sexta-feira, 23 de julho de 2021

Secas extremas e queimadas causaram a morte de bilhões de árvores na floresta amazônica

A seca extrema provocada pelo El Niño de 2015 e 2016, associada às queimadas florestais na Amazônia, causaram a morte de cerca de 2,5 bilhões de árvores e emitiram 495 milhões de toneladas de gás carbônico para a atmosfera, em uma área que representa apenas 1% por cento de toda a floresta amazônica brasileira. Isso significa que a floresta, cuja função vital é fixar o carbono nas plantas, quando perturbada pela degradação e pelo fogo, pode ser uma das maiores fontes de emissão de gases de efeito estufa do planeta. A descoberta foi revelada no artigo “Tracking the impacts of El Niño drought and fire in human-modified Amazonian forests” (Rastreando os impactos da seca pelo El Niño e do fogo nas florestas amazônicas modificadas antropicamente), publicado pela PNAS (Proceedings of the National Academy of Sciences dos Estados Unidos da América) esta semana. O estudo, conduzido por uma equipe internacional de cientistas no âmbito da Rede Amazônia Sustentável (RAS) – consórcio de pesquisa coordenado pela Embrapa e outras instituições nacionais e internacionais – e projetos parceiros, foi realizado antes, durante e depois da seca do El Niño em 2015 e no início de 2016. Fogo Em condições normais, por causa dos altos níveis de umidade, a floresta amazônica não queima. No entanto, a seca extrema torna a floresta temporariamente inflamável. O fogo induzido pela ação humana, nessas circunstâncias, pode se tornar incontrolável e provocar incêndios florestais. O estudo relevou que plantas em florestas afetadas pelo evento climático e pelas queimadas induzidas pelo homem continuaram morrendo a uma taxa acima do normal por até três anos, liberando mais gás carbônico na atmosfera. A pesquisadora Erika Berenguer, da Universidade de Lancaster e Universidade de Oxford (Reino Unido), e principal autora do estudo, afirma que o trabalho tem implicações significativas frente aos esforços globais para controlar o balanço de carbono atmosférico. “Nossos resultados destacam os efeitos enormemente prejudiciais e de longa duração que os incêndios associados a eventos climáticos podem causar nas florestas amazônicas, um ecossistema que não co-evoluiu com a pressão do fogo e da degradação”, explica a cientista. floresta desmatada e queimada Apenas um terço do CO2 emitido foi recuperado Ao examinar o epicentro amazônico do El Niño, no Baixo Tapajós, região da Amazônia oriental, os cientistas constataram que o dano à floresta dura por vários anos. Na prática, três anos depois da seca e em decorrência das queimadas na região, apenas cerca de um terço (37%) das emissões de gás carbônico foram reabsorvidas pelo crescimento das plantas na floresta. Outro resultado apontado pelo grupo é que as emissões totais de CO2 da seca e incêndios apenas na região estudada foram maiores do que as emissões do desmatamento de um ano inteiro em toda a Amazônia. Foram 495 milhões de toneladas de gás carbônico liberados no período de três anos, provenientes de uma área que representa pouco mais de 1% da Amazônia brasileira. “Isso representa também muito mais que a quantidade de emissões anuais dese gás de alguns dos países mais poluentes do mundo, como o Reino Unido e a Austrália”, exemplifica Berenguer. A bióloga Joice Ferreira, pesquisadora da Embrapa Amazônia Oriental (Belém,PA), uma das autoras do estudo, explica que a floresta é um importante sumidouro (fonte de retenção) de carbono em situações normais. “O que faz a floresta ser uma fonte de emissões é quando ocorre degradação e o fogo”, comenta. Ela ressalta ainda que de acordo com previsões climáticas, secas extremas se tornarão mais comuns e, até agora, os efeitos de longo prazo desses eventos na floresta amazônica, e particularmente nas florestas perturbadas com atividades como extração ilegal de madeira e queima, eram em grande parte desconhecidos. Perda de árvores foi maior nas florestas afetadas pela ação humana Para chegar aos resultados do estudo, os cientistas acompanharam 21 parcelas de floresta na Amazônia oriental entre florestas primárias (áreas nativas ainda sem perturbação), secundárias (áreas em crescimento após o corte raso para agricultura) e florestas que passaram por cortes seletivos de madeira. Por meio de simulação, os resultados foram então extrapolados para a região. A perda de árvores nas florestas secundárias e em outras florestas afetadas por ação humana foi bem maior que nas florestas primárias. Isso porque árvores e outras plantas com menor densidade de madeira e cascas mais finas são mais propensas a morrer com a seca e incêndios. Os pesquisadores estimaram que cerca de 447 milhões de árvores grandes (com mais de 10 cm de diâmetro na altura do peito) morreram e cerca de 2,5 bilhões de árvores menores (menos de 10 cm de DAP) morreram na região do Baixo Tapajós. “A combinação de seca e fogo foi significativamente maior nas florestas modificadas por ações humanas. As emissões de carbono dessas florestas queimadas por incêndios florestais foram quase seis vezes maiores do que as florestas afetadas apenas pela seca”, afirma o professor Jos Barlow, da Universidade de Lancaster. floresta Tecnologias ajudam a prever e minimizar os riscos Para o professor Barlow, as descobertas destacam como a interferência humana pode tornar as florestas amazônicas mais vulneráveis ​​e enfatizam a necessidade de reduzir a extração ilegal de madeira e outros distúrbios em grande escala, bem como os investimentos em capacidades de combate a incêndios região. A pesquisadora Joice Ferreira, da Embrapa, indica que o país já tem tecnologia e soluções para prever secas e mapear riscos de incêndios a cada ano. “É possível elaborar mapas de riscos de incêndios com base nas condições meteorológicas e em vários dados facilmente acessíveis, inclusive por sensoriamento remoto, como densidade de pessoas, número de áreas agrícolas, tamanho de áreas desmatadas e outros”, afirma a cientista. Ela acrescenta ainda que esses mapas podem ser usados para fazer gestão dos riscos, com regras mais rígidas onde o risco for maior. “É preciso agir em diferentes escalas. Internacionalmente, precisamos de ações para enfrentar as mudanças climáticas, que estão tornando as secas extremas e os incêndios mais prováveis. Em nível local, as florestas sofrerão menos consequências negativas dos incêndios se forem protegidas da degradação”, conclui Barlow. Ana Laura Lima (MTb 1268/PA) Embrapa Amazônia Oriental Referência: Tracking the impacts of El Niño drought and fire in human-modified Amazonian forests Erika Berenguer, Gareth D. Lennox, Joice Ferreira, Yadvinder Malhi, Luiz E. O. C. Aragão, Julia Rodrigues Barreto, Fernando Del Bon Espírito-Santo, Axa Emanuelle S. Figueiredo, Filipe França, Toby Alan Gardner, Carlos A. Joly, Alessandro F. Palmeira, Carlos Alberto Quesada, Liana Chesini Rossi, Marina Maria Moraes de Seixas, Charlotte C. Smith, Kieran Withey, Jos Barlow Proceedings of the National Academy of Sciences Jul 2021, 118 (30) e2019377118; DOI: 10.1073/pnas.2019377118 https://doi.org/10.1073/pnas.2019377118 Article has an altmetric score of 281 in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 21/07/2021

Organizações cobram atuação do MPF no combate aos crimes ambientais na Amazônia

Carta enviada pelas organizações à Procuradoria-Geral da República e ao Conselho Superior do Ministério Público Federal destaca os resultados expressivos da Força-Tarefa Amazônia, criada em agosto de 2018 e encerrada em fevereiro deste ano. Cinquenta e seis organizações da sociedade civil, entre elas a Transparência Internacional – Brasil, WWF-Brasil, Human Rights Watch, Conectas e Instituto Igarapé, enviaram uma carta à Procuradoria-Geral da República e ao Conselho Superior do Ministério Público Federal destacando a importância do fortalecimento da atuação do MPF no combate aos crimes e à degradação ambiental na Amazônia. A carta cita a preocupação das organizações com a descontinuidade da Força-Tarefa Amazônia em fevereiro deste ano, sem haver sinalização acerca de sua renovação ou de alguma outra estrutura que pudesse substituí-la no combate às ilegalidades praticadas na região. De acordo com as organizações, além da medida representar um recuo na atuação do MPF, ela traz consigo a perda de uma ação mais coordenada e estratégica do órgão no combate a essas ilegalidades, benefícios que a Força-Tarefa proporcionava. Isso tudo em um cenário de avanço da degradação ambiental, que pode ser evidenciada pelo aumento das taxas de desmatamento e queimada no bioma, bem como pelo crescimento da exploração de madeira e garimpo ilegais. As organizações também deixam claro no documento que os crimes ambientais não apenas trazem prejuízos à sustentabilidade socioambiental, mas também podem causar danos econômicos, como restrições dos produtos brasileiros no mercado internacional, fuga de investimentos e dificuldades na assinatura de acordos comerciais. “É momento de fortalecer as estruturas que investigam e punem o crime ambiental, sobretudo no momento em que as taxas de desmatamento e queimadas batem recordes. É isso que vai colocar o Brasil na rota exigida pelo século XXI e pelos desafios da crise climática. Do contrário, estaremos na contramão do mundo, correndo o risco de ver o fechamento dos mercados internacionais para as commodities agrícolas brasileiras” explica Michel Santos, gerente de políticas públicas do WWF-Brasil. O texto enviado ao MPF e ao CSMPF enfatiza que por trás dos crimes ambientais também há uma estrutura que envolve grupos organizados que realizam diversas práticas criminosas que servem de “sustentação” à ilegalidade ambiental. “Os crimes ambientais na Amazônia não ocorrem de forma isolada. Muitas vezes estão associados a práticas ilícitas como corrupção, lavagem de dinheiro, fraudes, evasão fiscal, formação de milícias e assassinatos. Combater os crimes ambientais é também promover a segurança pública, a integridade das instituições e o próprio Estado de Direito. O Ministério Público Federal tem um papel fundamental nisso e precisa fortalecer a sua atuação na região” comenta Renato Morgado, gerente de Meio Ambiente e Clima da Transparência Internacional – Brasil. Recomendações apresentadas na carta – As organizações defendem que a Força-Tarefa Amazônia, que já apresentou resultados importantes no enfrentamento ao problema (foram mais de 19 operações contra crimes ambientais realizadas), seja fortalecida ao invés de ser descontinuada. No entanto, caso se mantenha a decisão pela sua não renovação, a proposta é que o MPF estabeleça uma estrutura permanente para a Amazônia, que permita maior coordenação e escala de atuação, especialmente dedicada ao combate dos crimes ambientais e da degradação ambiental, aproveitando, inclusive, da experiência da própria Força-Tarefa. “A política de enfraquecimento das ações de fiscalização ambiental e de proteção aos territórios indígenas, intensificadas a partir de 2019, deram sinal verde às redes criminosas que promovem a destruição ambiental, muitas vezes cometendo atos de violência contra aqueles que se colocam em seu caminho. É preocupante que num momento tão crítico o Ministério Público Federal não tenha uma estrutura dedicada ao combate ao desmatamento ilegal e outros crimes ambientais”, afirmou Anna Livia Arida, diretora adjunta da Human Rights Watch no Brasil. Independentemente do formato institucional escolhido, as entidades demandam que tal estrutura tenha os recursos humanos e materiais necessários para a sua atuação, incluindo procuradores com dedicação exclusiva. Na mesma direção, reforçam que é necessário o fortalecimento de forma ampla do MPF na região, com mais ofícios e procuradores dedicados a temas ambientais e à proteção de direitos de povos indígenas e comunidades tradicionais. Por fim, as organizações sugerem a manutenção e o fortalecimento de iniciativas do MPF que incidem na região, como o Amazônia Protege, que de forma inovadora permite a instauração de ações civis públicas na escala necessária para o enfrentamento do desmatamento no bioma. Acesse a íntegra da carta (em PDF) neste link https://comunidade.transparenciainternacional.org.br/atuacao-do-mpf-no-combate-ao-crime-e-a-degradacao-ambiental-na-amazonia in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 22/07/2021

