segunda-feira, 31 de agosto de 2020

Um dos principais futuros econômicos da Floresta Amazônica é o crédito de carbono

[EcoDebate] Existe a hipótese de que o mercado de crédito de carbono, em termos macroeconômicos e de longo prazo, talvez seja o único mecanismo financeiro viável para a Amazônia brasileira. As chamadas culturas sustentáveis são viáveis como empreendimentos locais em certas micro regiões, terras indígenas e Unidades de Conservação de uso sustentável. Contudo, em um contexto de amazônia brasileira como um todo, e do ponto de vista macro econômico, por serem mescladas, perdem para a monocultura, que é muito mais lucrativa. Mesmo o manejo de árvores em florestas tropicais primárias é questionável, visto que árvores levam séculos para amadurecer, ao contrário das florestas temperadas e de alta latitude. Ainda que bem realizado e legalizado, o manejo florestas de madeiras tropicais é muito burocrático e oneroso, e perde, infelizmente, para a madeira tirada de forma predatória. O mercado madeireiro também têm perdido espaço para monoculturas , como a teca proveniente da Ásia, além, é claro, de madeiras “claras” e de rápido crescimento, como o eucalipto e o pinus. Sempre lembramos que, em contexto global, as florestas tropicais primárias são cada vez mais raras (bem menos de 10% das terras emersas), e também lembramos a redução drástica da biodiversidade que está ocorrendo no planeta, e o imenso papel que a floresta amazônica tem na proteção da biodiversidade das terras tropicais emergentes. Durante a última Conferência do Clima (COP 17), realizada em 2011 na África do Sul, as metas de Kyoto foram atualizadas e ampliadas para reduzir as emissões em 25% a 40% em 2020, em relação aos níveis de 1990 para os países desenvolvidos. O Brasil ocupa a terceira posição mundial entre os países que participam desse mercado, com cerca de 5% do total mundial e 268 projetos. A expectativa inicial era absorver 20%. O mecanismo incentivou a criação de novas tecnologias para reduzir as emissões de gases poluentes no Brasil.As nações que não podem (ou não desejam) reduzir suas emissões poderão comprar RCEs nos países em desenvolvimento e usá-las para cumprir suas obrigações. O ministro do Meio Ambiente do Brasil, Ricardo Salles, tentou, sem sucesso, no início desse ano, obter créditos por meio do mercado de carbono. Não obteve sucesso, e as críticas à política ambiental continuam acirradas, principalmente no exterior, onde há real risco de boicote da ordem de bilhões de dólares aos produtos brasileiros. O imperativo é que os países que mais emitem, comprem créditos do governo brasileiro, das principais empresas brasileiras ou do agronegócio progressista que se encontra na Amazônia brasileira. Bruno Versiani dos Anjos in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 31/08/2020

Sinais de alerta na prevenção do suicídio

Prevenção do suicídio – Isolamento e falas negativas devem ser tratados com atenção, acolhimento e respeito Durante o mês de setembro é discutida a prevenção do suicídio. Um tema delicado, que requer cuidados para observar situações que podem levar o indivíduo atentar contra a própria vida. Por Chris Xavier O psicólogo analítico Kléber Marinho já esteve à frente de instituições que lidam diretamente com pessoas vulneráveis ao suicídio e hoje ainda atende pacientes severos em seu consultório. Com experiência de mais de 20 anos na área, ele listou 5 sinais que uma pessoa pode emitir ao ter pensamentos suicidas. Isolamento – Um indício forte de que algo está acontecendo é o isolamento da pessoa. O indivíduo se fecha e não desenvolve mais interesse por coisas que antes gostava de fazer. “Observar principalmente adolescente se estão muito no quarto. Mesmo respeitando o espaço deles é importante observar essa falta de movimento”, explica o profissional. Falas negativas – De acordo com o psicólogo, algumas manifestações verbais não podem ser vistas meramente como chantagem ou um jeito de chamar atenção. “Muitas pessoas acreditam que quem diz que quer cometer suicídio, não faz. Essa situação é preocupante sim. Falas como “perdi o sentido da vida”, “quero sumir”, “vou deixar vocês em paz” ou que sinalizem baixa autoestima devem ser ouvidas com cautela e acolhimento”, afirma Marinho. Falta de diálogo – O peso e a tristeza profunda que assolam a pessoa que pensa em acabar com a própria vida é imensa. Com medo de ser julgada ou de causar mais problemas aos que estão à sua volta, a pessoa se fecha e não fala de seus sentimentos. “É sempre importante insistir no diálogo, de forma respeitosa, porém é necessário procurar um lugar calmo e um momento de tranquilidade para isso. Oferecer ajuda especializada e canais de suporte são essenciais “, aconselha o psicólogo. Depressão, álcool ou drogas – A maioria de pessoas que se suicidaram apresentavam um quadro de depressão. O abuso do álcool ou o uso de substâncias tóxicas agravam o caso e intensificam a impulsividade. “Drogas podem servir de gatilho para pessoas que já apresentam um comportamento suicida”, explica Kléber. Redes sociais – Outro sinal que pode ser observado são “pedidos de ajuda” camuflados nas mídias sociais, sinalizando que estão com problemas ou quando seguem páginas relacionadas a morte. “Outra evidência é quando o usuário compartilha com seus amigos conteúdo impróprio que incitem o suicídio”. Kleber Marinho enfatiza outras mudanças de comportamento, como alimentação, sono e agressividade e devem ser observadas. E assim que um ou mais desses sinais forem identificados é preciso conversar de forma acolhedora e empática, e em seguida procurar ajuda especializada. in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 31/08/2020

EcoDebate - Edição 3.505 de 31/ agosto / 2020

Desejamos a todos(as) um bom dia e uma boa leitura A Argentina ultrapassa o Chile e ocupa o 10º lugar no ranking global dos casos da covid-19 A utilidade pública dos bens imóveis públicos Sacola Plástica: Objeto Obsoleto na Contemporaneidade A normalização do anormal Agricultura de Baixa Emissão de Carbono: tecnologias disponíveis Um dos principais futuros econômicos da Floresta Amazônica é o crédito de carbono O aquecimento global aumenta o risco de furacões extremos no Caribe Emissões globais de metano aumentaram 9% entre 2000 e 2017 Sinais de alerta na prevenção do suicídio “Compreendemos desenvolvimento sustentável como sendo socialmente justo, economicamente inclusivo e ambientalmente responsável. Se não for assim não é sustentável. Aliás, também não é desenvolvimento. É apenas um processo exploratório, irresponsável e ganancioso, que atende a uma minoria poderosa, rica e politicamente influente.” [Cortez, Henrique, 2005]

Degradação avança no Mato Grosso e faz meta de desmatamento ilegal zero fracassar

por Maurício Hashizume, Repórter Brasil – Municípios às margens do Parque Indígena do Xingu são palco do avanço do agronegócio e registram altos índices de focos de incêndio e desmate; ações tímidas do governo do MT e agenda antiambiental da gestão Bolsonaro estimulam degradação da floresta amazônica no estado Três toras de árvores tombadas e um boi ilustram, respectivamente, os brasões oficiais das cidades de Marcelândia e Feliz Natal, no norte do Mato Grosso. Desmatamento, exploração madeireira e criação de gado também estão patentes no cotidiano local e nos altos índices recentes de devastação nos dois municípios, tanto em termos de focos de calor como de área de floresta derrubada. Localizadas às margens do Parque Indígena do Xingu, numa região conhecida pela abertura de “novas áreas” de desmatamento, essas cidades simbolizam a escalada da degradação ambiental da Amazônia no estado e colaboram para que o Mato Grosso se afaste da meta, que ele próprio firmou em 2015, de desmatamento ilegal zero até 2020. Feliz Natal teve 162 focos de incêndios registrados pelo Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) entre junho e julho deste ano – maior registro entre os municípios do bioma amazônico no Mato Grosso, enquanto Marcelândia teve a maior área desmatada (83 km²) em imóveis rurais cadastrados, segundo dados do Prodes entre 2018 e 2019. E estes são apenas dois dos dados que mostram como a situação dessas cidades representa o fracasso do estado em acabar com desmatamento ilegal – uma promessa lançada durante a Cúpula do Clima em Paris que vem se tornando cada vez mais inalcançável. Entre agosto de 2019 e julho deste ano, o Inpe detectou 1,8 mil km² de área desflorestada no bioma Amazônia do Mato Grosso, aumento de de 31% em comparação a um ano antes. Se confrontado com dois ciclos atrás (agosto de 2017 a julho de 2018), o salto foi de 60%. A escalada da degradação mês a mês também impressiona e foi mais intensa justamente no último mês de julho, com o índice de desmatamento sofrendo uma alta de 136% em relação ao mês anterior. Avanço do agronegócio, especialmente em áreas próximas do Parque Indígena do Xingu, colaboraram para afastar o Mato Grosso da meta firmada pelo próprio estado de desmatamento ilegal zero até 2020 (Foto: Christiano Antonucci/Secom-MT) Uma das principais medidas tomadas pelo governo do Mato Grosso para coibir a destruição da floresta no prazo determinado foi o investimento em modernos sistemas de satélites de monitoramento. Ao custo de R$ 6 milhões, em 2019, foi contratado o sistema de alertas Planet, resultado de recursos captados pelo Mato Grosso junto ao Reino Unido e à Alemanha. Outra iniciativa, essa em parceria com o Ministério Público Estadual, para cumprir a meta era cruzar os dados do Planet com áreas lançadas no Cadastro Ambiental Rural (CAR) para agilizar os relatórios de infrações ambientais. No entanto, essas medidas foram neutralizadas por três erros, de acordo com especialistas. As projeções e promessas feitas estavam foram da realidade; faltou atuação política contra as ações do governo federal que dificultam o controle do desmatamento e, por fim, ações práticas foram tímidas já que só o monitoramento remoto de incêndio e desmate, mesmo com satélites de ponta, não é suficiente. Procurado pela reportagem, o governo mato-grossense afirmou reconhecer que “o déficit de investimentos necessários para alavancar o desenvolvimento sustentável no Estado ainda é muito grande“, mas afirmou que para que isso aconteça também é preciso que haja “uma ação coletiva com a participação de outras esferas da administração pública e com envolvimento do setor privado e da sociedade civil” (leia aqui a resposta na íntegra). Um dos principais entraves para coibir o desmatamento no MT é o fato de que o áreas desmatadas valem mais do que a floresta em pé, como no caso da cidade de Feliz Natal (Foto: Christiano Antonucci/Secom-MT) Fernando Sampaio, diretor-executivo da estratégia do governo para zerar o desmatamento, chamada Produzir, Conservar e Incluir, admite que a meta estadual “está muito longe” de ser alcançada. “Os ruralistas falam que o Brasil consegue produzir muito mais sem desmatar. Mas o fato é que, mesmo melhorando as ações de fiscalização ambiental para tentar segurar [a devastação], esse jogo só vai virar quando a gente conseguir trazer um valor real para a floresta em pé”. O município de Feliz Natal, mais uma vez, pode ser usado para ilustrar a declaração de Sampaio sobre como a floresta intacta vale muito menos do que uma área devastada. A prefeitura determina, para fins de arrecadação de impostos, que cada hectare de área preservada vale R$ 1.480, enquanto o de área boa para lavoura vale o triplo: R$ 4.433. Mesmo para áreas consideradas regulares para lavoura, o valor fixado é de R$ 3.614. “Até hoje a floresta em pé continua não valendo nada. Para qualquer um que tenha área de floresta, a terra vale muito mais sem floresta do que com”, reforça Sampaio. Desmatamento ‘desesperador’ e produção pecuária recorde “Os números são terríveis. O volume de desmatamento é desesperador, pela perda de biodiversidade que o Brasil está sofrendo”, afirma o promotor de Justiça Marcelo Vacchiano, coordenador do Centro de Apoio Técnico à Execução Ambiental do Ministério Público Estadual do Mato Grosso (MPMT). A diretora-adjunta do Instituto Centro de Vida (ICV), Alice Thuault, também vê os números da escalada de desmatamento como “assustadores” e condena a “pirotecnia antiambiental” da parte do governo federal que passou a dominar a agenda do setor. No mesmo levantamento que apresentou o dado de que 85% dos desmatamentos no Mato Grosso são ilegais no período 2018/2019, a queda de autuações por danos à flora no Estado por parte do Ibama também foi sublinhada: de 1.093, em 2015, para apenas 411 em 2019, menos da metade em um ano de maior intensidade de devastação ambiental. O Ibama vem sendo alvo de uma “intervenção militar” principalmente desde o Decreto da Garantia da Lei e da Ordem (GLO) e a criação, em maio, da Operação Verde Brasil 2, que vem causando uma desconstrução de políticas estatais ao substituir equipes técnicas experientes por comandos militares. Na opinião do promotor Vacchiano, essa agenda governamental que não enfrenta os problemas socioambientais do país inclui ainda anistias por crimes ambientais, passividade perante as invasões de florestas, grilagens e orientações do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, para “passar a boiada” com desregulamentações jurídicas. Na esfera estadual, organizações da sociedade civil criticam ainda a aprovação na Assembleia Legislativa de Mato Grosso de projeto de lei que permite a derrubada de mata nativa em Área de Proteção Permanente (APP) para projetos autodeclarados de “baixo impacto”, sem a devida checagem do cadastro ambiental, e também dá margem para licenciamentos “expressos”, com base apenas em documentação apresentação pela parte interessada. Na sua versão original, o projeto autorizava até o registro de CAR sobreposto a Terras Indígenas ainda em processo de homologação — item que acabou sendo retirado do texto aprovado em julho, em pleno contexto de pandemia, após pressão dos indígenas e de ambientalistas. Esse cenário de fragilidade ambiental se dá num contexto de produção do agronegócio nas alturas. O Valor Bruto da Produção Agropecuária (VBP) no Mato Grosso deve atingir R$ 125 bilhões em 2020, segundo o Ministério da Agricultura. É o maior do país (17,5%), seguido por Paraná (12,8%), com R$ 91 bilhões, e São Paulo (12,7%), com R$ 90,7 bilhões. Neste ano, o valor bruto nacional deve atingir R$ 716 bilhões — alta de 8,8% na comparação com 2019. Puxados por safras recordes de grãos e pela valorização dos preços dos produtos agrícolas, será a maior produção em 31 anos — mesmo em meio à pandemia do novo coronavírus e com diversos setores passando por retração. Nível municipal Tanto os números como as medidas do governo em suas ações de desmonte ambiental ganham corpo na trajetória recente de Marcelândia. Situada a 210 km de Sinop, centro do chamado “Nortão” do Mato Grosso, entre a Rodovia BR-163 e o Parque Indígena do Xingu, a cidade foi alvo de operações do Ibama e da Força Nacional – como a Curupira (2005) e a Arco de Fogo (2008) – que flagraram irregularidades e abalaram a indústria madeireira local. Depois de ter permanecido entre 2008 a 2013 na lista de municípios prioritários para ações de prevenção, monitoramento e controle do Ministério do Meio Ambiente, Marcelândia passou cinco anos no grupo de municípios com desmatamento monitorado e sob controle para, em 2018, retornar à lista de maior atenção. Em Marcelândia, apenas uma única pessoa, ligada a uma companhia do setor do agronegócio, está sendo responsabilizada, no pacote de inquéritos do Ministério Público, pelo desmatamento ilegal de 2,9 mil hectares (que correspondem a quase 3 mil campos de futebol) entre 2008 e 2019. Um outro proprietário, empresário que vive distante em cidade do Sul do país onde foi prefeito, está respondendo perante ao MP pela derrubada ilícita de outros 1 mil hectares noo mesmo período. O município tem predominância de grandes propriedades – as terras com menos de 400 hectares ocupam apenas 5% da área, enquanto fazendas com mais de 2 mil hectares abocanham 71% — o que sinaliza que quem desmata e faz queimar em Marcelândia, em geral, não é o agricultor familiar, o assentado ou o membro de comunidade. São os grandes fazendeiros. “O município passa hoje por uma transição da pecuária para a agricultura. Então, temos uma rotatividade de proprietários que, antes, não era assim tão comum. Observamos que alguns deles chegam aqui, fazem a sua ‘limpeza’, a sua ‘abertura’ e procedem a sua ‘queima’. Às vezes, ignoram o fato de que existe a fiscalização”, relata a secretária municipal de Meio Ambiente, Suzana Barbosa. Segundo ela, também houve uma queda na frequência das fiscalizações ambientais: “Entre 2013 a 2018, a equipe do Ibama costumava chegar aqui logo que se encerrava o período das chuvas (entre fevereiro e abril) e ficava até novembro ou dezembro”. Em 2019 e 2020, as ações foram escassas, de acordo com Barbosa, apenas com intervenções pontuais de monitoramento remoto, e não duraram mais que 20 dias. No ano passado, os incêndios florestais registrados pelo Corpo de Bombeiros em Marcelândia deram um susto na população, que se recordou do cenário infernal da temporada do fogo de 2010 — quando labaredas avançaram sobre o município, deixando famílias desabrigadas, destruindo 80% das empresas e criando a necessidade de decreto de emergência. Mesmo assim, Marcelândia ainda aparece como terceiro município do bioma Amazônia no Mato Grosso com maior número de focos de calor (148) detectados pelo Inpe entre junho e julho de 2020, apenas atrás da vizinha Feliz Natal (162) e da Gaúcha do Norte (152). #Envolverde

