segunda-feira, 31 de maio de 2021

Invasões e ataques nos territórios indígenas escancaram avanço do garimpo ilegal

O professor Pedro Luiz Côrtes explica que os principais impactos da prática ilegal do garimpo aparecem ambiental e socialmente Jornal da USP no Ar / Rádio USP No fim de maio, territórios indígenas munduruku registraram ataques de garimpeiros ilegais. A casa de uma liderança indígena foi incendiada no município de Jacareacanga, no Pará. Os ataques acabam fazendo parte de um contexto de expansão do garimpo ilegal no Brasil, cujos impactos são associados a conflitos com indígenas e órgãos do governo, além da devastação ambiental. “Esses empreendimentos vêm assumindo um tamanho comparado ao de atividades industriais de mineração. Como eles são ilegais, eles mudam cursos de rios, promovem o desmatamento, sem que haja a necessária recomposição do terreno ou sem que haja a necessária autorização para que isso seja feito”, aponta o professor Pedro Luiz Côrtes, do Programa de Pós-Graduação em Ciência Ambiental do Instituto de Energia e Ambiente (IEE) da USP, lembrando também da deposição de mercúrio nos rios, o que pode gerar a contaminação de populações que ingerem esses peixes como alimento. Do ponto de vista territorial, a expansão do garimpo ilegal pode promover conflitos entre os criminosos e órgãos como a Polícia Federal e a polícia do Ibama. Soma-se a isso, o próprio contrabando que caracteriza a prática ilegal do garimpo: “Tem um problema relacionado à evasão de recursos naturais do ouro por meio do contrabando. Como é uma atividade ilegal, os garimpeiros têm uma dificuldade de legalizar essa comercialização, porque eles não conseguem provar que eles têm uma autorização de lavra, então isso vai para um mercado paralelo e acaba incentivando muito o contrabando”, explica o professor. Diante desse contexto, é possível analisar os fatores que contribuem para a perpetuação desse problema: “Há uma tolerância por meio de corrupção. Então há pessoas que se beneficiam com isso e também há políticos locais que acabam incentivando esse tipo de ação, porque eles acabam também se beneficiando, recebendo recursos ou por vezes até financiando esse tipo de atividade, não é uma atividade que seja de baixo custo não”. Tocador de áudio 00:00 00:00 Use as setas para cima ou para baixo para aumentar ou diminuir o volume. EcoDebate, ISSN 2446-9394, 30/05/2021

terça-feira, 25 de maio de 2021

Levantamento avalia prevalência de transtornos mentais durante a pandemia entre pessoas de 50 a 80 anos

Maria Fernanda Ziegler | Agência FAPESP A pandemia de COVID-19 e as situações de estresse e tristeza a ela associadas não aumentaram a prevalência de depressão e ansiedade entre participantes do Estudo Longitudinal de Saúde do Adulto – ELSA Brasil residentes na cidade de São Paulo. O ELSA Brasil monitora a saúde de 15 mil funcionários públicos de seis universidades e centros de pesquisa do país desde 2008. O estudo sobre saúde mental na pandemia foi realizado na capital paulista, com 2.117 funcionários e aposentados da Universidade de São Paulo (USP) que integram o estudo nacional e têm idades entre 50 e 80 anos. O levantamento tem apoio da FAPESP e visa comparar o estado mental dessa população antes e durante a pandemia, tanto em indivíduos saudáveis quanto em portadores de ansiedade e depressão. “A notícia é positiva, mas é preciso considerar que a cidade de São Paulo tem um dos índices de transtornos psiquiátricos mais altos do mundo, afetando cerca de 20% da população. Estudos semelhantes ao nosso realizados no Reino Unido, por exemplo, mostram 16% de prevalência. Portanto, pode ter ocorrido o que chamamos de efeito teto: a prevalência já é tão alta que não aumenta mais”, afirma André Brunoni , professor da Faculdade de Medicina (FM-USP) e coordenador da pesquisa. De acordo com os resultados, publicados na revista Psychological Medicine , houve estabilidade no diagnóstico ao longo de 2020. De modo geral, a taxa de transtorno mental oscilou entre 23,5% e 21,1%. A de depressão, especificamente, caiu de 3,3% para 2,8%. Já a de transtornos de ansiedade variou entre 13,8% e 8%. Nos três períodos do ano em que foram coletadas informações sobre a saúde mental dos participantes – maio a julho, julho a setembro, outubro a dezembro –, observou-se também estabilização ou um leve declínio dos sintomas de depressão, ansiedade e estresse. “É claro que todo mundo está mais triste e preocupado na situação atual. Tanto que, quando aplicamos o nosso questionário, havia 30% de pessoas descrevendo estar com depressão ou sintomas de ansiedade. No entanto, isso era uma sensação. Com os diagnósticos, mostrou-se uma estabilidade ou até mesmo uma redução. O mesmo ocorreu com os sintomas de ansiedade ou depressão”, explica. Segundo Brunoni, para que um diagnóstico de depressão seja fechado por um psiquiatra, o paciente precisa apresentar por mais de dois meses dois sintomas maiores do transtorno (por exemplo, tristeza e falta de prazer em fazer atividades que antes ele gostava) e outros cinco sintomas menores de um total de nove – como ansiedade, variação do sono, ganho ou perda de peso, pensamento de menos valia e alterações da libido. Os mais vulneráveis Os dados descritos no artigo indicam que o risco de transtornos mentais foi maior entre os participantes mais jovens e os socialmente mais vulneráveis: mulheres, pessoas sem nível superior de ensino e de etnias não branca. “O único fator de risco que não se encaixa entre os clássicos de vulnerabilidade na nossa sociedade foi a questão etária. No estudo, os mais novos, ou seja, os com menos de 60 anos, tiveram maior risco de desenvolver transtornos mentais. Isso provavelmente ocorreu justamente pelo fato de os idosos estarem mais protegidos no contexto de pandemia e não precisarem ir presencialmente para o trabalho mesmo depois da flexibilização das quarentenas”, explica Brunoni à Agência FAPESP. Outro aspecto observado no estudo, e que será mais aprofundado com novas análises, é a questão da intensificação da dupla jornada das mulheres durante a pandemia. “Entre os respondentes com crianças ou adolescentes em casa, não houve aumento de transtornos mentais entre os homens. O mesmo não aconteceu entre as mulheres. Queremos pesquisar agora o impacto da dupla jornada na vida dessas participantes”, conta. Alguns fatores importantes para a manutenção da saúde mental mesmo em situações de forte estresse ficaram evidentes, por exemplo, a estabilidade financeira. A população pesquisada é mais velha (em média 60 anos), mas por serem funcionários públicos têm maior estabilidade e proteção social quando comparados à população em geral. “Mas acreditamos que a idade tenha contribuído mais do que a seguridade para o não aumento de transtornos mentais. É provável que um estudo realizado nos nossos moldes com uma população adolescente observasse aumento no diagnóstico de transtornos mentais”, afirma o pesquisador. Isso porque, ressalta Brunoni, o modelo de transtorno mental depende de interação genética (maior vulnerabilidade genética e biológica) e ambiental (estresse externo). “O mais comum é que o pico de desenvolvimento de transtorno mental ocorra por volta dos 20 ou 30 anos, quando a pessoa se expõe mais ao ambiente. Depois desse período, isso vai diminuindo”, ressalta. No estudo, os participantes tinham entre 50 e 80 anos e cerca de 25% já possuiam diagnóstico de transtorno mental. “Se olhar para trás, são pessoas que já passaram por ditadura, hiperinflação, Plano Collor e, provavelmente, muitas perdas na vida. São tantos estímulos desgastantes que, talvez, aquelas pessoas com predisposição genética haviam desenvolvido transtorno mental”, diz. A solidão dos idosos durante a pandemia foi outro aspecto analisado e que será aprofundado em futuras análises. “Muitos relataram que a tecnologia foi uma grande aliada para driblar a solidão e manter os laços com a família e amigos, mesmo que apenas virtualmente. Isso foi importante, pois pessoas que relatam maior dificuldade interpessoal têm risco aumentado de desenvolver sintomas ou transtornos”, conclui. O artigo Prevalence and risk factors of psychiatric symptoms and diagnoses before and during the COVID-19 pandemic: findings from the ELSA-Brasil COVID-19 mental health cohort pode ser lido em www.cambridge.org/core/journals/psychological-medicine/article/prevalence-and-risk-factors-of-psychiatric-symptoms-and-diagnoses-before-and-during-the-covid19-pandemic-findings-from-the-elsabrasil-covid19-mental-health-cohort/CD2CA7F817D2C631F919FA1562BD97C2. DOI: https://doi.org/10.1017/S0033291721001719 Este texto foi originalmente publicado por Agência FAPESP de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND. Leia o original aqui. in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 25/05/2021

EcoDebate - Edição 3.669 de 25 / maio/ 2021

Desejamos a todos(as) um bom dia e uma boa leitura Principais impactos que a desnutrição acarreta para eficiência do sistema imunológico: uma visão fisiológica de um problema multidimensional Panorama dos resíduos sólidos no Brasil 2010-2019 Agricultores familiares utilizam técnicas de manejo sustentável na Amazônia PL 3729 – Projeto que altera o Licenciamento Ambiental é inconstitucional, avalia especialista Descolonizando a ecologia – Como adotar práticas que tornem a ciência mais justa Levantamento avalia prevalência de transtornos mentais durante a pandemia entre pessoas de 50 a 80 anos Mudanças Climáticas: Infertilidade térmica representa uma ameaça para a biodiversidade

quinta-feira, 20 de maio de 2021

Amazônia – Desmatamento causado por mineração ilegal aumenta 90% entre 2017 e 2020