O Brasil se distancia cada vez mais da infraestrutura sustentável

Por Ricardo Abramovay – A infraestrutura das sociedades contemporâneas será cada vez menos a ossatura e cada vez mais a inteligência do crescimento econômico. Não se trata de oferecer, de forma genérica, os bens públicos para que o setor privado possa expandir suas iniciativas, mas sim de moldar estas iniciativas em direção a finalidades que envolvem os dois maiores desafios contemporâneos: o avanço da crise climática e o aprofundamento das desigualdades. Que isso atinja a própria concepção do que significam e quais devem ser as infraestruturas que estão desenhando nosso destino representa imenso avanço democrático, do qual o Brasil está se distanciando. O que está em jogo não é só o fato de que a infraestrutura dá lugar a elefantes brancos e corrupção em várias partes do mundo. Megaprojetos padecem costumeiramente de um viés otimista, que, como mostra o trabalho de pesquisadores da UFMG e da USP para o Tribunal de Contas da União, faz com que seus proponentes inflem seus benefícios e subestimem seus custos. O psicólogo Daniel Kahneman, prêmio Nobel de Economia, chamou de falácia do planejamento a tendência de os responsáveis pelos megaprojetos adotarem os pontos de vista de atores interessados em sua realização sem uma real avaliação das vantagens das alternativas. Pesquisadores da Universidade de Oxford apoiam-se amplamente no trabalho de Kahneman para explicar que os orçamentos inicialmente previstos para a construção de hidrelétricas, por exemplo, não chegam, na maior parte dos casos examinados, à metade de seus custos reais. Mas as mudanças que atingem o próprio conceito contemporâneo de infraestrutura vão muito além da exigência óbvia de que elas não abram caminho à corrupção, a obras abandonadas e a custos exorbitantes. Duas transformações fundamentais estão em curso. A primeira dela materializa-se nas discussões que têm lugar hoje na sociedade norte-americana em torno da economia do cuidado. Como resultado do trabalho de inúmeras organizações da sociedade civil, a economia do cuidado não se limita a promover transferência de renda para populações pobres e para os que foram mais duramente atingidos pela pandemia. Esta transferência é importante e teve, nos EUA, como foco principal, as famílias com crianças — o que deve resultar na impressionante redução da pobreza infantil norte-americana pela metade em 2021. Mas o plano Biden procura erguer formas duráveis para cuidar melhor das crianças, dos idosos e dos portadores de deficiência. Isso significa ampliar os investimentos em creches e escolas, o que permite que as mulheres voltem ao mercado de trabalho, já que boa parte delas haviam sido obrigadas a abandonar seus cargos função da pandemia. O importante é que o cuidado com as pessoas é uma responsabilidade do poder público e não apenas das famílias e das comunidades locais. É o Estado que oferece as condições materiais e a formação de profissionais para que os idosos e os portadores de necessidades especiais tenham vida digna e, sobretudo, para que as crianças recebam atenção e ensino de qualidade, por profissionais preparados para isso. No plano Biden, estes itens não são tratados como gastos, mas como investimentos em infraestrutura. Eles são tão importantes como as rodovias, os aeroportos ou a energia. Ao mesmo tempo, eles têm a intenção explícita de se opor à discriminação racial e de gênero que marca tão fortemente o mercado de trabalho. Não é à toa que tratar os investimentos no cuidado com as pessoas como parte da infraestrutura vem junto com a iniciativa de criar um Conselho de Política de Gênero, ligado à Casa Branca, para promover a igualdade nas políticas externas e internacionais. A segunda transformação no conceito de infraestrutura tem por eixo central mudar a relação entre sociedade e natureza. Diversas organizações multilaterais (o G 20, o Banco Interamericano, a Comissão Global para a Economia e o Clima, entre outras) convergem para a seguinte constatação: o mundo deve investir, entre 2015 e 2030, algo como US$ 90 trilhões em infraestrutura. A maior parte deste investimento será nos países em desenvolvimento, onde se encontram as mais importantes necessidades não atendidas em transportes, energia, comunicações, saúde e educação. Pelos padrões até aqui predominantes, estes investimentos têm a vocação de agravar a crise climática e a erosão da biodiversidade. Esta constatação é especialmente importante para a Amazônia. Uma análise de 75 projetos rodoviários na região, totalizando 12 mil quilômetros, mostra que todos têm impactos negativos sobre as áreas florestais. É à beira das rodovias que se concentra 80% do desmatamento na Amazônia. E mesmo que não se considerem os impactos sobre a biodiversidade, 45% destes projetos são economicamente inconsistentes, confirmando o viés otimista estudado por Kahneman. Os trabalhos recentes do World Resources Institute e do Climate Policy Initiative corroboram estes resultados: a ideia de que as infraestruturas convencionais materializadas em megaprojetos criam empregos durante sua construção e estimulam a iniciativa privada depois de prontas — contribuindo, portanto, para o crescimento econômico — é criticada globalmente, e mostra-se particularmente perversa na Amazônia. Os resultados desta forma de conceber e implantar a infraestrutura têm sido a destruição florestal, a exploração predatória de recursos minerais e o empobrecimento da região (e da maioria das pessoas que ali vivem). A infraestrutura só vai se converter em inteligência — mais que em ossatura — do crescimento econômico se sua definição passar por um questionamento sério sobre quais são os valores ético-normativos em que se apoiam os projetos de infraestrutura. A resposta das organizações multilaterais e dos governos que estão reformulando a visão contemporânea sobre infraestrutura pode ser resumida numa proposição: o valor da infraestrutura do Século 21 está em sua capacidade de regenerar os tecidos socioambientais que, até aqui, as formas convencionais e tão frequentemente predatórias de crescimento econômico têm destruído. Orientar-se por este valor não significa apenas empenhar-se em zerar imediatamente o desmatamento (na Amazônia e no Cerrado), interromper o ataque aos povos indígenas e desmantelar a cadeia da criminalidade, da grilagem, do garimpo ilegal e das milícias hoje tão fortes na Amazônia. Significa, antes de tudo, criar mecanismos para que a infraestrutura na Amazônia seja, mais que um meio para o trânsito de commodities agrícolas ou para a produção de energia, uma forma de atender às demandas dos trinta milhões de brasileiros que aí vivem e, ao mesmo tempo, fortalecer a economia da sociobiodiversidade florestal. *Ricardo Abramovay – Professor Sênior do Programa de Ciência Ambiental do IEE/USP. Foi Autor de “Amazônia: Por uma Economia do Conhecimento da Natureza” (Ed. Elefante/Terceira Via, São Paulo). (#Envolverde)

A restauração florestal e seus efeitos na biodiversidade da Mata Atlântica

Por Rafael Bitante Fernandes, Aretha Medina e Cícero Homem de Melo Júnior* , publicado no Conexão Planeta – A Mata Atlântica é reconhecidamente um dos biomas biodiversos do mundo, o que ressalta sua riqueza natural. A pesquisa Contas de Ecossistemas: Espécies Ameaçadas de Extinção no Brasil, divulgada pelo IBGE, mostrou que, em 2014, havia 3.299 espécies de animais e plantas ameaçadas no Brasil, o que representava 19,8% do total de 16.645 espécies avaliadas. A Mata Atlântica foi, portanto, o bioma com mais espécies ameaçadas, tanto em números absolutos (1.989), como proporcionalmente (25%). Isso é resultado da forte fragmentação de seus remanescentes florestais. Hoje, restam apenas 12,4% da vegetação nativa com mais de 3 hectares e dados publicados na revista Nature Communications, no final de 2020, mostram que mesmo os fragmentos florestais que resistiram ao desmatamento perderam de 25% a 32% de sua biomassa e de 23 a 31% da sua biodiversidade. Restauração mundial Ainda assim, é possível reverter esse cenário! A solução está em criar mecanismos para proteger cada metro quadrado de remanescentes naturais e trabalhar intensamente na agenda da restauração, convertendo áreas degradadas e de baixa aptidão agrícola em novas florestas naturais. O movimento Pacto pela Restauração da Mata Atlântica – lançado em abril de 2009 por quarenta organizações ambientalistas, indivíduos, empresas e governos – identificou 15 milhões de hectares dentro desta realidade. Na primeira semana de junho deste ano, foi lançada oficialmente pela Organização das Nações Unidas (ONU), a Década da Restauração de Ecossistemas, que tem como objetivo inspirar e apoiar múltiplos setores, comunidades locais e indivíduos para colaborar, desenvolver e catalisar iniciativas de restauração em todo o mundo. Restauração, na prática Foto: SOS Mata Atlântica/Divulgação Projetos de restauração florestal, como o do Centro de Experimentos Florestais SOS Mata Atlântica-Heineken Brasil, localizado no município de Itu, no interior de SP, apresentam resultados importantes e podem servir de exemplo para outras iniciativas. Esse trabalho teve início em 2007, em uma área de 526 hectares, onde a pastagem era predominante. Ao longo de cinco anos, toda a sua área foi recomposta por meio de plantio de mudas de espécies florestais nativas, que somaram um total de 720 mil indivíduos. O município, que contava com 9,77% de remanescentes florestais com mais de 3 hectares, passou a contar com novos 380 hectares de florestas, contribuindo com um aumento em 6% de vegetação nativa. Os esforços para transformar os plantios de mudas de árvores nativas em uma floresta no futuro passam por metodologias, técnicas e muita ciência – necessárias para garantir a sua perpetuidade e funcionalidade ecológica ao longo do tempo. Assim, foram selecionadas 110 espécies com base em múltiplos critérios buscando, por exemplo, sua relação com a fauna regional, gerando condições para o estabelecimento de uma dinâmica natural similar à de um remanescente florestal. Alimentos e refúgio Foto: Haroldo Palo Jr. Neste local, alguns estudos foram realizados, sendo dois deles focados na relação da área em processo de restauração florestal e a fauna. A primeira pesquisa foi sobre as aves, e levantou as espécies de ocorrência entre 2010 e 2015 nas áreas restauradas e foi realizada por pesquisadores do Laboratório de Ecologia e Conservação da UFSCar/Sorocaba. Neste período, o levantamento apresentou um salto de 86 para 209 espécies e este incrível aumento está atribuído principalmente ao crescimento da floresta implantada, com maior fonte de alimentos e refúgio para as aves. Outro dado impressionante está atrelado aos mamíferos que ocupam a área. Ao longo de dois anos de monitoramento realizados com armadilhas fotográficas, buscas ativas e análises fecais, 21 espécies de mamíferos de médio e grande porte foram registradas. Dessas, cinco encontram-se em algum grau de ameaça de extinção, sendo elas: a onça-parda, o gato-do-mato-pequeno, o gato-mourisco, a lontra e a paca. Isso demonstra a importância da área para a conservação da diversidade local e regional. Diversos indícios, tais como fonte de alimentação e reprodução no local, caracterizam a área como refúgio importante para a fauna silvestre. Esse estudo foi realizado pelo time de pesquisadores da Esalq-USP, do Laboratório de Ecologia, Manejo e Conservação da Fauna (LeMAC), sob coordenação da Prof. Dra. Kátia Ferraz. Manutenção da biodiversidade As iniciativas devem ser contínuas e uma estratégia para conexão de remanescentes, formando o que chamamos de corredores ecológicos, é vital para manutenção da biodiversidade. Isso deve ser feito através das áreas de preservação permanente, que são faixas de vegetação nativa, que devem ser mantidas ou restauradas, ao longo de nascentes, córregos e rios principalmente, permitindo assim o fluxo de fauna e flora, estabelecimento de uma série de relações naturais. A ciência aponta que a restauração florestal em larga escala na Mata Atlântica pode ser um alento para a sua biodiversidade e para muitos outros desafios que a humanidade encara neste século. O plantio de florestas do bioma mais devastado do Brasil protege espécies ameaçadas, sequestra carbono da atmosfera, garante a disponibilidade de água para as cidades, contribui com a polinização para a produção de alimentos e o bem estar da população. *Rafael Bitante Fernandes, Aretha Medina e Cícero Homem de Melo Júnior são, respectivamente, gerente, coordenador e técnico de restauração florestal na SOS Mata Atlântica Edição: Mônica Nunes / Foto: Marcos Amend (Mata Atlântica no Parque Nacional Pau Brasil) Publicado em 22 de julho de 2021 no Conexão Planeta SOS Mata Atlântica ONG ambiental brasileira que atua na promoção de políticas públicas para a conservação da Mata Atlântica por meio do monitoramento do bioma, produção de estudos, projetos demonstrativos, diálogo com setores públicos e privados, aprimoramento da legislação ambiental, comunicação e engajamento da sociedade