As redes de tráfico que estão acelerando a extinção de espécies na Amazônia

Por Sharon Guynup, Mongabay – Novo relatório de 140 páginas lança luz sobre o tráfico ilegal de animais silvestres na Amazônia. O estudo revela que milhões de aves, tartarugas, mamíferos e peixes tropicais estão sendo retirados da natureza e comercializados internamente ou exportados para Estados Unidos, Europa, China, Oriente Médio e outros lugares. Muitos estão em perigo de extinção. O comércio internacional ilícito é facilitado por leis e penalidades fracas, manutenção inadequada de registros governamentais e aplicação ineficiente da lei, assim como corrupção generalizada, suborno, fraude, falsificação, lavagem de dinheiro e contrabando. Embora alguns animais sejam apreendidos e alguns contrabandistas de baixo escalão sejam capturados, os líderes desta operação criminosa global raramente são levados à justiça. O relatório indica que o tráfico não só prejudica a vida silvestre como também dizima ecossistemas e coloca em risco a saúde pública. Os pesquisadores apontam que a covid-19 provavelmente foi transmitida aos seres humanos por animais traficados e que medidas mais duras contra o comércio ilegal da fauna silvestre da Amazônia brasileira poderiam evitar a próxima pandemia. A Amazônia brasileira perde todo ano milhões de animais silvestres para o tráfico ilegal, de acordo com um novo relatório da organização britânica Traffic. Canários-da-terra e outros pássaros, incluindo araras e papagaios raros, são capturados, traficados e vendidos como animais de estimação. Alguns são leiloados para se tornar futuros competidores em concursos de aves. Peixes ornamentais destinados a aquários domésticos também são retirados da Amazônia, entre eles o tetra-azul e o tetra-cardeal. O pirarucu, um dos maiores peixes de água doce do mundo, é capturado ilegalmente na natureza, misturado em meio a espécimes criados em cativeiro e enviado para os Estados Unidos em grande quantidade. Esse e outros peixes são servidos na mesa de jantar, assim como tartarugas de água doce e seus ovos, enquanto antas, porcos-do-mato e outros mamíferos são vendidos no Brasil como carne de caça. Já dentes, cabeças e peles de onças-pintadas são enviados à China, para uso na medicina tradicional ou como artigo de decoração. “A captura abrangente e descontrolada de animais e plantas silvestres para o tráfico está trazendo graves consequências à biodiversidade brasileira, à economia nacional, ao Estado de Direito e à boa governança”, diz o relatório. Partes de onça-pintada, como pele, patas e dentes, são vendidos na Ásia para uso na medicina tradicional e como adorno. Foto: Diego Pérez / WWF. Falta de dados esconde o tráfico O estudo de 140 páginas foi conduzido pela consultora em biodiversidade Sandra Charity junto com Juliana Ferreira, diretora executiva da Freeland Brasil. Seu foco foram espécies da Floresta Amazônica, com destaque para o comércio de aves. Uma das descobertas da pesquisa foi a existência de um segmento cada vez maior do comércio ilegal que “lava” pássaros vítimas de caça, valendo-se de uma rede legal de criação de aves em cativeiro. As autoras também detectaram que poucas agências governamentais mantiveram registros ou reportaram dados sólidos que quantificassem o verdadeiro escopo do problema. Em muitos casos, os registros nem mesmo identificavam as espécies ou o número específico de animais apreendidos pelas autoridades, enquanto os dados provenientes da Amazônia eram “notoriamente escassos”. “Apreensões significativas são feitas diariamente por ações policiais no estado do Amazonas, mas não tivemos acesso aos dados”, diz Juliana Ferreira. “Pelo que vimos, [o comércio ilegal] é ainda maior do que imaginávamos.” São tendências difíceis de acompanhar, uma vez que os dados de apreensão representam apenas uma fração dos animais retirados ilegalmente da natureza. A partir das informações existentes, porém, pode-se notar um claro aumento no contrabando de algumas espécies: as apreensões de onças-pintadas, por exemplo, aumentaram em 200% de 2012 a 2018. O relatório aponta que a falta de dados abrangentes tende a minimizar a severidade do tráfico de animais silvestres no Brasil – minando os esforços de fiscalização, as medidas legais e o investimento necessário para combatê-lo. O estudo adverte, ainda, que o comércio ilegal está tendo sérias consequências não apenas para os animais apreendidos, como também para espécies, ecossistemas e povos inteiros — na Amazônia e em todo o mundo. A atual epidemia do covid-19, por exemplo, causada por um coronavírus que migrou da natureza para os humanos, lembrou ao mundo que o tráfico de animais silvestres não é apenas uma questão de conservação da biodiversidade, argumenta Ferreira. É tanto uma questão de saúde pública quanto uma questão de biossegurança. Impacto em cascata sobre os ecossistemas O atual comércio ajudou a acelerar o desaparecimento de 1.173 espécies que enfrentam a extinção no Brasil. Muitas vezes, quem são capturados são os indivíduos maiores, mais fortes e mais bonitos — machos de aves, por exemplo —, impactando toda a população daquela espécie. Os poucos sobreviventes em um grupo, por sua vez, podem se tornar consanguíneos, enfraquecendo o patrimônio genético. Segundo as autoras, retirar indivíduos de populações selvagens de forma sistemática pode criar um efeito dominó, gerando impactos em cascata e desmantelando os sistemas biológicos e físicos que sustentam toda a vida na Terra. Sem aves que atuam como dispersoras de sementes, as árvores e plantas de que muitos animais dependem para se alimentar desaparecem. Vale lembrar que as florestas tropicais atuam como enormes armazenadoras de carbono, ajudando a minimizar os efeitos das mudanças climáticas, além de amortecer enchentes e fornecer água potável para milhões de pessoas. Perder milhões de animais todos os anos para o tráfico poderia não apenas levar à existência de florestas vazias, mas eventualmente causar o colapso de ecossistemas inteiros. O tráfico como crime organizado global O comércio ilegal de animais selvagens também está ganhando cada vez mais atenção em função das redes criminosas transnacionais que abrangem quase todos os continentes, gerando lucros gigantescos e cultivando a corrupção em grande escala. O Fundo Mundial para o Ambiente (GEF, na sigla em inglês) descreve o tráfico de animais silvestres como “um dos negócios ilegais mais lucrativos do mundo”. É classificado como a quarta maior fonte mundial de ganhos criminosos, gerando até 23 bilhões de dólares por ano. Com tanto dinheiro circulando de modo ilícito, o tráfico tornou-se uma questão de segurança nacional em todo o mundo. Mesmo que as autoridades ambientais possam apreender animais comercializados ilegalmente e prender alguns contrabandistas, o estudo indica que a aplicação da lei não está visando os líderes reais que dominam o comércio ou suas cadeias de abastecimento. Como resultado, a indústria do crime ambiental prospera, produzindo corrupção generalizada, suborno, fraude, falsificação, lavagem de dinheiro e contrabando. Infelizmente, “a legislação existente não considera o tráfico de animais selvagens um ‘crime grave’”, diz o relatório, alertando que há diversas brechas e inconsistências nas leis. Como o comércio ilícito é um negócio tão lucrativo, penas leves significam poucos obstáculos. Uma “detenção” de 6 a 12 meses é comum nesse segmento, o que é apenas uma restrição à liberdade, e não tempo de prisão propriamente dita. Muitas vezes, essa pena é negociada para incluir parte do cumprimento em serviço comunitário. Além disso, o relatório documentou extensas evidências de fraude cometida por criadores privados e comerciais no Brasil que falsificaram licenças, etiquetaram indevidamente declarações de espécies e adulteraram anilhas de identificação emitidas pelo governo para vender pássaros adquiridos ilegalmente junto às espécies regulamentadas. Este mercado específico é, em grande parte, doméstico – o que alimenta uma cultura bastante consolidada no Brasil, que é a de manter pássaros (especialmente canários) como animais de estimação. O Ibama estimou que, só em 2015, cerca de 3 milhões de aves passeriformes foram registradas por meio de práticas fraudulentas governo – 75% do total. Tartaruga-de-cabeça-grande-do-Amazonas (Peltocephalus dumeriliana), capturada no Rio Negro. Foto: Staffan Widstrand / WWF Controlando o tráfico na Amazônia Embora o objetivo do novo relatório não fosse fazer uma avaliação extensa do comércio internacional, as autoras detectaram que compradores estrangeiros estão motivando grande parte dele. “Parece que alguns países asiáticos estão adquirindo mais espécies no Brasil, tais como pepino-do-mar, cavalos-marinhos, peixes ornamentais, onças e tubarões”, diz Ferreira, acrescentando que os Estados Unidos são os principais consumidores de peixes ornamentais e de couro feito de pele de pirarucu. Aves, anfíbios e répteis normalmente são vendidos a colecionadores europeus, e o Oriente Médio é um mercado para aves de rapina da Amazônia. O comércio digital – a internet, as mídias sociais e os grupos de mensagens – tornaram-se “escritórios de vendas” chave para os animais selvagens e produtos feitos a partir deles. A própria “mercadoria” é movida de todas as maneiras imagináveis: por meio de carros, ônibus, barcos, aviões e serviços de entrega durante a noite. “Mulas” humanas foram detidas com pássaros ou ovos colados a seus corpos, ou escondidos dentro de roupas. Uma fronteira permeável de cerca de 13 mil quilômetros entre a Amazônia brasileira e sete países cria um fluxo fácil. As fronteiras peruanas e colombianas, no noroeste da Amazônia, formam um “eixo particularmente relevante” para o tráfico, observou o relatório. Segundo Sandra Charity, autora principal do estudo, o combate ao comércio ilegal exige que ele seja reconhecido e tratado como um crime grave. Também são necessários dados mais completos que viabilizem um planejamento estratégico e reforcem a aplicação da lei,. Leis nacionais mais duras que mirem nos traficantes profissionais também permitiriam a aplicação das medidas previstas pela Convenção das Nações Unidas sobre o Crime Organizado.. “Sem um mercado, não há comércio. Portanto, educar os consumidores é fundamental”, conclui Juliana Ferreira. “Em última análise, é uma questão de escolher por que estamos comprando aquele animal, ou produto da vida silvestre, e se vale a pena. Culturas são dinâmicas e precisam evoluir. Precisamos começar a mudar a maneira como vemos a vida silvestre como mercadoria , e também entender que amar um animal pode equivaler a aprisioná-lo”. Imagem do destaque: Onça-pintada (Panthera onca). © naturepl.com / Edwin Giesbers / WWF. #Envolverde