Por Júlio Bernardes, Jornal da USP A taxa de desmatamento ilegal em áreas de mineração aumentou mais de 90% na Amazônia entre 2017 e 2020, revela artigo escrito por pesquisadores da Escola Politécnica (Poli) da USP e publicado na revista Mudança Ambiental Regional. De acordo com o trabalho, o avanço da mineração clandestina, especialmente de ouro, além de desmatar áreas de floresta que não são recuperadas, contamina os rios próximos, afeta a vida aquática e causa riscos à saúde das comunidades ribeirinhas e populações indígenas. Os pesquisadores recomendam o rastreio da produção mineral por meio de certificação, ações locais e nacionais para controle do desmatamento, e alertam para os riscos da simplificação da legislação ambiental. “O artigo procura entender tendências de avanço no desmatamento da mineração nos últimos anos, analisando tanto as taxas anuais em áreas de mineração industrial como alertas anuais de desmatamento resultantes de mineração ilegal”, conta a pesquisadora Juliana Siqueira-Gay, uma das autoras do artigo. O trabalho é parte de uma pesquisa de doutorado que busca investigar os impactos da mineração das florestas. “Os motivos que influenciam no aumento da mineração ilegal, principalmente de ouro, vão desde fatores globais, como a demanda global pelo metal, a fatores locais, como incentivos para expansão das atividades garimpeiras.” O artigo aponta que a taxa de desmatamento ilegal cresceu mais de 90% de 2017 a 2020, atingindo mais de 100 quilômetros quadrados (km²) no ano de 2020 em comparação com 52 km² em 2017. “A mineração ilegal opera sem compromissos ou regulações ambientais, portanto, não há responsabilização pelos danos causados por essas atividades. O desmatamento e degradação florestal resultantes dessas atividades ocorrem desenfreadamente, sem qualquer comprometimento com a recuperação das áreas afetadas”, relata Juliana. “Além da perda de floresta em si, corpos d’água são contaminados, afetando a vida aquática e ameaçando a saúde de comunidades ribeirinhas e povos indígenas que vivem nas proximidades dessas áreas.” De acordo com a pesquisadora, para a implantação e operação de projetos de mineração industrial são necessárias licenças ambientais, para as quais são elaborados estudos e são propostas medidas mitigadoras para os impactos significativos. “Dessa forma, busca-se evitar, minimizar e compensar os impactos resultantes dessas atividades”, relata. As licenças são emitidas pelo órgão ambiental responsável que faz o acompanhamento do processo de licenciamento”, relata. Legislação ambiental “Atualmente há uma tendência de simplificação da legislação ambiental que vai justamente na contramão de todas as necessidades atuais de devida avaliação das consequências ambientais dos projetos”, alerta Juliana. “A discussão no Congresso do Projeto de Lei 3729, que propõe o fim do licenciamento ambiental, é uma das tentativas de extinguir um dos principais instrumentos da Política Nacional do Meio Ambiente.” O artigo propõe dois caminhos para o controle do desmatamento decorrente da mineração ilegal, explica a pesquisadora. “Primeiramente, evidenciamos a necessidade de rastreamento do ouro por meio de esquemas de certificação. A rastreabilidade permite que a origem do ouro seja certificada e apenas ouro produzido de forma lícita seja comercializado”, destaca. “Assim, a pressão de compradores para consumo de produtos que tenham sido produzidos de acordo com padrões sociais e ambientais tem potencial de minimizar e coibir o comércio de ouro originado de garimpos ilegais.” Área de garimpo antigo abandonada no Jari Área de garimpo antigo abandonada no Jari – Foto: Juliana Siqueira-Gay Além das iniciativas relacionadas especificamente ao comércio de ouro, estratégias locais e nacionais para controle do desmatamento precisam ser fortalecidas. “Estas estratégias, como a criação e manejo de áreas protegidas bem como criação e implementação de instrumentos regulatórios, têm papel fundamental para controle do desmatamento na Amazônia”, conclui a pesquisadora. Juliana relata que, embora o artigo trate da Amazônia brasileira como um todo, para a pesquisa de doutorado houve visitas em área ameaçada pela mineração ilegal na região do Jari, nos Estados do Amapá e do Pará. “Apesar dos locais de mineração visitados não estarem ativos, o Jari é uma região com altíssimos valores de biodiversidade e com diversas áreas protegidas que permanecem ameaçadas caso a mineração avance na região”, afirma. O artigo foi elaborado por Juliana Siqueira-Gay, doutoranda do Programa de Pós-Graduação de Engenharia Mineral da Poli, com supervisão do professor Luis Enrique Sánchez, do Departamento de Engenharia de Minas e de Petróleo da Poli. in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 20/05/2021

Mundo cumpriu meta de áreas protegidas em terra, mas a qualidade das áreas precisa melhorar

O Relatório Planeta Protegido PNUMA/IUCN aponta grande progresso desde 2010, com mais de 22 milhões de km2 de terra e 28 milhões de km2 de oceano protegidos ou conservados e 42% da cobertura atual agregada na última década; mas um terço das principais áreas de biodiversidade não possui qualquer cobertura, e menos de 8% da terra está protegida e conectada. Nairóbi, 19 de maio de 2021 – A comunidade internacional fez grandes progressos em direção à meta global de cobertura de áreas protegidas e conservadas, mas ficou muito aquém de seus compromissos com a qualidade dessas áreas, de acordo com um novo relatório do Centro de Monitoramento da Conservação Mundial do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (UNEP-WCMC) e da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), produzido com o apoio da National Geographic Society. A última edição bienal do relatório Planeta Protegido é a avaliação final da Meta 11 de Aichi – a meta global de 10 anos de áreas protegidas e conservadas, que visava trazer benefícios importantes tanto para a biodiversidade quanto para as pessoas até 2020. A Meta 11 de Aichi incluiu o objetivo de proteger pelo menos 17% da terra e das águas interiores e 10% do meio ambiente marinho. Hoje, 22,5 milhões de km2 (16,64%) de ecossistemas terrestres e aquáticos e 28,1 milhões de km2 (7,74%) de águas costeiras e do oceano estão dentro de áreas protegidas e conservadas documentadas, um aumento de mais de 21 milhões de km2 (42% da cobertura atual) desde 2010, revela o novo relatório. Está claro que a cobertura terrestre excederá consideravelmente a meta de 17% quando os dados de todas as áreas forem disponibilizados, uma vez que muitas áreas protegidas e conservadas permanecem não relatadas. O marco global pós-2020 para a biodiversidade deverá ser acordado na Conferência sobre a Diversidade Biológica da ONU (CBD COP15) em Kunming, China, em outubro, e espera-se que inclua a ambição de aumentar a cobertura e a eficácia das áreas protegidas e conservadas. O relatório Planeta Protegido conclui que o desafio será melhorar a qualidade tanto das áreas existentes quanto das novas para alcançar mudanças positivas para as pessoas e para a natureza, já que a biodiversidade continua a diminuir, mesmo dentro de muitas áreas protegidas. O padrão da Lista Verde da IUCN é a única medida global de uma mudança geral na qualidade. Neville Ash, Diretor do UNEP-WCMC, afirma: “Áreas protegidas e conservadas desempenham um papel crucial no combate à perda da biodiversidade, e grandes progressos foram feitos nos últimos anos no fortalecimento da rede global de áreas protegidas e conservadas. Entretanto, designar e contabilizar mais áreas protegidas e conservadas é insuficiente; elas precisam ser efetivamente gerenciadas e governadas de forma equitativa se quiserem perceber seus muitos benefícios em escala local e global e garantir um futuro melhor para as pessoas e para o planeta”. Eficácia e equidade são cruciais na etapa pós-2020 Para serem eficazes, as áreas protegidas e conservadas precisam incluir lugares importantes para a biodiversidade. No entanto, um terço das áreas-chave da biodiversidade, seja em terra, águas interiores ou no oceano, ainda não estão protegidas de forma alguma, de acordo com o relatório. As áreas protegidas e conservadas também precisam estar melhor conectadas entre si, para permitir a movimentação de espécies e o funcionamento de processos ecológicos. Embora tenha havido melhorias recentes, menos de 8% da terra está protegida e conectada – muito abaixo dos quase 17% da área terrestre que agora está sob proteção – e ainda há a necessidade de assegurar que as áreas circundantes sejam manejadas adequadamente para manter os valores de biodiversidade. Além de designar novas áreas, o relatório solicita que as áreas protegidas e conservadas existentes sejam identificadas e reconhecidas, prestando contas dos esforços dos povos indígenas, comunidades locais e entidades privadas, ao mesmo tempo em que reconhece seus direitos e responsabilidades. Os esforços de conservação desses guardiões continuam subvalorizados e subnotificados, embora suas contribuições sejam extensas para garantir um futuro para a natureza. O relatório também conclui que é preciso fazer mais para administrar as áreas protegidas e conservadas de forma equitativa, de modo que os custos da conservação não sejam arcados pelas populações locais enquanto seus benefícios são usufruídos por outros. Isto é fundamental para construir redes de conservação que tenham o apoio e a participação de pessoas em todos os lugares. “A IUCN celebra o enorme progresso feito, especialmente na última década, com áreas protegidas cobrindo uma proporção crescente do globo. Como a biodiversidade continua a diminuir, agora pedimos que as Partes da Conferência das Nações Unidas sobre a Diversidade Biológica em Kunming estabeleçam uma meta ambiciosa que garantirá a cobertura de 30% de áreas protegidas em terra, água doce e oceano até 2030 – e essas áreas devem ser colocadas da melhor forma para proteger a diversidade da vida na Terra e ser gerida de forma eficaz e governada de forma equitativa”, afirma o Diretor Geral da IUCN, Bruno Oberle. A proteção e a restauração da natureza são mutuamente dependentes Ao proteger áreas intactas e restaurar ecossistemas degradados, os países podem criar uma rede para a natureza que ajuda a deter e reverter a perda de biodiversidade, mantém os serviços essenciais dos ecossistemas, ajuda a sociedade a enfrentar e se adaptar às mudanças climáticas e reduz o risco de futuras pandemias. Áreas gerenciadas com eficácia, protegidas e conservadas podem ajudar a prevenir uma maior degradação dos ecossistemas e consolidar o progresso na Década das Nações Unidas da Restauração de Ecossistemas. A Década será lançada oficialmente no dia 5 de junho de 2021, Dia Mundial do Meio Ambiente. Em muitos casos, as áreas em processo de restauração serão provavelmente adicionadas à rede de áreas protegidas e conservadas, para garantir que os benefícios da restauração sejam mantidos. Leia o relatório na íntegra aqui. Sobre o UNEP-WCMC O Centro de Monitoramento da Conservação Mundial do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (UNEP-WCMC) é um centro global de excelência em biodiversidade, operando como uma colaboração entre o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) e a instituição de caridade WCMC. O UNEP-WCMC trabalha na interface da ciência, política e prática para ajudar a enfrentar a crise global da natureza. Sobre a UICN A UICN é um sindicato de membros composto por organizações governamentais e da sociedade civil. Ela aproveita a experiência, os recursos e o alcance de suas mais de 1.400 organizações membros e a contribuição de mais de 18.000 especialistas. A UICN é a autoridade mundial sobre o status do mundo natural e as medidas necessárias para salvaguardá-lo. Sobre o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) O PNUMA é a principal voz mundial sobre o meio ambiente. Ele proporciona liderança e incentiva a parceria no cuidado com o meio ambiente, inspirando, informando e capacitando nações e povos a melhorar sua qualidade de vida sem comprometer a das gerações futuras. Sobre a Década das Nações Unidas da Restauração de Ecossistemas Liderada pelo PNUMA e pela Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura, a Década das Nações Unidas reunirá apoio político, pesquisa científica e força financeira para ampliar a restauração em massa com o objetivo de revitalizar milhões de hectares de ecossistemas terrestres e aquáticos. #Envolverde