Com Amazônia mais seca, indígenas adaptam técnicas ancestrais de plantio

por Suzana Camargo, Mongabay – Desde sempre, os povos indígenas utilizam os sinais da natureza para guiar o seu modo de vida. Seu calendário é regido pelo ritmo das plantas ou da chuva, por exemplo. Através deles, determinam o melhor momento para fazer o plantio de alimentos. Todavia, nos últimos anos, tudo está diferente. “O clima mudou totalmente. A chuva tem atrasado e parado muito antes do normal. A flor do ipê-amarelo está caindo mais tarde e o canto da cigarra está atrasado”, diz Yakunã Ikpeng, cacique da aldeia Arayo, no Parque Indígena do Xingu, no Mato Grosso. O que Yakunã e seu povo têm percebido é que a maior floresta tropical do mundo, a Amazônia, já não é a mesma. Ela não é mais úmida como no passado e por esta razão, todo o clima na região foi afetado. Devido ao crescente desmatamento e ao avanço das áreas urbanas sobre a mata, o volume e a periodicidade da chuva trazida pelos chamados “rios voadores”, fenômeno formado pelo vapor d’água produzido pelas árvores, foram impactados. Com isso, o fogo, uma das principais ferramentas utilizadas pelos indígenas no cultivo de suas roças, se tornou perigoso. Até então, as queimadas eram controladas pela umidade da floresta. Os indígenas do Xingu praticam a agricultura itinerante. A roça é feita em uma área diferente a cada intervalo de tempo, geralmente dois anos, dando tempo ao solo de se recuperar, além de resguardar os recursos naturais e preservar a biodiversidade. Quando é o momento do plantar os alimentos, a vegetação é queimada, um método ancestral, passado de geração a geração, que ajuda na fertilização e na aeração do solo, favorecendo a regeneração de plantas úteis na floresta secundária. Queimada para abertura de roça em aldeia no Xingu Foto: Marcus Schmidt/ISA. “Apesar de ser considerada polêmica por alguns, a queima incompleta favorece o acúmulo de carbono orgânico, um adubo para o solo. E os indígenas conhecem técnicas para controlar as chamas e evitar que se alastrem”, explica o engenheiro florestal Marcus Vinícius Schmidt, que pesquisou durante anos sobre a sustentabilidade dos sistemas produtivos desses povos da Amazônia. Schmidt é o autor principal de um artigo científico publicado recentemente na revista Frontiers: “Indigenous Knowledge and Forest Succession Management in the Brazilian Amazon: Contributions to Reforestation of Degraded Areas” (na tradução para o português, “Conhecimento Indígena e Manejo da Sucessão Florestal na Amazônia brasileira: Contribuições para o Reflorestamento de Áreas Degradadas”). Com a mudança no clima da Amazônia, assim como no resto do mundo, os indígenas tiveram que adaptar suas técnicas tradicionais. Isso ficou bastante evidente em 2010. Naquele ano, ocorreu o maior incêndio já registrado até hoje no Xingu, que tem uma área de cerca de 2,6 milhões de hectares. Quase 10% de seu território foi destruído pelo fogo, ou seja, mais de 250 mil hectares. Até então, as queimadas da roça, que eram facilmente controladas, começaram a sair de controle. No artigo, Schmidt, ao lado de outros pesquisadores brasileiros e lideranças indígenas locais, relatam como um trabalho feito pelo Instituto Socioambiental (ISA) está buscando desenvolver técnicas alternativas de manejo florestal baseadas em conhecimentos dos povos locais, mas adaptadas ao contexto atual, e também, visando favorecer a regeneração florestal. “Nosso objetivo foi elaborar um modelo local a partir da lógica dos indígenas. Eles são povos agricultores e conhecem muito sobre plantas, os solos e a resiliência dos ambientes. A pesquisa mostrou como é importante considerar as causas que podem estar levando à degradação de ambientes, de forma preventiva, ao invés de simplesmente tentar investir em técnicas de restauração baseadas numa lógica que é diferente e que não dialoga com o manejo local”, garante Schmidt. Marcus Schmidt e Tapiiwa Wauja durante os levantamentos de impacto dos incêndios. Foto: Adryan Nascimento/ISA. Fogo controlado Junto com os Ikpeng das aldeias Moygo e Arayo, ambas no Xingu, foram testadas novas técnicas para evitar os incêndios. Antigamente, por exemplo, os indígenas faziam a queima da roça no horário mais quente do dia. Agora isso não é mais possível. Eles aprenderam que o ideal é colocar o fogo no final do dia e nunca deixá-lo sem supervisão. “Hoje em dia é essencial vigiar a queimada”, diz Katia Ono, articuladora comunitária e assessora técnica em manejo de recursos naturais e fogo do Instituto Socioambiental. Outra estratégia que vem sendo utilizada é a do aceiro. Antes da queimada do solo é realizada uma limpeza, em uma área demarcada em volta da futura roça, para a retirada das folhas, que quando secas são combustível para os incêndios sem controle. Todo o material orgânico é varrido. Desta maneira, caso ocorra alguma eventualidade, existe uma distância física entre as chamas e a floresta. Isto também permite acessar rapidamente estas áreas, na necessidade de apagar os focos de incêndios que aparecerem durante a queima da roça. Os indígenas ainda estão fazendo o manejo de plantas mais resistentes ao fogo. O sapé, por exemplo, era muito usado por eles para a construção das casas, mas é uma planta extremamente inflamável e que necessita de queimas periódicas antes da coleta, de forma a renovar suas folhas para serem utilizadas como cobertura. Agora são utilizadas as folhas da palmeira inajá para esse fim, que não precisam dessa queima, e com isso, evita-se incêndios acidentais. São plantados também pequizeiros e mangabeiras, junto com variedades de mandioca, que previnem o crescimento dos sapezais, e formam uma barreira contra o avanço das chamas. Embora estas questões ainda não tenham sido aprofundadas nesta pesquisa, são técnicas reconhecidas pelos indígenas que contribuem para a diminuição dos incêndios. E não é apenas na roça que o fogo precisa ser vigiado. Outros povos do Xingu fazem o uso dele durante diversas atividades. É o caso da coleta de matérias-primas para fazer cerâmica – entre os Wauja –, ou para o assar dos peixes na beira do rio e de lagoas. Antigamente, os antepassados simplesmente deixavam as chamas se apagarem sozinhas, mas atualmente, isso não pode mais ser feito porque coloca em risco a mata. Qualquer vestígio de fumaça ou fogo tem que ser apagado com água, explicou Yakunã Ikpeng. “As novas gerações não veem mais as florestas que os avós viram”, lamenta Katia Ono, do ISA. Queima de material, de forma segura, para fabricação de cerâmica pelo povo Wauja. Foto: Renato Mendonça/ISA. Insegurança alimentar Os indígenas sempre tiveram a tranquilidade de ter sua alimentação garantida pela terra. A lista das plantas cultivadas é enorme: dezenas de espécies de mandioca, amendoim, banana, mamão, batata, cará, milho, algodão… “Os Ikpeng sempre foram povos agricultores. Com suas roças, eles sempre tiveram acesso a um alimento mais barato e de melhor qualidade nutricional. Mas com estas transformações locais, intensificadas pelo clima mais seco que passou a predominar, esses sistemas estão em risco”, diz Marcus Schmidt. Todavia, com o clima mais seco na Amazônia, hoje há preocupação se a terra conseguirá produzir ou não. “Até agora só tivemos quatro meses de chuva este ano. E isso não é o suficiente para plantar. No caso da batata-doce e do amendoim, a raiz logo seca. E a banana não vinga bem”, conta o cacique da aldeia Arayo. As mudanças provocadas no clima pelos homens da cidade grande estão obrigando os povos indígenas a se adaptar a novos tempos, a uma floresta menos úmida, muito diferente daquela com que conviveram seus antepassados. “É preciso estudar a natureza de novo. E a base desse conhecimento continua dependendo do relacionamento entre as diferentes gerações. Parte do nosso esforço é também fazer com que isso aconteça”, revela a articuladora do ISA. Roça tradicional de urucum e mandioca na aldeia Pyulaga Wauja, no Alto Xingu. Foto: Marcus Schmidt/ISA. Imagem do destaque: Wayge Ikpeng fazendo queimada de roça com aceiro na aldeia Rawo Ikpeng. Foto: Pytha Ikpeng. (#Envolverde)

quinta-feira, 22 de julho de 2021

"O GRITO DO BICHO" - Boletim Informativo de 22.07.2021

• OAB pede apuração contra policial que matou cachorro no Rio • Cachorro é adotado após ficar esperando dona que morreu sair de UPA no Paraná: 'Transformar essa dor em um novo amor' • Cão sequestrado por dupla de criminosos é resgatado e devolvido à idosa no litoral de SP • Por que ratos são usados como cobaias em pesquisas científicas? • Defesa Civil de Campo Limpo Paulista resgata 13 animais em queimadas • Veterinário aposentado de 92 anos faz cadeiras de rodas para animais com deficiência • Proibição de corrida de cães pode virar lei em Santa Catarina • Atropelado, cachorro cai em bueiro e mobiliza bombeiros, prefeitura e ONG • Macaco-prego é atacado por cães e fica gravemente ferido em Sinop (MT) • Filhote de anta fica cego após incêndio na região do Parque das Emas • Polícia Federal investiga morte de onça-pintada achada com mais de 50 perfurações de chumbinho • Vídeo mostra homem tentando furtar casinha de cachorro em Campinas (SP) • Polícia Civil finaliza inquérito sobre castração irregular de cão em república e indicia universitários por maus-tratos • Cachorro é amarrado em trilho de trem e tem a cabeça cortada em Joinville (SC) Não deixem de compartilhar nossas publicações. Abração a todos e obrigado pelo carinho com nosso trabalho. sheila moura