“A Amazônia já tem todas as condições de gerar uma massiva epidemia”. Entrevista com Carlos Nobre

Por Gabriel Brito*, da Redação do Correio da Cidadania – Cientista renomado e com passagem por diversos órgãos de meio ambiente, Carlos Nobre deu entrevista ao Correio da Cidadania para falar dos riscos de aparecimento de um novo patógeno a partir da pressão humana sobre a floresta amazônica. Na realidade, esclarece que estamos no chamado “século das zoonoses”, uma vez que novos vírus, bactérias ou protozoários são descobertos em média a cada quatro meses. A seu ver, o Brasil não tem alternativa de prazo que não passe pela mudança de modelo econômico e sua relação com a floresta. “Já há suficiente evidência para se concluir que a floresta em pé apresenta um potencial econômico real e muito superior às práticas de desmatamento. Para isso, esta iniciativa procura implementar o projeto Amazônia 4.0, que é trazer modernas tecnologias da Quarta Revolução Industrial para promover bioindustrialização na própria Amazônia dos produtos da floresta, para agregação de valor às cadeias da biodiversidade e geração de inclusão social, melhores empregos e renda”, propõe. O professor, membro da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza (RECN) e pesquisador do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (USP), apresenta seu conceito de “terceira via amazônica”, que daria condições de o Brasil se tornar uma “Potência Ambiental da Sóciobiodiversidade”. Além de valorizar o modo de vida de povos locais, tal mudança de paradigma poderia frear o processo que considera quase irreversível de savanização de grandes partes do território. “Estamos muito próximos de um ponto de não retorno de savanização da maior parte da floresta tropical da Amazônia. A estação seca está se tornando mais longa em grande extensão do sul da Amazônia e mostra a iminência de que o novo e perturbado clima — mudança causada pela interação sinergística do aquecimento global, dos desmatamentos e do aumento da vulnerabilidade da floresta ao fogo – está quase se tornando o clima típico das savanas tropicais – nosso cerrado do Brasil Central – com longa estação seca”, advertiu. A entrevista completa com Carlos Nobre pode ser lida a seguir. Correio da Cidadania: Recentemente, o senhor afirmou que “não ter surgido uma epidemia massiva na região da floresta até hoje é pura sorte. Os fatores de risco estão todos lá”. Como as pessoas devem compreender essa possibilidade? Carlos Nobre: A grande maioria das epidemias e pandemias tem como origem as zoonoses, quando um potencial patógeno para o corpo humano migra de um hospedeiro — inseto, roedores, morcegos, aves, gado, suínos, primatas etc. Este espalhamento de patógenos – vírus, bactérias, protozoários, parasitas – acontece quando o equilíbrio ecológico de ecossistemas é perturbado, como no caso das pandemias de Ebola, HIV, SARS, MARS, COVID-19, Zika, Dengue, peste suína, e muitas outras. O espalhamento do patógeno para humanos está muito associado a pressões humanas sobre os ecossistemas – por exemplo, na SARS de 2002/2003, esteve associado à caça de morcegos de regiões da China e o primeiro coronavírus a tornar-se pandêmico migrou para humanos provavelmente em mercados de carne de animais selvagens. Todas estas perturbações no equilíbrio ecológico estão presentes na Amazônia com o modo de desenvolvimento adotado desde os anos de 1970: madeireiros, desmatadores, grileiros de terras, aqueles que colocam fogo. Estas pessoas circulam de dentro da floresta perturbada para áreas urbanas e periurbanas, tornando-se potenciais transmissoras dos patógenos, principalmente quando a transmissão ocorre diretamente entre humanos. Com o crescente impacto das atividades humanas sobre os ecossistemas naturais, a perturbação sobre os micro-organismos tem causado um aumento da frequência de epidemias ao redor do mundo – praticamente uma nova a cada 3 a 4 meses -, com algumas atingindo o nível de pandemia como a COVID-19. Correio da Cidadania: Não é difícil pensar no bioma amazônico brasileiro como potencial fonte de origem de um novo patógeno. Carlos Nobre: A ciência ainda não conseguiu elucidar porque uma grande pandemia não tenha se originado na Amazônia, região que hospeda centenas de milhares ou talvez milhões de espécies de micro-organismos. Uma espécie de hantavírus presente em espécies de morcegos do bioma Amazônia tem o potencial de chegar em humanos gerando a hantavirose. Já há evidências destes morcegos em áreas desmatadas no sul da Amazônia e chegando muito próximos a assentamentos humanos. Em resumo, os riscos estão todos presentes na Amazônia para uma massiva epidemia, que pode tornar-se pandemia. Não podemos contar com a sorte e é imperativo zerar o desmatamento, queimadas, degradação florestal e buscar restabelecer o equilíbrio ecológico. Um estudo recente mostrou que o custo de proteger todas as florestas tropicais do planeta – possíveis fontes de quase permanentes novas epidemias e pandemias, se continuarem a ser destruídas e perturbadas – é uma pequena fração do custo econômico que a COVID-19 já causou à economia mundial. Este é o caminho sensato, que faz sentido econômico, sustentável e é justo para toda a humanidade e para todas as espécies vivas do planeta. Correio da Cidadania: O senhor também desenvolveu o conceito da “terceira via amazônica”. O que seria isso e que tipo de debates a pandemia e a relação que temos estabelecido com a floresta e o meio ambiente deveria gerar em nossa sociedade? Carlos Nobre: O conceito que estamos desenvolvendo na Terceira Via Amazônia é buscar alternativas para o desenvolvimento de uma nova bioeconomia de floresta em pé. O modo desenvolvimentista de uso intensivo e extrativista dos recursos naturais da Amazônia — agropecuária, mineração, energia — iniciado de forma acelerada há 50 anos não enxerga real valor econômico na floresta e na sua imensa biodiversidade escondida nos ecossistemas terrestres e aquáticos. Porém, já há suficiente evidência para se concluir que a floresta em pé apresenta um potencial econômico real e muito superior às práticas de desmatamento. Para isso, esta iniciativa procura implementar o projeto Amazônia 4.0, que é trazer modernas tecnologias da Quarta Revolução Industrial para promover bioindustrialização na própria Amazônia dos produtos da floresta, para agregação de valor às cadeias da biodiversidade e geração de inclusão social, melhores empregos e renda. Hoje, o açaí já traz cerca de 1 bilhão de dólares para a economia da Amazônia e beneficia cerca de 300 mil pessoas. Mas os níveis de agregação de valor via industrialização são baixos. Há centenas e até milhares de produtos da floresta com potencial econômico. Há que se mudar a visão que herdamos dos colonizadores europeus há 500 anos e tornarmos o Brasil a primeira “Potência Ambiental da Sociobiodiversidade”, com uma inovadora bioeconomina de floresta em pé e rios fluindo. Correio da Cidadania: Ainda sobre a Amazônia, como avalia os atuais níveis de desmatamento e a atuação do ministério do Meio Ambiente? A que se devem os atuais acontecimentos na área? Carlos Nobre: Há uma grande preocupação entre todos os brasileiros e que também se tornou uma preocupação global sobre o futuro da Amazônia. Estamos muito próximos de um ponto de não retorno de savanização da maior parte da floresta tropical da Amazônia. A estação seca está se tornando mais longa em grande extensão do sul da Amazônia e mostra a iminência de que o novo e perturbado clima — mudança causada pela interação sinergística do aquecimento global, dos desmatamentos e do aumento da vulnerabilidade da floresta ao fogo – está quase se tornando o clima típico das savanas tropicais – nosso cerrado do Brasil Central – com longa estação seca. O aumento das taxas de desmatamento, fogo e degradação florestal nos últimos anos exacerba a preocupação sobre o risco iminente de savanização da floresta. É preciso reverter o discurso de muitos políticos tanto da Amazônia como de Brasília de buscar um modelo ultrapassado de desenvolvimentismo a qualquer preço que não vê qualquer valor econômico, estético ou cultura na floresta em pé. Seguir nesta direção já mostra que não é somente um suicídio ambiental, mas também econômico, em função da reação global e de importantes setores econômicos – como os fundos de investimento – contra a continuidade da destruição da floresta e de seus povos originários. Esta reação começa a ganhar força também no Brasil com setores econômicos se manifestando publicamente contra tal modelo, defendendo zerar o desmatamento e restaurar a floresta. *Gabriel Brito é jornalista e editor do Correio da Cidadania. #Envolverde

