pode ser comido, com um acentuado toque de pimenta.
Um índio é uma multiplicidade fascinante de índios: corpos, costumes, língua, maneiras, tradições e artes. Alguns cultivam cerâmica, outros preferem enfeites. Há quem tenha apreço particular pela palavra, caso dos Caiabi, de quem conheci um dos líderes: o mítico Prepori, que já não vive mais na Terra. Índios barganham suas produções em encontros com “parentes”, como eles se referem a outras etnias. Ou em festas. Índios adoram festas, o que ficou gravado entre nós, brasileiros, festeiros. Todo índio é um refinado observador.
Orlando Villas-Boas, com quem tive o privilégio de conviver, amava particularmente os Juruna, a quem atribuiu sempre a nobreza da coragem e confiança. Você pode, a propósito da palavra “Juruna”, lembrar-se de Mário Juruna que foi deputado, com seu gravador sob os braços para gravar palavras de “branco”, criatura esquiva e que se caracteriza por não sustentar o que diz. Mas Mário Juruna era Xavante, um dos bravos Xavante, e seu nome uma homenagem de seus pais aos parentes dessa etnia. Muitos “brancos” (café-com-leite que somos a maioria de nós que se enxergam como “brancos) não conhecem nada de um índio.
O presidente da República, literalmente um paraquedista, expulso do exército por insubordinação e mal comportamento, é um deles. Por isso fala tanta tolice sobre índios, entre outras sandices, e está, de muitas maneiras, determinado a encerrar a história deles sobre a Terra, se pudesse fazer isso. No Brasil, está tentando eliminar os índios com toda a determinação e tem a companhia de seus ministros, gente rude, de pouca ou quase nenhuma cultura. Preconceituosos, no sentido de não entender a pluralidade da vida. Ressentidos e amargos, que se se relacionam de forma agressiva com as pessoas.
Índios são humanos, teve de reforçar um papa no século 16, e chegaram à América por caminhos ainda não inteiramente decifrados a um tempo que pode chegar a 50 mil anos, segundo suspeita a arqueóloga, e também antropóloga por força das circunstâncias, Niéde Guidon, que faz pesquisas nessa área na Serra da Capivara, Sul do Piauí.
A história dos índios na América é permeada de tragédia e parte dela está registrada num belíssimo livro, do jornalista e editor Dorris Alexander (Dee) Brown: “Enterrem meu coração na curva do rio”. Lá estão as lutas e os lamentos de chefes como Nuvem Vermelha (1822-1909), dos Sioux que incluíram ainda, Cavalo Americano (1840-1908), filho adotivo de Nuvem Vermelha, Touro Sentado (1831-1890) e Cavalo Louco (1840-1877), além de Gerônimo (1929-1909), dos Apaches. O executor de parte das matanças nos Estados Unidos também foi um militar, patife e doentio, o tenente-coronel George Armstrong Custer (1839-1876). Há ainda, como fonte de resistência, o vigoroso e poético discurso atribuído ao Chefe Seattle (1786-1866), líder dos Duwamish, da costa oeste americana. Uma fala de fazer inveja ao mesmo sensível dos conservacionistas. No Brasil, entre os muitos resistentes indígenas está Prepori, dos Caiabi, que conheci de surpresa numa manhã, quando acordei com ele, pintado de preto, a cor da guerra, numa rede em que dormia entre duas árvores no Médio Xingu.
Índios não são fazendeiros, não perseguem o lucro e dão respostas longas a uma pergunta simples. Contam a história de seus pais, avós, dos pais de seus avós e outros ancestrais para dar sentido a um relato.
Interpretações sumárias dizem que índios querem dinheiro e boa vida. Mas, neste caso, são povos inteiros seduzidos e viciados pelo comportamento dos brancos e quando agem assim ou se embebedam, são censurados. Como se fossem malfeitores.
FotoOrlando Villas-Boas entrega roupas a índios Kuikuro à época da criação do Parque Indígena do Xingu, em 1961.
*Ulisses Capozzoli, entre outras atividades interessantes, foi editor da revista Scientific American Brasil.

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