sábado, 17 de julho de 2021

Plástico biodegradável: a busca de solução sustentável para o meio ambiente

Para pesquisadora do IEEE, utilização do artefato deve ser tendência, pois não gera resíduo e pode ser aproveitado em outra cadeia Estima-se que o mundo utiliza cerca de 250 milhões de toneladas de plástico todos os anos. Esses resíduos estão entre os maiores poluentes do planeta. É uma substância que simplesmente não desaparece quando jogada no lixo e demora para se degradar até 400 anos. Por conta da sustentabilidade, a ciência trabalha por sua substituição. Um dos exemplos é uma pesquisa realizada na Universidade de São Paulo (USP) sobre o Plástico Verde à base de amido de mandioca e outras variantes que permite tornar o plástico biodegradável, podendo virar material orgânico após o seu uso. Medalhas olímpicas de 2021, feitas com materiais reciclados. “Imaginem o uso de sapatos fabricados com material biodegradável. Quando já estiverem sem utilização, podem ser jogados em um jardim e funcionarão como adubo”, exemplifica a pesquisadora Tereza Cristina Carvalho, membro do Instituto dos Engenheiros Eletrônicos e Eletricistas (IEEE), maior organização técnico-profissional do mundo, dedicada ao avanço da tecnologia em benefício da humanidade. Para Tereza, que também é pesquisadora atuante da Escola Politécnica da USP, o plástico verde biodegradável deverá ser uma tendência em um futuro próximo. “A ideia é não gerar mais resíduos, aproveitando-os em outra cadeia”, enfatiza a pesquisadora. Ela cita como exemplo as medalhas fabricadas para a Olimpíada de Tóquio deste ano, elaboradas com metais extraídos de aparelhos eletrônicos já inutilizados. Sobre IEEE O IEEE é a maior organização profissional técnica do mundo dedicada ao avanço da tecnologia em benefício da humanidade. Seus membros inspiram uma comunidade global a inovar para um futuro melhor por meio de seus mais de 420.000 membros em mais de 160 países. Suas publicações, conferências, padrões de tecnologia e atividades profissionais são recomendadas por diversos especialistas. O IEEE é a fonte confiável para informações de engenharia, computação e tecnologia em todo o mundo. (#Envolverde)

Brasil pode perder conquistas se não voltar a investir em ciência, aponta relatório da Unesco Ana Maria 13/07/2021 0 Comentários

Por André Julião | Agência FAPESP, publicado em Plurale – O Brasil conquistou um papel relevante na ciência mundial nas últimas quatro décadas, mas cortes de bolsas e queda em número de patentes e gastos em pesquisa e desenvolvimento (P&D) pelas empresas desde 2015 ameaçam o futuro do sistema nacional de ciência e tecnologia como um todo. Essa é uma das conclusões do capítulo sobre o Brasil do Relatório de Ciências da Unesco – A corrida contra o tempo por um desenvolvimento mais inteligente. O documento, publicado a cada cinco anos pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), avalia o estado da ciência, tecnologia e inovação no mundo e teve a mais recente edição lançada em junho. Entre os destaques brasileiros desde 2015 estão os estudos sobre zika. O país foi o segundo que mais produziu artigos científicos sobre o vírus, atrás apenas dos Estados Unidos. Os cientistas brasileiros responderam por 28% das publicações mais citadas sobre o assunto. De modo geral, o Brasil vem aumentando progressivamente o número de publicações há mais de 30 anos. “Até 2018, continuávamos produzindo mais a cada ano. Além disso, a quantidade total de dinheiro investido em ciência e tecnologia tinha caído relativamente pouco. A ciência brasileira havia aumentado o número de artigos publicados e alcançado feitos fantásticos. Ao mesmo tempo, o número de patentes era muito pequeno quando comparado ao resto do mundo e os maiores patenteadores eram as universidades, quando em qualquer lugar do mundo desenvolvido são as empresas que têm essa liderança”, conta Hernan Chaimovich, um dos coautores do estudo, professor emérito do Instituto de Química da Universidade de São Paulo (IQ-USP) e ex-assessor da Diretoria Científica da FAPESP. Um ponto positivo que o relatório ressalta é que tem havido contínuo crescimento da participação feminina nas ciências e nas áreas tecnológicas, como engenharias. “As mulheres já representam 54% dos doutorados concedidos no país e 34% daqueles nas engenharias. Esse último dado é muito mais alto do que o encontrado na maioria dos países, mesmo nos industrializados. Por exemplo, a taxa de mulheres formalmente empregadas em engenharias é mais alta no Brasil do que nos Estados Unidos e Reino Unido”, comenta o outro coautor do estudo, Renato Pedrosa, professor do Instituto de Geociências da Universidade Estadual de Campinas (IG-Unicamp) e coordenador do projeto “Indicadores de Ciência, Tecnologia e Inovação do Estado de São Paulo”, financiado pela FAPESP. Segundo a publicação, a recessão de 2015 no país impactou drasticamente os gastos em pesquisa e desenvolvimento. Apesar do aumento do número de empresas do setor de transformação que relatava ter uma equipe dedicada ao tema entre 2014 e 2017, os gastos com essas atividades diminuíram de US$ 18 bilhões em 2015 para US$ 15 bilhões em 2017. Além disso, o relatório observa que houve queda no depósito de patentes pelo setor privado, enquanto cresceu entre universidades. “O Brasil tem uma capacidade científica instalada, associada a um forte sistema de pós-graduação, que causa inveja à maioria dos países emergentes. O que não temos é a absorção dessa ciência pela nossa indústria, que não é muito inovadora. Isso acontece porque ela não é competitiva internacionalmente. O setor agrícola e empresas como a Embraer, que competem nos mercados externos, são muito inovadores e vão muito bem lá fora. Mas a maior parte das empresas sediadas no Brasil é voltada apenas para o mercado interno, importando ou simplesmente deixando de lado a inovação”, diz Pedrosa. Alerta Apesar das dificuldades estruturais, no entanto, o período contou com o projeto Sirius, que inaugurou neste ano uma das primeiras fontes de luz síncrotron de quarta geração no mundo, no Centro Nacional de Pesquisas em Energia e Materiais (CNPEM), em Campinas. O relatório destaca ainda a implementação do Satélite Geoestacionário de Defesa e Comunicações Estratégicas, capaz de proporcionar acesso à internet de banda larga em regiões remotas do país. Na área de tecnologia da informação, o país introduziu o sistema de pagamentos on-line PIX, uma das primeiras iniciativas do tipo no mundo. O relatório lembra que o Brasil aumentou consideravelmente a publicação de artigos científicos desde 2011 e que enfrentou duas epidemias, a de zika e a de COVID-19, tendo se unido a esforços internacionais para o desenvolvimento de vacinas contra esta última. O Brasil foi o segundo país que mais publicou artigos científicos sobre zika em 2016 e 2017, com alto índice de citações (leia mais em: revistapesquisa.fapesp.br/publicacoes-cientificas-sobre-zika-e-microcefalia/) O estudo destaca ainda os polos de inovação nas universidades, berços de startups que impulsionaram a geração de patentes e a colaboração científica entre indústria e academia. Por outro lado, a proteção ambiental piorou nos últimos dois anos, como ficou evidente nos rompimentos de barragens de rejeitos de mineração e na crescente incidência de incêndios no Pantanal e na Amazônia, indicando que os sistemas de monitoramento e prevenção são insuficientes. Além da queda nos gastos de P&D pela indústria, os autores alertam que a pós-graduação, até então a maior produtora de ciência no país, está entrando em estagnação, com cortes em nível federal ocorrendo desde 2015. “O sistema de ciência e tecnologia brasileiro pode ser destruído. Isso é muito mais perigoso do que somente diminuir investimento. A resiliência tem limite. Se as bolsas para a pós-graduação continuarem diminuindo, vamos parar de formar cientistas e, com isso, a pesquisa acaba. Nossos competidores internacionais, por sua vez, continuarão pesquisando. Deixaremos de ser uma nação independente intelectual, científica e comercialmente”, encerra Chaimovich. O sumário executivo e o capítulo sobre o Brasil (em português) do Relatório de Ciências da Unesco podem ser lidos em: https://unesdoc.unesco.org/ark:/48223/pf0000377250_por O relatório completo (em inglês) está disponível em: https://unesdoc.unesco.org/ark:/48223/pf0000377433 (#Envolverde)

sexta-feira, 16 de julho de 2021

Amazônia perde sua capacidade de absorver carbono

A emissão de carbono é dez vezes maior em áreas com mais de 30% de desmatamento, enquanto apenas 18% das emissões por queimada são absorvidas pela floresta Do Jornal da USP* O desmatamento diminuiu a capacidade da floresta amazônica de absorver gás carbônico da atmosfera, transformando-a em uma fonte de carbono. As áreas do bioma com mais de 30% de desmatamento apresentaram uma emissão de carbono dez vezes maior do que regiões com desmatamento inferior a 20%. Os dados são de estudo liderado por uma pesquisadora do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) publicado nesta quarta-feira (14), na revista britânica Nature. “É o estudo mais completo e extenso já realizado”, afirma Sir David King, presidente do Grupo Consultivo para a Crise Climática (CCAG, em inglês), e ressalta a importância do estudo em descrever como a floresta amazônica passou de consumidora para uma fonte de emissões de CO2. De acordo com David, os resultados da pesquisa se relacionam à pressão por produção de carne bovina e soja e com a mudança catastrófica, em suas palavras, na direção das políticas do atual governo brasileiro “Trata-se de uma acusação devastadora de sua trajetória atual, já que o país passou de um dos mais progressistas em termos de gestão de emissões para um dos piores. Devemos continuar a pressionar quem está no poder a reconsiderar, a garantir um futuro melhor não apenas para o povo do Brasil, mas para a saúde do planeta”, afirma. Os pesquisadores recolheram em torno de 8 mil amostras em mais de 600 voos, em nove anos de estudo em quatro localidades da Amazônia, que representam cada região da floresta. Nas áreas estudadas foram encontradas diferentes taxas de desmatamento. As regiões mais desmatadas, com uma taxa de mais de 30% de desmatamento, apresentaram uma estação seca mais estressante para a floresta: mais seca, mais quente e mais longa. De 2010 a 2018, a Amazônia brasileira, território de 4,2 milhões de quilômetros quadrados, foi responsável por lançar 1,06 bilhões de toneladas de CO2 para a atmosfera por ano em queimadas. O balanço de carbono, ou seja, o saldo final entre absorções e emissões foi de 0,87 bilhão de toneladas por ano, o que significa que apenas 18% das emissões por queimada estão sendo absorvidas pela floresta. Com isso, a pesquisa aponta que, sem queimadas, a Amazônia brasileira retiraria da atmosfera 0,19 bilhão de toneladas de CO2 por ano. A maior emissão de carbono acontece na localidade leste, nos estados do Pará e Mato Grosso, e ocorre por causa da grande quantidade de queimadas e de menor absorção de CO2 pela própria floresta. “Durante os meses de agosto, setembro e outubro a redução de chuva é muito acentuada nestas regiões, aumentando a temperatura em mais de 2˚C, além da duração da estação seca estar maior. Esta condição promove um aumento da inflamabilidade da floresta e da mortalidade das árvores, que são típicas de uma floresta tropical úmida”, explica a pesquisadora Luciana Gatti, uma das autoras do estudo. As regiões do sul do Pará e norte do Mato Grosso apresentaram o pior cenário. Além de constituírem as maiores extensões de área queimada, nessas áreas a floresta já é uma fonte de carbono significativa, com emissões para a atmosfera que crescem ano a ano. “Esta região da Amazônia é a que mais gera preocupação, pois a degradação é extrema, agravando a crise de mortalidade das árvores”, comenta Luciana. O desmatamento também altera a condição climática na Amazônia, afetando também a capacidade da floresta não desmatada de absorver carbono – além de aumentar sua inflamabilidade. Por isso, Luciana Gatti é categórica ao afirmar que a redução de emissões de carbono da floresta passa por uma estratégia de combate ao desmatamento e queimadas. “Com isso, contribuiríamos também para um aumento da chuva e redução da temperatura na região, formando um ciclo positivo que também afeta o restante do Brasil, a América do Sul e o planeta.” Para Mercedes Bustamante, representante do CCAG no Brasil, o destino da Amazônia é central para a solução das crises climática e de biodiversidade. “Os ecossistemas amazônicos são um dos elementos mais críticos do ciclo global do carbono e do sistema climático. Atualmente, 18% da Amazônia já foi desmatada, e 17% está em processo de degradação. As perturbações também colocam a biodiversidade em risco, afetando o funcionamento e a produtividade dos ecossistemas”, completa. Dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais mostraram que a Amazônia tinha 2.308 focos de queimadas em junho, o maior número desde 2007 para este mês. “Parar o desmatamento e as queimadas associadas e investir na restauração de ecossistemas degradados na região são pontos críticos para travar a espiral de degradação”, afirma Mercedes. Por Agência Bori Referência: Gatti, L.V., Basso, L.S., Miller, J.B. et al. Amazonia as a carbon source linked to deforestation and climate change. Nature 595, 388–393 (2021). https://doi.org/10.1038/s41586-021-03629-6 Article has an altmetric score of 1802 in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 16/07/2021