Parques no Acre e Rio de Janeiro podem ser extintos pelo Congresso

por Aldem Bourscheit – Especialistas elencaram as reservas ambientais mais ameaçadas por projetos de lei no país Artigo de pesquisadores de universidades do Brasil e dos Estados Unidos listou as reservas ambientais mais ameaçadas por projetos de lei no Congresso Nacional. Elas podem ser extintas, reduzidas ou perder capacidade de proteger ambientes naturais. Relação inclui parques nacionais e outras unidades de conservação em vários biomas do país. O trabalho publicado em revista da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) revela que a proteção da natureza pode perder mais de 2 milhões de hectares no país caso sejam aprovados projetos de lei tramitando no Congresso Nacional. A área é semelhante a 14 vezes a cidade de São Paulo. A Estação Ecológica de Tamoios (RJ) e o Parque Nacional da Serra do Divisor (AC) podem ser extintos e convertidos em outros tipos de áreas protegidas. Ao mesmo tempo, parques nacionais do Jamanxim (PA) e das serras da Bodoquena (MS) e da Canastra (MG), Reserva Biológica do Cachimbo (PA) e Floresta Nacional de Brasília (DF) perderão grande parte de seus territórios. O levantamento é assinado por Ricardo Machado, Mercedes Bustamante e Ludmilla Aguiar, da Universidade de Brasília (DF), e por Manuela Carneiro da Cunha, professora na Universidade de Chicago (Estados Unidos). Eles integram a Coalizão Ciência e Sociedade, grupo com 72 cientistas de instituições brasileiras. Lista e distribuição das unidades de conservação hoje mais ameaçadas. Fonte: Coalizão Ciência e Sociedade Somente no Pará, um dos líderes em desmatamento da Amazônia, nos últimos anos houve tentativas para encolher em 1,1 milhão de hectares unidades de conservação já delimitadas. Conforme os pesquisadores, iniciativas como essas têm como pano de fundo uma visão equivocada de que proteger a natureza impede o desenvolvimento econômico. As propostas de recortes também atendem a interesses eleitoreiros ou econômicos de curto prazo, mais valiosos a muitos parlamentares do que cumprir a Constituição Federal e proteger ambientes naturais e populações que neles vivem. Jabutis e outras manobras legislativas são usados na tentativa de minar a proteção da natureza brasileira. Em 2018, deputados e senadores tentaram reduzir os parques nacionais de Brasília e de São Joaquim e a floresta nacional de Brasília enxertando artigos numa medida provisória que transferia imóveis da extinta Rede Ferroviária Federal à União. O drible foi barrado pela mobilização social, mas as unidades de conservação seguem na mira do agronegócio atrasado e da especulação imobiliária. ALERTA VERMELHO Deputado Vermelho (esquerda) e Jair Bolsonaro (centro) em 2019. Foto: Adelino de Souza / Divulgação/GDia Outras iniciativas não reduzem parques e outras reservas, mas sim sua capacidade de proteger os ambientes naturais e, ao mesmo tempo, ameaçam o conjunto de unidades de conservação do país. Reserva Extrativista de Canavieiras (BA) e Parque Nacional da Serra do Divisor (AC) podem ser transformados em Áreas de Proteção Ambiental para facilitar assentamentos e construção de rodovias. Enquanto isso, projetos de lei na Câmara e no Senado tentam abrir uma estrada através do Parque Nacional do Iguaçu, um dos mais visitados do país e abrigo da última grande porção de Mata Atlântica no oeste paranaense. Mesmo com a possibilidade barrada na Justiça Federal, deputados como Vermelho (PSD-PR) engrossam o lobby junto a Jair Bolsonaro para forçar a obra na área protegida. Como mostrei em reportagem d’O Eco, o projeto pode favorecer negócios do parlamentar. Além disso, permitirá a abertura indiscriminada de rodovias em outros parques país afora. Os prejuízos vão de desmatamento a atropelamentos de animais que devem ser protegidos. Só no Parque do Iguaçu, a via pode levar à perda 900 hectares de mata preservada. Também preocupam os movimentos da família Bolsonaro para transformar áreas protegidas como a Estação Ecológica de Tamoios (RJ) numa “Cancún brasileira”. Ao contrário do mega balneário mexicano, a reserva brasileira protege mais de 200 espécies de peixes, inclusive ameaçadas de sumir do mapa, como garoupa, boto-cinza e mero. Jair Bolsonaro foi multado em 2012 por pescar ilegalmente em Tamoios. Em dezembro de 2018 a multa foi anulada e, no ano seguinte, o fiscal que a aplicou foi exonerado. Desde então, sua família age abertamente para desconstituir a estação ecológica. Projeto de lei do senador Flávio Bolsonaro (sem partido) quer converter a região numa “Área Especial de Interesse Turístico”, acabando com a área protegida. PROTEÇÃO DE MENOS Mas o nó fica ainda mais apertado porque, apesar do tamanho que tem e dos ataques que sofre, o conjunto de reservas socioambientais ainda não protege como deveria a biodiversidade brasileira. Cerca da metade dos animais e plantas nativos do país não estão abrigados nas unidades de conservação já criadas. Os pesquisadores que assinam o artigo na SBPC lembram que extinguir ou encolher áreas protegidas traz uma “momentânea sensação” de desenvolvimento econômico, mas a conta inevitavelmente chegará. Afinal, parques e outras reservas garantem qualidade de vida e recursos naturais para todos os brasileiros. “São também importantes instrumentos que ajudam a economia do país. Rifá-los agora, da forma como alguns – e apenas alguns – propõem, é abrir mão de um enorme patrimônio público que dificilmente será recuperado e sobre o qual se apoiam nossas opções de desenvolvimento com sustentabilidade”, ressaltam. Família Bolsonaro quer transformar a Estação Ecológica de Tamoios (RJ) numa Cancún brasileira. Foto: Divulgação Conect@ – Jornalismo e Comunicação (#Envolverde)

sexta-feira, 28 de agosto de 2020

Covid-19 – Grupos antivacina impulsionam postagens com conteúdo falso ou distorcido envolvendo a vacina

Campanha de desinformação sobre vacina contra covid avança com testes no Brasil Grupos antivacina usam redes sociais para dar eco a conteúdo falso e gerar desconfiança sobre futura campanha de vacinação, mostra estudo de instituições ligadas à USP Ribeirão Preto Por Thaís Cardoso, Jornal da USP Enquanto o mundo vive em meio à pandemia de uma doença grave e mortal, outra pandemia, mais sutil, vem se desenvolvendo, com efeitos igualmente perigosos. Trata-se de uma onda de desinformação envolvendo tanto a covid-19 quanto os esforços da ciência para encontrar, o quanto antes, uma vacina que possa preveni-la. Um levantamento produzido pela União Pró-Vacina (UPVacina), um grupo de instituições ligadas à USP Ribeirão Preto que busca esclarecer informações falsas sobre vacinas, identificou um aumento de 383% em postagens com conteúdo falso ou distorcido envolvendo a vacina contra a covid-19 – ou seja, a desinformação quase quintuplicou em dois meses. As preocupações trazidas pelo levantamento são reforçadas por um estudo recente realizado pelo grupo ativista Avaaz. Ele revelou que, entre 2019 e 2020, a desinformação ligada à saúde disseminada no Facebook foi acessada 3,8 bilhões de vezes em cinco países: Estados Unidos, Reino Unido, França, Alemanha e Itália. Esse conteúdo tem um alcance quatro vezes maior que informações confiáveis provenientes de dez grandes instituições de saúde, entre elas a Organização Mundial da Saúde (OMS) e o Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA. vacina contra Covid-19, coronavírus, fake news vacinaApesar da análise ser específica de grupos anti-vacina, a hipótese é que essas campanhas de desinformação continuarão se espalhando pelas mídias sociais conforme avançam as pesquisas das vacinas. Esses grupos representam apenas uma peça na engrenagem, mas se somam a outras redes de desinformação consolidadas durante a pandemia, constituindo um mecanismo muito mais complexo e abrangente. A preocupação é que o efeito da ação desse mecanismo coloque em risco futuras campanhas de vacinação contra a covid-19 e até mesmo a confiança geral nas vacinas”, afirma o analista de comunicação do Instituto de Estudos Avançados Polo Ribeirão Preto da USP João Henrique Rafael Junior, que também integra a UPVacina. O tamanho da desinformação fake news - usuários e publicações A análise da UPVacina foi feita com base em postagens dos dois principais grupos antivacina brasileiros no Facebook – Crédito arte: Flaticon e Freepik A análise da UPVacina foi feita com base em postagens dos dois principais grupos antivacina brasileiros no Facebook, os quais já haviam sido objeto de outro estudo da entidade em março. Entre os dias 1º de maio e 31 de julho, foram identificadas no total 155 postagens ligadas à vacina em desenvolvimento contra a covid-19. O volume de interações chama a atenção: foram 3.282 reações, 1.141 comentários e 1.505 compartilhamentos. O ritmo do crescimento das postagens ao longo do tempo também impressiona. Durante todo o mês de maio, apenas 18 postagens abordavam assuntos ligados à vacina contra a covid-19. Em junho, elas chegaram a 50 e, em julho, a 87. Analisando os números por períodos, em dois, há uma frequência maior na disseminação de conteúdo falso: entre 11 e 20 de junho e entre 21 e 31 de julho. Os picos coincidem com informações bastante difundidas pela imprensa e ligadas à temática. Entre elas estão o anúncio da parceria entre o Instituto Butantan e o laboratório chinês Sinovac Life Science para a produção de uma vacina contra a covid-19; o início dos testes dessa vacina no País; e os primeiros testes, no Brasil, de outra vacina para combater a doença, desenvolvida pela Universidade de Oxford, do Reino Unido. Assim como na análise anterior da UPVacina nos mesmos grupos, há um pequeno número de pessoas produzindo a maior quantidade das postagens. De acordo com a pesquisa, 56 autores foram responsáveis por todas as 155 postagens. Cinquenta deles publicaram 52% (81) do total e os outros seis, 48% (74). fake news - idioma original do conteúdo A rede de desinformação envolvendo vacinas e a pandemia ultrapassa as fronteiras brasileiras – Crédito arte: Flaticon e Freepik Outro fato destacado pelo estudo foi a ampliação do idioma das postagens. Embora a maior parte (65,16%) seja de conteúdos em português, outras línguas como inglês (22,58%), espanhol (7,74%), italiano (1,94%) e até mesmo russo (1,29%) também aparecem. Isso comprova a tese de que a rede de desinformação envolvendo vacinas e a pandemia ultrapassa as fronteiras brasileiras. Esmiuçando o conteúdo A análise feita pela UPVacina mostrou que a grande maioria das postagens gira em torno de possíveis perigos e ineficácia das vacinas (24,52%), além de uma variada gama de teorias da conspiração (27,10%). Porém, outras temáticas também se destacam pelo grau de desinformação que trazem. Uma delas já era bastante citada pelos grupos antivacina: a de que vacinas podem alterar o DNA dos seres humanos, que aparece em 14,84% das postagens. A informação já foi objeto de checagem por várias agências especializadas. Uma das tecnologias mais recentes usa uma molécula geneticamente modificada para produzir determinada parte de um microrganismo dentro do corpo humano, estimulando, dessa forma, a produção de defesas. Utilizada na vacina desenvolvida pela Universidade de Oxford, a técnica é segura e não tem a capacidade de interferir no DNA humano. fake news - temas abordados nas publicações Dados mostram assuntos abordados por grupos anti-vacina da Covid-19 em rede social – Crédito arte: Flaticon e Freepik Outro alvo tradicional de grupos antivacina que está sendo utilizado como tema em 14,19% das postagens é o empresário americano Bill Gates. Conhecido por ser um dos fundadores da Microsoft, ele também fomenta pesquisas e o desenvolvimento de vacinas, patrocinando estudos por meio da Fundação Bill and Melinda Gates. As postagens geralmente associam essa atividade a um possível controle populacional realizado a partir das vacinas ou até mesmo a teorias da conspiração envolvendo o controle da mente humana usando chips implantados com a aplicação dos imunizantes. Embora as empresas responsáveis pela gestão de redes sociais como o Facebook, o Instagram e o YouTube afirmarem que estão se esforçando para combater a veiculação de notícias falsas, o que se percebe na pesquisa realizada pela UPVacina é que as ações não têm sido eficazes. Do total de 155 postagens analisadas, apenas 17, ou seja, aproximadamente 11%, foram marcadas pelo Facebook como conteúdo falso. Combatendo a desinformação Um dos objetivos das instituições envolvidas na UPVacina ao criar essa iniciativa foi justamente combater os efeitos da desinformação gerada por conteúdos falsos na rede. Por isso, foi criado um manual para esclarecer as principais informações falsas encontradas durante a pesquisa e também outras relacionadas à temática geral das vacinas. A confecção do manual ficou sob a responsabilidade de Wasim Syed e Nathália Pereira da Silva Leite, que, além de integrantes da UPVacina, são estudantes dos cursos de Farmácia e Biologia da USP Ribeirão Preto. O resultado é um material abrangente e de linguagem compreensível para quem não tem conhecimento técnico na área, que está disponível em uma versão interativa e outra em formato de guia. Posts feitos a partir dele também serão compartilhados semanalmente nas mídias sociais do grupo e da Vidya Academics. fake news - engajamento das publicações Há muita informação sendo publicada sobre vacinas – Crédito arte: Flaticon e Freepik Para Nathália, o momento é crucial para a publicação de um manual como esse. vacina contra Covid-19, coronavírus, fake news vacinaÉ um cenário em que há muita informação sendo publicada sobre vacinas, então gera um interesse da população em saber o que está acontecendo. As publicações resultantes de estudos em formato de artigo científico não são produzidas pensando em alcançar todo tipo de leitor e acabam ficando à mercê da interpretação de terceiros sobre elas. É fundamental que haja produção de conteúdo científico de qualidade que também converse com todas as pessoas”, afirma. Wasim acredita que o documento servirá de base para um diálogo com pessoas afetadas pela desinformação e com os que ainda rejeitam a ideia de se vacinar. “Algo interessante nessa pesquisa foi descobrir que a desinformação sobre vacinas, em geral, é recorrente há anos e sempre é reciclada, utilizando novos elementos para a narrativa. Refutando esses argumentos e disponibilizando os dados corretos ao público, esperamos que o debate seja mais informado e rico, além de ajudar a combater o avanço das redes de desinformação em saúde e de grupos antivacina no Brasil, especialmente nas redes sociais”, destaca. Sobre a UPVacina A União Pró-Vacina é uma iniciativa organizada pelo Instituto de Estudos Avançados (IEA) Polo Ribeirão Preto da USP em parceria com o Centro de Terapia Celular (CTC), o Centro de Pesquisa em Doenças Inflamatórias (CRID), os projetos de divulgação científica Ilha do Conhecimento e Vidya Academics, e o Gaming Club da FEA-RP. O objetivo é unir instituições acadêmicas e de pesquisa, poder público, institutos e órgãos da sociedade civil para combater a desinformação sobre vacinas, planejando e coordenando atividades conjuntas que exploram as potencialidades de cada instituição participante. Entre as ações estão: colaboração para elaboração e melhoria de políticas públicas; produção de material informativo; intervenções em escolas, espaços públicos e centros de saúde; eventos expositivos; combate às informações falsas e desenvolvimento de games. Mais informações: https://www.facebook.com/upvacina in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 28/08/2020

