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quarta-feira, 28 de setembro de 2022

Diversidade de espécies de árvores aumenta a resistência da floresta às secas

As florestas ricas em espécies, como as florestas tropicais úmidas de folhas largas, que têm uma média de 65 espécies de árvores, mostraram a maior resistência à seca Chinese Academy of Sciences* Uma equipe de pesquisa liderada pelo Prof. WANG Tao e pelo Dr. LIU Dan, do Instituto de Pesquisa do Planalto Tibetano da Academia Chinesa de Ciências, revelou que a diversidade de espécies de árvores pode aumentar a resistência à seca em quase metade das florestas do mundo. Suas descobertas foram publicadas na Nature Geoscience em 19 de setembro. A seca extrema pode reduzir fortemente o crescimento das florestas e até mesmo levar à sua morte. A diversidade de espécies de árvores pode aumentar a resistência à seca da floresta. No entanto, este efeito só foi demonstrado para um pequeno número de tipos de floresta; se é aplicável a diferentes tipos de florestas ao redor do mundo que sofrem secas extremas não foi bem compreendido. Neste estudo, usando observações de satélite globais e dados de riqueza de espécies de mais de 700.000 parcelas florestais, os pesquisadores estimaram o efeito da diversidade de espécies de árvores na resposta à seca das florestas em escala global. Eles descobriram que as florestas ricas em espécies, como as florestas tropicais, que têm uma média de 65 espécies de árvores, mostraram a maior resistência à seca. Em contraste, florestas pobres em espécies, como florestas xéricas, que possuem apenas duas ou três espécies de árvores, apresentaram a menor resistência à seca. Além disso, os pesquisadores mapearam o efeito global da diversidade de espécies na resistência à seca na floresta. Com base em seus resultados, eles previram que a maior riqueza de espécies teve um efeito positivo na resistência à seca em quase metade de todas as florestas globais, com o maior efeito em florestas secas e propensas à seca, como florestas xéricas ou florestas secas subtropicais. “Estimamos que a conversão das plantações florestais atuais de monoculturas para uma mistura de quatro espécies poderia aumentar a resistência à seca das florestas plantadas globais em 3,2%, com o maior incremento encontrado nas florestas secas”, disse o Prof. WANG, autor correspondente do estudo. Essas descobertas enfatizam a importância de restaurar a diversidade de espécies de árvores para ajudar as florestas a resistir a secas frequentes e intensas que podem ocorrer como resultado do aquecimento global. “A restauração da diversidade de espécies e o plantio multiespécies devem ser incluídos na política florestal, especialmente para florestas secas”, disse o Dr. LIU Dan, primeiro autor do estudo. Dan Liu et al, Drought resistance enhanced by tree species diversity in global forests, Nature Geoscience (2022). DOI: 10.1038/s41561-022-01026-w Henrique Cortez *, tradução e edição. in EcoDebate, ISSN 2446-9394

Apenas um terço das crianças de 10 anos consegue ler e compreender

O Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) alerta para níveis de aprendizagem alarmantemente baixos: estima-se que apenas um terço das crianças de 10 anos em todo o mundo seja capaz de ler e entender uma história simples. Durante a Cúpula da Educação Transformadora, evento paralelo aos debates de alto nível da Assembleia Geral, o UNICEF apresenta a Learning Crisis Classroom na sede das Nações Unidas em Nova Iorque, para chamar a atenção para a necessidade urgente de transformar os sistemas educacionais em todo o mundo. O Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) fez um alerta para os alarmantes níveis de aprendizagem globais. Estima-se que apenas um terço dos meninos e meninas de 10 anos de idade em todo o mundo consegue ler e entender uma história simples. Antes da pandemia de COVID-19, metade dos meninos e meninas de 10 anos podiam ler e entender. “Escolas com poucos recursos, professores mal pagos e mal qualificados, salas de aula superlotadas e currículos arcaicos estão minando a capacidade de nossas crianças de atingir todo o seu potencial”, disse a diretora executiva do UNICEF, Catherine Russell. “A trajetória de nossos sistemas educacionais é, por definição, a trajetória de nosso futuro. Precisamos reverter as tendências atuais ou enfrentar as consequências de não educar uma geração inteira. Baixos níveis de aprendizado hoje significam menos oportunidades amanhã”. O fechamento prolongado de escolas e a falta de acesso ao aprendizado de qualidade durante a pandemia da COVID-19 expuseram e exacerbaram uma crise de aprendizagem pré-existente que deixou milhões de crianças em idade escolar em todo o mundo sem habilidades básicas de matemática e alfabetização, alerta o UNICEF. Sala modelo Para chamar a atenção para a crise da educação e a necessidade de transformar o aprendizado em todo o mundo, o UNICEF divulgou publicamente a Learning Crisis Classroom, uma sala de aula modelo que representa a escala de crianças que não conseguem aprender habilidades fundamentais essenciais. A instalação estará em exibição na entrada de visitantes da sede das Nações Unidas em Nova Iorque entre 16 e 26 de setembro. Um terço das carteiras escolares da sala de aula modelo é feita de madeira e está em pleno funcionamento com uma mochila icônica do UNICEF colocada atrás de cada cadeira, representando o um terço das crianças de 10 anos globalmente estimadas como capazes de ler e entender uma história escrita simples – o marcador de proficiência mínima em compreensão de leitura. Os dois terços restantes das carteiras são quase invisíveis e feitos de material transparente para significar que 64% das crianças são incapazes de ler e entender uma história escrita simples aos 10 anos. À medida que os líderes se reúnem na Cúpula da Educação Transformadora, cujo encerramento acontece nesta segunda-feira (19), o UNICEF está pedindo aos governos que se comprometam a alcançar todas as crianças com educação de qualidade. Está pedindo novos esforços e investimentos para rematricular e manter todas as crianças na escola, aumentar o acesso à aprendizagem corretiva e de recuperação, apoiar os professores e fornecer-lhes as ferramentas de que precisam e garantir que as escolas ofereçam um ambiente seguro e de apoio para que todas as crianças estejam prontas para aprender. #Envolverde

Parques naturalizados: um novo conceito para aumentar a rede de áreas verdes urbanas

Programa Criança e Natureza, do Instituto Alana, disponibiliza informativo sobre esses espaços e sua importância para a saúde das crianças e jovens São muitos os benefícios que as brincadeiras ao ar livre, na natureza, trazem para a saúde, o bem-estar e o desenvolvimento integral de crianças e jovens. Para incentivar o brincar livre com elementos naturais, mesmo nas grandes cidades, promovendo o convívio e o lazer, o programa Criança e Natureza, do Instituto Alana, elaborou o informativo “Parques Naturalizados: paisagens para o brincar natural”. Parque naturalizado é um conceito que propõe a utilização de elementos como troncos, galhos e a própria topografia e vegetação dos terrenos para criar lugares mais atraentes e desafiantes para as crianças, e ampliar a rede de áreas verdes urbanas. Eles podem ser criados tanto em espaços públicos, aproveitando áreas abandonadas, como em terrenos privados, de escolas, clubes ou condomínios. São áreas multifuncionais e com menor custo de instalação, já que reaproveitam materiais existentes do próprio território, como podas de árvores. Os brinquedos e mobiliários encorajam experiências sensoriais e motoras que estimulam a criatividade, tanto para bebês quanto para crianças com e sem deficiência, de todas as idades. Esses espaços, quando montados em terrenos antes abandonados, trazem mais verde e lugares de convívio para as cidades. O microparque naturalizado Seu Zequinha, implementado em Fortaleza (CE), por exemplo, recuperou uma grande área antes degradada. A estratégia foi elaborada dentro da rede Urban 95, da Fundação Bernard Van Leer no Brasil, em parceria com o Instituto Cidades Sustentáveis, e teve o apoio técnico do Jardins das Brincadeiras e do programa Criança e Natureza, do Instituto Alana. Os parques naturalizados podem ser realizados em um sistema híbrido de compromisso entre a comunidade e a gestão pública, com o apoio das secretarias de urbanismo e meio ambiente dos municípios. “Os parques naturalizados são sistemas vivos e em transformação, que podem e devem conter as marcas e vestígios das atividades e desejos das crianças, ao mesmo tempo em que têm seus equipamentos e paisagens cuidados e mantidos. São espaços repletos de possibilidades de interação, exploração e criação, que incentivam o brincar livre, a convivência, o vínculo entre as famílias, a cidade e seus espaços públicos, com a natureza e o prazer de estar a céu aberto, incentivando a valorização das áreas verdes, a saúde e o bem-estar da comunidade”, avalia JP Amaral, coordenador do programa Criança e Natureza, do Instituto Alana. Sobre o Instituto Alana O Instituto Alana é uma organização da sociedade civil, sem fins lucrativos, que aposta em programas que buscam a garantia de condições para a vivência plena da infância. Criado em 1994, é mantido pelos rendimentos de um fundo patrimonial desde 2013. Tem como missão “honrar a criança #Envolverde

terça-feira, 27 de setembro de 2022

9 em cada 10 brasileiros são contra liberar a caça no Brasil, aponta pesquisa

Levantamento feito pelo Instituto Datafolha a pedido do WWF-Brasil mostra ainda que eleitores reprovam candidatos que apoiam a caça A cada dez brasileiros, nove não aprovam a ideia de autorizar a caça no país. A informação faz parte de um levantamento do Instituto Datafolha feito a pedido do WWF-Brasil. Para a pesquisa, foram entrevistadas em todas as cinco regiões do país 2.088 pessoas, a partir dos 16 anos, que responderam duas perguntas: “Você concorda com a ideia de autorizar a caça de animais no Brasil?” e “Votaria em quem apoia a caça no Brasil?”. Do total de pessoas pesquisadas, 90% discordam da ideia de autorizar a caça, 9% concordaram e 1% não soube responder. A rejeição é maior entre as mulheres (92%) e residentes nas regiões metropolitanas, com 93%. A opinião feminina é também majoritária quando o tema é a possibilidade de votar em candidatos que apoiam a caça, com 91% afirmando que não votariam em quem defende essa pauta, frente a 88% da população geral. A rejeição é mais forte entre as mulheres e moradores das regiões metropolitanas, ambos com 91%. Apenas 10% dos entrevistados votariam em candidatos que apoiam a autorização da caça no país e 3% não soube responder. Os dados demonstram uma sensibilização forte, contrária à autorização da caça em dois grupos específicos: mulheres e residentes nas regiões metropolitanas. Uma possível razão para isso é o aumento da violência em decorrência de mais armas em circulação nesses centros. “Todos sofremos com a grande circulação de armas. Mães perdem seus filhos em brigas de trânsito, vizinhos se matam entre si por bobagens, apenas porque um teve acesso facilitado a uma arma de fogo”, afirma Raul do Valle, coordenador de Incidência política do WWF-Brasil. “Estamos vendo, chocados, um aumento nos casos em que pais de família matam esposa, filhos, parentes e depois se matam. O aumento na circulação de armas em nossa sociedade é uma tragédia e só tende a piorar se as coisas não mudarem”. Apesar de a caça ser liberada apenas para espécies como o javali, que é considerado um invasor, a quantidade de CACs (colecionadores, atiradores e caçadores) aumentou exponencialmente no Brasil nos últimos anos. Desde 2018, o número de armas para essa categoria pulou de 350,6 mil para 1.006.725 neste ano. Os dados são do Exército e foram obtidos pela Lei de Acesso à Informação, por meio dos Institutos Igarapé e Sou da Paz. A região amazônica, notadamente conhecida pelos conflitos fundiários, foi uma das que registrou maior aumento na quantidade de armas em circulação, com 700% desde 2018. A liberação da caça esportiva no país faria aumentar ainda mais as hipóteses para aquisição de armas com amparo legal, dado que atualmente são poucas as hipóteses de caça legal (subsistência e controle de pragas). Isso aumentará também as chances de que armas compradas legalmente venham a cair nas mãos do crime organizado, aumentando a periculosidade desses grupos, algo que já vem sendo noticiado. “Recentemente, apreenderam armas compradas por um CAC nas mãos de uma quadrilha de roubo a carros fortes. Estamos falando de um problema grave de segurança, não apenas ambiental: mais armas em circulação significa mais violência comum e do próprio crime organizado, que já é imensa” avalia Raul do Valle. Impacto para os animais Outro aspecto sério envolve crueldade com animais em extinção e o uso de cães para a caça. “Muitos caçadores deixam os cães vários dias sem alimentação suficiente e os estimulam a ser mais agressivos. Por isso, caçam a presa impiedosamente”, explica Gabriela Moreira, coordenadora do Projeto Pró-Espécies no WWF-Brasil. “Sem falar que caçadores inexperientes podem colocar em risco nossa fauna, atingindo animais que estão sob o risco de extinção ou fêmeas com seus filhotes. Quem vai se responsabilizar por esse risco”, pergunta. A opinião dos brasileiros vai contra a atuação do Congresso, onde existem projetos de lei como o PL 5544/2020, que dispõe sobre a autorização para a caça esportiva de animais no território nacional. O projeto aguarda a criação de uma comissão especial designada pela Mesa Diretora do Congresso Nacional. A pressão da sociedade segue intensa para coibir sua aprovação. Entre as espécies ameaçadas que costumam ser alvo de caçadores estão a arara-azul, o tatu-bola, o mico-leão-dourado e o boto-cor-de-rosa. Sobre a pesquisa A pesquisa ouviu 2088 brasileiros com 16 anos ou mais de todos os estratos socioeconômicos de 5 a 8 de julho de 2022, margem de erro máxima de 2 pontos percentuais, uma amostragem que espelha a demografia do país segundo os mais recentes dados disponíveis do IBGE. Sobre o WWF-Brasil O WWF-Brasil é uma ONG brasileira que há 26 anos atua coletivamente com parceiros da sociedade civil, academia, governos e empresas em todo país para combater a degradação socioambiental e defender a vida das pessoas e da natureza. Estamos conectados numa rede interdependente que busca soluções urgentes para a emergência climática. Conheça a ONG. #Envolverde