EcoDebate - Edição 3.707 de 16 / julho/ 2021

Ações resilientes para um novo olhar sobre as cidades pós pandemia da Covid-19 Brasil ainda não sabe lidar com o lixo, após uma década de Política Nacional Amazônia perde sua capacidade de absorver carbono Áreas naturais protegidas oferecem serviços essenciais à humanidade Na ONU, Apib e Cimi denunciam medidas anti-indígenas e questionam governo brasileiro O que estamos vivendo não é home office e nem trabalho remoto Publicações da Embrapa sobre o Cerrado estão agora disponíveis para download gratuito Mudanças climáticas intensificam eventos climáticos extremos no Reino Unido

quinta-feira, 15 de julho de 2021

Mudanças climáticas intensificam a seca de verão em partes dos EUA, aponta estudo

A mudança climática está amplificando a intensidade e a probabilidade de ondas de calor durante secas severas nas planícies do sul e sudoeste dos Estados Unidos, de acordo com um novo estudo realizado por um pesquisador da Universidade de Arkansas. University of Arkansas* Linyin Cheng, professor assistente de geociências, usou dados do Modelo de Sistema Comunitário de Terra do Centro Nacional de Pesquisa Atmosférica para estudar as secas de verão que ocorreram antes e depois da Revolução Industrial. Cheng e seus colegas da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica e universidades da China e do Colorado fizeram simulações para avaliar como, e em quanto, as mudanças climáticas induzidas pelo homem afetam as ondas de calor do verão nos Estados Unidos contíguos. O estudo foi publicado no Journal of Climate . Os pesquisadores descobriram que em locais com baixa umidade no solo, como nas planícies do sul e no sudoeste, temperaturas mais altas provocadas pela mudança climática levaram a um aumento no “acoplamento” de terra e atmosfera, o que aumentou ainda mais a severidade das ondas de calor. Em locais com mais umidade no solo, como o nordeste, não encontraram acoplamento apreciável e, portanto, não contribuíram para a intensificação da onda de calor. “Nossa análise da simulação climática mostra que as relações entre a seca e a onda de calor mudam significativamente no sul e no sudoeste dos Estados Unidos devido à mudança climática provocada pelo homem desde o final do século 19”, disse Cheng. “Por outro lado, a relação entre a seca e a onda de calor nas regiões do norte dos EUA sofre pouca mudança no clima mais quente”. Os resultados levantam a ideia de um ciclo climático auto-reforçador: como o clima de uma região se torna mais árido devido à mudança climática, as secas se tornam mais quentes, reduzindo ainda mais a umidade do solo. “No geral, esses resultados indicam que o feedback da atmosfera terrestre reforçada é um fator físico significativo para aumentar as ocorrências de ondas de calor extremas relacionadas à seca, particularmente nas regiões semi-áridas e áridas dos Estados Unidos”, afirma o relatório. Referência: Physical Understanding of Human-Induced Changes in U.S. Hot Droughts Using Equilibrium Climate Simulations Linyin Cheng Department of Geosciences, University of Arkansas, Fayetteville, Arkansas Journal of Climate https://doi.org/10.1175/JCLI-D-18-0611.1 * Tradução e edição de Henrique Cortez, EcoDebate in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 16/07/2019

Mudanças climáticas ameaçam produção de alimentos, alerta relatório da ONU

A população da terra está crescendo e, com ela, o consumo. Essa tendência só irá aumentar em um futuro próximo, mas os recursos do planeta são limitados – e o solo não é uma exceção. Por Deutsche Welle (agência pública da Alemanha) Um relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) publicado nesta quinta-feira (8) focaliza a conexão entre o uso da terra e seus efeitos sobre a mudança climática. O documento destaca como, em uma espécie de círculo vicioso, solos e florestas doentes agravam as mudanças climáticas, que, por sua vez, causam impactos negativos na saúde das florestas e do solo. As conclusões do IPCC são resultado de dois anos de trabalho de 103 peritos de 52 países, que participaram voluntariamente do estudo. Antes do seu lançamento, o relatório foi discutido com os governos no início de agosto em Genebra, na Suíça, e aprovado por consenso por todos os países que participam do IPCC. Acordo de Paris O relatório aponta que, se o aquecimento global ultrapassar o limite de 2º Celsius estabelecido pelo Acordo de Paris, provavelmente as terras férteis se transformarão em desertos, as infraestruturas vão se desmoronar com o degelo do permafrost e a seca e os fenômenos meteorológicos extremos colocarão em risco o sistema alimentar. É um quadro sombrio, mas os autores do IPCC enfatizam que as recomendações do relatório poderiam ajudar os governos a prevenir os piores danos, reduzindo a pressão sobre a terra e tornando os sistemas alimentares mais sustentáveis, enquanto atendem às necessidades de uma população crescente. “Minha esperança é que este relatório tenha algum impacto sobre como consideramos a terra no contexto das mudanças climáticas e sobre as políticas que promoverão a gestão sustentável da terra e sistemas alimentares sustentáveis”, afirmou Alisher Mirzabaev, coautor do relatório do IPCC. Solos e florestas Os solos e as florestas são aliados perfeitos contra as alterações climáticas. Eles atuam como sumidouros de carbono, reservatórios naturais que impedem que o CO2 chegue à atmosfera. Como aponta Barron Joseph Orr, cientista chefe da Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação, a gestão insustentável os transforma no oposto: em grandes contribuintes para as mudanças climáticas. Da área terrestre do mundo que não é coberta por gelo, cerca de 70% já estão sendo usados para a produção de alimentos, têxteis e combustíveis. Os ecossistemas como as pradarias são fundamentais para um clima estável, embora sejam muitas vezes ignorados. Estas vastas áreas, que em grande parte são desprovidas de árvores e arbustos, atuam como grandes sumidouros de carbono. Elas também permitem que o gado paste sem que seja realizado o corte de árvores. A tendência de usar essas terras para lavouras significa uma maior liberação de CO2 para a atmosfera. “Enquanto é dada muita atenção às florestas, savanas e pradarias são uma paisagem que devemos abordar urgentemente”, afirmou João Campari, líder global para a prática de alimentos da WWF Internacional. “Mais de 50% da conversão para a produção frutífera ocorrem em pradarias e savanas.” As turfeiras, por exemplo, tipo de área úmida que cobre apenas 3% da superfície terrestre, são outro importante sumidouro de carbono, mas constituem até 5% das emissões globais anuais de CO2. Cerca de 15% das turfeiras conhecidas já estão destruídas ou degradadas. Da Agência Brasil, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 07/08/2019
Como o desmatamento da Amazônia interfere na saúde da população? Covid-19 e outras doenças chegam até nós como consequência da degradação ambiental A preservação do meio ambiente nunca esteve tão em voga quanto ultimamente, o assunto é de extrema importância, não só pela vida dos seres vivos que ali habitam, mas também para a saúde ambiental do planeta e do ser humano. A degradação ambiental ocorre há anos, e cada vez mais vemos de perto como esse descaso com as florestas interfere diretamente na vida da população. Estudos científicos já atestaram que o desmatamento gera uma cadeia de acontecimentos complexos, criando meios para que diferentes patógenos mortais se espalhem entre os humanos. Doença de Lyme e a malária, por exemplo, surgiram a partir daí. São 40 mil espécies de plantas, milhões de insetos e 400 mamíferos que estima-se ter na Amazônia, floresta que ocupa sete milhões de quilômetros quadrados e faz parte de nove países da América do Sul. O especialista em Gestão de Resíduos Sólidos e fundador da Oceano Resíduos, Rafael Zarvos, alerta a necessidade das pessoas entenderem que desmatamento e doenças estão relacionados. “Infelizmente, somos a única espécie capaz de destruir e de ameaçar a nossa própria sobrevivência. A forma como a sociedade está transformando o meio ambiente e reduzindo os habitats naturais, faz com que animais silvestres e seres humanos se aproximem. Isso potencializa o risco de transmissão de variados patógenos da espécie deles para a nossa”, explica Zarvos. Doenças como a zika, que somada a dengue e chikungunya contabilizaram um aumento de 248% do número de casos no ano de 2019, é exemplo de enfermidade que veio da cena rural para a urbana pelo avanço do desmatamento em áreas florestais. “A destruição da natureza coloca em risco a nossa própria existência. O coronavírus, por exemplo, responsável pela pandemia que vivemos, é fruto do contato de humanos com morcegos”, destaca Rafael. Em relatório da Organização das Nações Unidas (ONU), é possível ver que a cada quatro meses o ser humano tem uma infecção originária de problemas relacionados ao meio ambiente, e que 75% das doenças são de origem animal. O consumo de carne crua de animais silvestres, o desmatamento, as mudanças climáticas e o tráfico ilegal de animais silvestres são fatores que contribuem para facilitar o contágio de seres humanos por patógenos que vivem na natureza e nas espécies que ali habitam. “Cientistas especulam que o vírus que desencadeará a próxima pandemia já está em circulação, é só uma questão de tempo até sermos atingidos. Isso prova que está mais do que na hora de prestarmos atenção no consumo de produtos, além de pequenos hábitos do dia a dia que podem ser cruciais para ajudar o meio ambiente e a nós mesmos”, diz o especialista. Zarvo diz, ainda que “Meio ambiente, problema da destruição e pandemia. As pessoas precisam ter em mente que uma coisa está relacionada com a outra. Infelizmente, somos a única espécie capaz de de destruir e de ameaçar a nossa própria sobrevivência. A destruição da natureza coloca em risco a sobrevivência da espécie humana. A forma como a sociedade está transformando o meio ambiente e reduzindo os habitats, faz com que animais silvestres e seres humanos se aproximem. Isso potencializa o risco de transmissão de variados patógenos aos seres humanos. Uma publicação recente da biblioteca nacional de medicina aponta que existem cerca de 165 espécies de doenças capaz de causar algum dano ao ser humano. Relatório da ONU mostra que a cada quatro meses a gente tem uma infecção originária de problemas relacionados ao meio ambiente, sendo que 75% das doenças que temos são de origem animal. O impacto no meio ambiente de maneira negativa, acaba trazendo essas consequências que agora estamos vendo na pele, que é a pandemia originada pelo novo coronavírus. Em relação ao desmatamento, florestas estão sendo derrubadas para pasto, agronegócio. Mudanças climáticas, por conta da alteração da temperatura. Inclusive, uma publicação que saiu hoje no jornal diz que a Groenlândia atingiu um ponto irreversível no degelo depois de 40 anos, e resultará no aumento de um milímetro por ano nos oceanos. Parece pouco, mas vai gerar impactos negativos a quem mora em ilhas e perto da costa. Um milímetro faz muita diferença. A partir do momento que você tem mudanças climáticas com o aumento da temperatura, os micróbios começam a ter uma sobrevida maior. Tráfico ilegal de animais silvestres. Todos esses fatores contribuem, além do consumo da carne crua dos animais silvestres. Em relação ao coronavírus, por exemplo, tudo indica que a contaminação ocorreu pelo morcego no mercado chinês (mas ainda não está comprovado). Na história, para dar outro exemplo com origem já comprovada, o HIV, o vírus da Aids. Tudo indica que ele teria passado para o ser humano na década de 30 através de tribos africanas que faziam caça e domesticação de chimpanzés e macaco verde. Passou-se todas essas décadas, quando veio a explosão, e teoricamente, o marco zero teria ocorrido nos anos 80 com um comissário americano que morreu nos Estados Unidos após viagem. Posteriormente, descobriu-se que surgiu na verdade em 1959, com registro de um rapaz no Congo que morreu de doença não detectada, mas que teve seu sangue congelado para posterior avaliação. Ebola é outro exemplo de doença originária de animais silvestres, pois veio através do morcego de fruta. A gripe aviária, aqui no Brasil a Zika e por aí vai. Meio ambiente e doenças estão correlacionados, é preciso tomar cuidado. De acordo com o relatório da ONU, quanto maior a diversidade entre as espécies, mais difícil fica essa contaminação, pois passa de uma espécie para outra até chegar na gente. Se você elimina todas as espécies, ou se encurta a distância entre elas, você tem o que estamos vivendo agora: uma pandemia. E a relação de lixo descartado incorretamente e doenças? A Peste Negra é um exemplo de doença que veio da falta de higiene. Se você descarta o lixo incorretamente, atrai vetores como o rato, por exemplo, que vai se aproximar e é vetor de doenças. Saneamento básico também “. in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 15/07/2021