segunda-feira, 17 de maio de 2021

Vozes do Mangue: Mulheres na Ciência (TARDE)

Manguezais: As florestas da Amazônia costeira.

Cultura dos manguezais é mapeada na Amazônia

Ao plantar mudas para recuperar mangues, projeto valoriza a identidade dos povos tradicionais Como os manguezais são representados nas lendas, crenças e manifestações artísticas? De que forma conservar e reflorestar esses ambientes naturais pode contribuir para a continuidade de tradições milenares? Em busca de respostas, entender o papel do conhecimento transmitido entre gerações, essencial à valorização cultural das populações locais, é ponto de destaque dos estudos apoiados pelo projeto Mangues da Amazônia, voltado a ações socioambientais em três reservas extrativistas marinhas do Pará. Com atividades nos municípios de Augusto Corrêa, Bragança e Tracuateua, beneficiando diretamente 1,6 mil pessoas, o projeto, iniciado em março, é realizado pelo Instituto Peabiru e pela Associação Sarambuí, em parceria com o Laboratório de Ecologia de Manguezal (LAMA), da Universidade Federal do Pará (UFPA), com patrocínio da Petrobras, através do Programa Petrobras Socioambiental. A iniciativa prevê o plantio de mudas e sementes para a recuperação de outros 12 hectares, em áreas degradadas, com oferta de assistência técnica e engajamento social. Ao mesmo tempo, no propósito de promover o uso sustentável desse ecossistema, berçário da biodiversidade marinha e fonte de renda para as comunidades, são realizadas ações transversais promovendo a sensibilização dessas populações tradicionais, bem como a realização de atividades socioambientais e de estudos sobre a identidade cultural local. “O tema é essencial a um maior reconhecimento e valorização dessas populações, guardiãs dessas matas que estocam carbono e são importantes no enfrentamento da mudança climática”, afirma Marcus Fernandes, coordenador do Laboratório de Ecologia de Manguezais da UFPA. Na costa do Pará, Maranhão e Amapá, a Região Amazônica reúne a maior faixa contínua de manguezais do planeta – e cerca de 80% da extensão total desses ecossistemas no País. E o trabalho de desvendar e fortalecer esse mundo pouco conhecido pelos brasileiros inclui a dimensão cultural: “Queremos saber como os manguezais influenciam as manifestações artísticas nas comunidades ao redor”, explica o engenheiro de pesca e músico Ruann Lins, apoiado com bolsa de pesquisa em etnomusicologia – o estudo da relação entre conhecimento tradicional e música. Sabe-se que por lá existem artistas de carimbó, xote e outros ritmos relacionados à Marujada, ponto alto dos festejos de São Benedito, de origem afro-brasileira, celebrados no mês de dezembro. Das lendas à atividade tradicional das marisqueiras, as catadoras de marisco nos manguezais, “a cultura faz parte dos serviços ecossistêmicos ofertados pelos manguezais à humanidade, juntamente com a biodiversidade, alimentação, regulação do clima e provisão de água, entre outros”, ressalta Indira Eyzaguirre, pesquisadora do LAMA, voltada a estudos sobre estratégias de uso sustentável e conservação ambiental baseadas na valorização desses serviços, inclusive a recreação e lazer. Como ação paralela à restauração do mangue, o projeto apoiará o levantamento das plantas existentes nos quintais das casas e usadas tradicionalmente pela população, promovendo um trabalho de resgate de memória alimentar. Além disso, identificará os locais utilizados para passeios e diversão, nos manguezais e arredores das comunidades extrativistas, de modo a fornecer subsídios ao desenvolvimento do ecoturismo de base comunitária com possibilidade de geração de renda local. Com objetivo de conhecer e promover a valorização da identidade cultural dos indivíduos e grupos que são diretamente influenciados pelo ecossistema manguezal, o projeto beneficiará o público infantil através do Clube do Recreio, com ações de educação para crianças até seis anos. O Clube de Ciências, por sua vez, vai promover a sensibilização de crianças de até 12 anos para a importância da conservação dos manguezais e da sua função socioambiental, além de estimular a entrada da ciência na vida da criança. Na iniciativa de promover a capacitação dos adolescentes, criou-se o Grupo Comunitário Protetores do Mangue (PROMANGUE), oferecendo treinamento para atuarem como condutores de trilha e agentes ambientais. Os adultos terão cursos profissionalizantes, conforme as demandas locais. Sobre o Instituto Peabiru O Instituto Peabiru é uma Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIP) brasileira, fundada em 1998, que tem por missão facilitar processos de fortalecimento da organização social e da valorização da sociobiodiversidade. Com sede em Belém, atua nacionalmente, especialmente no bioma Amazônia, com ênfase no Marajó, Nordeste Paraense e na Região Metropolitana de Belém (PA). É uma das organizações realizadoras do projeto Mangues da Amazônia. Sobre a Associação Sarambuí A Associação Sarambuí é uma Organização da Sociedade Civil (OSC) com sede em Bragança – Pará, constituída em 2015, cuja missão é promover a geração de conhecimento de maneira participativa, em prol da conservação e sustentabilidade dos recursos estuarino-costeiros. Nossas ações são direcionadas ao ecossistema manguezal, ao longo da costa amazônica brasileira, em particular no litoral do Estado do Pará. É uma das organizações realizadoras do projeto Mangues da Amazônia. Sobre o Projeto Mangues da Amazônia O Mangues da Amazônia é um projeto socioambiental com foco na recuperação e conservação de manguezais em Reservas Extrativistas Marinhas do estado do Pará. É realizado pelo Instituto Peabiru e pela Associação Sarambuí, em parceria com o Laboratório de Ecologia de Manguezal (LAMA), da Universidade Federal do Pará (UFPA), e conta com patrocínio da Petrobras, através do Programa Petrobras Socioambiental. Com início em 2021 e duração de dois anos, o projeto atua na recuperação de espécies-chave dos manguezais através da elaboração de estratégias de manejo da madeira e do caranguejo-uçá com a participação das comunidades locais, além da promoção de capacitações e ações de educação ambiental para mais de 1600 pessoas nos municípios paraenses de Augusto Corrêa, Bragança e Tracuateua. Sobre o Programa Petrobras Socioambiental O Programa Petrobras Socioambiental estrutura os investimentos socioambientais da companhia e concretiza um dos seus dez compromissos de sustentabilidade. Por meio do apoio a projetos sociais e ambientais, busca-se promover transformações positivas na sociedade e no meio ambiente, com foco nas linhas de atuação: Educação, Desenvolvimento Econômico Sustentável, Oceano e Clima, voltadas para contribuir, principalmente, para quatro dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável: (4) Educação de Qualidade, (8) Trabalho Decente e Crescimento Econômico; (14) Vida na Água e (15) Vida Terrestre. Os temas transversais priorizados são: primeira infância, direitos humanos e inovação. (#Envolverde)

domingo, 16 de maio de 2021

QUE PAÍS É ESSE ?