Cupins e o aumento das temperaturas globais

Por Jornal da Unicamp – Estudo publicado na Science e que contou com a participação de pesquisadores da Unicamp relaciona ação de insetos com mudanças climáticas Um estudo internacional que acaba de ser publicado na capa da revista Science revelou que cupins desempenham um papel essencial na reciclagem da madeira em ecossistemas naturais. Sem a sua existência, vários biomas no mundo teriam acumulado uma grande pilha de matéria orgânica morta. Esses insetos são os responsáveis pela decomposição da madeira, especialmente em locais quentes e com pouca umidade, em que microrganismos, principais decompositores, são pouco abundantes em épocas da seca. A pesquisa, liderada pela bióloga Amy Zanne, da Universidade de Miami, é resultado de uma colaboração entre cem pesquisadores de diversas instituições ao redor do mundo. Durante a investigação, os participantes aplicaram o mesmo método experimental em 130 locais distribuídos nos seis continentes, buscando estudar o comportamento de cupins em variadas condições de temperatura e umidade. Na Unicamp, ela contou com a participação do ex-aluno André Mouro D’Angioli, que contribuiu com o artigo como parte de seu doutorado em Ecologia, defendido no Instituto de Biologia (IB) sob a orientação do docente Rafael Oliveira. Foto de uma mulher que aparece da cintura para cima. Ela é branca, tem o cabelo branco e curto e está usando uma blusa vermelha. Ela está sorrindo.A bióloga Amy Zanne, pesquisadora da Universidade de Miami e professora-visitante no Instituto de Biologia (Foto: Evan Garcia, Universidade de Miami) De acordo com D’Angioli, a intenção dessa parceria internacional foi verificar em quais regiões do planeta e em que condições climáticas havia uma maior influência de cupins – em comparação com bactérias e fungos – na decomposição da madeira morta, e como esses bichos são afetados por alterações na temperatura e precipitação. “Esse é um dado relevante, porque a madeira é um importante componente de estocagem de carbono. Então, quanto mais rápido ela decompõe, mais rápido perdemos o carbono que está armazenado na matéria orgânica e mais rápido ele é enviado como gás carbônico para a atmosfera”, esclarece. Os resultados apontam que, caso as previsões sobre mudanças climáticas se confirmem, as áreas onde o clima é mais quente e seco – como as formações campestres e savânicas do Cerrado – irão se expandir. Como consequência, os ambientes em que cupins são importantes decompositores se ampliarão, gerando um cenário de retroalimentação em que o aumento da emissão de gás carbônico causará a elevação das temperaturas globais. Estas, por sua vez, ampliarão o espaço de atuação dos cupins, que liberarão mais gás carbônico conforme decompõem o material orgânico morto. “Em termos práticos, estamos entendendo como funciona o sistema terrestre e a interface entre um componente biótico, que são os cupins, a vegetação e um componente abiótico, que é o clima”, explica Oliveira. “A gente precisa entender como esses elementos ciclam na Terra, especialmente o carbono, porque assim poderemos predizer o que acontecerá com diferentes ecossistemas, caso o clima se torne mais quente e mais seco”, complementa. Composição com duas fotos. Na imagem à esquerda há um homem de pé em um campo aberto. Ele é branco, usa chapéu, camisa xadrez, mochila e está sorrindo. Na imagem à direita há um homem abaixado em uma área de floresta. Ele é branco, tem o cabelo curto, barba rala, está usando calça escura e camiseta branca e está sorrindo. André Mouro D’Angioli (à direita) que contribuiu com a pesquisa sobre os cupins como parte de seu doutorado em Ecologia, defendido no IB sob a orientação do docente Rafael Oliveira (à esquerda) (Fotos: acervo pessoal dos pesquisadores) Diferencial O grande diferencial da pesquisa foi a possibilidade de investigar a atuação dos cupins em uma ampla variedade de regiões, com diferentes níveis de temperatura e umidade, garantindo, assim, resultados mais robustos. Como existe uma extensa distribuição biogeográfica de espécies de cupim em todo o mundo, focar o estudo em apenas um ambiente traria resultados bem menos eficientes sobre a atuação deles na decomposição de materiais orgânicos como a madeira. Essa cooperação em larga escala, revela a bióloga Amy Zanne, permitiu obter mais evidências sobre como o carbono circula através do planeta. “Além disso, como nosso protocolo era simples e de fácil aplicação, puderam se juntar ao projeto desde alunos de pós-graduação até professores seniores. Isso nos permitiu ter uma rede de pessoas e aprender muito uns com os outros”. O modelo de experimento conduzido pelos cem colaboradores consistiu em inserir blocos de madeira de um tipo de pinus nos seus respectivos ecossistemas. Uma parcela dos blocos foi envolvida com uma rede de proteção para evitar que os cupins os comessem, enquanto outra parte ficou livre para a atuação desses insetos (as malhas foram perfuradas na área que ficou em contato com o solo, permitindo a entrada de cupins por tuneis subterrâneos, mas evitando a entrada de outros insetos). Dessa forma, foi possível comparar a a decomposição realizada pelos cupins daquela feita por microrganismos como bactérias e fungos, verificando quem possuía uma atuação mais relevante. Composição com duas fotos. Na imagem à esquerda aparecem redes em formato retangular distribuídas em um campo aberto. Na imagem à direita há uma jovem abaixada atrás de um cupinzeiro.Método simples e barato para coletar dados permitiu realizar experimentos em ecossistemas de vários países (Fotos: Jamie Cleverly e Rebecca Clemen) “Eu considero este trabalho um modelo de planejamento, porque é muito simples, não envolve tecnologia, somente uma boa ideia e um desenho experimental padronizado e elaborado”, argumenta Oliveira. Para ele, este é um exemplo do caráter plural que a ciência deve ter, especialmente na ecologia. “Boa parte dos estudos ditos globais têm uma super-representação do hemisfério norte – Estados Unidos e Europa. Com este artigo, pudemos ter uma amostragem de diferentes biomas no mundo, de forma mais equitativa”, explica. Nos experimentos conduzidos por D’Angioli, por exemplo, os blocos de madeira foram inseridos em oito áreas formadas por campo, savana e floresta, localizados em três regiões específicas do Brasil: a Serra da Canastra, em Minas Gerais, uma estação ecológica em Brasília e no município de Itirapina, no Estado de São Paulo. Após os preparativos e a instalação das armadilhas, em 2016, houve dois anos de trabalho de campo e mais um ano para processar as amostras e obter os dados para escrever a tese, que focava na análise dos ciclos biogeoquímicos de elementos do cerrado. Atualmente, Zanne e Oliveira estão dando sequência ao estudo sobre cupins com novas investigações sobre a sua importância para ecossistemas brasileiros. Por esse motivo, a pesquisadora veio à Unicamp como professora-visitante para desenvolver pesquisas na Chapada dos Veadeiros. “O papel de regiões tropicais e savanas na estocagem e liberação de carbono ainda é muito pouco estudado. Como a Chapada possui esses ecossistemas, além de uma diversidade de cupins que determina a ciclagem de carbono a partir de diversos materiais, fez sentido para mim que essa nova etapa da pesquisa fosse realizada aqui”, finaliza a pesquisadora. #Envolverde

Enfrentando invasões e omissão do governo, povo Karipuna leva “pedido de socorro” a países e órgãos internacionais

Por Cimi – Durante esta semana, uma delegação de 13 indígenas da Terra Indígena Karipuna participou de audiências e reuniões com diversas embaixadas denunciando o aumento das invasões à sua terra “Viemos aqui pedir ajuda, socorro. Pedimos que vocês nos ajudem a cobrar o Estado brasileiro para que ele faça valer a Lei maior do país e proteja nosso território”. Este foi o apelo que o cacique André Karipuna e outras lideranças da Terra Indígena (TI) Karipuna, em Rondônia, levaram a embaixadas e representantes de 21 países entre os dias 19 e 23 de setembro. Durante esta semana, uma delegação de 13 indígenas da TI Karipuna presente em Brasília (DF) participou de audiências e reuniões com diversas embaixadas e com a Delegação da União Europeia no Brasil, levando seu relato sobre a situação no território Karipuna e seu pedido de apoio. Os indígenas também se reuniram com a Sexta Câmara de Coordenação e Revisão do Ministério Público Federal (MPF), com parlamentares das Comissões de Integração Nacional, Desenvolvimento Regional e Amazônia (Cindra) e de Direitos Humanos e Minorias (CDHM) da Câmara dos Deputados e com representantes da Organização das Nações Unidas (ONU) no Brasil. Mais uma vez, o povo Karipuna também levou suas reivindicações à Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) e à Fundação Nacional do Índio (Funai), onde as lideranças foram recebidas. A desesperança com a atuação dos órgãos públicos ligados ao poder Executivo, entretanto, motivou também os pedidos de apoio internacional. “Pedimos apoio para cobrar que o Estado brasileiro cumpra sua função de proteger e fiscalizar nosso território. Já percorremos o Executivo, o Legislativo e o Judiciário, e nada é feito. Faz sete anos que estamos lutando contra as invasões em nossa terra e elas só aumentam. Estamos sendo ameaçados, pressionados por grileiros e fazendeiros”, denunciou o cacique André Karipuna. Há pelo menos sete anos o povo Karipuna denuncia a grave situação de seu território. Em 2017, as invasões se intensificaram e os indígenas identificaram a ocorrência de loteamentos ilegais no interior da terra indígena – ou seja, o desmatamento e a divisão de grandes partes de sua terra em “lotes”, vendidos ilegalmente a pretensos proprietários. Naquele ano, a situação dos Karipuna foi classificada pelo MPF como de “iminente genocídio”. Isso porque o povo, quase dizimado após um desastroso contato conduzido pela Funai na década de 1970, chegou a ficar reduzido a apenas oito pessoas. Atualmente, são 61 pessoas – um povo “em fase de crescimento”, como define André Karipuna – o que faz desta uma população especialmente vulnerável. Apesar de terem obtido na Justiça Federal decisões judiciais que determinam a proteção de sua terra, na prática, o Estado tem falhado em proteger de forma sistemática o território. As operações pontuais de fiscalização são insuficientes para garantir a segurança do povo Karipuna. Nesta terra, como tem ocorrido em quase todo o território nacional, a política de desmonte dos mecanismos de proteção e fiscalização ambiental levada a cabo pelo governo Bolsonaro têm resultado no aumento das invasões e no avanço do desmatamento. “Estamos muito preocupados com o que está acontecendo agora no nosso território”, afirmou Katika, anciã Karipuna e uma das oito sobreviventes da experiência traumática de contato que quase exterminou seu povo. “Estamos cercados por madeireiros, fazendeiros, grileiros e pescadores. A Funai, que deveria nos proteger, não protege”. “Me preocupo não apenas com minha vida, mas com todo o meu povo”, explicou a anciã, repetidas vezes, ao longo da semana. Apesar da idade avançada, da dificuldade de locomoção e da barreira da língua, Katika fez questão de explicar, didaticamente, os motivos de sua aflição. Com a ajuda de seus filhos André e Andressa, garantiu que sua mensagem fosse traduzida e repassada a embaixadores, secretários e representantes de países e instituições. “Os invasores não querem só a nossa madeira, eles querem roubar a nossa terra. Enquanto eu estiver aqui, vou lutar, e depois que eu não estiver mais, a luta Karipuna continua”, repetiu, pacientemente, a diferentes interlocutores. Sua mensagem foi reforçada por seu irmão Aripã, também ancião Karipuna e também sobrevivente do contato. “Estamos no meio de muitos invasores. Nos preocupamos também com nossos netos. O que eles vão comer, como vão viver?”, questionou Aripã. “Estão derrubando nossa mata, os peixes estão sumindo, os animais estão morrendo. Pedimos que nos ajudem a cobrar o governo brasileiro a combater as invasões na nossa terra”. A TI Karipuna possui 153 mil hectares demarcados, homologados e registrados como patrimônio da União ainda na década de 1990. A gravidade da situação no território motivou a viagem inédita de uma delegação de 13 pessoas de diferentes gerações Karipuna à capital federal, com crianças, adultos e anciões. Isolados O povo também expressou sua preocupação com a situação dos indígenas em situação de isolamento voluntário que vivem em seu território – e que estão ainda mais vulneráveis à ação de invasores. Há registros de dois grupos de indígenas isolados no interior da TI Karipuna – nenhum deles reconhecido pela Funai. “Estamos sofrendo muito com as invasões de fazendeiros, grileiros, pescadores”, afirma Andressa Karipuna. “Não podemos nem sequer circular e buscar alimentos em nosso território. E se para nós já está assim, imaginamos como estão nossos parentes que vivem em isolamento em nossa terra”. “A Funai não reconhece, mas a gente já viu eles. Já vimos vestígios, como armadilhas para caça e tapiris, e também já vimos eles. Então, é certo que estão lá. Já enviamos vários documentos relatando isso à Funai, mas eles dizem que não têm informação”, relata Andressa. Os dois grupos de indígenas em isolamento voluntário fazem parte dos 117 registros de povos isolados contabilizados pelo Conselho Indigenista Missionário (Cimi) no país, conforme dados do relatório Violência Contra os Povos Indígenas no Brasil de 2021. Semana de lutas Durante a semana, o povo Karipuna realizou encontros individuais com embaixadores e representantes das embaixadas de países como Suíça, Chile, Espanha, Alemanha, Nova Zelândia, Bolívia e Austrália. Além disso, a delegação participou de uma reunião com a Delegação da União Europeia no Brasil, que contou com a presença de representantes de 16 Estados-membro. O Cimi, o Greenpeace Brasil e a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) apoiaram e acompanharam as atividades e denúncias do povo Karipuna em Brasília. Enquanto a delegação Karipuna percorria embaixadas e órgãos públicos, na Europa, Adriano Karipuna também fazia uma semana de denúncias internacionais, buscando angariar apoio e dar visibilidade à luta de seu povo. Também participaram da mobilização em Brasília indígenas dos povos Piripkura, Kasharari e Uru-Eu-Wau-Wau, que vivem com os Karipuna na aldeia Panorama, no interior da TI. “A situação é gravíssima. Todos na aldeia Karipuna sabem o que é passar noites e noites em claro, preocupados. Neste último ano, os invasores avançaram até muito perto da aldeia, e o povo está cada vez mais ilhado. Recentemente, o povo encontrou picadas – marcações feitas no meio da floresta – dos invasores demarcando lotes para ocupação ilegal a cerca de um quilômetro das casas Karipuna. É muito perto”, explica Laura Vicuña Manso, missionária do Cimi Regional Rondônia. “Hoje, a TI Karipuna está cercada por 300 mil cabeças de gado, que pressionam a terra indígena. Mais de 11 mil hectares já foram desmatados no interior do território, e boa parte dessas áreas já tem pastagens”, contextualiza o porta-voz da Campanha Amazônia do Greenpeace, Danicley de Aguiar. Os indígenas pediram aos países da União Europeia, especialmente, que garantam salvaguardas de proteção aos territórios indígenas como critério para qualquer acordo comercial firmado com o Brasil. “Até chegarem na mesa das pessoas de fora, os produtos que estão sendo extraídos ilegalmente no Brasil já mataram muitos indígenas. Estão saindo do país coisas ilegais como se fossem legais”, resumiu André Karipuna. “Nós, povos indígenas, é que defendemos a Amazônia. Só tem vida nas florestas através de nós”. #Envolverde