EcoDebate - Edição 3.706 de 15 / julho/ 2021

Sustentabilidade de Marketing – Ferramentas de Comunicação Crimes dos Poderosos e a Produção da Fome no Brasil Como o desmatamento da Amazônia interfere na saúde da população? Usina de Belo Monte eleva em até três vezes a emissão de gases de efeito estufa na região amazônica Reino Unido pretende descarbonizar todos os modos de transporte doméstico até 2050 Mudanças climáticas ameaçam produção de alimentos Poluição do ar: um assunto transversal nos 17 Objetivos do Desenvolvimento Sustentável Mudanças climáticas intensificam a seca de verão em partes dos EUA

Projeto mobiliza ações sociais e educativas em manguezais da Amazônia

Por Redação CicloVivo – Mulheres, catadores de caranguejo e jovens se unem para preservar 12 hectares de mangues. O chamado das Nações Unidas para uma mobilização global em torno da Década da Restauração dos Ecossistemas, lançada em junho, exige mais do que plantar árvores para recobrir o planeta. Em manguezais da costa amazônica, no Pará, por trás das mudas que estão sendo cultivadas em viveiros visando recuperar áreas degradadas, desponta um desafio para além do ambiental: a participação comunitária, por meio do empoderamento social das famílias que utilizam os recursos naturais, unindo conservação da biodiversidade à geração de renda, segurança alimentar e acesso a direitos, essenciais ao desenvolvimento sustentável. Reconhecer e valorizar os saberes dos detentores do conhecimento tradicional, com inclusão social, econômica e cultural é uma das principais estratégias do projeto Mangues da Amazônia, que é patrocinado pela Petrobras e realizado por Instituto Peabiru e Associação Sarambuí, em parceria com o Laboratório de Ecologia de Manguezal (LAMA), da Universidade Federal do Pará (UFPA). Com cerca de 8 mil quilômetros quadrados de vegetação nativa na zona costeira do Pará, Maranhão e Amapá, os manguezais da Amazônia representam a maior faixa contínua desse ecossistema em todo o mundo. O projeto prevê recuperação de 12 hectares já impactados, beneficiando diretamente em torno de 1,6 mil pessoas, entre os 6 mil comunitários mobilizados em três reservas extrativistas dos municípios de Augusto Corrêa, Bragança e Tracuateua, no Pará. Em dois anos, o plano é realizar o plantio de 60 mil mudas das três espécies de árvores de mangue dominantes na região, com construção de viveiro e monitoramento. O envolvimento de pescadores, caranguejeiros, marisqueiras e famílias que utilizam os recursos dos manguezais para o sustento é chave ao sucesso do reflorestamento. “É uma atividade de base comunitária, que não deve ser colocada de cima para baixo, mas envolver cooperação”, afirma o pesquisador Marcus Fernandes, coordenador do LAMA/UFPA. Além da participação das crianças, fundamental para levar o tema às escolas, o trabalho compartilhado ajuda na percepção das comunidades sobre os ganhos, com mais chances de retorno positivo e continuidade das ações. “Estamos restaurando um ambiente que oferecerá de volta bens e serviços para todos, e a organização social visando objetivos comuns é elemento essencial”, destaca o pesquisador. Segundo Fernandes, o principal desafio está na sensibilização de que replantar é importante não somente para recuperar ecologicamente o ambiente, mas também disponibilizar recursos que são fonte de renda, como caranguejo e madeira”. Comunidade ajuda na conservação dos Mangues | Foto: Instituto Peabiru | Divulgação O projeto Mangues da Amazônia reúne diversas frentes de trabalho de modo a produzir um legado social e cultural para a permanência de práticas sustentáveis no futuro. A iniciativa Nem te Conto consiste em ciclos de diálogo junto a comunidades, especialmente entre mulheres, adolescentes e pessoas LGBTQI+, em temáticas como violência doméstica, gravidez na adolescência, diversidade de gênero e saúde preventiva, que será o tema da atividade em julho. “O desafio é intervir e garantir mudanças na realidade, mas é necessário estrutura do estado para que os direitos sejam garantidos”, destaca Adiele Lopes, psicóloga social do projeto. O primeiro encontro, voltado às mulheres, versou sobre saúde mental em tempos de covid-19, com a busca ativa de demandas neste campo e a posterior realização de dinâmicas para inspirar o diálogo, com apoio da equipe do projeto. “O objetivo é trazer reflexões capazes de desconstruir situações enraizadas que perpetuam opressão e, consequentemente, adoecimento nessas comunidades em situação de vulnerabilidade, marcadas pelo isolamento e dificuldade de acesso à serviços básicos”, enfatiza Lopes. “É importante debater dores, vivências e sonhos”, completa Ádria Freitas, pesquisadora da área socioambiental do projeto Mangues da Amazônia. A série de lives Vozes do Mangue tem audiência nacional e internacional e na primeira edição abordou o tema “Mulheres na Ciência”, com intuito de dar visibilidade ao trabalho das pesquisadoras e dos povos tradicionais na produção de conhecimento para as questões socioambientais e uso sustentável dos manguezais. Aulas da TV Escola realizadas no Mangue | Foto: Instituto Peabiru | Divulgação O segundo episódio das lives trouxe matriarcas, trabalhadoras e defensoras dos manguezais, com dois momentos de vivência: um apresentando histórias de vida e depoimentos de extrativistas sobre a sua relação com o meio ambiente, e outro com a fala de lideranças femininas sobre as atividades junto às comunidades tradicionais. Ao final, uma roda de conversa abordou o papel das políticas públicas e dos movimentos sociais na luta em prol do bem-estar dessas comunidades tradicionais. O trabalho educacional ganha impulso na parceria com a prefeitura de Bragança, por meio da TV Escola Bragantina, que realiza aulas à distância para o alcance de comunidades rurais e teve a contribuição da equipe do projeto Mangues da Amazônia para a temática “Ciências da Natureza”, reforçando o conteúdo do currículo escolar. Em aulas quinzenais, do 3º a 5º ano do Ensino Fundamental, o material didático aborda aspectos da biologia dos manguezais, como o desenvolvimento das plantas, as cadeias alimentares da fauna e o ciclo de vida do caranguejo-uçá, importante recurso extraído para o sustento das famílias. Atividades educativas “As novas gerações demonstram abertura para mudanças de visão no tema ambiental, entendendo a importância da conservação e do cuidado para que os manguezais estejam disponíveis para a retirada do sustento”, observa a pedagoga Lanna Costa, pesquisadora da área socioambiental do Mangues da Amazônia. “Além do aspecto ecológico, o incentivo ao estudo das ciências ajuda na formação dos jovens para o mundo”, finaliza. Os jovens guardiões e guardiãs dos manguezais, onde trabalham junto com a família para obter alimento e renda, são alvos também do Clube de Ciências, que abrange meninos e meninas de sete a 12 anos no propósito de despertar os olhares e a curiosidade para a ciência. Além de contribuir no desempenho escolar, a atividade cultiva o entendimento sobre como funcionam a natureza e as coisas presentes no cotidiano das brincadeiras e do trabalho nas comunidades. Serão plantadas 60 mil mudas em 2 anos | Foto: Instituto Peabiru | Divulgação Um dos objetivos é promover a difusão científica e fazer a informação chegar aos pais através das crianças. Com frequência semanal, aos sábados, a iniciativa inclui expedição de campo nos manguezais, visitas a laboratórios científicos e dinâmicas sobre lendas e outros elementos culturais, no reforço à importância da troca de saberes entre o conhecimento tradicional e a academia. O plano é abranger 240 crianças, em dois anos, nas três reservas extrativistas trabalhadas pelo projeto, no Pará, com a proposta de gerar no final um produto educativo – como um jogo, uma cartilha ou um vídeo – para compor o acervo da brinquedoteca das escolas. Já o Clube do Recreio, também no âmbito do projeto Mangues da Amazônia, destina-se a crianças de menor faixa etária, de três a seis anos, mobilizadas por atividades lúdicas e educativas sobre os manguezais. “É uma contribuição à formação cidadã, além do estímulo ao futuro engajamento ambiental”, explica Aila Freitas, coordenadora da ação, que neste ano envolverá 60 crianças, no momento de forma remota. As atividades práticas são realizadas com auxílio da família nas residências, a partir de material didático entregue nas comunidades pela equipe do projeto. “A proposta é que as crianças reproduzam os aprendizados ao longo das fases de crescimento, como multiplicadoras de ideias”, enfatiza Freitas. Foto de destaque: Instituto Peabiru | Divulgação (#Envolverde)