por Marcello Rollemberg, para o Jornal da USP – Sem o Censo este ano, ficará ainda mais difícil se entender o Brasil – e o que se fazer para a imagem no espelho não ser deturpada É um trocadilho inescapável – talvez pouco inspirado, é verdade –, mas necessário: sem o Censo 2021, o Brasil perderá o bom senso. Sem sabermos exatamente quem e quantos somos, o que fazemos, pensamos e desejamos, a imagem do País tende a ficar desfocada. O Censo é o Brasil diante do espelho, e não se pode correr o risco de essa imagem sair deturpada. O poeta é a antena da raça, ensinou no século passado o americano Ezra Pound. Esqueça-se a postura ideológica do autor de Os Cantos e vamos nos ater à frase. A pertinência e a atualidade são enormes, ainda mais na situação atual. Como? Explica-se. Em 1980, ainda em meio à ditadura militar, o poeta mineiro Affonso Romano de Sant’Anna escreveu no poema Que País é Esse?: Uma coisa é um país, outra um ajuntamento. Uma coisa é um país, Outra um regimento. Uma coisa é um país, Outra o confinamento. Hoje, pouco mais de 40 anos depois, a pergunta ressoa forte por todos os quadrantes nacionais. Afinal, que País é esse? O problema é que, sem o Censo Demográfico – adiado do ano passado para este e, por enquanto, cancelado por falta de verba –, a resposta se torna cada vez mais difícil de se dar. E sem essa resposta, a implementação de políticas públicas, por exemplo, fica extremamente comprometida. E justamente no momento em que o País vê os números da covid-19 tomarem contornos cada vez mais trágicos e com a economia, a saúde e a educação desnorteadas. Éramos cerca de 200 milhões de almas em 2010. E hoje, quantos somos? Sabe-se que somos, miseravelmente, menos 400 mil devido ao coronavírus. Mas quantos somos?, deve-se repetir. Isso, só o Censo pode responder. “Realizado a cada dez anos, o Censo Demográfico brasileiro é a única pesquisa que coleta dados como o número de habitantes em todo o País, a situação de vida e características dessa população em níveis muito internos, além de ser o primeiro a tratar do tema da fecundidade e o único na América Latina a colher informações sobre renda. As informações do Censo orientam a criação de políticas públicas e investimentos por parte dos governos ou entidades privadas”, esclareceu o Jornal da USP em reportagem publicada no último dia 27 de abril. Censo Demográfico de 2021 corre risco de não acontecer, tal como o Censo programado para 2020 – Foto: Agência Brasil via IBGE Mas, por mais importante e essencial que seja, o Censo programado para 2020 não andou – culpa do novo coronavírus. Ficou para este ano, mas continua patinando e corre seríssimos riscos de não acontecer. Isso porque o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o IBGE, responsável pela coleta das informações dos brasileiros, viu as 200 mil vagas temporárias para agentes se esvaírem diante do profundo corte de orçamento aprovado recentemente pelo Congresso: 96% dos recursos previstos para a realização da pesquisa foram cortados, e o instituto viu sua verba cair de R$ 2 bilhões para pouco menos de R$ 72 milhões. E caiu ainda mais, quando o governo federal retirou mais uma fatia de R$ 17 milhões, praticamente inviabilizando qualquer possibilidade de realização do Censo em 2021. Na verdade, o governo chegou realmente a cancelar a pesquisa. “A grande questão é avaliar qual é o impacto orçamentário real do Censo no montante do orçamento brasileiro. É preciso pensar nele como um investimento, ou seja, eventuais custos retornam na forma de crescimento econômico e melhoras públicas mais focalizadas”, já alertava para o Jornal da USP no Ar, da Rádio USP, em 2019, o professor Rogério Barbosa, mestre e doutor em Sociologia pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) e pesquisador do Centro de Estudos da Metrópole (CEM) da USP. Rogério Barbosa – Foto: Reprodução/IESP-UERJ E a situação só não está completamente perdida porque o ministro Marco Aurélio Melo, do STF, determinou que o governo adotasse “medidas voltadas à realização do Censo”, em uma esteira de ações contrárias à determinação governamental que inclui um manifesto público assinado por ex-presidentes do IBGE, alertando para os riscos da falta de Censo – e de bom senso, repita-se. “Nosso último Censo ocorreu em 2010, e, sem ele, o Brasil se junta ao Haiti, Afeganistão, Congo, Líbia e outros Estados falidos ou em guerra que estão há mais de 11 anos sem informação estatística adequada para apoiar suas políticas econômicas e sociais”, alerta o manifesto. A determinação de Marco Aurélio vai na mesma linha de argumentação. “Como combater desigualdades, instituir programas de transferência de renda, construir escolas e hospitais sem prévio conhecimento das necessidades locais?”, questionou o ministro do Supremo, devolvendo o problema para o Planalto. “Sem os dados do Censo não dá para mapear o analfabetismo, não dá para saber sobre escolaridade, não dá para saber onde se precisa criar escolas”, fez coro, em entrevista recente, o historiador, professor e cientista político Luiz Felipe de Alencastro. “Há uma série de questões que decorrem do Censo até a administração pública. É o Censo que serve de base para os repasses do Fundo de Participação dos Municípios, que é uma transferência constitucional da União para os Estados e o Distrito Federal. Ou seja, os municípios e os Estados não vão saber como eles vão poder organizar a administração pública.” População brasileira nos Censos Demográficos ANO POPULAÇÃO 1872 9.930.478 1890 14.333.915 1900 17.438.434 1920 30.635.605 1940 41.236.315 1950 51.944.397 1960 70.992.343 1970 94.508.583 1980 121.150.573 1991 146.917.459 2000 169.590.693 2010 190.755.799 Bússola social Além do mais, especialistas lembram que uma base fundamental e estruturada de dados viabiliza parcerias com organizações internacionais, como Banco Mundial, ONU e a OMS. Sem esses dados concretos e avalizados, a realização de possíveis convênios fica comprometida. Ou seja: o País, sem Censo, é como um transatlântico navegando em meio a uma neblina densa e sem bússola. No caso, uma bússola social que indica o norte para o melhor combate contra as mazelas do País. Que, frise-se, não têm sido poucas ultimamente. “Dados oriundos do recenseamento seriam essenciais para o planejamento de políticas de saúde e de distanciamento social, de otimização dos transportes e de outras maneiras de reduzir o contágio da covid-19”, afirmou em finais de abril Eduardo Marques, pesquisador do CEM e professor do Departamento de Ciência Política da FFLCH da USP, ao repórter do Jornal da USP Gustavo Zanfer. “Um outro exemplo é a questão da densidade habitacional e das áreas de precariedade habitacional, como favelas e loteamentos clandestinos irregulares, que têm o Censo como única ferramenta de pesquisa que consegue descer a esse nível. Poderíamos fazer uma customização de políticas”, reiterou o professor. A realização do Censo vai muito – muito mesmo – além de milhares de pessoas responderem a perguntas em uma pesquisa sobre a realidade das famílias brasileiras. Mais do que uma foto tirada por uma grande angular, essa realidade do País é colocada em um microscópio e esmiuçada como uma boa e atenta pesquisa deve fazer. Sem esse retrato social, sem essa imagem no espelho, o Brasil perde chances de se conhecer melhor, as políticas públicas continuam engessadas ou inexistentes. E a pergunta corre o risco de permanecer indefinidamente sem resposta: que País é esse? (Jornal da USP/#Envolverde)