Desafios para (Re) Pensar a Educação em Tempos de Pandemia

Desafios para (Re) Pensar a Educação em Tempos de Pandemia A sobrevivência não é uma questão de força: Ela depende da capacidade de adaptação (Charles Darwin naturalista, geólogo e biólogo britânico). Artigo de Ricardo Santos David [EcoDebate] Precisamos de muita leitura, de muita calma para navegar pelas palavras a cada mês que passa. A frase acima tem nos acompanhado muito nesse período de crise Mundial. “Em tempos de pandemia”. Ondas muito fortes levavam-nas para cima, de um lado para outro e, às vezes, até para fora do barco. Como um remo, a lapiseira tentava lutar contra um inimigo oculto e segurar as palavras. Foram horas de navegação, mas não desistir, afinal “um timoneiro que se preze continua a navegar, mesmo com a vela despedaçada”. Este barco pelo qual navegamos há anos já se acostumou com o balanço do mar e as oscilações das ondas são, fontes de aprendizagem e de crescimento. É certo que, desta vez, a tempestade veio muito rápida, situações como essa sempre se repetem, mas sempre nos pegam desprevenidos. O perigo que, até então, parecia distante já fazia parte de nossa realidade. Difícil retratar por palavras esse momento, por isso recorremos a Drummond que, em seu poema “Congresso internacional do medo”, descreve sentimentos que parecem tão atuais: “Provisoriamente não cantaremos o amor, que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos e cantaremos o medo que esteriliza os abraços”. Infelizmente, os dias lindos de outono são invadidos pelo medo. Poucos falam de amor, o medo está no cotidiano: Em vários lugares, em todos os cantos e nas conversas. Percebam que esse medo, como o do poema, não é nosso, é universal, só se fala dele nesse congresso. E o que causa tanto medo assim nas pessoas? No contexto do poema, o medo justificava-se pelo clima de Guerra Mundial; hoje, a presença do “Coronavírus” amedronta a todos. De onde teria vindo esse vírus? De longe, Muito longe! Onde ele está? Esse é o problema: Nunca se sabe. Ele pode estar no sapato. No carro. Na sacola do supermercado. Enfim, vivemos uma narrativa de Medo. E nós tão acostumados à cultura da pressa, de repente, fomos obrigados a parar. Escolas fecharam. Igrejas fecharam. Comércio fechou. O trânsito parou. Isolamento social e recolhimento dos mais vulneráveis tornaram o cenário ainda mais triste. Assim, a Terra foi parando aos poucos. Caminhar pelas ruas ou pelos parques em busca de inspiração para os textos, tornou-se impossível. As máscaras antes acessórios suspeitos, hoje, são obrigatórias, o que dificulta a comunicação. Rapidamente, reparem nos olhares, mas pouco tem ajudado, pois parecem todos muito amedrontados. Hoje, estamos nos acostumando a sorrir mais com olhos. Uso de máscara é essencial para nos cuidar e proteger o próximo. Enfim, é preciso acatar esse comando do Universo e aceitar, com resignação, que há um tempo para tudo. Na correria, não percebemos que, às vezes, temos de passar um tempo recolhidos seja pelo frio do inverno ou para uma necessária leitura do mundo interior. Diante desse cenário, resolvi sair da quarentena e, mais uma vez, fiz uma viagem, aliás, a mesma que tenho feito há muito tempo (ou pelo túnel do tempo ou pelo meu interior). Leitores gostam dessa viagem porque nela vão observando o caminho percorrido vivendo-o em toda a sua extensão e, na medida do possível, em toda a sua profundidade. Terminada essa viagem, passeamos pelo mundo do coronavírus. Para isso, recorremos à memória, às leituras e ao cantinho com vista para o por do sol outonal. Normalmente, demoramos muito para escrever um texto porque pensamos e repensamos nas palavras empregadas, nos posicionamentos, não só literários, mas, sobretudo, os de nossa vida. E agora neste contexto de pandemia, a demora foi ainda maior. Apesar do triste cenário a que estamos presenciando na cidade, do medo do invisível e do clima de incerteza em que vivemos, não tenhamos dúvida em afirmar que nada vem por acaso, sempre há uma mensagem nas entrelinhas dos acontecimentos. Quem nunca ouviu alguém dizer: “Nem sei quem é o meu vizinho”. Pois bem: Acredito que não só o susto, mas também o isolamento a que estamos submetidos constatou o que há muito já disse o poeta “Nenhum homem é uma ilha”. Sim, nunca pensávamos sentir tanto a falta do outro, de um bom dia no elevador, de um aperto de mão. Precisávamos acabar ou minimizar (acabar acho difícil) o espírito individualista que predomina na sociedade. Citamos a época em que de uma prosa com um vizinho já nos tornávamos amigos. Hoje, partilhamos anos de convivência para chamá-lo de amigo, às vezes, nem assim. Cada vez mais juntos fisicamente, mas nunca tão separados, haja vista a convivência em muitos edifícios de apartamentos. Aquele que não mudar, que optar a ser um piruá (milho que não estoura), não entendeu a nova realidade, não lhe será possível usufruir o direito de “pertencimento” do novo contexto. Aproveitemos esse período de “prisão domiciliar” para pensarmos em nossas atitudes antes e pós-pandemia até porque o problema, hoje, não está no meu apartamento nem no do vizinho. O problema é de todos nós. Nunca a sobrevivência dependeu tanto do esforço coletivo. Fica a dica. E por pensar em atitudes e comportamentos antes e pós-pandemia, lembramos ainda de que nunca vi tantas postagens de famílias preparando suas comidas ou sentadas à mesa fazendo suas refeições. Consigamos resgatar a importância das refeições em família, pois compartilhando momento como esse não alimentamos só o corpo, mas principalmente a alma. Não percamos essa oportunidade. Para encerrar, fica aqui minha aprendizagem com esta pandemia: Não podemos ser rios sem afluentes, pois no momento de estiagem, precisamos dos amigos, dos vizinhos e da família. O papel da Família: Quem são novos Professores em Tempo de Pandemia? Ontem, passando pelo aplicativo que foi considerado uma ameaça cibernética pelo país do Tio Sam, o TikTok, deparamos com um vídeo, engraçado por sinal, em que uma mãe se esconde do filho na hora das agora famosas lives escolares, aulas síncronas (que permitem interação em tempo real), encontros online e seus devidos nomes, mas de mesmo significado. Em um primeiro momento, as pessoas dão risada, pois a cena é mesmo engraçada. Mas, quem são essas mães que hoje estão em casa, ensinando seus filhos, trabalhando literalmente como pedagogas? Elas ensinam matemática, língua portuguesa, história, geografia, física, química e outras ciências, mas ressalto aí uma das mais importantes, a ciência da vida. Essas mães que, às vezes, parecem não ter paciência, não se cansam nunca e estão ajudando a formar uma nova geração, uma geração única, uma geração que já é parte da nossa história. Essas mães estão entregando com excelência o que lhes foi imposto. Elas são as mães “particulares”. E as mães “públicas”? Elas conseguem entregar com tanta excelência a educação de seus filhos? Aí fica a minha pergunta: Os governos municipal, estadual e municipal estão entregando com excelência o ensino público? Outro detalhe que chama a atenção são os valores cobrados pelas escolas particulares. Todas estão fechadas, com um custo bem abaixo daqueles de momentos anteriores, já que gastam menos com luz, água, horas extras de funcionários, etc. Algumas optaram por não conceder desconto algum, outras se pegaram em valores mínimos, alegando que a inadimplência está grande, e, mais uma vez, neste país quem é bom pagador acaba pagando para os maus. Previsões muitos fazem, mas a única certeza que temos é que 2020, pelo menos para a educação, já acabou, infelizmente. A modernidade leve permitiu que um dos parceiros saísse da gaiola. A modernidade “sólida” era uma era de engajamento mútuo. A modernidade “fluida” é a época do desengajamento, da fuga fácil e da perseguição inútil. Na modernidade “líquida” mandam mais os escapadiços, o que são livres para se mover de modo imperceptível (BAUMAN, 2001, p. 152). Na modernidade líquida, termo cunhado por Bauman, as incertezas tornam-se possibilidades de haver liberdade para o homem buscar todas as formas de prazer, mesmo que, para isso, elementos importantes da existência humana, como o outro ser e a natureza, sejam colocados em segundo plano. Contudo, as incertezas, em tempos de pandemia, mostram e mostraram que a busca incessante pelo inalcançável prazer, em que o mercado tanto se beneficia, torna-se obsoleto, já que para se ter prazer é necessário, fundamentalmente, ter vida, que agora aparece ceifada pelo vírus. A busca pelo prazer foi substituída pelo medo. Talvez, um medo ainda mais forte do que o produzido pelas guerras, pois o inimigo é invisível e ainda não completamente conhecido. O medo se solidifica na liquidez e se fortifica diante das fraquezas. As sociedades, principalmente as detentoras do poder econômico, parecem sucumbir diante do mal comum. Somado à destruição da floresta amazônica, as mortes em massa pelos desastres ambientais resultantes do descaso público (como Mariana e Brumadinho, além de derramamento de óleo nas baías Brasil afora), as queimadas nas florestas da Austrália, os assassinatos e as invasões de terras indígenas, os racismos e os feminicídios, o vírus desencobertou, ainda mais, a miséria da sociedade e mostrou que, diferentemente do início da pandemia, em que se pensava que a Covid-19 não tinha preferências por cores, classes sociais, gêneros e grupos étnicos, os números de mortes mostraram, ao longo do tempo, que o #fiqueemcasa fazia sentido para uns e não para outros. Havia necessidade, no Brasil, de atendimento aos mais vulneráveis aos resultados da pandemia; entretanto, a assistência foi pouco vista, entremeada pela burocracia estatal que é fortificada pelo desprezo a uma grande parcela da população. Os silenciados e invisibilizados continuam enfrentando os dissabores das diferentes ondas do vírus ainda incólume. Atentos às diferentes consequências socioidentitárias da Covid-19, o debate referente às consequências da pandemia tornou-se, em 2020, fruto de teorizações realizadas por pesquisadores das ciências humanas, das ciências sociais, da economia, das áreas jurídicas, para citar apenas algumas. Todos, de certo modo, procuram responder à pergunta que Santos (2020, p. 05) propõe: que potenciais conhecimentos decorrem da pandemia do coronavírus? Em sintonia com Santos (2020) e Bauman (2001), a proposta dessa primeira edição da revista reflete principalmente uma indagação, a de saber: Com quais conhecimentos, mobilidades e consciência social teremos diante do que denominam de “novo normal”, sendo que as crises na economia, na política, na educação, na saúde e na segurança, dentre tantas outras, insistem em se manter permanentes? Essa questão nos direciona a (re) pensar o novo normal no cotidiano da vida pública, da vida privada e na sociologia das ausências (SANTOS, 2020), um surto viral que pulveriza nossas ações, despertando o melhor e o pior em nossas atitudes e em nossos discursos. De positivo, vemos uma consciência de comunhão planetária e, de certo modo, democrática (SANTOS, 2020, p. 07). Ações de pessoas em diversas partes do mundo viralizam nas redes sociais e nos meios de comunicação, revelando que a palavra pandemia, derivada do grego – “todo o povo” –, tem o poder de testemunhar atitudes de comunhão para com o outro, de tornar visíveis àqueles que vivem às margens da sociedade e de multiplicar tais atitudes para outras regiões do mundo, obrigando-nos a abrir nossas janelas e a promover a solidariedade. Mesmo assim, ainda é possível indagar: até quando? Será que essa solidariedade forçada ainda existirá após a pandemia? Pelo lado negativo (mesmo que seja quase impossível enumerar) reina um discurso preconceituoso, intolerante, racista, em que os enunciados concretos viralizam sentimentos de ódio; fake news espalham-se na sociedade promovendo ataques e atitudes de enfrentamento contra o sistema democrático conquistado com “sangue, suor e lágrimas”, dos tempos da ditadura militar no Brasil. Há uma nova ordem mundial, previna-se. Há desordem social: “E daí?”, “Só uma gripezinha”, “não sou coveiro”, o “novo Normal” Fairclough (2001) apresenta que as práticas discursivas são investidas ideologicamente, na medida em que incorporam significações e contribuem para manter e/ou reestruturar as relações de poder. Para o aludido autor, essas relações de poder podem ser afetadas por quaisquer tipos de práticas discursivas (científicas, religiosas, políticas), sendo que o sujeito é capaz de agir criativamente, no sentido de realizar suas próprias conexões entre as diversas práticas e ideologias a que é exposto e a (re)conhecer as formas de controle impostas pelo sistema. Será que essas relações de poder, concretizadas pelos discursos hegemônicos, estão mais nítidas em meio à contemporânea pandemia? Referências Bibliográficas BAUMAN, Z. Modernidade Líquida. Trad. Plínio Dentzien. Rio de Janeiro: Zahar, 2001. ______. Babel – Entre a incerteza e a Esperança. Trad. Renato Aguiar. Rio de Janeiro: Zahar, 2016. ______; LEONCINI, T. Nascidos em Tempos Líquidos: Transformações no terceiro milênio. Rio de Janeiro: Zahar, 2018. FAIRCLOUGH, N. Discurso e mudança social. Trad. rev. técnica Izabel Magalhães. Brasília: Editora Universidade de Brasília, [1992] 2001. SANTOS, B. de S. A cruel pedagogia do vírus. Editora: Almedina S. A. Coimbra: Portugal, 2020. ___________________ Ricardo Santos David tem pós – doutorado em Educação, pela FCU – IESLA. Doutorado e Mestrado em Educação e Comunicação: Audiovisual, pela UNIATLÁNTICO, Especialista em Docência do Ensino Superior e Educação Ambiental: Sustentabilidade, pela UCAM – Candido Mendes – Rio de Janeiro – Revisor de Textos e Professor para Educação Básica. E-mail: ricardosdavid@hotmail.com.br in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 28/08/2020