quarta-feira, 14 de setembro de 2022

EcoDEBATE - Boletim de 14.9.2022

Boletim de atualização da revista eletrônica EcoDebate Edição de 14/setembro/2022 Desejamos a todos(as) um bom dia e uma boa leitura Passado e futuro no bicentenário da Independência do Brasil A degradação do meio ambiente foi o lado mais negativo do legado dos 200 anos da Independência www.ecodebate.com.br Transição rápida para energia limpa é mais barata do que uma transição lenta Alcançar um sistema de energia líquida zero carbono por volta de 2050 é possível e lucrativo www.ecodebate.com.br Fast transition to clean energy is cheaper than slow or no transition at all Achieving a net zero carbon energy system by 2050 is possible and profitable www.ecodebate.com.br A ciência mais recente relacionada às mudanças climáticas Relatório se concentra em gases de efeito estufa, temperaturas globais, previsões climáticas e pontos de inflexão, mudanças climáticas urbanas, impactos climáticos extremos e alertas precoces www.ecodebate.com.br Overview of the latest science related to climate change Report focuses on greenhouse gases, global temperatures, climate predictions and tipping points, urban climate change, extreme weather impacts and early warnings www.ecodebate.com.br Soja ocupa 10% do Cerrado O Cerrado já perdeu quase metade de sua vegetação nativa e, com isso, está ficando mais quente e seco www.ecodebate.com.br Mudanças climáticas e impactos aceleram Aumento das temperaturas globais está alimentando condições climáticas extremas devastadoras em todo o mundo, com impactos crescentes nas economias e sociedades www.ecodebate.com.br Mudança climática já afeta produção agrícola em 28% do Centro-Oeste Número pode chegar a 50% na próxima década e a 70% em trinta anos; pesquisa comprova queda de produtividade e levanta discussão sobre o limite climático da agricultura no Brasil www.ecodebate.com.br

terça-feira, 13 de setembro de 2022

Havaianas lança coleção cápsula com nylon regenerado

Pensada para pessoas que buscam um estilo de vida mais equilibrado, leve e sustentável, a coleção traz nove produtos, entre roupas e acessórios, feitos com o nylon regenerado ECONYL®, desenvolvido a partir de resíduos de nylon que poluem a Terra como redes de pesca, restos de tecido, carpetes e plástico industrial; o fio de nylon ECONYL® pode ser reciclado, recriado e remodelado infinitamente Sustentabilidade é um dos pilares de Havaianas, e a marca vem, cada vez mais, trazendo o tema para o centro das suas ações, seja no desenvolvimento de novos produtos ou até mesmo pensando no descarte correto após o fim da sua vida útil. E inovação caminha lado a lado com sustentabilidade para promover essas mudanças. Foi nesse processo constante de busca por opções mais sustentáveis que Havaianas encontrou o ECONYLⓇ, um nylon regenerado que pode ser reciclado, recriado e remodelado infinitamente. Ele é o protagonista da coleção cápsula Havaianas em nylon ECONYLⓇ, que acabou de chegar às lojas. “Os recursos do planeta não são infinitos, e por esse motivo devemos estar cada vez mais conscientes e em busca de soluções inovadoras que nos permitam manter a nossa veia criativa pulsando. Em meio a diversas buscas encontramos no nylon regenerado ECONYLⓇ mais uma solução para criar uma coleção de produtos pensados para quem busca um estilo de vida mais equilibrado, leve e sustentável”, afirma Mariana Rhormens, diretora de Marketing da Havaianas Brasil. O nylon ECONYLⓇ é um material “jovem” criado em 2011 pela italiana Aquafil, empresa pioneira em economia circular. O processo de produção começa com a coleta de resíduos, incluindo pisos de carpete, restos de tecido, redes de pesca e plástico industrial de todo o mundo. Depois de coletados, são limpos e separados para recuperar todo o nylon possível. Por meio de um processo de regeneração e purificação, são restaurados em sua forma original. O nylon regenerado ECONYLⓇ é então processado em fios e polímeros usados ​​para fazer roupas, carpetes e objetos de design. Ele pode ser reciclado um número infinito de vezes, retornando ao primeiro estágio do sistema de regeneração e utilizado para produzir novos produtos novamente. Havaianas quer cada vez mais mostrar aos consumidores que é fundamental se preocupar com o meio ambiente, e que esse processo pode ser mais simples do que parece. “Queremos desconstruir a percepção da sustentabilidade como algo engessado e trabalhoso, apresentando produtos e soluções mais sustentáveis aos nossos consumidores, priorizando matérias primas com certificações ECO e oferecendo opções de descarte correto ao fim da vida útil do produto, como o Havaianas reCICLO, nosso programa de logística reversa. Sabemos que temos um longo caminho pela frente, mas estamos otimistas”, completa Mari Rhormens, diretora de Marketing da Havaianas Brasil. A coleção cápsula Havaianas feita em nylon Econyl traz nove produtos em diversas categorias, com estampas que remetem ao mar e toda a liberdade que ele representa. “Queríamos contar essa importante história de sustentabilidade de forma lúdica e foi daí que surgiu a inspiração para as estampas, que trazem elementos do oceano, representando a liberdade de nadar livremente em um mar limpo, livre de poluição”, encerra Mari Rhormens, diretora de Marketing da Havaianas Brasil. São três modelos de óculos, um biquíni (top e bottom vendidos separadamente), um boardshort, um mini short, uma mule e, para garantir comida e bebida frescas na praia, uma bolsa térmica. Os óculos Havaianas feitos com polímeros ECONYL® trazem os shapes mais icônicos da marca de uma maneira diferente. Além de serem feitos com nylon ECONYL®, têm lentes espelhadas e capinhas com as estampas da coleção. A bolsa térmica Havaianas em nylon ECONYL® é ideal para levar o que precisar manter fresquinho. Ela funciona como uma mochila, deixando as mãos livres. Além de ser toda composta em tecido térmico, tem as estampas lindas e vibrantes que compõem toda a coleção Havaianas em nylon ECONYL® e trazem elementos do oceano, representando a liberdade de nadar livremente em um mar limpo, livre de poluição. Perfeito para um passeio ou esportes de praia, o Boardshort Havaianas em nylon ECONYL® tem fecho com cordão e bolso traseiro. Já a versão feminina, o Mini Shorts Havaianas em nylon ECONYL®, tem cós em elástico para trazer ainda mais conforto para a peça. Os dois trazem uma das estampas exclusivas da coleção, com sereias e lagostas em um fundo azul da cor do mar. O biquini tem as partes de cima e debaixo vendidas separadamente. Assim, é possível comprar os tamanhos que se adaptam melhor a cada parte do corpo. O Biquini Top Havaianas em nylon ECONYL® tem alças largas e fecho frontal em zíper. No mesmo tecido do top, o Biquini Bottom Havaianas em nylon ECONYL® traz laterais e a parte de trás mais largas. A dupla é ideal para prática de esportes na praia ou para compor um look que além de lindo é sustentável. A Mule Havaianas Evolution em nylon ECONYL® alinha conforto, estilo e sustentabilidade. O modelo possui um solado de plataforma, garantindo uns centímetros a mais. Aberta também na parte da frente, ela deixa os dedinhos de fora, trazendo um visual único. O cabedal todo em em nylon ECONYL® dá o toque final. Um calçado que se importa com os seus pés e com onde eles pisam no mundo! A coleção cápsula Havaianas feita com nylon ECONYLⓇ regenerado a partir de resíduos em nylon, está disponível em lojas Havaianas e na Digital Flagship Store da marca. #Envolverde