quinta-feira, 13 de maio de 2021

Sindemia global: Covid atinge os mais pobres e frágeis

Pela primeira vez na história da humanidade, a pandemia se tornou uma sindemia global IHU As imagens devastadoras vindas da Índia – maior produtora mundial de vacinas, obrigada a queimar na rua as vítimas de Covid – são o último lembrete de como a ausência de uma visão global na luta contra a pandemia pode nos fazer cair cada vez mais para baixo. O sucesso das vacinas – desenvolvidas em tempo recorde graças a uma enorme aplicação de fundos públicos – não está se traduzindo em uma expansão da produção e distribuição de frascos em todo o mundo. Há meses, especialistas, ganhadores do Nobel, ex-chefes de Estado e de governo, e agora também líderes religiosos, vêm clamando por uma suspensão temporária das patentes das vacinas acompanhada pelo compartilhamento de know-how e tecnologias aptas a suprir a falta de vacinação entre o Norte e Sul do mundo, mas seus pedidos foram sempre ignorados ou rejeitados com a tese de que uma quebra mesmo que temporária dos monopólios das grandes empresas farmacêuticas impediria futuras descobertas. A reportagem é de Giulia Belardelli, publicada por Huffington Post, 27-04-2021. A tradução é de Luisa Rabolini. Para Aldo Morrone, diretor científico do Instituto San Gallicano de Roma, o caso indiano torna ainda mais urgente “uma moratória temporária nas patentes das vacinas por um motivo muito simples: agora precisamos salvar o planeta. É necessário produzir o maior número de vacinas em nível mundial para vacinar o maior número de pessoas possível”. O Professor Morrone acaba de dedicar uma conferência virtual ao tema “Covid-19 entre o Norte e o Sul do mundo”, com a participação de dezenas de especialistas internacionais. Para muitos deles, é hora de enfrentar o desafio do Covid não mais como uma pandemia, mas como uma sindemia, um conceito introduzido na década de 1990 pelo antropólogo médico estadunidense Merrill Singer. É Morrone quem nos orienta no significado deste termo aplicado ao Covid. “Singer falou em sindemia referindo-se principalmente à relação entre patologias correlacionadas a uma infecção. Em um sentido mais amplo, sindemia é a relação que existe entre uma pandemia e as condições ambientais, socioeconômicas, políticas, o nível de educação, o nível de empobrecimento, o aquecimento global, o problema econômico da perda de empregos. Todos os elementos relacionados a uma epidemia de natureza global são levados em consideração. Uma abordagem sindêmica leva em consideração as repercussões da pandemia em todas as outras áreas: se a pandemia requer uma solução de natureza clínico-científica, a sindemia precisa de uma solução econômica e política muito mais ampla”. Pela primeira vez na história da humanidade – afirma Morrone e seus colegas – a pandemia se tornou uma sindemia global. Mas a multiplicação de problemas não correspondeu a uma ampliação da visão global. Ou o que é definido como “abordagem sindêmica”, de onde a necessidade de uma moratória temporária das patentes é parte integrante. “A esta altura já deveríamos ter percebido que ninguém consegue encontrar uma solução para a pandemia como se fosse uma ilha”, continua o infectologista que há quarenta anos trabalha com as camadas mais frágeis da população na Itália e no exterior. “Agora ficou evidente que este vírus não é democrático: é exatamente o oposto da poesia La livella de Totò porque atingiu as camadas mais indefesas e frágeis de nossas sociedades. A ideia de que a Índia não poderia ser atacada pelo vírus era infantil, e o mesmo vale para a África”. As palavras de Modi em Davos – o orgulho de uma Índia que havia se salvado do “tsunami” da pandemia – foram uma resposta política que não levou em conta a realidade do país, que é de fato o maior produtor mundial de medicamentos e vacinas, mas tem um sistema de saúde frágil e pouca capacidade de organização e distribuição de medicamentos. “Passei muito tempo na Índia, inclusive em áreas rurais muito remotas, e tenho lembranças muito dolorosas”, disse Morrone. “Quando morriam os pacientes mais pobres, havia o problema de cremar os cadáveres, já que ninguém comprava lenha para eles. Era o próprio hospital que tinha de comprar um pouco, mas faziam as piras com o mínimo indispensável. O resultado é que ficavam pedaços de cadáveres na rua porque os corpos não chegavam a queimar o suficiente…. Vamos tentar imaginar a gravidade da situação hoje, com piras improvisadas nas ruas como a única solução para evitar uma catástrofe higiênico-sanitária ainda pior”. Da Índia ao Brasil, das valas comuns no Bronx aos caixões retirados de Bérgamo, ao colapso das cremações em Roma, estamos vindo de um ano em que a experiência coletiva da morte não foi suficiente para nos fazer considerar a sindemia de Covid-19 como um evento tão extraordinário que requer uma abordagem igualmente extraordinária. Segundo o diretor do San Gallicano, não há outra maneira que “impor uma suspensão temporária das patentes em nível internacional, como já aconteceu durante a Segunda Guerra Mundial, quando ocorreu a iniciativa da penicilina. A penicilina se revelou naquele período como a única terapia realmente eficaz contra muitas doenças, então houve algum tipo de acordo nos Estados Unidos entre as várias indústrias para suspender as patentes e garantir o aumento da produção o máximo possível. Os descobridores – Alexander Fleming, Ernst Boris Chain – foram para os Estados Unidos porque precisavam de financiadores para produzir. Foi um acordo fundamental: toda a história do pós-guerra é uma história de doenças dramáticas, como a sífilis, vencidas graças à penicilina. Precisamos de um esforço desse tipo”. A iniciativa Covax, criada para distribuir cerca de 2 bilhões de doses até o final deste ano para os países empobrecidos, está encontrando dificuldades e rigidez que denotam a fragilidade da Organização Mundial da Saúde. “A OMS – continua Morrone – não é mais aquela dos anos 1980, sustentada por uma visão da saúde como bem comum; seus financiamentos são determinados por grandes corporações e lobbies influentes. A OMS deveria ter sido capaz de financiar pelo menos as infraestruturas nos países mais pobres, mas não o fez e o resultado é que perdemos tempo em uma corrida onde o tempo é tudo. Temos que ganhar tempo: quanto menos o vírus se replicar, menos pode criar novas variantes mais perigosas, as chamadas ‘vaccine escape’, capazes de contornar ou reduzir a proteção das vacinas”. As vacinas hoje são nossa arma de primeiro socorro, como a penicilina para os soldados que morriam de infecções. “É claro – continua o infectólogo – que precisamos produzir vacinas suficientes para cobrir as necessidades da população mundial, mas sobretudo daqueles que correm maior risco de morrer”. Morrone, portanto, desmonta as teses daqueles que se opõem à moratória de patentes, citando argumentos como a complexidade das vacinas (em particular aquelas com base em mRna) e o risco de abrir um precedente prejudicial para futuras descobertas (as empresas farmacêuticas – argumenta-se – poderiam se tornar mais relutantes em fazer grandes investimentos no desenvolvimento de novas vacinas ou medicamentos, pois as incertezas ligadas às fases de desenvolvimento e testes se somariam às do risco de suspensão da patente). “No caso das vacinas anti-Covid – replica o especialista – houve a disponibilização de recursos públicos para pesquisas científicas das empresas farmacêuticas, e é claro que até o risco da empresa, nesse caso, acabou sendo menor”. Quanto ao primeiro ponto, argumentar que as vacinas de mRna são complexas demais para serem compartilhadas significaria negar o aspecto mais positivo da pesquisa científica, ou seja, seu caráter democrático, comenta Morrone, que dá o exemplo da poliomielite. Albert Bruce Sabin (virologista polonês naturalizado estadunidense, famoso por desenvolver a vacina contra a poliomielite mais popular) foi duramente atacado porque sua recusa em patentear a vacina permitiu que os países além da Cortina de Ferro produzissem e administrassem vacinas em massa. “Precisamos que esse tipo de lógica se repita, em um mundo cada vez mais interconectado: temos que salvar o que pode ser salvo. Devemos ganhar tempo porque nunca vacinaremos 7 bilhões de habitantes. Porém, se vacinarmos o maior número possível de pessoas e conseguirmos ganhar tempo, é possível que esse vírus se torne endêmico. O ideal seria chegar a uma forma de vírus endêmico contra o qual vacinar periodicamente, especialmente os grupos de maior risco e mais vulneráveis”. E é aqui que o conceito de sindemia retorna, uma visão em torno da qual convergem líderes religiosos e especialistas em políticas sanitárias. “A solução para uma doença infecciosa é a terapia; a solução de uma sindemia deve vir da medicina, da ciência, mas também da política e da economia”, argumenta Morrone, que na semana passada participou da vacinação das pessoas mais pobres no Vaticano, na Sala Paulo VI. Alguns ainda acreditam que o apartheid possa ser uma estratégia para se salvar do vírus (Reino Unido, Israel); outros usaram vacinas como instrumento de hegemonia geopolítica (China, Rússia); outros ainda levaram meses para ‘liberar’ doses da AstraZeneca que eram inúteis internamente, mas muito preciosas em outros países (Estados Unidos). Ninguém – muito menos a União Europeia – pediu uma reunião nas Nações Unidas, uma assembleia especial e permanente da OMS. A palavra foi dada a uma série de especialistas, “mas nós especialistas – conclui o nosso – muitas vezes tendemos a olhar mais para o nosso umbigo do que para o mundo”. As imagens daqueles cadáveres que queimam – ou que não conseguem queimar – nos dizem que nunca será tarde demais para exigir uma resposta corajosa a um drama global. (EcoDebate, 29/04/2021) publicado pela IHU On-line, parceira editorial da revista eletrônica EcoDebate na socialização da informação. [IHU On-line é publicada pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos Unisinos, em São Leopoldo, RS.]

domingo, 9 de maio de 2021

Informe mostra impactos dos agrotóxicos na América Latina e no caribe

Com foco nas violações do direito à alimentação e à nutrição adequadas, publicação da FIAN reúne dados e relatos de oito países latino-americanos e caribenhos A FIAN lançou o informe Agrotóxicos na América Latina: Violações Contra o Direito à Alimentação e à Nutrição Adequadas. Com 108 páginas, a publicação reúne dados e relatos sobre os impactos dessas substâncias no Brasil e em mais sete países latino-americanos e caribenhos: Colômbia, Paraguai, Equador, Honduras, Guatemala, México e Haiti. O relatório mostra como os agrotóxicos impactam a saúde humana e o meio ambiente, e como isso impede a realização plena do direito humano à alimentação e à nutrição adequadas (Dhana). Também identifica um padrão na estratégia das corporações na região. O lançamento contou com a participação do relator especial para Substâncias Tóxicas e Perigosas da ONU, Marcos Orellana, e da geógrafa Larissa Bombardi, autora do atlas Geografia do Uso de Agrotóxicos no Brasil e Conexões com a União Europeia. Foram apresentados testemunhos sobre comunidades atingidas de Brasil, Haiti e Paraguai. A documentação do caso brasileiro, em que pulverização aérea foi usada como arma para expulsão de posseiros de área rural em disputa em Pernambuco, será entregue a Orellana e possivelmente a relatores/as especiais de outros temas. A mediação coube a Valéria Burity, da FIAN Brasil, e o informe foi apresentado por Juan Carlos Morales González, da FIAN Colômbia, e pelo pesquisador Leonardo Melgarejo. Mais de 700 pessoas participaram. Confira como foi o debate e acesse a publicação em português, espanhol ou inglês. No dia 5 o relatório terá novo momento de divulgação global: um seminário no qual a FIAN Internacional vai apresentar também os resultados de estudo sobre experiências de transição para comunidades e sistemas alimentares livres de agrotóxicos. Múltiplos impactos Agrotóxicos na América Latina parte da conceituação do direito humano à alimentação e à nutrição adequadas (Dhana), consagrado em tratados internacionais, para mostrar como esse direito é violado na região. O Dhana deve ser considerado em suas duas dimensões: o direito de estar livre da fome e o direito à alimentação e à nutrição adequadas. Esse direito não se restringe a uma condição biológica. Portanto, é preciso falar de todo o processo alimentar (o conjunto de processos sociais, econômicos e culturais nos quais a alimentação está envolta), visando que ele esteja direcionado para a promoção da dignidade humana e garantindo a sustentabilidade socioambiental desse processo. Assim, a garantia efetiva do Dhana relaciona-se à garantia, para toda população, do consumo, por seus próprios meios e de forma emancipatória, de alimentos adequados, saudáveis, nutritivos e culturalmente aceitáveis, sem discriminação por motivos de raça, de etnia, de gênero, de geração, ou de questões econômicas e sociais. Os dados e relatos apresentados no informe mostram como o uso dessas substâncias afeta todas essas dimensões do Dhana. Estado capturado por corporações Os dados e os relatos trazidos pelas FIANs evidenciam que existe uma captura do Estado por parte das grandes corporações. Há tolerância, aquiescência e até protagonismo de nossos Estados diante das diferentes formas de violência que permitem que agrotóxicos sejam usados sem controle. Há, assim, a violação sistemática e deliberada das obrigações estatais para com o Dhana e direitos relacionados, priorizando o lucro em lugar do respeito aos direitos humanos, à sustentabilidade ambiental e à própria democracia. A agenda legislativa e várias mudanças regulatórias ocorrem para favorecer essa situação e os interesses das empresas. Por padrão, houve aumento do uso e comercialização de agrotóxicos na última década. O produto de maior uso é o herbicida glifosato, classificado como cancerígeno pela Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (Iarc). Esse aumento está associado também ao aumento das lavouras geneticamente modificadas (GM), no contexto da venda de pacotes tecnológicos. Seguem-se a esse modelo a simplificação dos hábitos alimentares e a destruição de práticas e de saberes culturais. Os impactos sobre a saúde e o meio ambiente concentram-se nos países exportadores de commodities (basicamente soja, milho, algodão e colza) dominadas por essas transnacionais. Violência e desregulação A flexibilização das legislações é agravada por perseguições e mortes de ativistas, criminalização de movimentos sociais, legalização de crimes e abafamento de reações. Os conflitos de interesses associados a tais desvios da comunidade científica e política expressam-se na omissão ou na culpa direta de agências responsáveis pelo controle da qualidade dos alimentos, dos insumos e da proteção à saúde e ao ambiente, estabelecendo um ciclo vicioso no qual o agravamento de problemas soma-se a decisões que recrudescem suas causas. O uso de agrotóxicos proibidos na Comunidade Europeia cresce em nossa região, onde registra-se que, atualmente, pelo menos um terço dos produtos mais vendidos corresponde a praguicidas altamente perigosos, vetados em seus países de origem. Também tem ocorrido aumento no número de intoxicações aliado à subnotificação dessa questão. As informações sobre intoxicação e altas taxas de enfermidades relacionadas ao emprego de agrotóxicos, apesar da ausência de espaços de denúncia para tais casos, são bastante numerosas em praticamente todos os países que participam deste informe. Na Guatemala, por exemplo, houve registro de resíduo do agrotóxico DDT no leite materno em volume 185 vezes superior ao limite considerado tolerável pela OMS, enquanto na Colômbia agrotóxicos representaram 28,67% das intoxicações por substâncias químicas em 2014. Esses dados se agravam pela ausência de políticas públicas aplicadas à análise e ao monitoramento de resíduos desses princípios ativos. Recomendações Agrotóxicos na América Latina aponta os Estados onde estão localizadas as sedes das empresas fabricantes dessas substâncias como os grandes responsáveis por seus danos. A FIAN identifica graves deficiências nos mecanismos universais e regionais de direitos humanos ao propor medidas vinculativas para reverter e punir o uso crescente de desses produtos e suas consequências. A entidade defende que os países da região estabeleçam moratórias sobre culturas geneticamente modificadas ou outros modelos agroprodutivos altamente exigentes de agrotóxicos e observem o princípio da precaução em qualquer decisão sobre o assunto. O relatório enfatiza a necessidade de estruturar mecanismos de nacionais de justiciabilidade, reparação, indenização e não repetição acerca de violações dos direitos de populações, comunidades e indivíduos. Propõe também que o Sistema Interamericano de Direitos Humanos incorpore e aplique o enfoque das obrigações extraterritoriais ao analisar a situação em nossos países. Contato para a imprensa Pedro Biondi – (31) 99951-1991