EcoDebate - Edição 3.504 de 28/ agosto / 2020

Desejamos a todos(as) um bom dia e uma boa leitura Não basta ser antissexista e antirracista, é preciso ser antiespecista As Cidades e seus Problemas de Infraestrutura – Cartilha Técnica para os Novos Prefeitos e Vereadores A crescente importância da valoração de danos ambientais Saúde, ciência e tecnologia como áreas estratégicas do país Desafios para (Re) Pensar a Educação em Tempos de Pandemia Fridays For Future organiza ações globais pela Amazônia entre esta sexta-feira, 28 e domingo, 30 Covid-19 – Grupos antivacina impulsionam postagens com conteúdo falso ou distorcido envolvendo a vacina Cigarro eletrônico e tabaco são igualmente prejudiciais “Compreendemos desenvolvimento sustentável como sendo socialmente justo, economicamente inclusivo e ambientalmente responsável. Se não for assim não é sustentável. Aliás, também não é desenvolvimento. É apenas um processo exploratório, irresponsável e ganancioso, que atende a uma minoria poderosa, rica e politicamente influente.” [Cortez, Henrique, 2005]

quinta-feira, 27 de agosto de 2020

Manifestações neurológicas em pacientes com Covid-19

Quadros que variam de intensidade e gravidade podem incluir cefaleia, perda de olfato e paladar, crises epilépticas e acidentes vasculares encefálicos Por Vivian Fiorio Desde o surgimento dos primeiros casos de Covid-19 no Brasil e no mundo, os cientistas e médicos têm avaliado a relevante incidência de manifestações neurológicas que acometem muitos pacientes. Segundo o neurologista da Rede de Hospitais São Camilo de São Paulo, Dr. Edson Issamu Yokoo, cerca de 50% dos pacientes hospitalizados para tratamento do Covid-19 apresentam algum tipo de sintoma neurológico, que pode ser leve ou grave. “Ainda não se sabe ao certo se as alterações neurológicas são causadas pela ação direta do vírus ou se são manifestações causadas indiretamente pelo processo inflamatório ou pela resposta imunológica nas células nervosas”, revela o especialista. As manifestações mais simples, de acordo com o neurologista, se caracterizam por cefaleia, mialgias, tonturas, alterações do olfato (hiposmia ou anosmia) e do paladar (disgeusia). Já casos mais graves revelam alteração do nível de consciência (delírio hipoativo ou hiperativo, estado de coma), crises epilépticas, encefalites e, até mesmo, acidentes vasculares encefálicos. O médico frisa que diversos estudos estão sendo realizados atualmente para entender o comportamento da doença, a fim de identificar se tais manifestações neurológicas resultam da ação direta do vírus ou se surgem devido a outros distúrbios provocados pelo novo Coronavírus. “Sabemos que a gravidade dos sintomas surge conforme se agrava também o quadro do paciente com Covid-19 de maneira geral”, destaca. Para entendermos melhor como funcionam essas manifestações, o Dr. Edson listou alguns dos principais sintomas leves e graves. Confira! Sintomas neurológicos leves – Cefaleia O especialista do São Camilo conta que tem sido observado um aumento no número de pacientes com Covid-19 que buscam atendimento com queixa de dores fortes de cabeça, sintoma que não desaparece apenas com uso de analgésicos comuns. Embora cause desconforto, o sintoma tende a desaparecer sem maiores complicações. O Dr. Edson explica que a dor da cefaleia pode estar relacionada com o conjunto inflamatório de resposta sistêmica do paciente, que exacerba situações de dor. – Transtornos do olfato e do paladar Entre os sintomas que mais têm se avaliado atualmente está a perda parcial ou total do olfato e do paladar. “Essas manifestações iniciais podem acometer cerca de 80% dos pacientes com Covid-19, muitas vezes acompanhadas por congestão nasal ou ausência de secreções”, destaca. O especialista comenta que essas alterações neurológicas podem desaparecer dentro de 8 a 20 dias, de acordo com relatos obtidos até o momento. “Já foram relatados alguns casos irreversíveis, no entanto, apenas o acompanhamento médico ao longo do tempo poderá indicar se o problema pode ser revertido”, completa. Sintomas neurológicos graves – Encefalopatia Pesquisas apontam que 66% dos pacientes com síndrome respiratória aguda relacionada ao Covid-19 apresentaram encefalopatia. Segundo o especialista, o diagnóstico tende a ocorrer em pacientes graves, principalmente aqueles que já estão em internados em UTI (Unidade de Terapia Intensiva). Ele alerta que as causas desta manifestação são multifatoriais. “Alguns estudos mostram que o sintoma costuma obedecer ao padrão das encefalopatias tóxico-metabólicas: podem ser secundárias à diminuição da função de múltiplos órgãos ou por efeitos adversos de medicamentos utilizados em seu tratamento; ou encefalopatias por hipóxia, que ocorrem pela baixa da saturação de oxigênio sanguíneo”, relata. Além disso, a forma como a encefalopatia se manifesta em cada paciente pode variar entre agitação e quadro de delírio, ou sonolência, com diminuição do nível de consciência. – Acidente Vascular Encefálico (AVE) Conforme o neurologista, os estudos publicados sobre a incidência de AVE em pacientes com Covid-19 mostram resultados variados ao redor do mundo. “O que temos observado até o momento é que o sintoma tende a ocorrer entre uma e três semanas após o início dos sintomas de infecção, acometendo pacientes graves”, comenta. – Síndrome Guilláin-Barré Essa manifestação se caracteriza pela perda de força e alteração de sensibilidade ascendente e progressiva, que pode acometer até músculos da respiração e nervos cranianos superiores. Para o Dr. Edson, o surgimento da Síndrome é resultado de uma ação de resposta imunológica inadequada. “Nesses casos, o sistema imunológico, além de atacar o vírus, acaba atacando também as raízes nervosas que saem pela coluna vertebral”, explica. Embora seja uma manifestação grave, sua incidência é considerada baixa em relação aos demais sintomas associados ao Covid-19. Dados de um levantamento recente realizado na Itália mostrou que de 1.200 pacientes internados, apenas cinco desenvolveram a Síndrome. O médico destaca ainda a importância de procurar atendimento médico ao identificar qualquer manifestação neurológica como as que ele destacou. “As pesquisas sobre esses sintomas ainda estão em desenvolvimento, portanto, sua extensão e gravidade precisam ser acompanhadas por um especialista”, reforça. in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 27/08/2020