IPAM anuncia novo Sistema de Alerta de Desmatamento no Cerrado, o SAD Cerrado

Complementaridade a sistemas como o do Inpe fortalece o mapeamento do bioma e a imagem da ciência brasileira, dizem pesquisadores. O Sistema de Alerta de Desmatamento do Cerrado (SAD Cerrado) foi lançado nesta segunda-feira, 12, e já está disponível para acesso aberto em plataforma virtual. A ferramenta foi desenvolvida pelo IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) em parceria com a rede MapBiomas e com o Lapig (Laboratório de Processamento de Imagens e Geoprocessamento), da UFG (Universidade Federal de Goiás). O SAD Cerrado funciona por meio de inteligência artificial e utiliza imagens do satélite Sentinel-2, da Agência Espacial Europeia, com resolução de 10 metros. “Esperamos que o SAD Cerrado seja uma ferramenta para criação de políticas públicas voltadas a compatibilizar o desenvolvimento econômico e a conservação do Cerrado, um bioma extremamente importante para a dinâmica hídrica e para a estocagem de carbono. Estamos falando da savana mais biodiversa do mundo, fundamental para a conservação da biodiversidade. Sob diversos aspectos, o Cerrado é de relevância estratégica para o Brasil e, temos visto, tem sido objeto da especulação imobiliária e do avanço da fronteira do agronegócio na região do Matopiba, onde estão os maiores remanescentes de vegetação nativa do bioma”, disse André Guimarães, diretor-executivo no IPAM. Complementaridade entre sistemas No evento de lançamento, pesquisadores destacaram a complementaridade entre sistemas como o SAD Cerrado e o Deter, do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), de forma a fortalecer o mapeamento e monitoramento do bioma e até mesmo a imagem da ciência brasileira como referência em sensoriamento remoto e geoprocessamento para detecção e análise de mudanças no uso da terra. “A diversidade é um bom caminho, não apenas biológico, mas tecnológico também”, ressaltou Yuri Salmona, pesquisador no Instituto Cerrados, convidado ao debate sobre o uso de alertas no combate ao desmatamento. “É preciso reconhecer a capacidade brasileira de produzir ciência de alta qualidade, ferramentas tecnológicas de alta qualidade, e levar a mensagem de que o Brasil é referência quanto ao sensoriamento remoto. Ciência essa que é prática e que tem capacidade de influenciar políticas públicas”. Cláudio Almeida, coordenador do Programa de Monitoramento da Amazônia e demais biomas no Inpe, considerou o momento histórico. “É um evento histórico o lançamento do SAD Cerrado, um sistema totalmente complementar para a gente trabalhar junto. O sistema oficial é obrigação do Estado, mas, ao mesmo tempo, a sociedade civil tem que ter seus próprios sistemas [de alerta de desmatamento]. É salutar que existam, inclusive, com metodologias diferentes e que, no fundo, funcionem como contrapeso um do outro. A sociedade ganha com isso, pois consolida a seriedade e fortalece a imagem do país como uma nação, independentemente de governo, que está comprometida com a questão ambiental e que quer mudar o quadro do desmatamento”. “Reforçamos a necessidade do Inpe continuar com seu trabalho sobre monitoramento. O serviço que o Deter Amazônia e o Deter Cerrado têm prestado à sociedade brasileira para apoiar a fiscalização quase em tempo real tem que continuar”, pontuou Ane Alencar, diretora de Ciência no IPAM. Pesquisadores lembraram que a ausência de um monitoramento do Cerrado, antes que instituições como o Inpe começassem essa atuação no bioma, em 2016, é responsável por uma lacuna de 30 anos sem dados. “Perdemos 30 anos no nosso percurso com o Cerrado pedindo monitoramento. A gente não tem mais o que esperar, agora temos a informação. Hoje, a gente pode realmente dizer: não é por falta de dados. É isso que os sistemas complementares de monitoramento mostram pra gente. Ao mesmo tempo, vamos precisar de um esforço colaborativo apontando as soluções. Não queremos tirar a agricultura, nem a pecuária, mas a gente quer novos modelos de agricultura e pecuária para o bioma”, destacou Mercedes Bustamante, professora na UnB (Universidade Nacional de Brasília). Populações tradicionais e economia do Cerrado de pé Isabel Figueiredo, coordenadora dos Programas Cerrado e Caatinga no ISPN (Instituto Sociedade, População e Natureza), citou estudo que identificou irregularidades em autorizações de supressão da vegetação nativa no oeste da Bahia, estado que está na 4a posição em maior área de alertas detectados pelo SAD Cerrado em 2022. A região oeste da Bahia é conhecida por abrigar comunidades tradicionais geraizeiras com raízes que, dizem moradores e moradoras, se remontam à população de Canudos e de quilombos. “A gente acredita que o SAD Cerrado vai ajudar a evidenciar a sobreposição de desmatamentos com territórios de comunidades tradicionais, prática que tem sido frequente na região do Matopiba. Grande parte das comunidades não possui um papel da terra, mas possui ocupação de três, quatro ou mais gerações e isso já comprova que são terras públicas. São processos muito complexos, que além de degradarem o bioma Cerrado, parar de gerar água e energia para nosso país, criam um problema social enorme, desrespeitam direitos humanos e nossa cultura”, comentou Figueiredo. “Não podemos esquecer da violência que está associada a esse processo de ocupação das áreas desmatadas. Estamos falando da vida das pessoas, são povos e comunidades tradicionais que estão sendo assassinados e colocados em situação de vulnerabilidade”, alertou Bustamante, que elencou a proteção a populações tradicionais como a primeira das prioridades para reverter o cenário de destruição do Cerrado e proteger o bioma, preservando a sociobiodiversidade e serviços ecossistêmicos. A segunda prioridade, na visão da professora, seria responsabilizar e rastrear cadeias produtivas; a terceira prioridade seria a contextualização do discurso do agronegócio, considerando não somente os ganhos do setor, mas as externalidades relacionadas; e a quarta prioridade o trabalho com agentes financeiros para possibilidades econômicas com o Cerrado de pé. Salmona ecoou: “Às vezes se tem a ideia de que o desmatamento é uma condição primária para o desenvolvimento e para a geração de renda, e esse é um pressuposto extremamente equivocado. A gente não precisa de mais áreas para produzir. Precisamos urgentemente aprender a utilizar o Cerrado de pé, com pacotes tecnológicos e linhas de financiamento para aproveitar produtos florestais não madeireiros, fortalecendo a economia da sociobiodiversidade”. A ocupação de novas áreas no Cerrado não se justifica nem de acordo com o que mostram os dados, indicou Dhemerson Conciani, pesquisador no IPAM. “A abertura de novas áreas [com o desmatamento] tem muito mais a ver com o processo de ocupação do território em si do que com a produtividade, se a gente parar para ver no que essas áreas se transformam. Já tem uma série de áreas que estão abertas com alta aptidão agrícola, e se a realidade fosse condizente com o discurso, a gente estaria aproveitando essas áreas que hoje estão ocupadas apenas com capim exótico, transformando-as em áreas produtivas”. Dados e resultados O SAD Cerrado detectou que, no primeiro semestre de 2022, uma área equivalente ao Distrito Federal foi desmatada em todo o Cerrado: cerca de 472.816 hectares. Nesse período, foram detectados mais de 50 mil alertas de desmatamento. Somente no último trimestre, houve um aumento de 15% na área desmatada no bioma em relação ao mesmo período do ano passado: foram 291,2 mil hectares derrubados, entre maio e julho de 2022, contra 253,4 mil hectares desmatados nos mesmos meses de 2021. O sistema revelou uma maior concentração de áreas desmatadas no Maranhão, que, com 124,7 mil hectares desmatados, acumula 26,4% de todo o desmatamento detectado no bioma em 2022. O Tocantins apresentou a segunda maior área de alertas, 108,7 mil hectares, a maior parte na região norte do estado, em áreas de expansão do cultivo de soja. “A tendência do desmatamento no Cerrado está nas áreas que estão se consolidando nessa fronteira, como no Matopiba. O que a gente percebeu é que a soja está descendo os chapadões, se implantando em áreas que não tem tanta aptidão, mas que são favorecidas pela proximidade da estrutura da produção agrícola. É importante prever essa ampliação e ter medidas específicas nos municípios da região com comunidades tradicionais. No norte do Maranhão, por exemplo, há conversão em pequenos fragmentos, territórios de quebradeiras de coco que estão sendo invadidos. São derrubadas atomizadas que a gente está começando a enxergar, e esse tipo de desmatamento se contém mediante o reconhecimento de territórios tradicionais. Está mais do que demonstrado que são as populações tradicionais as que podem proteger os remanescentes”, afirmou Juan Doblas, pesquisador no IPAM responsável pelo SAD Cerrado. Entre os municípios que mais desmataram, Balsas, no Maranhão, foi o que mais desmatou, com mais de 12 mil hectares. Em segundo lugar está o município de São Desidério, na Bahia, com 9,5 mil hectares desmatados. A cidade baiana concentra a terceira maior produção de soja no país, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). A velocidade média do desmatamento foi de mais de 2 mil hectares por dia e a maior parte da área de supressão está em vegetações do tipo savana, com 69,2% da área desmatada. As áreas privadas representaram 78,9% do desmatamento no bioma. Serviço Acesse a plataforma do SAD Cerrado. #Envolverde

O que é o carbono negro, elemento liberado nas queimadas da Amazônia cujo impacto climático é até 1,5 mil vezes superior ao CO2

Por GreenPeace – “Grande vilão climático, o carbono negro é mais uma manifestação perversa do desmatamento da Amazônia que é, de longe, a principal contribuição do Brasil para o aquecimento da temperatura média global”, diz Marcelo Laterman, do Greenpeace Brasil A fumaça cinza proveniente das queimadas na Amazônia ocorridas nos primeiros sete dias de setembro encobriu o céu de cidades da região Norte, Centro-Oeste e até Sudeste. Na sexta-feira (9), cidades como São Paulo e Cuiabá amanheceram com um forte nevoeiro escuro. Além de nociva à saúde da população, essa fumaça libera na atmosfera o perigoso carbono negro, material particulado cujo impacto nas mudanças climáticas é de 460 a 1.500 vezes superior ao dióxido de carbono, o famoso CO2. “O carbono negro é um material particulado extremamente poluente, que tem como principal fonte global os incêndios florestais. Ele pode causar graves danos à saúde, como doenças respiratórias, cardíacas e até psicológicas, além de consequências ao meio ambiente, como acelerar o derretimento de geleiras (e, consequentemente, o aumento do nível do mar) e alterar significativamente os padrões de chuva”, explica Marcelo Laterman, porta-voz de Clima e Justiça do Greenpeace Brasil. Apesar dessa fumaça ter curta duração na atmosfera por ser constituída de micropartículas, o carbono negro presente nela tem efeitos climáticos a médio prazo. “A liberação do carbono negro aumenta os riscos de eventos climáticos extremos como chuvas torrenciais e longos períodos de seca que, como temos testemunhado, estão cada vez mais frequentes no país. E, infelizmente, enquanto as queimadas servem aos interesses de uma minoria poderosa, quem mais sente as consequências são as populações em vulnerabilidade, expostas a deslizamentos, inundações, torneiras secas e contas caras”, diz Laterman. Além disso, ao alterar o regime de chuvas e aumentar a seca, as queimadas na floresta também têm consequências para o bolso do brasileiro. “O fogo na Amazônia tem impactos na inflação do Brasil, na conta de luz (em um país que ainda depende de hidrelétricas) e preço de alimentos”, afirma o porta-voz do Greenpeace . Desmatamento, fogo e aquecimento global Uma vez que fogo e desmatamento caminham lado a lado, a enorme quantidade de queimadas que consome a floresta neste momento é fruto do desmatamento recorde ocorrido no primeiro semestre: dados do Programa DETER-B do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) mostram que o acumulado de janeiro a agosto de 2022 foi o maior da série histórica, com 7.135 km² desmatados. De acordo com o Sistema de Estimativa de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SEEE), 46% dos gases do efeito estufa no Brasil são causados por desmatamento e queimada.“Um grande vilão climático, o carbono negro é mais uma manifestação perversa do desmatamento da Amazônia, que é, de longe, a principal contribuição do Brasil para o aquecimento da temperatura média global”, afirma Laterman. Fotos e vídeos recentes de queimadas e desmatamento na Amazônia disponíveis aqui *Crédito imagem destacada: Queimadas e Desmatamento na Região da Amacro na Amazônia – Foto: Nilmar Lage/Greenpeace #Envolverde

Impactos da construção de estradas nas florestas tropicais

Caros colegas, Em anexo, indico dois documentos sobre os impactos da expansão de estradas industriais no maior remanescente sobrevivente da floresta tropical de planície de Sumatra – um dos ecossistemas mais ameaçados e biodiversos da Terra. custos dos impactos de estradas em florestas tropicais Liderados pelo meu aluno de doutorado Jayden Engert, os artigos detalham os custos ambientais e financeiros da construção de estradas em larga escala em um dos ecossistemas mais raros do mundo – um que abriga dezenas de espécies criticamente ameaçadas, como o tigre de Sumatra, o elefante de Sumatra e o orangotango, entre outros. Learn more Esses artigos têm um conteúdo bastante conciso – relevante para ecologia de estradas, conservação de florestas e vida selvagem e planejamento ambiental. Por favor, se julgarem relevante, compartilhem esses documentos com colegas e alunos interessados. Tudo de bom a todos(as), Bill Referências Engert, J. E., Y. Ishida, and W. F. Laurance. 2021. Re-routing a major Indonesian mining road to spare nature and reduce development costs. Conservation Science & Practice 3:e521. https://doi.org/10.1111/csp2.521 Engert, J., H. Kartodihardjo, and W. F. Laurance. 2022. Major mining road could be death knell for Sumatra’s lowland rainforests. Biological Conservation 274:109714. http://dx.doi.org/10.1016/j.biocon.2022.109714 William F. Laurance, PhD, FAA, FAAAS, QAAS, FRSQ Distinguished Research Professor Australian Laureate & Prince Bernhard Chair in International Nature Conservation (Emeritus) Director of the Centre for Tropical Environmental and Sustainability Science (TESS) Director of ALERT (ALERT-conservation.org) College of Science and Engineering James Cook University Cairns, Queensland 4878, Australia in EcoDebate, ISSN 2446-9394