Quase 50 toneladas de resíduos plásticos e redes de pescas são recolhidas na maior área de proteção marinha do planeta

por Suzana Camargo, Conexão Planeta – O Monumento Nacional Marinho de Papahānaumokuākea é uma reserva de conservação criada em 2006 e declarada Patrimônio Mundial da Humanidade pela Unesco por sua importância ambiental e cultural. A extensa área contínua de 360 mil km2 compreende uma região ao norte do arquipélago do Havaí, nos Estados Unidos, onde estão situadas diversas ilhotas, atóis e recifes de corais, que são habitat de mais de 7 mil espécies, muitas ameaçadas de extinção. Em 2016, o então presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, quadruplicou o tamanho da área protegida, criando assim, o maior parque de proteção marinha do planeta, com 1,5 milhão de km2 (leia mais aqui). Mas apesar de ser o arquipélago mais remoto e distante do mundo, está a mais de 2 mil km de distância de Honolulu, este paraíso natural, lar de tantas espécies da vida selvagem, não consegue escapar do impacto do descarte de resíduos realizado pelos seres humanos. Durante 23 dias, a equipe do Papahānaumokuākea Marine Debris Project (PMDP) navegou por mais de 16 km ao longo de várias ilhas e atóis para fazer a coleta de lixo. Como resultado da jornada de limpeza, feita entre o final de março e meados de abril, foram recolhidas 47 toneladas de resíduos, em sua grande maioria, embalagens plásticas e redes de pesca. Logo nos primeiros dias da expedição, o time se deparou com uma foca que tinha linhas de rede de pesca envolta de sua cabeça e corpo (na imagem abaixo). Cuidadosamente, eles conseguiram remover o material e liberar o animal. Em seu perfil no Instagram, o Papahānaumokuākea Marine Debris Project ressaltou porque iniciativas como esta são tão importantes. Em apenas 2,5 anos desde a última limpeza, uma das áreas visitada foi inundada com uma concentração tão alta de redes de pesca abandonadas que deixou até os membros mais antigos da tripulação chocados. “Em mais de 14 anos vindo para Midway, nunca vi tantas redes concentradas em uma área tão pequena. Vimos rede após rede após rede enquanto caminhávamos pela praia, com focas adultas e filhotes em contato direto com elas”, afirmou Kevin O’Brien, presidente do PMDP. Ele destacou que é nossa responsabilidade proteger a vida selvagem e os preciosos ecossistemas de Papahānaumokuākea da poluição humana. “O que a equipe testemunhou em Midway é um testemunho do fato de que precisamos fazer melhor, e através de todos nós trabalhando juntos como uma comunidade, podemos. Anualmente o Papahānaumokuākea Marine Debris Project realiza uma expedição de limpeza no arquipélago. Estima-se que mais de 6 toneladas de redes de pescas “fantasmas” (descartas no mar pela indústria pesqueira) acabem indo parar nos recifes de corais e nas areais de suas praias. Abaixo, mais registros impressionantes do trabalho feito em Papahānaumokuākea: Fotos: divulgação Papahānaumokuākea Marine Debris Project /Matt Chauvin 28 de abril de 2021 Suzana Camargo Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante 6 anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, vive agora em Washington D.C. #Envolverde

Juíza do Amazonas manda PF devolver a madeireiros investigados parte de toras apreendidas em operação histórica

Na última terça-feira (04/05), a juíza da 7ª Vara Federal Ambiental e Agrária do Amazonas, Mara Elisa Andrade, ordenou que a Polícia Federal libere madeira, maquinários e embarcações pertencentes à Associação Comunitária da Gleba Cumurucuri, que representa madeireiros da região. O material faz parte do que foi confiscado na maior apreensão de madeira da história do país, realizada em dezembro do ano passado. Em sua decisão, a juíza afirma que “as investigações contra a impetrante (os madeireiros) ainda estão em fase incipiente, a evidenciar a fragilidade com a qual atos persecutórios ostensivos e restritivos de direitos e liberdades (tal com a apreensão de bens) teriam sido praticados; quando ainda incerta a constatação de crimes e a sua autoria, e sem que fosse possível a constatação de fundadas razões para tanto”. Diz ainda que não está claro que a apreensão tenha ocorrido em contexto de flagrante delito. Além disso, Mara Elisa Andrade declarou que as imagens de satélite obtidas pela PF para identificar as áreas desmatadas (que seriam de preservação e pertencentes à União) não são suficientes para comprovar o crime. A associação alegal que realizava o manejo florestal sustentável. A ação pela liberação da madeira foi apresentada pela Associação Comunitária da Gleba Cumurucuri contra o ex-superintendente da Polícia Federal no Amazonas, o delegado Alexandre Saraiva. Ele foi o responsável pela apreensão há quatro meses de cerca de 60 mil toras de madeiras, que foram localizada na divisa entre os estados do Pará e do Amazonas. A carga avaliada em R$ 130 milhões teria como destino, provavelmente, a exportação. A descoberta da carga se deu depois que uma balsa com documentação irregular foi encontrada em novembro, navegando no rio Mamuru, na área do município amazonense de Parintins. A partir daí, a Polícia Federal começou a investigar o movimento de madeireiros com a ajuda de imagens de satélite. Desde então, a ação que era para ser considerada um triunfo do governo contra o crime ambiental no país se tornou uma disputa pessoal entre o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, e a Polícia Federal, como relatamos nesta outra reportagem. O ministro criticou a operação e defendeu madeireiros. Já Alexandre Saraiva entrou com uma notícia-crime contra Salles no Superior Tribunal Federal e logo após foi exonerado do cargo. Em seu perfil no Twitter, Salles comemorou a decisão da juíza de Manaus. “Sempre fomos e continuamos sendo defensores da celeridade, devido processo legal e ampla defesa. Se estiverem errados que sejam punidos. Vejam, era mentira que ninguém tinha aparecido como dono da madeira e que não havia procurado a Justiça. Essa sentença de hoje desmente isso”, escreveu. Todavia, o que o delegado Alexandre Saraiva tinha afirmado é que parte da carga ainda não havia sido reinvidicada por ninguém. Representantes do Ministério Público Federal criticaram o parecer de Mara Elisa Andrade e agora avaliam se irão recorrer da decisão da 7ª Vara Federal Ambiental e Agrária do Amazonas. Um fato curioso sobre a Comunitária da Gleba Cumurucuri, que tem sede no município de Juruti, no Pará. Em informações disponibilizadas na internet, Izaías Rodrigues Vitor aparece como sendo seu presidente. Mas numa reportagem do site Rede Pará, de 2015, ele comemorava a regularização fundiária de uma área do Projeto Estadual de Assentamento Agroextrativista (Peaex). Naquela época, há seis anos, Vitor afirmava que a base da economia era “o extrativismo do babaçu, cipó titica, castanha, piquiá e outras espécies florestais, mas há planos também de investir na mecanização da área para produção agrícola sustentável”. Parece que os planos mudaram. O Conexão Planeta tentou entrar em contato com Izaias para esclarecer esta questão, mas ninguém atende aos telefones disponíveis pela internet como sendo da Associação Comunitária da Gleba Cumurucuri. Também enviamos um e-mail, apresentado como sendo de contato da entidade, mas ainda não tivemos resposta. Fotos: divulgação Polícia Federal Publicado no site Conexão Planeta em 6 de maio de 2021 Suzana Camargo Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante 6 anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, vive agora em Washington D.C. #Envolverde