Vacina não é bala de prata, pandemia exige ações complexas

Vacina não é bala de prata, pandemia exige ações complexas para superar a quarentena. Entrevista especial com Naomar de Almeida Filho Para o pesquisador, a falta de organização e de uma coordenação central no enfrentamento da pandemia, somada às políticas de austeridade econômica, agrava ainda mais a situação da covid-19 no Brasil Por: João Vitor Santos; Edição: Ricardo Machado, IHU Embora o Sistema Único de Saúde – SUS seja uma enorme conquista cidadã, cada vez mais ameaçada com as políticas de austeridade, os desafios para superarmos as desigualdades no acesso à saúde no Brasil ainda são imensos e passam, segundo a avaliação do professor e pesquisador Naomar de Almeida Filho, pela formação dos trabalhadores do campo. “Assustador é que, em nosso país, a formação de competência para produzir e operar essas formas de iniquidade se encontra no próprio sistema de educação formal incorporado ao treinamento e capacitação de pessoal técnico e profissional em saúde”, descreve em entrevista por e-mail à IHU On-Line. “Como resultado dos cortes de gastos e das reformas de ajuste neoliberal, principalmente reforma previdenciária e trabalhista, ao contrário do crescimento econômico apregoado, o que estamos vendo tem sido desemprego, crise e piora nos indicadores fiscais. A política de austeridade também desfinanciou o SUS e fragilizou a estrutura de proteção social em um contexto de aumento da pobreza e das desigualdades sociais”, complementa. Quanto à coordenação central da gestão da crise causada pela pandemia, o entrevistado é crítico em relação às medidas adotadas. “Triste, lamentável. Irresponsável e criminosa, incompetente sob todos os aspectos”, pontua. Sobre o papel dos estados e municípios, que às vezes aparecem como ótimos gestores da pandemia, o professor também tem uma visão crítica. “Avalio que os estados e municípios têm em geral falhado em utilizar as redes de atenção primária à saúde, com uma abordagem comunitária necessária para o enfrentamento da pandemia. A atuação dessas equipes deveria promover uma vigilância epidemiológica efetiva nos territórios, para bloquear e reduzir o risco de expansão da epidemia, coordenando ações de prevenção primária e secundária à covid-19, com identificação de casos, testagem e busca ativa de contatos, além do apoio ao isolamento domiciliar de casos e contatos”, pondera. Apesar de o mundo todo esperar a vacina como um sinal verde para volta de muitas atividades, Naomar alerta que a aplicação de forma isolada não é suficiente. “A vacina é mais uma possibilidade que, provavelmente, vai compor todo um arsenal de estratégias de superação do problema complexo que é a pandemia. Para problemas complexos, não existem soluções simples. A pandemia compreende um complexo de fenômenos e processos múltiplos, com grande diversidade, articulados a ricos e numerosos elementos de compreensão e análise, objeto de distintos enfoques”, avalia. Naomar Monteiro de Almeida Filho, professor de Epidemiologia, é ex-reitor da Universidade Federal da Bahia – UFBA e da Universidade Federal do Sul da Bahia – UFSB e vice-presidente da Associação Brasileira de Saúde Coletiva – Abrasco. Confira a entrevista. IHU On-Line – Como a desigualdade do Brasil se materializa no campo da saúde? Quais os desafios para compreender as questões de fundo que parecem sustentar essas desigualdades? Naomar de Almeida Filho – Na década anterior, pessoas de classes e grupos sociais desfavorecidos, em geral residentes em áreas remotas, antes excluídos, conseguiram mais acesso à assistência à saúde, sobretudo no nível de atenção primária, mediante a estratégia Saúde da Família. Apesar disso, aqueles com mais vulnerabilidade social continuavam com dificuldades na utilização dos programas de proteção e recuperação da saúde, sobretudo nos níveis secundário e terciário de atenção, amplamente disponíveis para setores sociais já beneficiados com melhores condições de vida e pela cobertura de planos privados de saúde. Mesmo antes da pandemia, havia problemas referentes a financiamento, gestão e qualidade do sistema público de saúde, agudizados pela recente crise econômica, social e política. No setor público, aspectos organizacionais dos programas e instituições de saúde traziam obstáculos materiais e institucionais que geram desigualdades e segregação, disparidades de renda e de inserção social, no acesso a recursos assistenciais disponíveis, além do gap na informação determinado por diferenças de gênero, geração, educação e renda. Apesar de acolhidos no sistema, sujeitos de segmentos sociais vulneráveis e tipicamente mais necessitados de assistência de qualidade, passaram a sofrer uma nova ordem de desigualdades, internalizadas nos próprios atos de cuidado, resultantes da estrutura e funcionamento do sistema e da realização de práticas assistenciais de pouca efetividade e menor grau de humanização. Esses sujeitos se viam, e se veem, até porque isso não mudou, na condição de usuários de categoria inferior em um sistema público de saúde supostamente universal. Essa quebra da qualidade-equidade, essa nova modalidade de “iniquidade internalizada”, de natureza qualitativa, cotidiana, intrafuncional e camuflada, é exercida mediante formas sutis e culturalmente sensíveis de relacionamento intersubjetivo desumano, segregador e discriminatório. Assustador é que, em nosso país, a formação de competência para produzir e operar essas formas de iniquidade se encontra no próprio sistema de educação formal incorporado ao treinamento e capacitação de pessoal técnico e profissional em saúde. Assustador é que a formação de competência para produzir e operar essas formas de iniquidade se encontra no próprio sistema de educação formal – Naomar de Almeida Filho IHU On-Line – A pandemia causada pelo novo coronavírus acentua uma série de problemas gerados pelas desigualdades na saúde dos brasileiros. Mas, além do recrudescimento das questões já conhecidas, o que mais a pandemia revelou em termos de desigualdades? Naomar de Almeida Filho – Realmente a pandemia atingiu o Brasil no meio de uma agenda política de reformas centrada na austeridade fiscal e na redução do papel do Estado na economia. É a famigerada agenda neoliberal. Como resultado dos cortes de gastos e das reformas de ajuste neoliberal, principalmente reforma previdenciária e trabalhista, ao contrário do crescimento econômico apregoado, o que estamos vendo tem sido desemprego, crise e piora nos indicadores fiscais. A política de austeridade também desfinanciou o SUS e fragilizou a estrutura de proteção social em um contexto de aumento da pobreza e das desigualdades sociais. Com a pandemia, pelo contrário, as políticas econômicas, assistenciais, de saúde e segurança pública precisariam mitigar o efeito das desigualdades de toda ordem, desigualdades de gênero, de raça/etnia, de classe social, territoriais. As medidas de distanciamento são muito difíceis de serem seguidas pela população pobre, com trabalhadores informais, autônomos, desempregados. São milhões de brasileiros que moram em áreas aglomeradas, em casas precárias, nas periferias das grandes cidades. Essas pessoas têm dificuldade em ficar em casa durante semanas, principalmente porque faltam recursos para tudo, alimentos, aluguel, água, energia. Além disso, é preciso cuidar de pacientes crônicos e grupos prioritários como gestantes e lactantes, bem como a população e grupos em situações de vulnerabilidade, as populações indígenas, ribeirinhas, grupos quilombolas. Uma pandemia como esta sem dúvida aprofunda desigualdades sociais, gerando um aumento da vulnerabilidade social, de iniquidades em saúde e de violações de direitos humanos, afetando diretamente grupos populacionais oprimidos e discriminados e, indiretamente, todos os pobres e excluídos. Isso tem efeitos terríveis sobre o conjunto da sociedade, uma sociedade que fica cada vez mais cruel, menos humana, menos solidária. Como resultado dos cortes de gastos e das reformas de ajuste neoliberal o que estamos vendo tem sido desemprego, crise e piora nos indicadores fiscais – Naomar de Almeida Filho IHU On-Line – Como o senhor avalia a forma como o Brasil tem enfrentado a pandemia, de março até agora? Naomar de Almeida Filho – Triste, lamentável. Irresponsável e criminosa, incompetente sob todos os aspectos. Mas não é o Brasil, realmente, nem o sofrido povo brasileiro. É o governo brasileiro atual. A Presidência da República teria constitucionalmente o dever de Estado de proteger a saúde pública. Autoridades sanitárias, ministros e secretários, teriam a obrigação de formular políticas de controle, carrear recursos, viabilizar meios, gerenciar processos e coordenar ações. Mas erraram feio, incorreram em sérios equívocos e omissões, uma sucessão de erros, atos trágicos que resultam em sofrimento e mortes totalmente desnecessárias. Até hoje o executivo federal não apresentou um plano nacional de enfrentamento da pandemia. O pior é que essas mesmas lideranças políticas continuam errando, e errando feio. E estou convencido de que o fizeram com má intenção, deliberadamente. O próprio Bolsonaro, e muitos dos seus seguidores, frequentemente encorajaram a quebra de quarentenas e medidas de distanciamento, promovendo aglomerações e descuido do uso de máscaras. E não esqueçamos o vermífugo de uso veterinário, o remédio de piolho e sarna, o enema retal de ozônio. Todos tratamentos sem comprovação, aparentemente sem maior eficácia para tratar a covid-19. No caso da cloroquina, inclusive com efeitos colaterais fatais. Isso é irresponsabilidade criminosa. Seria apenas ridículo, tragicômico, se não tivesse custado vidas e sofrimento, se não tivesse representado enorme desvio de recursos públicos e energia institucional. O exército brasileiro fabricou milhões de comprimidos de cloroquina, estoques para décadas de tratamento de malária, muito além da validade do fármaco. Com esse e com outros medicamentos, laboratórios farmacêuticos aproveitaram para aumentar preços e lucros. No final de contas, tudo isso desabasteceu o SUS de anestésicos, anticoagulantes e sedativos, medicamentos auxiliares para tratar casos graves de covid-19. E não esqueçamos o vermífugo de uso veterinário, o remédio de piolho e sarna, o enema retal de ozônio – Naomar de Almeida Filho IHU On-Line – O que, atualmente, norteia e embasa o pensamento acerca de saúde pública entre os gestores do poder público no Brasil? E o que deveria nortear e embasar? Naomar de Almeida Filho – O presidente Bolsonaro afirmou que os governadores são responsáveis pela mortandade da pandemia porque não aplicaram o isolamento vertical que ele havia recomendado. Em mais de quarenta anos como professor e pesquisador em Epidemiologia, nunca soube da existência desse tal de “isolamento vertical”. Logo que apareceu, fiz uma busca cuidadosa na literatura médica e científica e nada encontrei. Ficou claro que isolamento vertical não é um conceito no campo da Saúde Coletiva nem no campo da Medicina. Por isso que eu chamei de fraude pseudocientífica. Num artigo, eu fiz uma espécie de rastreamento de onde teria surgido tal proposta. Descobri que a ideia veio de um nutrólogo, autor de livros de autoajuda alimentar, um consultor de negócios com notórios vínculos com a indústria de alimentos, mas nenhuma competência em infectologia ou epidemiologia. Foi uma invenção aliás mal traduzida. O seu inventor, Dr. Katz, falou de “vertical interdiction”. Influenciado por seus conselheiros leigos, não pelo Dr. Fauci, epidemiologista do CDC [Centro de Controle e Prevenção de Doenças], Trump mencionou rapidamente essa ideia e, quase imediatamente, Bolsonaro adotou o “isolamento vertical” como política de governo. Realmente por lá ninguém levou Trump a sério, ele não falou mais no assunto, e passou para a cloroquina e outras drogas, mas essa é outra história, igualmente trágica. Avalio que os estados e municípios têm em geral falhado em utilizar as redes de atenção primária à saúde, com uma abordagem comunitária necessária para o enfrentamento da pandemia – Naomar de Almeida Filho IHU On-Line – No enfrentamento da pandemia, alguns estados têm demonstrado maior sensibilidade e atenção ao tema do que o governo federal. O senhor destacaria algum estado com atuação modelo no enfrentamento à covid-19? Por quê? Naomar de Almeida Filho – É realmente notável o esforço que tem sido feito por estados e municípios para expandir a capacidade instalada de leitos, abrindo leitos de UTI. Mas essa estratégia tem problemas ou limites para controlar a pandemia. Mais do que hospitais de campanha, são necessários serviços ambulatoriais eficientes, unidades intermediárias equipadas e centros de terapia intensiva ou de referência para essas unidades, serviços de apoio diagnóstico e terapêutico adequados, com equipes completas, com medidas corretas de proteção individual e coletiva. Avalio que os estados e municípios têm em geral falhado em utilizar as redes de atenção primária à saúde, com uma abordagem comunitária necessária para o enfrentamento da pandemia. A atuação dessas equipes deveria promover uma vigilância epidemiológica efetiva nos territórios, para bloquear e reduzir o risco de expansão da epidemia, coordenando ações de prevenção primária e secundária à covid-19, com identificação de casos, testagem e busca ativa de contatos, além do apoio ao isolamento domiciliar de casos e contatos. Mas isso só pode ser feito com apoio e coordenação nacional, com inteligência e organização centralizada, o que não se observa da parte do governo federal. No plano da gestão, além das ações municipais e estaduais, seria desejável a atuação do governo federal na busca e reconhecimento das inúmeras estratégias produzidas na sociedade, isto é, ações realizadas por organizações governamentais, não governamentais e experiências comunitárias, para fortalecê-las e integrá-las no enfrentamento nacional da pandemia de covid-19. IHU On-Line – Em que consiste o Plano Nacional de Enfrentamento da Covid-19 lançado por entidades que compõem a Frente pela Vida? Como as propostas foram/têm sido recebidas pelo