Desmatamento das florestas afeta a qualidade da água

O desmatamento é atualmente um fenômeno generalizado e uma crescente preocupação ambiental na era das rápidas mudanças climáticas. As florestas desempenham um papel fundamental no ciclo da água. Helmholtz Centre for Environmental Research (UFZ) A água armazenada em reservatórios garante nosso abastecimento de água potável. A boa qualidade da água é, portanto, importante – mas está em risco significativo devido às mudanças climáticas. Em um estudo modelo do reservatório de Rappbode na região de Harz, uma equipe de pesquisa do Centro Helmholtz de Pesquisa Ambiental (UFZ) demonstrou como o desaparecimento de florestas relacionado ao clima na área de captação do maior reservatório de água potável da Alemanha pode afetar a qualidade da água. O problema de tais consequências indiretas das mudanças climáticas é seriamente subestimado, alertam os cientistas na Water Research . A qualidade da água é de importância crítica, especialmente para reservatórios de água potável, pois o tratamento subsequente nas instalações hidráulicas deve atender continuamente a altos padrões. Ondas de calor, secas, inundações, incêndios florestais – as consequências das alterações climáticas estão a aumentar e a alterar o nosso ambiente. Um excelente exemplo é o campo na área de captação do reservatório Rappbode na região leste de Harz. Este é o maior reservatório de água potável da Alemanha e fornece água potável para cerca de um milhão de pessoas. Longos períodos de seca ao longo dos anos de 2015 a 2020 enfraqueceram tão severamente a população de árvores na região de Harz que parasitas como besouros da casca conseguiram se propagar. Isso exacerbou ainda mais o efeito: as árvores foram ainda mais danificadas e morreram rapidamente. “Nos últimos quatro anos, a área de captação de Rappbode, caracterizada por coníferas, principalmente abetos, perdeu mais de 50 por cento de sua floresta”, diz o hidrólogo da UFZ e último autor, Prof. Michael Rode. ” Este declínio maciço da floresta está avançando rapidamente e é dramático. Isso terá consequências para o reservatório de água potável.” As florestas desempenham um papel fundamental no ciclo da água. Eles filtram a água e ligam os nutrientes e, portanto, são necessários para uma boa qualidade da água. Quanto menos nutrientes – ou seja, compostos de nitrogênio ou fósforo – contidos na água do reservatório, melhor é para o tratamento da água potável. “Isso torna mais difícil o desenvolvimento de algas, tornando o tratamento de água potável, no sistema hidráulico, mais econômico e fácil”, explica o pesquisador e coautor do lago UFZ, Dr. Karsten Rinke. “A gestão de nutrientes em áreas de conservação de água é, portanto, muito importante. Nas últimas décadas, conceitos de longo prazo com estreita cooperação entre floresta e gestão de água têm avançado no desenvolvimento de grandes áreas de floresta na área de captação do reservatório de Rappbode.” Estimulada por esse desenvolvimento, a equipe da UFZ investigou os efeitos do desmatamento induzido pelo clima na qualidade da água do reservatório em seu estudo de modelo. Este estudo foi baseado em dados da rede de observatórios ambientais TERENO (Terrestrial Environmental Observatories), da qual a UFZ é participante do Observatório Harz/Central German Lowland. “Conseguimos acessar dados ambientais de um período de mais de dez anos, fornecendo-nos um conjunto sólido de dados”, diz o Dr. Xiangzhen Kong, também cientista ambiental da UFZ e principal autor do estudo. A equipe usou dados do ISIMIP internacional(Projeto Intersetorial de Intercomparação do Modelo de Impacto Intersetorial) para prever futuras mudanças climáticas. “Primeiro, alimentamos esses dados em um modelo para estimar os efeitos relacionados ao clima no equilíbrio de nutrientes na área de captação”, explica Kong. “Os dados resultantes foram então processados ​​em um modelo de ecossistema de reservatório com o qual pudemos determinar os efeitos de diferentes cenários de desmatamento na qualidade da água prevista para 2035. O reservatório de Rappbode é abastecido por três diferentes áreas de captação, duas das quais foram incluídas no estudo. “A área de captação de Hassel é caracterizada pela agricultura, enquanto a de Rappbode é predominantemente florestal – pelo menos era assim antes da morte das florestas de abetos”, diz Kong. Antes que a água das duas bacias flua para o grande reservatório de Rappbode, ela é primeiro retida por uma pré-barragem a montante. A influência agrícola resulta em um teor de nutrientes significativamente maior na água na pré-barragem de Hassel do que na pré-barragem de Rappbode. “Fomos capazes de demonstrar que, para um desmatamento antecipado de até 80%, a barragem de Rappbode experimentará um aumento de 85% na concentração de fósforo dissolvido e um aumento de mais de 120% na concentração de nitrogênio em apenas 15 anos. Os resultados para o reservatório Rappbode podem ser aplicados a outras áreas de captação do reservatório em regiões semelhantes. “A morte da floresta como consequência indireta da mudança climática tem um efeito mais pronunciado na qualidade da água do reservatório do que os efeitos diretos da mudança climática, como a elevação da temperatura da água. Na verdade, ficamos surpresos com a extensão desse efeito”, diz Kong. estrutura conceitual para elucidar o impacto climático nos sistemas de captação Uma estrutura conceitual para elucidar o impacto climático nos sistemas de captação-reservatório em escalas de tempo de curto e longo prazo. Na escala de curto prazo (1-2 décadas), os efeitos indiretos das mudanças climáticas (setas sólidas) mediados pela dinâmica de captação, por exemplo, o desmatamento, serão mais influentes do que os impactos diretos do aquecimento climático nos lagos/reservatórios, com grande potencial de deterioração da qualidade da água e eutrofização. Na escala de longo prazo (até 2100), no entanto, o impacto direto das mudanças climáticas (setas tracejadas) na qualidade da água do lago/reservatório será mais pronunciado, enquanto os efeitos indiretos também devem ser aprimorados em paralelo, resultando no igualmente importância de ambas as vias de impacto. Referência: Xiangzhen Kong, Salman Ghaffar, Maria Determann, Kurt Friese, Seifeddine Jomaa, Chenxi Mi, Tom Shatwell, Karsten Rinke, Michael Rode, Reservoir water quality deterioration due to deforestation emphasizes the indirect effects of global change, Water Research, Volume 221, 2022, 118721, ISSN 0043-1354, https://doi.org/10.1016/j.watres.2022.118721 Henrique Cortez *, tradução e edição. in EcoDebate, ISSN 2446-9394

Terra atingirá o ponto de inflexão da temperatura nos próximos 20 a 30 anos

A capacidade da Terra de absorver quase um terço das emissões de carbono causadas pelo homem através das plantas pode ser reduzida pela metade nas próximas duas décadas na taxa atual de aquecimento, de acordo com um novo estudo da Science Advances por pesquisadores da Northern Arizona University, o Woodwell Climate Research Center. e a Universidade de Waikato, Nova Zelândia Usando mais de duas décadas de dados de torres de medição em todos os principais biomas do mundo, a equipe identificou um ponto crítico de temperatura além do qual a capacidade das plantas de capturar e armazenar carbono atmosférico – um efeito cumulativo conhecido como “sumidouro de carbono terrestre”. — diminui à medida que as temperaturas continuam a subir. A biosfera terrestre – a atividade de plantas terrestres e micróbios do solo – faz grande parte da “respiração” da Terra, trocando dióxido de carbono e oxigênio. Ecossistemas em todo o mundo puxam dióxido de carbono através da fotossíntese e o liberam de volta para a atmosfera através da respiração de micróbios e plantas. Nas últimas décadas, a biosfera geralmente absorveu mais carbono do que liberou, mitigando as mudanças climáticas. Mas como as temperaturas recordes continuam a se espalhar pelo mundo, isso pode não continuar; os pesquisadores da NAU, Woodwell Climate e Waikato detectaram um limite de temperatura além do qual a absorção de carbono pelas plantas diminui e a liberação de carbono acelera. A autora principal Katharyn Duffy , pesquisadora de pós-doutorado na NAU, notou declínios acentuados na fotossíntese acima desse limite de temperatura em quase todos os biomas do mundo, mesmo depois de remover outros efeitos, como água e luz solar. “A Terra tem uma febre cada vez maior e, assim como o corpo humano, sabemos que todo processo biológico tem uma faixa de temperaturas nas quais funciona de maneira ideal e acima das quais a função se deteriora”, disse Duffy. “Então, queríamos perguntar, quanto as plantas podem suportar?” Este estudo é o primeiro a detectar um limiar de temperatura para a fotossíntese a partir de dados observacionais em escala global. Embora os limites de temperatura para fotossíntese e respiração tenham sido estudados em laboratório, os dados do Fluxnet fornecem uma janela para o que os ecossistemas da Terra estão realmente experimentando e como eles estão respondendo. “Sabemos que a temperatura ótima para humanos fica em torno de 37 graus Celsius (98 graus Fahrenheit), mas nós, na comunidade científica, não sabíamos quais eram essas ótimas para a biosfera terrestre”, disse Duffy. Ela se uniu a pesquisadores da Woodwell Climate e da Universidade de Waikato, que recentemente desenvolveram uma nova abordagem para responder a essa pergunta: Teoria da Taxa Macromolecular (MMRT). Com base nos princípios da termodinâmica, o MMRT permitiu que os pesquisadores gerassem curvas de temperatura para todos os principais biomas e do globo. Os resultados foram alarmantes. Os pesquisadores descobriram que os “picos” de temperatura para absorção de carbono – 18 graus C para as plantas C3 mais difundidas e 28 graus C para plantas C4 – já estão sendo excedidos na natureza, mas não houve verificação de temperatura na respiração. Isso significa que, em muitos biomas, o aquecimento contínuo fará com que a fotossíntese diminua enquanto as taxas de respiração aumentam exponencialmente, derrubando o equilíbrio dos ecossistemas de sumidouro de carbono para fonte de carbono e acelerando as mudanças climáticas. “Diferentes tipos de plantas variam nos detalhes de suas respostas à temperatura, mas todas mostram declínios na fotossíntese quando fica muito quente”, disse o coautor do NAU George Koch . No momento, menos de 10% da biosfera terrestre experimenta temperaturas além desse máximo fotossintético. Mas na taxa atual de emissões, até metade da biosfera terrestre pode experimentar temperaturas além desse limite de produtividade em meados do século – e alguns dos biomas mais ricos em carbono do mundo, incluindo florestas tropicais na Amazônia e Sudeste Asiático e o Taiga, na Rússia e no Canadá, estará entre os primeiros a atingir esse ponto de inflexão. “A coisa mais impressionante que nossa análise mostrou é que a temperatura ótima para a fotossíntese em todos os ecossistemas era muito baixa”, disse Vic Arcus, biólogo da Universidade de Waikato e coautor do estudo. “Combinado com o aumento da taxa de respiração do ecossistema nas temperaturas que observamos, nossas descobertas sugerem que qualquer aumento de temperatura acima de 18 graus C é potencialmente prejudicial ao sumidouro de carbono terrestre. Sem conter o aquecimento para permanecer nos níveis ou abaixo dos níveis estabelecidos no Acordo Climático de Paris, o sumidouro de carbono terrestre não continuará a compensar nossas emissões e ganhar tempo.” Informações fornecidas pela Northern Arizona University* Padrões espaciais de pontos de inflexão de temperatura para a biosfera Padrões espaciais de pontos de inflexão de temperatura para a biosfera Duffy KA, Schwalm CR, Arcus VL, Koch GW, Liang LL, Schipper LA. How close are we to the temperature tipping point of the terrestrial biosphere? Sci Adv. 2021 Jan 13;7(3):eaay1052. doi: 10.1126/sciadv.aay1052. PMID: 33523891; PMCID: PMC7806211. Henrique Cortez *, tradução e edição. in EcoDebate, ISSN 2446-9394

Patriotismo é defender as instituições e a democracia

Por Ricardo Galvão para o Congresso em Foco – “A Constituição certamente não é perfeita. Ela própria o confessa, ao admitir a reforma. Quanto a ela, discordar, sim. Divergir, sim. Descumprir, jamais. Afrontá-la, nunca”, palavras de Ulysses Guimarães, então presidente da Câmara dos Deputados, ao promulgar a nova Constituição do país em cinco de outubro de 1988. A maior demonstração de amor e respeito ao país deve se dar em primeiro lugar na defesa intransigente da democracia e das instituições que a representam e dão voz aos brasileiros e brasileiras. Nesta quadra da história pátria, em que celebramos os 200 anos de nossa independência, relembrar as palavras de Ulysses Guimarães é redobrar nossa convicção de que não há outro rumo que não seja trilhar o caminho apontado por nossa Constituição Cidadã, documento fundamental para construção do país que queremos para seguirmos livres e independentes. As instituições nacionais, a divisão e complementação dos poderes, os pesos e contrapesos, em que ninguém é dono absoluto da verdade, são as garantias para a estabilidade e harmonia entre todos os cidadãos e cidadãs do país. Infelizmente nos últimos anos temos assistido a uma série de contestações e ameaças à nossa ainda jovem Democracia. Ataques desqualificados têm sido desferidos com enorme regularidade contra pilares fundamentais do nosso Estado Democrático de Direito, visando atingir desde o principal guardião da nossa Constituição, que é o Supremo Tribunal Federal, passando por instâncias variadas da institucionalidade nacional e chegando até a nossa imprensa e seus jornalistas diuturnamente ameaçados em seu livre direito profissional de informar a sociedade brasileira. Temos que lembrar também que esse sórdido processo destrutivo tem atingido também inúmeros órgãos responsáveis pela fiscalização, monitoramento e controle para o cumprimento do ordenamento legal do país. Entre eles, posso citar o desmonte perpetrado contra o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), que tive a honra de dirigir e cujo trabalho irretocável baseado unicamente em dados científicos foi seguidamente desqualificado pela autoridade máxima de nosso poder executivo. Faço também menção aos ataques e realizados contra órgãos fundamentais para o cumprimento das leis ambientais como Ibama e ICMBio. Se ainda fizéssemos referências a barbaridades perpetradas em outras áreas vitais para o país como educação, saúde e cultura, este deixaria de ser um artigo para se tornar um livro com centenas de páginas, pois foram inúmeros os descalabros e afrontas às instituições de estado nacionais. Instituições fortes e cumpridoras de seus deveres constitucionais são as verdadeiras garantidoras da nossa democracia e das nossas liberdades, pois antes de mais nada, é preciso acreditar e confiar no trabalho realizado por elas, principalmente, no que se refere à defesa dos direitos dos cidadãos e cidadãs existentes num estado efetivamente democrático. Caso contrário se instala a barbárie, a incivilidade e o reino do todos contra todos. Renovo nesse texto o meu compromisso com as nossas instituições democráticas e com o futuro do país. E convoco todos os meus patrícios para cerrar fileiras em torno do nosso Estado Democrático de Direito, lembrando as palavras do presidente Thomas Jefferson, um dos mais importantes fundadores da independência dos Estados Unidos da América, “o preço da liberdade é a eterna vigilância” e também o que Levitsky e Ziblatt, afirmam em seu livro Como as Democracias Morrem, “é preciso lembrar que a democracia não é natural, mas sim uma criação cultural, por isso não se pode esquecer que sua defesa deve ser permanente e contínua”. * Ricardo Galvão é cientista, ex-diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e candidato a deputado federal (Rede-SP). #Envolverde

