terça-feira, 25 de outubro de 2011

No próximo 31/10, a população mundial deverá alcançar oficialmente a marca de sete bilhões de habitantes

Quantos seriam demais em um mundo superpopuloso? Já a caminho dos sete bilhões de habitantes, o planeta deve abrigar muitos outros bilhões de pessoas, e segundo especialistas, apenas uma revolução no uso dos recursos naturais pode evitar um cataclisma ambiental.

Nos idos de 1798, Thomas Malthus já tinha feito a previsão sombria de que nossa capacidade reprodutiva rapidamente superaria nossa habilidade de produzir comida, provocando fome em massa e o extermínio de espécies. Mas a revolução industrial e seu impacto na agricultura provaram que Malthus e seus seguidores estavam errados, mesmo que os números tenham superado suas expectativas. Reportagem da France Presse.

“Apesar das previsões alarmistas, os aumentos históricos da população não foram economicamente catastróficos”, observou David Bloom, professor do Departamento de Saúde Global e População da Universidade de Harvard. No entanto, hoje parece razoável perguntar se Malthus não estaria simplesmente alguns séculos à frente.

No próximo 31 de outubro, a população mundial deverá alcançar oficialmente a marca de sete bilhões de habitantes, o que representará um crescimento de dois bilhões em menos de um quarto de século. Em seis décadas, a taxa global de fertilidade caiu apenas à metade e responde por uma proporção estatística de 2,5 filhos por mulher.

No entanto, esta taxa varia enormemente de país para país. E a estabilização da população do planeta em 9, 10 ou 15 bilhões depende do que acontece nos países em desenvolvimento, sobretudo na África, onde ocorre o maior crescimento.

Recursos em declínio
À medida que nossa espécie se expandiu, foi consumindo as riquezas do planeta, da água doce aos recursos minerais, das florestas ao pescado.

No ritmo atual, a humanidade precisará em 2030 de uma segunda Terra para atender seu apetite e absorver seus rejeitos, informou no mês passado a Global Footprint Network (GFN), organização que calcula a chamada “pegada ecológica”, ou seja, a quantidade de recursos usados por pessoas ou organizações para atender às suas necessidades, segundo padrões de consumo e descarte.

Além disso, a prosperidade da nossa civilização, movida a carvão, petróleo e gás emite gases de efeito estufa que alteram o clima e tem o potencial de destruir os ecossistemas que nos alimentam. “Da carestia dos alimentos aos efeitos perversos das mudanças climáticas, nossas economias enfrentam hoje a realidade de anos de gastos além das nossas possibilidades”, afirmou o presidente da GFN, Mathis Wackernagel.

Para o diplomata francês Brice Lalonde, um dos dois coordenadores da Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, a “Rio+20″, que será celebrada em junho de 2012, no Rio de Janeiro, o crescimento populacional representa um desafio fundamental para a forma como nós usamos os recursos naturais. “Em 2030 haverá pelo menos outro bilhão de pessoas no planeta”, afirmou Lalonde. “A questão é como implementar segurança alimentar e fornecer os serviços essenciais para o bilhão mais pobre, sem usar mais água, terra e energia?”, questionou.

É por isto, afirmou, que a “Rio+20″ porá foco em coisas práticas, como o aumento de fontes limpas no mix energético mundial, o uso inteligente de água doce, a construção de cidades ambientalmente amigáveis e a gestão do agronegócio sem encharcar o solo de produtos químicos.

Mas estas alternativas dizem muito mais respeito ao impacto do crescimento populacional do que ao problema em si.

A contenção das taxas de fertilidade ajudaria o contador populacional a se estabilizar em oito bilhões e os países pobres a sair da pobreza, reduzindo a pressão sobre recursos naturais e a vulnerabilidade climática, afirmam seus defensores.

Para alguns especialistas, o controle voluntário da natalidade é a chave.

Geoff Dabelko, diretor do Programa de Mudanças e Segurança Ambiental do Centro Woodrow Wilson, em Washington, citou a Somália como um estudo de caso do que acontece quando as mulheres não têm acesso a métodos anticoncepcionais.

Castigado por uma guerra civil e pela pobreza, a população do país está projetada para crescer dos atuais 10 milhões para 22,6 milhões em 2050. Com uma média de sete filhos por família, a Somália tem a oitava maior taxa de natalidade do mundo. Mesmo antes de o país mergulhar em uma crise generalizada, um terço de suas crianças estava severamente abaixo do peso, segundo o Unicef. Noventa e nove por cento das mulheres somalis casadas não têm acesso a planejamento familiar.

Muitos economistas, no entanto, argumentam que a resposta está em reduzir a pobreza e implementar a educação, especialmente ente as mulheres.

Um estudo feito em 2010 na Colômbia mostrou que o planejamento familiar respondeu por menos de 10% da queda da taxa de fertilidade do país. A mudança real ocorreu devido à melhoria das condições de vida.

O espinhoso tema do controle populacional
Mesmo assim, durante reuniões de cúpula que visam a discutir o futuro da Terra, enfrentar o desafio do crescimento populacional costuma ser um tabu.

“Quando assisti à conferência ambiental das Nações Unidas em Estocolmo (em 1972), o item número 1 da agenda era o crescimento populacional fora de controle”, lembrou Paul Watson, diretor do Sea Shepherd Conservation Society, um grupo ambientalista radical. “Quando estive na conferência de 1992 (no Rio), (o tema) não estava nem mesmo na agenda. Ninguém mais falava disso”, emendou.

Da mesma forma, a questão demográfica esteve ausente da Conferência de Johanesburgo, em 2002, quando a população do planeta atingiu os 6 bilhões. Por que a questão do enfrentamento da superpopulação permanece ausente das mesas de negociações?

Uma das razões seria a oposição de conservadores religiosos à contracepção e ao aborto. Os políticos também poderiam ver desvantagens em abordar um tema que só irá lhes causar dores de cabeça e eventualmente trazer benefícios dentro de algumas décadas, quando não estarão mais nos cargos.

Mas para alguns críticos, medidas populacionais são análogas a equívocos como a esterilização coercitiva, adotada na Índia nos anos 1970, e a política do filho único na China, que provocou um desequilíbrio de gênero que faz com que haja mais meninos do que meninas no gigante asiático.

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FONTE : reportagem da France Presse, no Correio Braziliense.
EcoDebate, 25/10/2011.

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