poder público? Naomar de Almeida Filho – O Plano Nacional de Enfrentamento da Covid-19 foi uma iniciativa de entidades e movimentos sociais que atuam na área da Saúde que foram participantes da Frente pela Vida. Preocupados com a lamentável e grave omissão do governo federal, essas entidades apresentaram à sociedade um plano de ação bastante abrangente e completo. Mais de 50 pesquisadores de 13 entidades científicas e 21 grupos de trabalho do campo da Saúde Coletiva conduziram uma detalhada e sistemática análise das interfaces relevantes da pandemia e elaboraram 70 recomendações estratégicas e técnicas, dirigidas às autoridades políticas e sanitárias, aos gestores do SUS e à sociedade em geral. Trata-se de um documento de planejamento participativo, definido por uma pegada solidária e prática, aberto a contribuições e soluções a serem construídas, sempre coletivamente. O Conselho Nacional de Saúde logo acolheu a proposta e muito contribuiu para sua versão final, que foi apresentada às comissões do Congresso Nacional, ao Ministério da Saúde e a outras instâncias do SUS. O Congresso realizou audiências públicas, organizações sindicais e movimentos sociais estão discutindo o plano, mas infelizmente o Ministério da Saúde até hoje não deu retorno. Nos outros níveis de atenção, secundário e quaternário, que correspondem ao tratamento especializado e hospitalar, o SUS é essencial para reduzir os efeitos da covid-19 – Naomar de Almeida Filho IHU On-Line – Qual a centralidade do SUS no enfrentamento da covid-19 e como o Sistema deve sair dessa experiência da pandemia? Naomar de Almeida Filho – Para o enfrentamento da pandemia, precisamos consolidar os sistemas nacionais de vigilância em saúde e de vigilância sanitária, bem como efetivar a promoção da saúde. Tudo isso faz parte do SUS. Na atenção primária à saúde, o SUS articula as ações de vigilância epidemiológica, vigilância sanitária, vigilância alimentar e nutricional, vigilância em saúde do trabalhador e da trabalhadora e vigilância em saúde ambiental, além das ações intersetoriais em todas as áreas importantes no processo de determinação social da saúde. Nos outros níveis de atenção, secundário e quaternário, que correspondem ao tratamento especializado e hospitalar, o SUS é essencial para reduzir os efeitos da covid-19. O enfrentamento da pandemia exige que o Ministério da Saúde, urgentemente, seja capaz de operar com a eficiência que a crise sanitária requer. Vai ser preciso reforçar o papel institucional do controle social do SUS, na definição e acompanhamento e fiscalização das políticas de saúde. Além de aumentar os recursos financeiros destinados ao SUS, é necessário a aplicação ágil e eficiente dos recursos disponíveis, o que infelizmente não tem se dado até o momento. E o pior é que o planejamento orçamentário do governo federal para o ano de 2021, em vez de repor recursos e reverter o subfinanciamento do SUS, aponta na direção oposta, com cortes ainda mais profundos na saúde, bem como na educação. O mais triste ainda é que esses recursos estão sendo desviados para ampliar os orçamentos das forças armadas. E o pior é que o planejamento orçamentário do governo federal para o ano de 2021, em vez de repor recursos e reverter o subfinanciamento do SUS, aponta na direção oposta, com cortes ainda mais profundos na saúde – Naomar de Almeida Filho IHU On-Line – Como avalia o papel e a participação da ciência e da sociedade brasileiras na pandemia? Naomar de Almeida Filho – No mundo todo, tem sido impressionante a forte mobilização da comunidade científica, na busca de soluções para vários aspectos da pandemia, não apenas diagnósticos, novos medicamentos e vacinas. De fato, a ciência brasileira tem dado uma resposta incrível aos desafios, desde o desenvolvimento experimental de estratégias tecnológicas para novos testes, busca de novos padrões genômicos associados a riscos de adoecer e de casos graves da doença, até a avaliação de medicamentos e vacinas desenvolvidos contra o coronavírus. No campo epidemiológico, minha área de pesquisa, destaco os inquéritos regionais e nacionais para determinar a presença de anticorpos na população, essenciais para acompanhar a dinâmica da pandemia entre nós. Os grupos brasileiros de pesquisa em ciências humanas e sociais têm dado grande contribuição para a compreensão das dimensões social, étnica, política, econômica e ética, todas elas afetadas pela pandemia. Mas o sistema brasileiro de ciência, tecnologia e inovação vem enfrentando nos últimos anos a mais grave crise de financiamento de sua história. Minha avaliação pessoal é que mais uma vez, em mais uma crise sanitária, apesar de todo o negligenciamento de políticos e lideranças ignorantes, ainda se revela a altíssima qualidade da rede pública de universidades e centros de pesquisa de nosso país. IHU On-Line – O que a experiência da pandemia ensina acerca de saúde pública ao mundo? E o Brasil é capaz de compreender essa lição? Naomar de Almeida Filho – Do ponto de vista epidemiológico, aprendemos que o controle da pandemia é viável, mesmo sem vacina e tratamentos específicos. Vejamos a comparação com a Nova Zelândia, com a China, com a Noruega. Isso permite avaliar o que seria, no limite histórico, em última instância, possível como hipótese mais otimista. Se o Brasil tivesse tomado TODAS as medidas corretas e SEMPRE no tempo certo, teríamos tido aproximadamente mil mortos. Mas alguém pode argumentar: a Nova Zelândia é uma ilha, isolada, distante, rica, com pouca gente, fácil de controlar. Ou a China é um país totalitário, com uma cultura disciplinada. A Noruega é um país com renda per capita e indicadores educacionais altíssimos. A comparação mais justa seria com países pobres, de grande população, com déficits de educação, com alta diversidade territorial. Vejamos a Índia: se aplicarmos as taxas de mortalidade da Índia, o Brasil teria tido menos de 7 mil mortos. Ah, mas os países orientais têm uma cultura muito diferente da nossa… Então vale comparar com o Uruguai, nosso vizinho. Ah, mas o Uruguai é minúsculo… E a Argentina, país vizinho, com cultura próxima e problemas econômicos equivalentes? Se o Brasil tivesse a mesma taxa de mortalidade por covid-19 da Argentina, teríamos agora 22 mil e não os 112 mil óbitos de hoje. São mais de 90 mil mortes que poderiam ter sido evitadas! O que os argentinos tiveram e têm e nós não? Contaram com liderança nacional, credibilidade política e coordenação minimamente competente. O Brasil será capaz de aprender essa lição? A sociedade brasileira poderá reagir e dar fim a essa catástrofe política? Essa é a grande questão, que vai precisar de muita luta, muito empenho, muito sacrifício mesmo, para ser resolvida. O resultado do desgoverno é que a pandemia fugiu a qualquer controle, tornando-se endêmica, como de fato está acontecendo no Brasil – Naomar de Almeida Filho IHU On-Line – Hoje, no Brasil, em que estágio da pandemia estamos? O que há de vir? Naomar de Almeida Filho – O resultado do desgoverno é que a pandemia fugiu a qualquer controle, tornando-se endêmica, como de fato está acontecendo no Brasil. Esperavam um pico epidêmico, mas temos aí agora um platô, com média de mil mortes por dia, sem expectativa de redução da transmissão. Por isso é que no Brasil, estamos acumulando recordes mundiais de mortalidade entre gestantes, entre pobres, entre profissionais de saúde, entre indígenas, e na população jovem. O Brasil deveria, logo no começo da pandemia, ter feito um rigoroso lockdown e reforçado os sistemas de vigilância epidemiológica na atenção primária do SUS, como fizeram todos os países que controlaram melhor os danos da pandemia. Esperavam um pico epidêmico, mas temos aí agora um platô, com média de mil mortes por dia, sem expectativa de redução da transmissão – Naomar de Almeida Filho IHU On-Line – Seja para discutir a retomada do sistema de educação, seja para a liberação de eventos e atividades com grandes públicos, a vacina é sempre apontada como um marco, a única forma de retomar tudo isso. O senhor concorda? Naomar de Almeida Filho – Não concordo, de modo algum. A vacina é mais uma possibilidade que, provavelmente, vai compor todo um arsenal de estratégias de superação do problema complexo que é a pandemia. Para problemas complexos, não existem soluções simples. Medicamentos e combinações farmacológicas poderão aumentar a eficiência clínica no tratamento de casos graves, reduzindo sequelas e mortalidade, mas não se espera o que chamam de “bala de prata”. Esperar que seja assim é, pelo menos, ingenuidade. A vacina é mais uma possibilidade que, provavelmente, vai compor todo um arsenal de estratégias de superação do problema complexo que é a pandemia – Naomar de Almeida Filho IHU On-Line – Mesmo com a vacina, no pós-pandemia, o que muda no que diz respeito à vigilância sanitária e epidemiológica e na gestão de saúde pública? Naomar de Almeida Filho – As estratégias de controle epidemiológico continuam sendo as mais eficazes para infecções respiratórias de alta contagiosidade, como a covid-19. São seculares, antecedem a própria emergência das ciências modernas, antecedem em muito a própria epidemiologia. E sua efetividade se ampliou muito com a descoberta e aperfeiçoamento de tecnologias diagnósticas rápidas, válidas e confiáveis. IHU On-Line – Em que medida o Paradigma da Complexidade pode contribuir para a compreensão e o desenvolvimento do campo da saúde? Naomar de Almeida Filho – Numa perspectiva da complexidade, a saúde deve ser pensada de maneira integral, articulada, para além dos marcos institucionais e doutrinários do campo restrito da saúde, mas pensando sempre como as diversas dimensões da vida (política, economia, ambiental, ocupacional, cultural, da mobilidade etc.) estão interconectadas. Há consenso de que a pandemia é sem dúvida um fenômeno de grande complexidade. Escrevi um ensaio justamente sobre esse tema. Nesse texto, argumento que a pandemia do novo coronavírus não se reduz a um patógeno que repentinamente se tornou capaz de ameaçar a saúde humana, o SARS-CoV-2. Nem se trata de conjunto de sinais e sintomas inicialmente desconhecidos de uma nova entidade mórbida batizada de covid-19. Nem uma série de indicadores epidemiológicos e curvas epidêmicas, nem um processo dinâmico de disseminação e contágio. Nem mesmo é uma grande narrativa, uma “infodemia” de fake news, mitos e mentiras, junto com o medo/pânico que tudo isso provoca, nem se refere às crises econômicas, políticas e psicossociais dela decorrentes ou a ela associadas. A pandemia compreende um complexo de fenômenos e processos múltiplos, com grande diversidade, articulados a ricos e numerosos elementos de compreensão e análise, objeto de distintos enfoques. É importante notar que a pandemia compreende ocorrências simultâneas, com distintos objetos de conhecimento, processos de determinação e diversas possibilidades ou modos de intervenção, em várias dimensões – biológica, clínica, epidemiológica, ecossocial, tecnológica, econômica, política, simbólica – e suas respectivas interfaces. O enfrentamento da covid-19 tem que ser multidimensional, interdisciplinar, intersetorial, interprofissional. As medidas de controle são necessariamente atravessadas por valores e se definem por essa perspectiva totalizante e complexa. O contexto atual coloca a necessidade de compreensão dessas interconexões nas suas diversas escalas como uma tarefa urgente no âmbito da elaboração de qualquer plano de enfrentamento da pandemia de covid-19 e seus desdobramentos. A pandemia compreende um complexo de fenômenos e processos múltiplos, com grande diversidade, articulados a ricos e numerosos elementos de compreensão e análise, objeto de distintos enfoques – Naomar de Almeida Filho IHU On-Line – Como o senhor explica o negacionismo na saúde? Podemos afirmar que tem relação com um não entendimento da saúde e suas complexidades? Naomar de Almeida Filho – Certamente revela ignorância, mas também, o que é pior e triste, é que mostra crueldade e oportunismo. No Brasil, o negacionismo de Bolsonaro, de Osmar Terra, seu conselheiro médico, e de outros terraplanistas ideológicos, custou milhares de vidas. Pelo que falou o próprio Bolsonaro e o quase ministro Osmar Terra, jovens e adultos deveriam ser deixados livres, de certo modo incentivando sua exposição ao vírus para acelerar o que supunham uma “imunidade de rebanho”. O Reino Unido inicialmente tentou seguir essa estratégia, mas, depois que as mortes se aceleraram e o primeiro-ministro Boris Johnson teve a covid-19, com gravidade moderada, tiveram que correr atrás do prejuízo. O negacionista contumaz que se chama Donald Trump começou a falar disso, porém, logo que a situação de Nova York se mostrou trágica, os governadores e as autoridades sanitárias tomaram suas medidas e ele ficou praticamente falando sozinho. Além de cientificamente inválida, essa estratégia é problemática também do ponto de vista da ética médica, na medida em que implica um genocídio anunciado. Além de enorme risco, isso não faz qualquer sentido, na verdade impede o controle da doença. Infelizmente, por ignorância, oportunismo e insensibilidade, os negacionistas continuam deliberadamente promovendo boicotes, sabotagens e obstáculos às medidas efetivas de combate à pandemia. IHU On-Line – Que Brasil será esse depois da pandemia? Quais os desafios para pensarmos nesse ‘depois’? Naomar de Almeida Filho – Confesso que neste momento tenho dificuldade de ser otimista. Gostaria de registrar somente uma coisa, uma certa esperança. Esperança de que a sociedade, principalmente esse povo sofrido, trabalhadores, professores, pensadores e pesquisadores, mas sobretudo os gestores e líderes políticos, aprendam as lições da pandemia, o que Boaventura Santos chamou de “a cruel pedagogia do vírus”. Quem sabe essas lições sejam capazes de tornar este país e esse mundo melhor… (EcoDebate, 08/07/2020) publicado pela IHU On-line, parceira editorial da revista eletrônica EcoDebate na socialização da informação. [IHU On-line é publicada pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos Unisinos, em São Leopoldo, RS.]