Se aprovado, PL da Grilagem coroa processo de sucateamento do Incra

Por Ciro Barros, Agência Pública – Marcela Machado, diretora de Articulação e Políticas Sociais da Associação Nacional dos Servidores Públicos Federais Agrários (CNASI), define um cenário de caos no interior do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). “É notório o esvaziamento do Incra como instrumento de Estado, estamos vivendo agora a pior crise orçamentária da história do Incra”, analisa Marcela, que também é servidora do órgão, lotada em Santa Catarina. A escassez de recursos é usada como pretexto para o governo acelerar, em paralelo, a única prioridade do Incra no momento: a regularização fundiária. Segundo ela, a titulação de lotes de assentamento e de ocupantes irregulares (ou mesmo ilegais) de áreas públicas tem se tornado a palavra de ordem na autarquia, em detrimento de outras atribuições, como a aquisição de terras e o desenvolvimento dos assentamentos de reforma agrária já existentes. De dentro do órgão, Marcela descreve um cenário de ausência de recursos orçamentários, ingerências políticas, falta de pessoal, além da paralisação da reforma agrária. “Ano passado a gente teve um orçamento que equivalia, fazendo todas as atualizações monetárias, a 66% do orçamento que a gente tinha há vinte anos”, afirma. “Hoje nós temos um terço dos servidores que tínhamos em 1990”. Coroando esse processo de sucateamento, vem o PL 2.633/2020 [conhecido como PL da Grilagem] e que teve sua urgência aprovada hoje [13 de julho] na Câmara. O próximo passo para a aprovação é a votação do texto do PL em plenário, o que deve acontecer em breve. Proposto pelo deputado Zé Silva (Solidariedade-MG), dentre outras medidas, a PL rebaixa os requisitos ambientais para a regularização fundiária em áreas da União. “É uma forma de legalizar, de ‘esquentar’ esses títulos, como uma forma de se inserir com mais força no mercado mundial em alguns produtos do agronegócio como a madeira e a pecuária”, afirma Marcela. Marcela Machado é diretora da CNASI / sindpfa Ela também usa como exemplo o caso do programa Titula Brasil, lançado pelo governo federal neste ano. O programa prevê a possibilidade de firmar convênios com os governos municipais para realizar a titulação em assentamentos e em áreas públicas federais ainda não destinadas pela União, abundantes sobretudo na Amazônia Legal. A justificativa, diz a servidora, é justamente a falta de braços e recursos do Incra. “A desculpa que eles têm usado para firmar essas parcerias com os municípios, como é o caso, por exemplo, do programa Titula Brasil, é que o Incra tem baixo orçamento e baixa capacidade de operacionalizar isso [a titulação]. De fato isso existe, mas isso é uma opção política do próprio governo, não é um dado consumado que não pode ser revisto. A forma que eles encontraram para viabilizar a titulação nesse cenário é a municipalização. E nós sabemos que isso deixa a titulação sujeita a todo tipo de pressão que ocorre nos municípios”, analisa. A seguir a entrevista completa: Como você avalia a atuação do Incra nos últimos anos? Há, como apontam acadêmicos e movimentos sociais, uma ênfase na política de titulação em detrimento da reforma agrária propriamente dita? Sim. A avaliação que a gente tem, claro que não é unânime, mas que de uma forma geral a gente construiu esse entendimento entre os servidores do Incra é que nas últimas décadas, principalmente nos governos do PT, houve uma ênfase na criação de assentamentos. Se convencionou chamar isso de um investimento na reforma agrária, mas se a gente for olhar os dados, a gente nunca teve reforma agrária no Brasil. Se a gente analisar a concentração fundiária, não avançamos em quase nada. No entanto, houve sim esse investimento na criação de assentamentos, principalmente através da aquisição de propriedades e não da desapropriação. Atualmente, sobretudo agora no governo Bolsonaro, nem criação de assentamentos a gente tem. Não temos nem investimentos nas próprias políticas públicas para desenvolvimento desses assentamentos que já existem, é um investimento pífio. Ano passado a gente teve um orçamento que equivalia, fazendo todas as atualizações monetárias, a 66% do orçamento que a gente tinha há vinte anos. Só por aí a gente tira esse termômetro de como está o investimento nas políticas em geral do Incra. No governo Temer e agora no governo Bolsonaro, o foco tem sido justamente a questão da regularização fundiária. Houve um abandono até com as políticas que a gente tinha anteriormente, tanto em termos de recursos como em termos de gestão, da composição de força de trabalho – hoje nós temos um terço dos servidores que tínhamos em 1990 -, nos últimos cinco anos muitos servidores aposentaram e não houve a recomposição dessa força de trabalho. Esses dados já demonstram como tem sido a evolução de orçamento e de força de trabalho. É correta a avaliação de que o foco tem sido a questão da titulação dos lotes de reforma agrária, o que nos parece algo muito ligado à pressão do agronegócio em retomar essas áreas para uso da mineração, da atividade madeireira, principalmente na Amazônia Legal. Lá é preponderante essa pressão para titular áreas sem a realização de vistorias para regularizar áreas que são griladas, áreas desmatadas ilegalmente e isso apesar de toda a facilitação que a gente já tinha [para regularizar terras] nas leis anteriores. “Hoje nós temos um terço dos servidores que tínhamos em 1990”, afirma Marcela Machado / Bruno Kelly/Amazônia Real O PL 2.633 também vai nessa linha de ênfase em regularização fundiária ao ampliar o marco temporal legal para a regularização e dispensar a realização de vistoria in loco para imóveis de até seis módulos fiscais, por exemplo? Com certeza. Ao longo do tempo, as medidas legislativas sempre vêm nesse sentido de ampliar esse marco temporal, inclusive em relação a áreas griladas e desmatadas. A questão de dispensar a vistoria, de se fazer vistoria por sensoriamento remoto, é uma forma de dar celeridade e atender a esses interesses. Com a legislação anterior, havia a exigência da vistoria em campo, mas o interesse do agronegócio sempre foi acelerar o processo de regularização dessas terras que são fruto, em sua grande maioria, de áreas griladas e desmatadas ilegalmente. É uma forma de legalizar, de “esquentar” esses títulos, como uma forma de se inserir com mais força no mercado mundial em alguns produtos do agronegócio como a madeira e a pecuária. São tentativas de simplificar esse processo. Se utiliza a desculpa que é para atender o pequeno que, coitado, ocupa a área há muito tempo e não consegue o título, mas no fundo a gente sabe que o interesse não é esse. Principalmente quando a gente fala do tamanho dessas áreas. A legislação anterior, a Lei 11.952, aprovada no governo Lula, permitia a regularização de até 1.500 hectares na Amazônia Legal – essa já não é uma área pequena, lógico que há áreas muito maiores, mas não é um pequeno produtor. O interesse é a regularização e o avanço nessas áreas que é incessante na história do país. Há um crescente na aprovação de legislação para facilitar cada vez mais a regularização nessas áreas. Também chama a atenção no texto inicial do PL a possibilidade de admissão do CAR (Cadastro Ambiental Rural), que é um documento autodeclaratório inicialmente concebido como um documento para controle ambiental nos imóveis rurais, como um documento aceito no processo de regularização fundiária ao mesmo tempo em que se dispensa a vistoria. Como você analisa este ponto? Há uma insistência na questão de flexibilizar a vistoria em campo, se utiliza a questão da tecnologia, argumenta-se que é possível fazer isso remotamente. Mas a gente sabe, principalmente na Amazônia Legal, em se tratando das distâncias e da própria estrutura fundiária, como a vistoria é de suma importância até para você verificar situações como a existência de trabalho análogo ao escravo, por exemplo. Tudo me parece parte de um grande esforço para “esquentar” essas áreas que, em sua maioria, são fruto de uma ocupação violenta e ilegal historicamente. Historicamente, o Incra vem passando por uma série de cortes orçamentários. Quais as dificuldades de realizar o trabalho na autarquia diante deste cenário? Como eu te falei, o orçamento global do Incra é 66% do que era há 20 anos. O orçamento para a realização de vistoria em campo praticamente zerou. Não tem mais orçamento para a desapropriação de áreas ou para a aquisição de terras. Foi uma opção política do governo de não destinar recursos para isso. A política de Assistência Técnica e Extensão Rural (ATER) foi outra que já no governo Temer praticamente acabou. Os contratos que foram firmados antes, a medida que atingiram o prazo de vigência, não foram renovados por falta de recurso. Os poucos recursos que temos agora é para viabilizar alguma coisa do Crédito de Instalação e o foco é realmente a titulação. E mesmo com a titulação, eles, para não contratar servidores, fazem um investimento político muito mais forte para se firmar essa parceria com os municípios, para que o município arque com esses custos. E a desculpa que eles têm usado para firmar essas parcerias com os municípios, como é o caso, por exemplo, do programa Titula Brasil [programa que permite ao Incra formar convênios com as prefeituras para efetivar políticas de regularização fundiária], é que o Incra tem baixo orçamento e baixa capacidade de operacionalizar isso [a titulação]. De fato isso existe, mas isso é uma opção política do próprio governo, não é um dado consumado que não pode ser revista. A forma que eles encontraram para viabilizar a titulação nesse cenário é a municipalização. E nós sabemos que isso deixa a titulação sujeita a todo tipo de pressão que ocorre nos municípios. Não que o Incra não esteja sujeito a essas pressões, mas, por ser uma autarquia federal, a gente consegue ainda ter uma certa autonomia para seguir a legislação, ter um cuidado e não executar a política fora do que a legislação permite. No município, isso vai ser executado por servidores contratados com vínculo precário. A gente sabe de todo tipo de pressão que se exerce sobre esses trabalhadores no município, sobretudo quando se aproxima o período eleitoral. Mas é notório o esvaziamento do Incra como instrumento de Estado, estamos vivendo agora a pior crise orçamentária da história do Incra. O PL 2.633/2020, conhecido como PL da grilagem, foi aprovado hoje na Câmara. O texto segue para a votação em plenário Asfixia orçamentária e ingerência política no Incra, paralisação da reforma agrária e uma ênfase na titulação que pode beneficiar grileiros e desmatadores. Qual o cenário futuro se essas condições forem mantidas? Haverá uma piora das condições de vida dessas populações do campo com a pressão do agronegócio para que essas áreas em disputa sejam alienadas, haverá uma piora nos índices de produção de alimentos que é produzido, na base, pela agricultura familiar. Todo esse quadro de aumento da fome, de insegurança alimentar deve ser agravado. Isso é um cenário, não uma previsão do que se avizinha, mas deve haver um agravamento da tensão social, vejo essa tendência. Com essa política de titulação e a ausência da política de obtenção e do desenvolvimento de assentamentos, porque não é só dar acesso à terra, você precisa de política pública de assistência técnica, recursos para estruturar os assentamentos. E mesmo com acesso a terra, uma família que não tem condições de produzir, que não tem acesso a crédito ou políticas públicas, vai se manter como nas suas terras? Então eu vejo uma intensificação do êxodo rural e um aprofundamento da miséria no campo e na cidade. (#Envolverde)

Noam Chomsky: ‘Gostem ou não, estamos juntos nessa crise climática’