Pátria queimada Brasil: fumaça da Amazônia chega ao sudeste e remonta “Dia do Fogo”

Por Ipam – Após desmatamento histórico do bioma em agosto, semana da Independência tem o maior registro de queimadas desde 2007 A fumaça de queimadas criminosas na Amazônia chamou a atenção do país ao chegar ao sudeste brasileiro e a outros países da América Latina como Bolívia e Peru. Na semana da Independência no Brasil, as queimadas no bioma superaram todas as ocorrências de fogo registradas no mesmo mês em 2021. No ano passado, o bioma teve 16.742 focos de incêndio no mês inteiro. Em 8 dias de setembro de 2022, já são 20.261. Os dados são do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), que consolidou, nesta sexta-feira (9), também outro recorde: o acumulado da área desmatada em agosto na Amazônia foi o segundo pior da série histórica, com 1.661 km² de alertas. “A Amazônia nunca queimou tanto em uma Semana da Pátria quanto agora, com exceção de 2007, que foi um ano muito seco. Os últimos quatro anos foram destruidores para o meio ambiente no Brasil, danos que devem ser urgentemente reparados para que não tenhamos nossa sociobiodiversidade ainda mais destruída, para que a gente consiga evitar, ou ao menos mitigar, eventos climáticos extremos no campo e na cidade, e para que consigamos cumprir com as metas globais para controlar o aquecimento global”, diz Ane Alencar, diretora de Ciência no IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) e coordenadora do MapBiomas Fogo. Fonte: análise do IPAM com dados do Inpe (BDQueimadas e Terra Brasilis) Os episódios remontam ao “Dia do Fogo”, quando, em 10 e 11 de agosto de 2019, teria se articulado um movimento conjunto para atear fogo na maior floresta tropical do mundo. Somente nesses dois dias, o Inpe detectou 1.457 focos de calor na Amazônia, que fechou aquele mês de agosto com 30.900 focos. Em 2022, agosto se encerrou com 33.116 focos ativos no bioma. “Nós já estávamos prevendo um aumento do desmatamento e das queimadas por ser um ano de eleição. A política institucional, infelizmente, nesse período, tende a desviar as atenções e até mesmo a esmorecer a fiscalização para que esses tipos de crime tenham uma verdadeira porta aberta para a destruição. É preciso que o meio ambiente esteja no centro de debates, propostas e pautas eleitorais, afinal de contas, a questão ambiental se conecta a muitas outras que são fundamentais para a melhoria da qualidade de vida e para um futuro com justiça social”, conclui Alencar. #Envolverde

Sociobiodiversidade do Cerrado é tema de levantamento do WWF-Brasil

Publicação celebra o Dia do Cerrado (11 de setembro), valorizando frutos nativos e empreendimentos de comunidades tradicionais do bioma Apesar de ser o segundo maior bioma tanto da América do Sul como do Brasil, o Cerrado — também chamado de savana brasileira — é ainda pouco conhecido por parte da população brasileira. Atualmente, o bioma sofre com a perda de suas riquezas naturais e com o avanço do desmatamento, o que impacta diretamente o ecossistema e eleva o risco de extinção de espécies nativas. Para que as pessoas tenham conhecimento do que está em risco, mas também para mostrar seu potencial econômico, o WWF-Brasil acaba de lançar o Catálogo de Produtos da Sociobiodiversidade do Cerrado. O objetivo é divulgar as possibilidades de uso sustentável dos recursos naturais do bioma, além de apresentar os principais empreendimentos comunitários do Cerrado. A ideia é fomentar uma maior abertura de mercado e de geração de renda para os povos e as comunidades locais. Estamos falando de um bioma com uma área de 2.036.448 km2, ou seja, cerca de 23,9% do território brasileiro — alcançando 11 estados e o Distrito Federal — sendo superado apenas para a Amazônia, em termos de extensão. Apesar disso, poucos conhecem a riqueza da biodiversidade do Cerrado. Estima-se um total de 12 mil espécies vegetais e uma variedade de frutos com alto potencial nutritivo e comercial. O trabalho apresentado neste catálogo visa contribuir para uma maior valorização do Cerrado e de seus respectivos povos e comunidades tradicionais, além de apresentar o grande potencial de seus produtos em termos de uso comercial e alimentação humana”, diz Ana Carolina Bauer, analista de Conservação do WWF-Brasil. Entre as espécies nativas destacadas no levantamento, estão araticum, babaçu, bacuri, baru, buriti, cagaita, cajuí, capim dourado, coquinho-azedo, fava-d’anta, gueroba, jatobá, jenipapo, licuri, macaúba, mangaba, murici, pequi, pitomba e umbu. São frutos que podem ser comercializados in natura ou como ingredientes de diferentes produtos como licores, doces, geleias, mingaus, bolos, sucos, sorvetes e aperitivos. Eles também podem ser usados em produtos do ramo cosmético e farmacêutico, além de artigos artesanais e para geração de energia. Para auxiliar o público em geral, empresas e outras organizações interessadas, o material traz uma descrição sobre uso, comercialização, além de informações técnicas, como nome científico, safra, área de ocorrência, utilização mais comum e importância econômica. “O nosso objetivo é a valorização desse patrimônio natural e acreditamos que a base de tudo isso está no conhecimento e no compartilhamento de informações”, comenta Ana Carolina. A segunda parte do Catálogo de Produtos da Sociobiodiversidade do Cerrado traz o mapeamento de alguns empreendimentos comunitários que comercializam os produtos locais, além de informações gerais, relação dos produtos e o contato comercial. Ao todo são 60 pontos distribuídos no Distrito Federal, Goiás, Maranhão, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Piauí e Tocantins, incluindo associações e cooperativas, formados por lideranças indígenas, mulheres e comunidades tradicionais, que atuam da produção até a comercialização dos frutos nativos. “Os povos e comunidades tradicionais do Cerrado têm um papel fundamental, pois envolvem toda a cadeia extrativista e promovem a conservação e o uso sustentável da biodiversidade local. E isso impacta diretamente na qualidade de vida dos povos tradicionais, e na oportunidade de novas gerações de renda. E este é o propósito do nosso levantamento: apoiar as comunidades tradicionais, sem perder a essência de suas tradições e cultura. É trabalhar em prol de um futuro mais saudável, onde as pessoas e a natureza possam viver de maneira sustentável e com harmonia”, finaliza. Mais informações sobre o mapeamento dos empreendimentos comunitários, assim como das espécies do Cerrado: Link Sobre o WWF-Brasil O WWF-Brasil é uma ONG brasileira que há 26 anos atua coletivamente com parceiros da sociedade civil, academia, governos e empresas em todo país para combater a degradação socioambiental e defender a vida das pessoas e da natureza. Estamos conectados numa rede interdependente que busca soluções urgentes para a emergência climática. #Envolverde

OIT: 50 milhões de pessoas no mundo são vítimas da escravidão moderna

Por Organização Internacional do Trabalho (OIT) – Cinquenta milhões de pessoas viviam em situação de escravidão moderna em 2021, segundo as mais recentes estimativas mundiais sobre escravidão moderna compiladas pela Organização Internacional do Trabalho (OIT), em parceria com a Walk Free e a Organização Internacional para as Migrações (OIM). O relatório “Global Estimates of Modern Slavery” (disponível apenas em inglês), publicado nesta segunda-feira (12), aponta que dentre essas 50 milhões de pessoas, 28 milhões realizavam trabalhos forçados e 22 milhões estavam presas em casamentos forçados. O número de pessoas em situação de escravidão moderna aumentou consideravelmente nos últimos cinco anos. No ano passado, 10 milhões de pessoas a mais estavam em situação de escravidão moderna em comparação com as estimativas globais de 2016. Mulheres e crianças continuam sendo desproporcionalmente vulneráveis. A escravidão moderna está presente em quase todos os países do mundo e atravessa fronteiras étnicas, culturais e religiosas. Mais da metade (52%) de todos os casos de trabalho forçado e um quarto de todos os casamentos forçados ocorrem em países de rendas média alta ou alta. A maioria dos casos de trabalho forçado (86%) ocorre no setor privado. O trabalho forçado em outros setores que não o da exploração sexual comercial representa 63% de todo o trabalho forçado, enquanto a exploração sexual comercial forçada representa 23% de todo o trabalho forçado. Quase quatro em cada cinco vítimas de exploração sexual comercial forçada são mulheres ou meninas. O trabalho forçado imposto pelo Estado representa 14% das pessoas submetidas ao trabalho forçado. Quase uma em cada oito pessoas que realizavam trabalhos forçados é criança (3,3 milhões). Mais da metade delas é vítima de exploração sexual comercial. Casamento forçado – Estima-se que 22 milhões de pessoas viviam em um casamento forçado em um algum dia de 2021. Isso indica um aumento de 6,6 milhões em relação às estimativas globais de 2016. A verdadeira incidência de casamentos forçados, particularmente aqueles envolvendo crianças de 16 anos ou menos, é provavelmente muito maior do que as estimativas atuais podem capturar; estes são baseados em uma definição restrita e não incluem todos os casamentos infantis. Os casamentos infantis são considerados forçados porque a criança não pode consentir legalmente com o casamento. O casamento forçado está intimamente ligado a atitudes e práticas patriarcais há muito arraigadas e depende em grande medida do contexto. A esmagadora maioria dos casamentos forçados (mais de 85%) foi impulsionada pela pressão familiar. Embora dois terços (65%) dos casamentos sejam encontrados na Ásia e no Pacífico, quando o tamanho da população regional é considerado, a prevalência é mais alta nos Estados Árabes, com 4,8 pessoas em cada mil na região em situação de casamento forçado. Migrantes – Trabalhadores migrantes têm mais de três vezes mais probabilidade de estar em trabalho forçado do que trabalhadores adultos não-migrantes. Embora a migração laboral tenha um efeito amplamente positivo sobre as pessoas, famílias, comunidades e sociedades, esta descoberta demonstra como as pessoas migrantes são particularmente vulneráveis ao trabalho forçado e ao tráfico de pessoas, seja devido à imigração irregular ou mal governada ou a práticas de recrutamento injustas e antiéticas. “É chocante que a situação da escravidão moderna não esteja melhorando. Nada pode justificar a persistência dessa violação fundamental dos direitos humanos”, disse o diretor-geral da OIT, Guy Ryder. “Sabemos o que precisa ser feito e sabemos que pode ser feito. Políticas e regulamentações nacionais eficazes são fundamentais. Mas os governos não podem fazer isso sozinhos. As normas internacionais fornecem uma base sólida e é necessária uma abordagem que inclua todas as partes. Sindicatos, organizações de empregadores, sociedade civil e pessoas comuns têm um papel vital a desempenhar.” O diretor-geral da OIM, António Vitorino, afirmou: “Este relatório destaca a urgência de garantir que toda a migração seja segura, ordenada e regular. A redução da vulnerabilidade das pessoas migrantes ao trabalho forçado e ao tráfico de pessoas depende, em primeiro lugar, de estruturas políticas e jurídicas que respeitem, protejam e cumpram com os direitos humanos e as liberdades fundamentais de todos os migrantes – e potenciais migrantes – em todas as fases do processo de migração, independentemente de seu status de migração. Toda a sociedade deve trabalhar junta para reverter essas tendências chocantes, inclusive por meio da implementação do Pacto Global sobre Migração”. A diretora fundadora da Walk Free, Grace Forrest, disse que a escravidão moderna é a antítese do desenvolvimento sustentável. “No entanto, em 2022, continua a sustentar nossa economia global. É um problema criado pelo homem, relacionado tanto com escravidão histórica quanto com a desigualdade estrutural persistente . Em tempos de crises cada vez mais profundas, a vontade política genuína é a chave para acabar com esses abusos dos direitos humanos”, comentou. Soluções – O relatório propõe uma série de ações recomendadas que, tomadas em conjunto e rapidamente, contribuiriam muito para acabar com a escravidão moderna. Essas incluem: melhorar e fazer cumprir as leis e as inspeções do trabalho; pôr fim ao trabalho forçado imposto pelo Estado; fortalecer as medidas de combate ao trabalho forçado e ao tráfico de pessoas em empresas e cadeias de suprimentos; ampliar a proteção social e fortalecer as proteções legais, incluindo o aumento da idade legal do casamento para 18 anos sem exceção. Outras medidas incluem abordar o aumento do risco de tráfico de pessoas e de trabalho forçado para trabalhadores(as) migrantes, promover o recrutamento justo e ético e aumentar o apoio a mulheres, meninas e pessoas vulneráveis. Nota – A escravidão moderna, conforme definida no relatório, consiste em dois componentes principais: trabalho forçado e casamento forçado. Ambos se referem a situações de exploração nas quais uma pessoa não pode recusar ou deixar devido a ameaças, violência, coerção, engano ou abuso de poder. Trabalho forçado, conforme definido na Convenção sobre o Trabalho Forçado da OIT, 1930 (nº 29) , refere-se a “todo trabalho ou serviço que é exigido de qualquer pessoa sob a ameaça de qualquer penalidade e para o qual essa pessoa não se voluntaria. A “economia privada” inclui todas as formas de trabalho forçado, exceto o trabalho forçado imposto pelo Estado. *Crédito da imagem destacada: Legenda: Estimativas mostram que o trabalho e o casamento forçado aumentaram significativamente nos últimos cinco anos. Foto: © OIM #Envolverde