segunda-feira, 3 de maio de 2021

Queimadas na Amazônia aumentam problemas respiratórios

Em 10 anos, o Brasil gastou quase 1 bilhão de reais com doenças respiratórias causadas pela fumaça das queimadas na região. Estudo da Fiocruz e do WWF-Brasil aponta que as queimadas na Amazônia foram responsáveis pela elevação dos percentuais de internações hospitalares por problemas respiratórios nos últimos 10 anos (2010-2020) nos estados com maiores números de focos de calor: Pará, Mato Grosso, Rondônia, Amazonas e Acre. Estas internações custaram quase 1 bilhão aos cofres públicos. O levantamento aponta ainda que a associação da situação da pandemia com as queimadas florestais na Amazônia pode ter agravado a situação de saúde da população da Amazônia legal, pois os poluentes oriundos das queimadas podem causar uma resposta inflamatória persistente e, assim, aumentar o risco de infecção por vírus que atingem o trato respiratório. O estudo mostra que mesmo com a possível subnotificação, por conta de inconsistências na base de dados do DataSUS, os valores diários de poluentes são extremamente elevados e contribuíram para aumentar em até duas vezes o risco de hospitalização por doenças respiratórias atribuíveis à concentração de partículas respiráveis e inaláveis finas (fumaça) nos estados analisados. No Amazonas, 87% das internações hospitalares no período analisado estão relacionadas às altas concentrações de fumaça (partículas respiráveis e inaláveis). O percentual foi de 68% no Pará, de 70% em Mato Grosso e de 70% em Rondônia. Já as doenças respiratórias associadas às altas concentrações de partículas de poluentes emitidas pelas queimadas respondem por 70% das internações hospitalares registradas no Pará, Mato Grosso, Rondônia e Amazonas. A pesquisadora Sandra Hacon, da Ensp/Fiocruz, afirma que embora os percentuais de internação hospitalar por doenças respiratórias na região tenham se mantido estáveis entre 2010 e 2020, uma parte considerável dessas internações podem ser atribuídas às concentrações de partículas respiráveis finas e inaláveis emitidas por incêndios florestais. “As micropartículas que compõem a fumaça ficam depositadas nas cavidades dos pulmões, agravando os problemas respiratórios. Elas são um fator de risco para pessoas que já possuem comorbidades. Vemos, portanto, um impacto à saúde e perda da qualidade de bem-estar das pessoas, além do elevado custo econômico das doenças respiratórias para o SUS”, explica. “A fragilização do sistema respiratório é extremamente preocupante no atual cenário de uma pandemia que também causa problemas respiratórios. Essa sobreposição sugere que a região da Amazônia legal tenderá a ter seu sistema de saúde pressionado, já que as queimadas são mais intensas nos meses de seca, que se iniciam dentro de poucas semanas”, alerta. Importante salientar que no ano de 2020 o Brasil alcançou o maior número de queimadas na década. Segundo o INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) a floresta amazônica registrou 103.161 focos ante 89.171 em 2019, um aumento de 15,7%. Essa tendência contínua de destruição impacta diretamente não só na saúde das pessoas, mas em todo o ecossistema, que sofre todos os anos durante o ciclo das queimadas intensificado no período de seca, ressalta Edegar de Oliveira, diretor de Conservação e Restauração do WWF-Brasil. Ele aponta que “as queimadas fazem parte da dinâmica de destruição da Amazônia. As áreas desmatadas são posteriormente queimadas para “limpar” o terreno, abrindo espaço para a pastagem, a agricultura, ou a simples especulação fundiária. A associação entre o desmatamento, queimadas e degradação da floresta traz um custo muito alto para todos nós, especialmente para os povos da floresta, e para o clima do planeta”, afirma. O Estudo traz algumas recomendações para o poder público: – Os sistemas oficiais de vigilância e monitoramento em saúde precisam de evolução e melhorias sistemáticas, especialmente aqueles direcionados às populações indígenas da Amazônia; – Políticas consistentes de redução do desmatamento e queimadas na Amazônia são críticas e imediatas, pois o combate ao desmatamento e à degradação do bioma amazônico é fundamental para a garantia de direitos básicos das populações locais, como acesso à saúde e um ambiente saudável e sustentável; – Desenvolvimento e implementação de programas de vigilância epidemiológica e ambiental efetivos, direcionados à população amazônica exposta aos incêndios florestais, principalmente os grupos mais vulneráveis, como gestantes, crianças, idosos, e aquelas pessoas que apresentam comorbidades precisam de atenção dedicada; – Necessidade iminente de esforço preventivo no controle de zoonoses, pois os custos associados aos esforços preventivos são substancialmente menores, comparados com os custos econômicos, sociais e de saúde no controle de potenciais epidemias e ou pandemias. Metodologia do estudo Foi analisada a relação das tendências da morbidade hospitalar (a taxa de internações registradas em hospitais) por doenças do aparelho respiratório no período de 2010 a 2020 e as concentrações estimadas de emissões de partículas respiráveis finas (PM2,5), presentes na fumaça de incêndios florestais no mesmo período, investigando os potenciais impactos à saúde nos estados com os maiores registros de focos de calor provenientes das queimadas na Amazônia Brasileira, segundo o INPE – Pará, Mato Grosso, Rondônia, Amazonas e Acre, que apresentaram maior número de focos de queimadas registrados no período analisado – 2010-2020. O estudo observou as séries temporais diárias de morbidade hospitalar por doenças do aparelho respiratório obtidas no Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde (DATASUS), pelo Sistema de Informação sobre internação hospitalar (SIH) e analisados por dia, mês e ano no período de 1º de janeiro de 2010 a 31 de outubro de 2020, segundo a unidade de federação de residência. As internações hospitalares por doenças respiratórias relacionadas ao COVID-19 para cálculo da tendência retrospectiva foram excluídas. Portanto, as internações hospitalares derivadas do COVID-19, não entraram no conjunto das causas de hospitalizações. Os pesquisadores selecionaram informações referentes ao valor em reais (R$) gasto com as hospitalizações de baixa e alta complexidade (Unidades de Terapia Intensiva – UTI) por doenças do aparelho respiratório para estimativa do custo econômico em saúde dessas hospitalizações que pudesse ser atribuível à poluição decorrente das queimadas. As estimativas de concentração do material particulado (PM2,5) foram obtidas por meio de dados de satélite da NASA, com as informações de profundidade óptica de aerossóis (Aerosol Optical Depth – AOD) convertidas por modelagem matemática em estimativas de concentração de PM2,5 e disponibilizadas para acesso público pelo Copernicus Atmosphere Monitoring Service (CAMS), que é o mais recente conjunto de dados de reanálise global de composição atmosférica produzida pelo Centro Europeu de Previsões Meteorológicas de Médio Prazo (ECMWF). Sobre a Fiocruz A Fiocruz é uma instituição vinculada ao Ministério da Saúde, cuja missão é produzir, disseminar e compartilhar conhecimentos e tecnologias voltados para o fortalecimento e a consolidação do Sistema Único de Saúde (SUS) e que contribuam para a promoção da saúde e da qualidade de vida da população brasileira. Acesse em https://portal.fiocruz.br/ Sobre o WWF-Brasil O WWF-Brasil é uma organização não-governamental brasileira e sem fins lucrativos que trabalha para mudar a atual trajetória de degradação ambiental e promover um futuro em que sociedade e natureza vivam em harmonia. Criado em 1996, atua em todo Brasil e integra a Rede WWF. Apoie nosso trabalho em wwf.org.br/doe

Informe mostra impactos dos agrotóxicos na América Latina e no caribe

Com foco nas violações do direito à alimentação e à nutrição adequadas, publicação da FIAN reúne dados e relatos de oito países latino-americanos e caribenhos A FIAN lançou o informe Agrotóxicos na América Latina: Violações Contra o Direito à Alimentação e à Nutrição Adequadas. Com 108 páginas, a publicação reúne dados e relatos sobre os impactos dessas substâncias no Brasil e em mais sete países latino-americanos e caribenhos: Colômbia, Paraguai, Equador, Honduras, Guatemala, México e Haiti. O relatório mostra como os agrotóxicos impactam a saúde humana e o meio ambiente, e como isso impede a realização plena do direito humano à alimentação e à nutrição adequadas (Dhana). Também identifica um padrão na estratégia das corporações na região. O lançamento contou com a participação do relator especial para Substâncias Tóxicas e Perigosas da ONU, Marcos Orellana, e da geógrafa Larissa Bombardi, autora do atlas Geografia do Uso de Agrotóxicos no Brasil e Conexões com a União Europeia. Foram apresentados testemunhos sobre comunidades atingidas de Brasil, Haiti e Paraguai. A documentação do caso brasileiro, em que pulverização aérea foi usada como arma para expulsão de posseiros de área rural em disputa em Pernambuco, será entregue a Orellana e possivelmente a relatores/as especiais de outros temas. A mediação coube a Valéria Burity, da FIAN Brasil, e o informe foi apresentado por Juan Carlos Morales González, da FIAN Colômbia, e pelo pesquisador Leonardo Melgarejo. Mais de 700 pessoas participaram. Confira como foi o debate e acesse a publicação em português, espanhol ou inglês. No dia 5 o relatório terá novo momento de divulgação global: um seminário no qual a FIAN Internacional vai apresentar também os resultados de estudo sobre experiências de transição para comunidades e sistemas alimentares livres de agrotóxicos. Múltiplos impactos Agrotóxicos na América Latina parte da conceituação do direito humano à alimentação e à nutrição adequadas (Dhana), consagrado em tratados internacionais, para mostrar como esse direito é violado na região. O Dhana deve ser considerado em suas duas dimensões: o direito de estar livre da fome e o direito à alimentação e à nutrição adequadas. Esse direito não se restringe a uma condição biológica. Portanto, é preciso falar de todo o processo alimentar (o conjunto de processos sociais, econômicos e culturais nos quais a alimentação está envolta), visando que ele esteja direcionado para a promoção da dignidade humana e garantindo a sustentabilidade socioambiental desse processo. Assim, a garantia efetiva do Dhana relaciona-se à garantia, para toda população, do consumo, por seus próprios meios e de forma emancipatória, de alimentos adequados, saudáveis, nutritivos e culturalmente aceitáveis, sem discriminação por motivos de raça, de etnia, de gênero, de geração, ou de questões econômicas e sociais. Os dados e relatos apresentados no informe mostram como o uso dessas substâncias afeta todas essas dimensões do Dhana. Estado capturado por corporações Os dados e os relatos trazidos pelas FIANs evidenciam que existe uma captura do Estado por parte das grandes corporações. Há tolerância, aquiescência e até protagonismo de nossos Estados diante das diferentes formas de violência que permitem que agrotóxicos sejam usados sem controle. Há, assim, a violação sistemática e deliberada das obrigações estatais para com o Dhana e direitos relacionados, priorizando o lucro em lugar do respeito aos direitos humanos, à sustentabilidade ambiental e à própria democracia. A agenda legislativa e várias mudanças regulatórias ocorrem para favorecer essa situação e os interesses das empresas. Por padrão, houve aumento do uso e comercialização de agrotóxicos na última década. O produto de maior uso é o herbicida glifosato, classificado como cancerígeno pela Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (Iarc). Esse aumento está associado também ao aumento das lavouras geneticamente modificadas (GM), no contexto da venda de pacotes tecnológicos. Seguem-se a esse modelo a simplificação dos hábitos alimentares e a destruição de práticas e de saberes culturais. Os impactos sobre a saúde e o meio ambiente concentram-se nos países exportadores de commodities (basicamente soja, milho, algodão e colza) dominadas por essas transnacionais. Violência e desregulação A flexibilização das legislações é agravada por perseguições e mortes de ativistas, criminalização de movimentos sociais, legalização de crimes e abafamento de reações. Os conflitos de interesses associados a tais desvios da comunidade científica e política expressam-se na omissão ou na culpa direta de agências responsáveis pelo controle da qualidade dos alimentos, dos insumos e da proteção à saúde e ao ambiente, estabelecendo um ciclo vicioso no qual o agravamento de problemas soma-se a decisões que recrudescem suas causas. O uso de agrotóxicos proibidos na Comunidade Europeia cresce em nossa região, onde registra-se que, atualmente, pelo menos um terço dos produtos mais vendidos corresponde a praguicidas altamente perigosos, vetados em seus países de origem. Também tem ocorrido aumento no número de intoxicações aliado à subnotificação dessa questão. As informações sobre intoxicação e altas taxas de enfermidades relacionadas ao emprego de agrotóxicos, apesar da ausência de espaços de denúncia para tais casos, são bastante numerosas em praticamente todos os países que participam deste informe. Na Guatemala, por exemplo, houve registro de resíduo do agrotóxico DDT no leite materno em volume 185 vezes superior ao limite considerado tolerável pela OMS, enquanto na Colômbia agrotóxicos representaram 28,67% das intoxicações por substâncias químicas em 2014. Esses dados se agravam pela ausência de políticas públicas aplicadas à análise e ao monitoramento de resíduos desses princípios ativos. Recomendações Agrotóxicos na América Latina aponta os Estados onde estão localizadas as sedes das empresas fabricantes dessas substâncias como os grandes responsáveis por seus danos. A FIAN identifica graves deficiências nos mecanismos universais e regionais de direitos humanos ao propor medidas vinculativas para reverter e punir o uso crescente de desses produtos e suas consequências. A entidade defende que os países da região estabeleçam moratórias sobre culturas geneticamente modificadas ou outros modelos agroprodutivos altamente exigentes de agrotóxicos e observem o princípio da precaução em qualquer decisão sobre o assunto. O relatório enfatiza a necessidade de estruturar mecanismos de nacionais de justiciabilidade, reparação, indenização e não repetição acerca de violações dos direitos de populações, comunidades e indivíduos. Propõe também que o Sistema Interamericano de Direitos Humanos incorpore e aplique o enfoque das obrigações extraterritoriais ao analisar a situação em nossos países. Contato para a imprensa Pedro Biondi – (31) 99951-1991

Fragilidade alimentar continua após um ano de Covid 19

por Mario Lubetkin – Vice-Diretor Geral da FAO – Mais de um ano após o início da pandemia COVID-19, a segurança alimentar e nutricional continua a mostrar sua fragilidade. A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) informou em 2020 que mais de 690 milhões de pessoas passam fome, e que a pandemia projetava um aumento de mais 130 milhões no número de pessoas afetadas pela fome crônica no mundo, fato que está se constatando gradativamente. Isso significa que mais de 10 por cento da população mundial se encontra em situação limítrofe, fato que se distancia dos objetivos propostos pela comunidade internacional na plataforma dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável em 2015, que apontam para a erradicação da pobreza e da fome até 2030. Soma-se a esta situação a existência de mais de 650 milhões de pessoas que sofrem de problemas de obesidade, o que determina que, junto com a fome, a desnutrição seja outro flagelo em constante evolução. Só na América Latina, 200 milhões de adultos estão com sobrepeso e 50 milhões de crianças e adolescentes estão na mesma situação. Embora esta difícil realidade seja preexistente no início da pandemia, alguns dos motivos que determinaram esta situação, como os conflitos, aumentaram significativamente neste último ano. Esta é a situação em países como o Congo, onde segundo um relatório realizado em conjunto pela FAO e o Programa Alimentar Mundial (PMA) em 2021, mais de 27 milhões de habitantes (um a cada três congoleses) se encontram em situação de insegurança alimentar aguda. Em outro relatório da FAO e do PMA do segundo semestre de 2020, ambas as organizações previram que mais de 27 países em todas as regiões foram expostos a uma crise alimentar iminente causada pelo COVID-19. Somam-se à fragilidade da situação de saúde os efeitos da deterioração das condições econômicas decorrentes da mesma situação. Estima-se que atualmente 35% dos empregos relacionados ao sistema alimentar estão em risco. Alguns economistas já definem a situação iniciada em 2020 como a “década perdida”. Se quiséssemos voltar aos níveis pré-pandêmicos, ou seja, anteriores a 2019, e se mantivéssemos o crescimento médio da última década, que foi de 1,8%, só em 2024 seriam atingidos os níveis econômicos de há mais de um ano . ano atrás. Porém, se o crescimento fosse a média dos últimos 6 anos, ou seja, 0,3%, retornaríamos à situação de 2019 apenas em 10 anos. Em 2020, as importações foram fortemente afetadas, houve grandes dificuldades de comércio, fechamento de fronteiras e problemas de transporte que só foram parcialmente superados nos últimos meses. Só na América Latina, a queda no produto interno bruto foi de 7,7%, com o fechamento de 2,7 milhões de empresas de todos os tipos. O início do processo gradual mas massivo de vacinação tem gerado a esperança de superar os piores momentos da situação atual, embora os níveis de contágio continuem crescendo considerando os números globais. Se este difícil panorama iniciar um processo de melhoria no segundo semestre deste ano ou no início de 2022, situação a ser verificada, os países devem se preparar para sarar as feridas e enfrentar as crises existentes no triângulo: saúde, economia e meio ambiente, na perspectiva do desenvolvimento. De acordo com a reflexão que muitos países, especialistas e organizações internacionais como a FAO estão realizando, os instrumentos de aceleração da recuperação devem estar focados na inovação, tecnologia, gestão de dados e outros instrumentos chave como capital humano, instituições e governança. Será essencial priorizar os investimentos, especialmente em infraestrutura em toda a cadeia de valor alimentar. É preciso aprimorar a tecnologia e a infraestrutura de manuseio, armazenamento e processamento de produtos alimentícios, além de aumentar os investimentos na estrutura da produção agrícola para reduzir perdas e desperdícios. A segurança alimentar no setor nutricional também deve ser melhorada, otimizando a produtividade e reduzindo as emissões de gases de efeito estufa, bem como aumentando a proteção dos recursos naturais, reduzindo as dispersões e perdas e otimizando o uso dos recursos naturais. Paralelamente, o comércio deve ser aprimorado, diversificando-o, aumentando o comércio eletrônico e aumentando a resiliência em tempos de crise. Para que isso aconteça, novas sinergias devem ser geradas entre os diferentes atores. No nível da FAO, uma coalizão global em alimentos foi recentemente lançada para tentar superar soluções limitadas aos próprios países, estabelecer um diálogo fluido entre eles sobre as experiências positivas desenvolvidas neste primeiro ano de COVID-19 e seu tempo de preparar os países para a próxima fase de recuperação socioeconômica e ambiental. Esta coalizão é baseada em quatro eixos principais: um plano global de respostas humanitárias, inclusão econômica e proteção social para reduzir a pobreza, a redução do desperdício de alimentos e a transformação do sistema alimentar. No momento é um grande desafio, para o qual a ação individual dos governos não é suficiente, já que o setor privado, a sociedade civil e o setor acadêmico, entre outros, também devem participar desse esforço de proteção e relançamento. Os próximos meses indicarão se estamos no caminho certo para reduzir esta pandemia massiva e se os países retomarão o caminho para absorver esta crise dramática e projetar uma realidade que dê novas perspectivas às próximas gerações (fim) Mario Lubetkin, de nacionalidade uruguaia, é jornalista com mais de 40 anos de experiência em comunicação internacional e cooperação para questões de desenvolvimento. Iniciou sua carreira profissional na agência de notícias Inter Press Service (IPS) em 1979, ocupando diversos cargos de crescente responsabilidade gerencial. Ele atuou como Diretor-Geral da IPS de 2002 a 2014. Durante sua carreira, o Sr. Lubetkin coordenou projetos com os governos da Finlândia, Itália, Espanha, Uruguai e Brasil, juntamente com o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) e o Meio Ambiente das Nações Unidas Programa (UNEP). Em 2012, foi nomeado membro do Grupo Consultivo das Nações Unidas para o Ano Internacional das Cooperativas (IYC) (#Envolverde)