segunda-feira, 12 de setembro de 2022

Mata Atlântica é mais desmatada em anos eleitorais

A floresta removida pelo desmatamento motivado por eleições é antiga, estabelecida e floresta primária, cujos pequenos remanescentes podem ser cruciais para a conservação da biodiversidade dentro desse bioma Estudo publicado na revista Conservation Letters mostra que o desmatamento na Mata Atlântica cresce em anos de eleição. Os autores avaliaram 2253 municípios do bioma por meio dos mapas anuais de cobertura e uso da terra do projeto MapBiomas em anos eleitorais e não eleitorais entre 1991 e 2014. Os resultados mostram que o desmatamento cresce tanto em anos de eleições federais e estaduais, como municipais. O trabalho, inscrito na 4a Edição do Prêmio MapBiomas por uma das autoras, Patricia Ruggiero, da FEA/USP, foi um dos vencedores na categoria Geral. O estudo constatou que em anos de eleições federais e estaduais, o aumento no desmatamento ocorre em municípios que sofrem maior pressão por desmatamento. Já os municípios com menor pressão de desmatamento, os anos de eleições federais e estaduais têm pouco ou nenhum efeito: o aumento se dá em anos de eleições municipais. Para os municípios onde a pressão por desmatamento é intermediária, qualquer ano eleitoral, seja para cargos federais e estaduais como municipais, afetam as taxas de desmatamento. Os dados sugerem ainda que a floresta removida pelo desmatamento motivado por eleições é antiga, estabelecida e floresta primária, cujos pequenos remanescentes podem ser cruciais para a conservação da biodiversidade dentro desse bioma extremamente ameaçado. Comparado a anos não eleitorais, um ano de eleições apresenta uma área desmatada adicional de 3.652 ha em média, no caso de pleitos federais e estaduais. Quando a corrida é por cargos municipais, a média de área desmatada adicional é de 4.409 ha. Embora a magnitude deste impacto do ciclo eleitoral (por volta de 4.000 ha) seja pequena quando comparada com a perda média por ano (que é de 136.000 ha), esta perda de floresta é suficiente para causar danos reais, pois pode anular os ganhos das políticas de conservação. Os autores citam como exemplo programas de pagamento por serviços ecossistêmicos, que empregam vários gerentes e técnicos para engajar proprietários de terra a mudar suas decisões em relação à conservação. Esses pagamentos em dois dos municípios da região da Mata Atlântica contribuíram com 3,74 ha/ano/município após 5 anos de dedicação. Ou seja, ao longo de cinco anos, esses ganhos podem ser cancelados por um ciclo eleitoral municipal e um federal e estadual. O estudo também descobriu que o aumento das taxas de desmatamento é maior durante os anos de eleições federais e estaduais para os casos em que há alinhamento estadual-federal, isto é, quando o partido do governador pertence à coligação presidencial em exercício. Em menor escala, o aumento do desmatamento vinculado a eleições é maior em municípios com menor pressão de desmatamento quando o prefeito e o governador pertencem ao mesmo partido. Quando há vínculo entre prefeito e governador em anos de eleições federais e estaduais, bem como municipais, o alinhamento também eleva o desmatamento. Uma relação entre eleições municipais e desmatamento já havia sido demonstrada para a região amazônica em estudo publicado no Journal of Environmental Economics and Management. O trabalho mostrou que o desmatamento aumentou de 8% a 10% nos anos de eleições municipais quando os prefeitos em exercício concorreram à reeleição e que o desmatamento aumentou significativamente, até 40%–60%, para casos em que o titular em exercício teve seu mandato associado a irregularidades fiscais significativas documentadas por auditorias. Os autores acreditam que tais ciclos políticos de desmatamento podem ser reduzidos por meio do monitoramento em tempo real das florestas e da disponibilização ampla de dados aos eleitores durante as campanhas eleitorais. A Mata Atlântica apresenta uma ocupação humana densa, que modificou radicalmente o ambiente natural desde a colonização, deixando a cobertura florestal abaixo de 26%, segundo dados da SOS Mata Atlântica, e com limitada expansão agrícola em andamento. A região também possui algumas das legislações florestais mais abrangentes do mundo e as instituições estatais têm recursos financeiros e técnicos para implementar e fazer cumprir políticas e legislação ambiental, bem como gerenciar áreas protegidas em nível estadual. Os autores advertem que o Brasil está passando por uma degradação de suas políticas e instituições ambientais e sociais incluindo todo o rebaixamento, downsizing e desclassificação de áreas protegidas, redução dos requisitos de licença ambiental, desmantelamento da fiscalização e sinalizando aos atores do setor público e privado que desmatamento é permitido. Com mudanças políticas e instabilidade, o Brasil pode estar voltando para a situação em que os ciclos de desmatamento político gerarão grandes números de perda de florestas tropicais. Mata Atlântica - Bioma / Estados / Municípios Mata Atlântica – Bioma / Estados / Municípios, in Election cycles affect deforestation within Brazil’s Atlantic Forest, https://doi.org/10.1111/conl.12818 Sobre MapBiomas: iniciativa multi-institucional, que envolve universidades, ONGs e empresas de tecnologia, focada em monitorar as transformações na cobertura e no uso da terra no Brasil, para buscar a conservação e o manejo sustentável dos recursos naturais, como forma de combate às mudanças climáticas. in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 09/08/2022

sábado, 10 de setembro de 2022

Agropecuária impulsiona mais de 90% do desmatamento mundial

O estudo deixa claro que um punhado de commodities é responsável pela maior parte do desmatamento ligado à produção em terras agrícolas Parar o desmatamento exigirá uma mudança radical na forma como o problema é abordado. Para serem eficazes, as medidas precisam contemplar tanto os papéis diretos quanto indiretos da agropecuária. Um novo estudo publicado hoje na proeminente revista Science aponta que entre 90% e 99% de todo o desmatamento nos trópicos é causado direta ou indiretamente pela agropecuária. No entanto, apenas algo entre metade e dois terços disso de fato resulta em expansão da produção agrícola nas terras desmatadas. O estudo é uma colaboração entre muitos dos principais especialistas em desmatamento do mundo, e fornece uma nova síntese das relações entre desmatamento e agropecuária. Após uma análise dos melhores dados disponíveis, o novo estudo mostra que a quantidade de desmatamento tropical causado pela agropecuária é superior a 80%, o número mais citado na última década. Learn more Isso ocorre em um momento crucial após a Declaração de Glasgow sobre Florestas na COP26 e antes da Conferência de Biodiversidade da ONU (COP15) no final deste ano. Os resultados podem ajudar a garantir que os esforços urgentes para combater o desmatamento sejam guiados e avaliados por uma base de evidências adequada ao propósito. “Nossa análise deixa claro que entre 90 e 99 por cento de todo o desmatamento nos trópicos é causado direta ou indiretamente pela agropecuária, mas o que nos surpreendeu foi que uma parcela comparativamente menor do desmatamento – entre 45 e 65 por cento – resulta na expansão da produção agrícola real nas terras desmatadas. Essa descoberta é de profunda importância para criar medidas eficazes para reduzir o desmatamento e promover o desenvolvimento rural sustentável”, diz Florence Pendrill, principal autora do estudo na Chalmers University of Technology, na Suécia. O fato de a agropecuária ser o principal motor de desmatamento tropical não é novidade. Entretanto, as estimativas anteriores de quanta floresta foi convertida em terras agrícolas nos trópicos variavam muito – de 4,3 a 9,6 milhões de hectares por ano entre 2011 e 2015. As novas descobertas neste estudo reduzem esse intervalo para 6,4 a 8,8 milhões de hectares por ano, e ajudam a explicar a incerteza nos números. “Uma grande peça do quebra-cabeça é quanto desmatamento é ‘para nada‘”, observou o Prof. Patrick Meyfroidt da Universidade Católica de Louvain, na Bélgica. “Embora a agropecuária seja o motor final, as florestas e outros ecossistemas são frequentemente desmatados para especulação de terras que vieram a ser usadas, projetos que foram abandonados ou mal concebidos, terras que se mostraram impróprias para o cultivo, bem como devido a incêndios que se espalharam para florestas vizinhas a áreas desmatadas”. Compreender a importância desses fatores é fundamental para os formuladores de políticas – seja em mercados consumidores, como a legislação de devida diligência, recentemente proposta pela União Europeia para “produtos livres de desmatamento”, sejam iniciativas do setor privado para commodities específicas, ou ainda para políticas de desenvolvimento rural em países produtores. O estudo deixa claro que um punhado de commodities é responsável pela maior parte do desmatamento ligado à produção em terras agrícolas. Mais da metade está ligada apenas a pastagens, soja e óleo de palma (dendê). Nesse sentido, o estudo também chama a atenção para as falhas de iniciativas setoriais específicas, geralmente limitadas para lidar com os impactos indiretos. “Iniciativas setoriais para combater o desmatamento podem ter um valor inestimável, e novas medidas para proibir a importação de commodities ligadas ao desmatamento nos mercados consumidores – como as que estão em negociação na UE, Reino Unido e EUA – representam um grande passo para além dos esforços quase todos voluntários até agora para combater o desmatamento‘, disse o Dr. Toby Gardner do Instituto do Meio Ambiente de Estocolmo e Diretor da iniciativa Trase, de transparência para cadeia de fornecimento. “No entanto, como mostra o nosso estudo, fortalecer a governança florestal e do uso da terra nos países produtores deve ser o objetivo final de qualquer resposta política. As cadeias de fornecimento e as medidas de sustentabilidade tomadas pelos consumidores precisam ser concebidas de maneira que também lidem com as formas indiretas através das quais a agropecuária está ligada ao desmatamento. Eles precisam levar a melhorias no desenvolvimento rural sustentável, caso contrário as taxas de desmatamento permanecerão teimosamente altas em muitos lugares”, acrescentou o Dr. Gardner. Os resultados do estudo apontam para a necessidade de as intervenções nas cadeias de fornecimento irem além do foco em commodities específicas e em mera gestão de risco. Elas precisam ir além e ajudar também a impulsionar parcerias entre produtores e mercados consumidores e governos. Isso precisa incluir fortes incentivos para tornar a agropecuária sustentável mais economicamente atraente ao mesmo tempo em que desincentiva a conversão de vegetação nativa e apoia os pequenos produtores mais vulneráveis. Os autores dizem que isso deve incluir um foco mais forte nos mercados domésticos, muitas vezes os maiores impulsionadores da demanda por commodities, como o caso da carne bovina no Brasil, além de um fortalecimento de parcerias entre empresas, governos e sociedade civil nas jurisdições produtoras. Por fim, o estudo destaca três lacunas importantes onde mais evidências são necessárias para orientar os esforços de redução do desmatamento; “A primeira é que, sem uma base de dados global e temporalmente consistente sobre desmatamento, não podemos ter certeza sobre as tendências gerais de conversão. A segunda é que, com exceção do dendê e da soja, carecemos de dados sobre a cobertura e expansão de commodities específicas para saber quais são mais importantes. A nossa compreensão global sobre pastagens é das que mais precisam de melhoria. A terceira é que sabemos comparativamente muito pouco sobre florestas tropicais secas e sobre as florestas na África”, disse o professor Martin Persson, da Chalmers University of Technology. “O que é mais preocupante, dada a urgência da crise”, acrescentou o Prof. Persson, “é que cada uma dessas lacunas de evidência impõe barreiras significativas à nossa capacidade de reduzir o desmatamento da maneira mais eficaz – sabendo onde os problemas estão concentrados, ou compreender o sucesso dos esforços até agora”. Apesar dessas lacunas de conhecimento e incertezas remanescentes, o estudo enfatiza que uma mudança radical nos esforços é urgentemente necessária para combater e conter efetivamente o desmatamento, assim como para evitar a conversão de outros ecossistemas e promover o desenvolvimento rural sustentável. A Declaração de Glasgow sobre Florestas reconheceu a importância de abordar conjuntamente as crises do clima e da perda de biodiversidade, e estabeleceu um novo nível de ambição para combater o desmatamento e promover a agropecuária sustentável. Os autores deste novo estudo enfatizam que é fundamental que os países e seus formuladores de políticas comecem a priorizar esses objetivos. Notas: Disentangling the numbers behind agriculture-driven tropical deforestation https://doi.org/10.1126/science.abm9267 O estudo é de autoria de: Florence Pendrill, Toby A. Gardner, Patrick Meyfroidt, U.Martin Persson, Justin Adams, Tasso Azevedo, Mairon G. Bastos Lima, MatthiasBaumann,PhilipG.Curtis,VeroniqueDeSy,RachaelGarrett,JavierGodar,Elizabeth D. Goldman, Matthew C. Hansen, Robert Heilmayr, Martin Herold, Tobias Kuemmerle, Michael J. Lathuillière, Vivian Ribeiro, Alexandra Tyukavina, Mikaela J. Weisse, ChrisWest A agricultura contribui para o desmatamento de várias maneiras que muitas vezes interagem. A agricultura contribui para o desmatamento de várias maneiras que muitas vezes interagem. A maior parte do desmatamento tropical ocorre em paisagens onde a agricultura é o principal fator de perda florestal. Parte desse desmatamento causado pela agricultura resulta na produção agrícola (esquerda) atendendo à demanda doméstica e de exportação de várias commodities agrícolas. No entanto, o desmatamento pela agricultura também ocorre sem expansão de terras agrícolas manejadas por meio de vários mecanismos (direita), o que pode levar ao abandono ou semi-abandono da área desmatada. Registros agrícolas incompletos também explicam parte desse desmatamento. in EcoDebate, ISSN 2446-9394

Avanço do desmatamento aumenta o calor e a seca no Cerrado

Artigo demonstra que mudança no uso da terra no Cerrado ameaça clima regional e disponibilidade de água para agricultura e ecossistemas. A conversão de áreas nativas do Cerrado para pastagens e agricultura já tornou o clima na região quase 1°C mais quente e 10% mais seco. Os dados foram divulgados em artigo publicado na revista científica Global Change Biology. O estudo abordou impactos históricos e futuros da expansão agrícola sobre o clima regional do Cerrado, um hotspot global de biodiversidade. O trabalho foi liderado por pesquisadores da UnB (Universidade de Brasília), em colaboração com outras universidades e instituições de pesquisa tais como o IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia), a UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), a UFRA (Universidade Federal Rural da Amazônia) e o Woodwell Climate Research Center. Os resultados mostraram que não só a perda de florestas impacta o clima, mas também a perda de vegetação savânica — a mais abundante no bioma e uma das mais ameaçadas — e campestre. Essas duas últimas formações vegetais são menos representadas em estudos climáticos, apesar de exercerem funções importantes para a regulação do clima. O estudo destaca que a conservação do Cerrado e sua biodiversidade tem importância vital para a estabilidade climática e hidrológica local e regional. Os efeitos do desmatamento podem se estender para outras regiões que dependem do Cerrado para a provisão de água, como o Pantanal e a bacia do rio São Francisco, que abastece boa parte do Nordeste. Para a modelagem, o artigo utilizou os dados históricos de cobertura e uso da terra do MapBiomas, onde o IPAM é a instituição responsável pelo mapeamento pelos tipos de vegetação nativa do Cerrado, entre eles formações florestais, savânicas, campestres e áreas úmidas. Em agosto foi lançada a Coleção 7, revelando que de 1985 a 2021, no bioma, a vegetação savânica perdeu 25% da cobertura original, 15% das formações florestais e 20% das campestres. “Ainda temos 53% da vegetação nativa remanescente no Cerrado, mas o desmatamento no bioma ainda segue e tem crescido nos últimos três anos, precisamos inserir o bioma nas políticas climáticas e de combate ao desmatamento para garantir nossa resiliência climática”, afirma a pesquisadora no IPAM e coordenadora científica do MapBiomas, Julia Shimbo. As políticas ambientais adotadas hoje irão definir o futuro climático da região Considerando possíveis reflexos das políticas ambientais, os pesquisadores modelaram três cenários futuros para o clima do Cerrado. O primeiro, chamado “Colapso do Cerrado”, modelou o clima com a continuação do desmatamento legal e ilegal na região até 2050, sem políticas de controle. Um segundo cenário intermediário avaliou apenas o desmatamento permitido por lei — em um total de 28 milhões de hectares. Um terceiro cenário, mais positivo, modelou o que aconteceria com o clima da região sob uma política de desmatamento zero combinada com a recuperação de 5 milhões de hectares de áreas em propriedades privadas degradadas ilegalmente, que por lei teriam que ser preservadas. Os resultados mostraram calor severo e seca até meados do século, se o desmatamento continuar. O aumento de temperatura foi de 0,7°C no pior cenário e de 0,3°C no cenário intermediário. A estimativa é referente apenas ao desmatamento na região e não inclui o aquecimento global esperado de mais de 1°C durante o período. Já a política de desmatamento zero e restauração de áreas desmatadas ilegalmente é um passo no sentido oposto, para evitar o agravamento da crise climática. Porém, não é suficiente para contrabalançar as grandes transformações em curso. Para Ariane Rodrigues, pesquisadora da Universidade de Brasília e primeira autora do estudo, é urgente colocar em prática metas mais ambiciosas de conservação, restauração e uso sustentável dos ecossistemas do Cerrado. “Os nossos resultados mostram que seguir o curso atual pode trazer consequências desastrosas para o clima, o regime de chuvas, a produção de alimentos e a biodiversidade, se estendendo além dos limites do bioma. Daí a importância de incluir o Cerrado em acordos climáticos internacionais e negociações para eliminar o desmatamento das cadeias de produção agrícola”, afirmou. Referência: Rodrigues, A. A., Macedo, M. N., Silvério, D. V., Maracahipes, L., Coe, M. T., Brando, P. M., Shimbo, J. Z., Rajão, R., Soares-Filho, B., & Bustamante, M. M. C. (2022). Cerrado deforestation threatens regional climate and water availability for agriculture and ecosystems. Global Change Biology, 00, 1– 16. https://doi.org/10.1111/gcb.16386 Fonte: IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) in EcoDebate, ISSN 2446-9394

Risco de inflexão climática aumenta com o aquecimento de 1,5°C

Vários pontos de inflexão climáticos podem ser desencadeados se a temperatura global subir além de 1,5°C acima dos níveis pré-industriais, de acordo com uma nova análise importante publicada na revista Science. Mesmo com os níveis atuais de aquecimento global, o mundo já corre o risco de passar por cinco perigosos pontos de inflexão climáticos, e os riscos aumentam a cada décimo de grau de aquecimento adicional. Stockholms universitet* Uma equipe de pesquisa internacional sintetizou evidências de pontos de inflexão, seus limites de temperatura, escalas de tempo e impactos a partir de uma revisão abrangente de mais de 200 artigos publicados desde 2008, quando os pontos de inflexão climáticos foram rigorosamente definidos. Eles aumentaram a lista de pontos de inflexão em potencial de nove para dezesseis. A pesquisa, publicada antes de uma grande conferência “Exceeding 1.5°C global warming could trigger multiple climate tipping points” na Universidade de Exeter (12 a 14 de setembro), conclui que as emissões humanas já empurraram a Terra para a zona de perigo dos pontos de inflexão. Cinco dos dezesseis podem ser desencadeados nas temperaturas de hoje: os mantos de gelo da Groenlândia e da Antártida Ocidental, degelo abrupto generalizado do permafrost, colapso da convecção no Mar de Labrador e morte maciça de recifes de corais tropicais. Quatro deles se movem de possíveis eventos para provavelmente em 1,5°C de aquecimento global, com mais cinco se tornando possíveis em torno desse nível de aquecimento. O autor principal, David Armstrong McKay, do Centro de Resiliência de Estocolmo, Universidade de Exeter, e da Comissão da Terra diz: A circulação do Atlântico revirando também.” “O mundo já corre o risco de alguns pontos de inflexão. À medida que as temperaturas globais aumentam ainda mais, mais pontos de inflexão se tornam possíveis.” ele adiciona. “A chance de cruzar pontos de inflexão pode ser reduzida cortando rapidamente as emissões de gases de efeito estufa, começando imediatamente. O Sexto Relatório de Avaliação do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), afirmou que os riscos de desencadear pontos de inflexão climáticos se tornam altos em cerca de 2°C acima das temperaturas pré-industriais e muito altos em 2,5-4°C. Esta nova análise indica que a Terra já pode ter deixado um estado climático ‘seguro’ quando as temperaturas excederam aproximadamente 1°C de aquecimento. Uma conclusão da pesquisa é, portanto, que mesmo a meta do Acordo de Paris das Nações Unidas de limitar o aquecimento a bem abaixo de 2°C e preferencialmente 1,5°C não é suficiente para evitar totalmente as mudanças climáticas perigosas. De acordo com a avaliação, a probabilidade do ponto de inflexão aumenta acentuadamente na ‘faixa de Paris’ de 1,5-2°C de aquecimento, com riscos ainda maiores além de 2°C. O estudo fornece forte apoio científico ao Acordo de Paris e aos esforços associados para limitar o aquecimento global a 1,5°C, porque mostra que o risco de pontos de inflexão aumenta além desse nível. Para ter 50% de chance de atingir 1,5°C e, assim, limitar os riscos do ponto de inflexão, as emissões globais de gases de efeito estufa devem ser reduzidas pela metade até 2030, atingindo zero líquido em 2050. O coautor Johan Rockström, co-presidente da Comissão da Terra e diretor do Instituto Potsdam para Pesquisa de Impacto Climático diz: “O mundo está caminhando para 2-3°C de aquecimento global. Isso coloca a Terra no caminho para cruzar vários pontos de inflexão perigosos que serão desastrosos para as pessoas em todo o mundo. Para manter as condições de vida na Terra, proteger as pessoas dos extremos crescentes e permitir sociedades estáveis, devemos fazer todo o possível para evitar cruzar pontos de inflexão. Cada décimo de grau conta.” O coautor Tim Lenton, diretor do Global Systems Institute da Universidade de Exeter e membro da Comissão da Terra, diz: “Desde que avaliei os pontos de inflexão climáticos pela primeira vez em 2008, a lista cresceu e nossa avaliação do risco que eles representam aumentou dramaticamente.” “Nosso novo trabalho fornece evidências convincentes de que o mundo deve acelerar radicalmente a descarbonização da economia para limitar o risco de cruzar os pontos de inflexão climáticos”. “Para conseguir isso, agora precisamos desencadear pontos de inflexão sociais positivos que acelerem a transformação para um futuro de energia limpa.” “Também podemos ter que nos adaptar para lidar com pontos de inflexão climáticos que não conseguimos evitar e apoiar aqueles que podem sofrer perdas e danos não seguráveis”, acrescenta Lenton. Vasculhando dados paleoclimáticos, observações atuais e os resultados de modelos climáticos, a equipe internacional concluiu que 16 grandes sistemas biofísicos envolvidos na regulação do clima da Terra (os chamados ‘elementos de inflexão’) têm o potencial de cruzar pontos de inflexão onde a mudança se torna autossustentável . Isso significa que, mesmo que a temperatura pare de subir, uma vez que a camada de gelo, oceano ou floresta tropical tenha passado de um ponto de inflexão, ela continuará mudando para um novo estado. A duração da transição varia de décadas a milhares de anos, dependendo do sistema. Por exemplo, os ecossistemas e os padrões de circulação atmosférica podem mudar rapidamente, enquanto o colapso do manto de gelo é mais lento, mas leva ao inevitável aumento do nível do mar de vários metros. Os pesquisadores categorizaram os elementos de tombamento em nove sistemas que afetam todo o sistema da Terra, como a Antártida e a floresta amazônica, e outros sete sistemas que, se tombados, teriam profundas consequências regionais. Estes últimos incluem a monção da África Ocidental e a morte da maioria dos recifes de coral ao redor do equador. Vários novos elementos de tombamento, como a convecção do Mar de Labrador e as bacias subglaciais da Antártida Oriental, foram adicionados em comparação com a avaliação de 2008, enquanto o gelo marinho do verão do Ártico e a Oscilação Sul do El Niño (ENSO) foram removidos por falta de evidência de dinâmica de tombamento. A coautora Ricarda Winkelmann, pesquisadora do Instituto Potsdam para Pesquisa de Impacto Climático e membro da Comissão da Terra, diz: “É importante ressaltar que muitos elementos de inclinação no sistema da Terra estão interligados, tornando os pontos de inflexão em cascata uma séria preocupação adicional. Na verdade, as interações podem diminuir os limites críticos de temperatura além dos quais os elementos de tombamento individuais começam a se desestabilizar a longo prazo.” Armstrong McKay diz: “Demos o primeiro passo para atualizar o mundo sobre os riscos do ponto de inflexão. Há uma necessidade urgente de uma análise internacional mais profunda, especialmente nas interações dos elementos de inclinação, para a qual a Comissão da Terra está iniciando um Projeto de Intercomparação do Modelo de Pontos de Virada (“TIPMIP”).” A localização dos elementos climáticos na criosfera (azul), biosfera (verde) e oceano/atmosfera (laranja) e os níveis de aquecimento global em que seus pontos de virada provavelmente serão acionados A localização dos elementos climáticos na criosfera (azul), biosfera (verde) e oceano/atmosfera (laranja) e os níveis de aquecimento global em que seus pontos de virada provavelmente serão acionados. Os pinos são coloridos de acordo com nossa estimativa de limiar de aquecimento global central abaixo de 2°C, ou seja, dentro da faixa do Acordo de Paris (laranja claro, círculos); entre 2 e 4°C, ou seja, acessível com as políticas atuais (laranja, diamantes); e 4°C e acima (vermelho, triângulos). Exceeding 1.5°C global warming could trigger multiple climate tipping points David I. Armstrong McKay, Arie Staal, Jesse F. Abrams, Ricarda Winkelmann, Boris Sakschewski, Sina Loriani, Ingo Fetzer – Science – 9 Sep 2022 – Vol 377, Issue 6611 – DOI: 10.1126/science.abn7950 Henrique Cortez *, tradução e edição. in EcoDebate, ISSN 2446-9394