Por Amelia Gonzalez* – “Crise Climática e o Green New Deal Global”, lançado pela Editora Roça Nova, é um livro fácil de ler, no formato de perguntas e respostas, e cheio de informações relevantes. O cientista político C. J. Polychroniou foi feliz ao reunir, para uma conversa virtual, como exige essa nossa era pandêmica, o principal intelectual público do mundo Noam Chomsky, ativista político e ambiental e Robert Pollin, economista progressista que tem atuado como líder em defesa de uma economia verde e igualitária, para compartilhar suas reflexões sobre essa era e os desafios que temos que enfrentar. As reflexões dos dois, imprescindíveis na agenda do mundo pós-pandemia, são o sumo do livro. Chomsky costura o pensamento social, alinhava a forma como os líderes e as grandes empresas enfrentam o desafio de tentar baixar a zero as emissões de carbono até 2050 (proposta assinada pelos líderes no Acordo de Paris). Expõe a falta de responsabilidade com o que chama de “catástrofe ambiental” e localiza o fim da II Guerra como o ponto de inflexão para “uma segunda ameaça à nossa sobrevivência”. Robert Pollin se encarrega de traçar o cenário com informações mais técnicas, em detalhes. O economista se permite um traço de incerteza com relação ao conjunto de consequências que enfrentaremos caso a média de temperatura global suba mais que 1,5º C até o fim do século, o que não quer dizer rechaçar os efeitos das mudanças climáticas ou negá-los. É que, segundo ele, o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC na sigla em inglês) “tem um histórico de mudar regularmente suas avaliações”. “Está bem claro que existe um nível de incerteza com relação ao conjunto de consequências que enfrentaremos caso permitamos que a média de temperatura global suba mais que 1,5oC ou mesmo 2 graus em relação aos níveis pré-industriais (…) Em resumo, temos informações mais que suficientes para tomar atitudes decisivas agora mesmo, sem deixar de reconhecer o grau de incerteza à nossa frente (…) Não é o equivalente a decidir se compraremos um seguro para o carro, mas a determinar quanto gastaremos e qual será nossa cobertura”, escreve Pollin. Enquanto escreviam o livro, aconteceu a pandemia de Covid-19 e os dois autores foram obrigados ao isolamento social. Refletiram assim, para nosso proveito, sobre as intersecções entre a crise climática e o alastramento do Corona vírus. A destruição dos habitats naturais como consequência do desmatamento e dos avanços das atividades humanas, as ondas de calor, secas e enchentes facilitam o contato próximo das espécies selvagens com os humanos… “e permitem que os micróbios que vivem em seus corpos migrem para os nossos, transformando micróbios animais benignos em mortíferos patógenos humanos”. Como consequência, estamos obrigados a rever nossos hábitos para compor com a necessidade de progresso e não sermos lesados. A tarefa é árdua, e nem todos conseguem percebê-la com a urgência que se faz necessária. Apenas 25% dos republicanos, lembra Chomsky, ou 36% dos millenials mais bem informados, reconhecem que os humanos são responsáveis pelo aquecimento global. O filósofo se inquieta com esses dados e faz a pergunta que ronda há tempos as reflexões dos ambientalistas: afinal, por que a população vira o rosto e não reconhece a crise climática, se o que o que está em jogo é a sobrevivência da vida humana? “O aquecimento global parece algo abstrato. Quem entende a gravidade da diferença entre 1,5º e 2º C, em comparação à diferença de colocar ou não comida na mesa de seus filhos no dia de amanhã? “ Chomsky traz a resposta. A precarização do trabalho, a supressão dos sindicatos, em parte porque os líderes optaram pelo “corporativismo”, teve papel relevante no distanciamento dos trabalhadores da causa ambiental. Os anos de “globalização neoliberal’ serviram para sepultar a preocupação e o respeito com o meio ambiente. A meta a ser perseguida é usar “a militância trabalhista como força motriz dos movimentos ambientalistas”, afirma Chomsky. Para ele, não é um sonho ingênuo. Já para Roberto Pollin, o Green New Deal, plataforma escrita por parlamentares norte-americanos com propostas econômicas para ajudar a combater a crise climática e social é um projeto realista e sustentável para baixar as emissões, conter o aquecimento global, gerar emprego e renda. Mesmo com alguns desafios técnicos a serem superados. “Envolve questões como a extensão de terra necessária para a infraestrutura de painéis solares e turbinas eólicas a fim de satisfazer a demanda energética e outros problemas correlatos, como a intermitência, transmissão e armazenamento de energia”, escreve Pollin. De qualquer maneira, garante o economista, esse será um desafio que só deverá ser enfrentado daqui a muitos anos, provavelmente não na próxima década. É que vai ser difícil reduzir o consumo de combustíveis fósseis e energia nuclear, que hoje respondem por 85% do fornecimento total de energia. Como numa boa conversa entre amigos, o livro vai levando o leitor a refletir junto, sem temer opiniões contrárias ou diferentes. Pelo contrário, é daí que se vai extrair matéria prima para enfrentar o desafio da nossa era. ENTREVISTA/ Noam Chomsky: ‘Gostem ou não, estamos juntos nessa crise climática’ por Amelia Gonzalez Aos 93 anos recém completados, o linguista, sociólogo, filósofo e cientista cognitivo Noam Chomsky ainda está pleno em sua capacidade de se indignar e de apontar responsáveis pela crise climática. Nessa entrevista exclusiva, Chomsky não hesita em culpar o sistema neoliberal como responsável pela destruição ambiental do planeta. E alerta: não vamos conseguir soluções se não pensarmos de forma solidária, como uma grande comunidade global. O encontro de líderes e empresários que estiveram reunidos no World Economic Fórum, na cidade suíça de Davos, de 21 a 24 de janeiro deste ano, foi chamado de “The Great Reset”, que em tradução literal quer dizer “O Grande Reinício”. Por causa da pandemia, as mudanças climáticas estiveram no centro das conversas. O que o senhor espera dessa reunião? Podemos ter esperança de ações que resultem em políticas que levem pessoas (não o lucro) em conta? Noam Chomsky – O aquecimento global é uma ameaça existencial. Se a crise não for superada logo, nada mais importa. Há medidas possíveis – as quais, na verdade, resultariam num mundo não somente bom para a humanidade, mas muito melhor do que ele é hoje. No entanto, só saber disso não é suficiente. As medidas têm que ser implementadas. Há ações encorajadoras em alguns lugares, mas elas precisam ser amplamente expandidas. Há um grande esforço acontecendo agora para moldar a sociedade pós-pandêmica. O World Economic Forum pode ajudar a inclinar a balança no sentido de uma ordem social que se guie pelas necessidades humanas, não pelo lucro e poder para poucos. Elon Musk, dono de uma montadora de carros elétricos, que investe também em tecnologia para energias limpas, foi considerado o segundo homem mais rico do mundo. Neste caso específico, a economia verde colaborou para o enriquecimento de um cidadão, não para a saúde de todos, já que ainda não há provas de que o uso de carros elétricos contribuiu para diminuir a poluição, segundo Robert Pollin fala em seu livro. Há um paradoxo nisso? Noam Chomsky – Numa ordem social capitalista, não é um paradoxo. Mais do que isso, esta é a essência do capitalismo. Isso já foi delineado claramente por Adam Smith no seu clássico “Riqueza das Nações”. Como ele explicou, os “poderosos da humanidade” – no seu tempo, eram os comerciantes e os donos de fábricas da Inglaterra – são “os principais arquitetos da política”. Ainda segundo Smith, eles vão sempre assegurar que seus próprios interesses sejam atendidos, “sem se importar com os impactos disso sobre o povo da Inglaterra, perseguindo apenas sua máxima vil: ‘Tudo para nós, nada para mais ninguém’”. Esse legado herdado do capitalismo pode ser inibido pela força popular. Mas, sem ela, ele vai permanecer. Joe Biden venceu as eleições para a presidência dos Estados Unidos, eliminando da disputa o negacionista do clima Donald Trump. É motivo de comemoração para a causa ambientalista? Noam Chomsky – É motivo para se ficar aliviado, não para celebração. Sem a maldade de Trump no mundo – pelo menos temporariamente – ficamos com algum espaço para enfrentar a ameaça da catástrofe ambiental. Trump estava dedicado a acelerar a corrida para o abismo e, se ficasse no poder por mais quatro anos, eles nos conduziriam para bem perto de um ponto de ruptura. Talvez, até mesmo, para além desse ponto. Nunca houve tamanha perversidade na história humana. São palavras fortes, mas verdadeiras. Teremos motivos para celebrar se Biden for capaz de dar os passos necessários para evitar o desastre. Isto vai requerer uma enorme pressão pública. Graças, principalmente, aos esforços corajosos de jovens ativistas, Biden apresentou um programa ambiental que é muito melhor do que o de qualquer de seus predecessores, embora ainda longe de ser suficiente. Lamentavelmente, porém, é provável que o Partido Republicano continue no caminho que tem trilhado nos últimos anos, sobretudo sob a liderança de Mitch McConnell: quando eles não estão no poder, tentam fazer de tudo para que a administração falhe, sem se importarem se isto será cruel com a população. Quando estão no poder, servem primeiro ao seu principal eleitorado, os “poderosos da humanidade”. As empresas têm sido convocadas a agir de maneira responsável, sócio e ambientalmente, desde a década de 60. Hoje o conceito ESG (Environmental, Social e Governance) tem tomado as discussões empresariais. Alguns chamam de retórica inútil. Como o senhor vê o papel das empresas na construção de um mundo melhor e mais igualitário? Noam Chomsky – Na década de 1950, nós estávamos certos de que as empresas haviam entendido sua responsabilidade social e estavam se tornando “corporações com alma”. Mas comprovamos a “real generosidade” delas, particularmente quando começaram a ganhar enorme controle político sob o regime neoliberal dos últimos quarenta anos. Adam Smith teve um olhar certeiro. O guru econômico da era neoliberal, Milton Friedman, foi admiravelmente franco sobre isso. Friedman argumentou que as corporações não têm que ser responsáveis com a sociedade. Sua única responsabilidade, afirmou ele, é enriquecer os acionistas – que já estão muito ricos – e, naturalmente, enriquecer a si próprias. Em resumo, elas devem seguir, literalmente, a “vilania de Smith”. Os patrões executaram a tarefa de maneira muito eficiente. Um estudo recente, de alto nível, estimou que houve uma transferência de riqueza, de 90% da camada mais pobre da população aos mais ricos, de cerca de US$ 50 trilhões. Os que receberam esse valor estão concentrados na camada dos super ricos. Ou seja; 0,1% da população aumentou em 20% do total sua participação na riqueza desde que os princípios de Friedman foram impostos, há 40 anos, sob a bandeira da “liberdade”. Poucos anos atrás, o sistema corporativo começou a enfrentar o que chamou de “riscos de reputação”. Como se diz comumente, os camponeses estão chegando com suas forquilhas, o que pode começar uma luta de classes incessante, a partir do capital. Passamos, então, a ouvir líderes corporativos reconhecerem erros cometidos em suas gestões e afirmarem sua intenção de transformar suas empresas para que elas se tornem “corporações com alma”, devotadas apenas ao bem estar da população. Dessa forma, os camponeses podem botar de lado suas forquilhas e empenhar sua esperança nos líderes corporativos humanos e generosos. Acredite nisso por sua conta e risco. No livro “Crise Climática e o Green New Deal Global” (resenha abaixo), o senhor diz que o resgate do movimento sindical é tarefa essencial, inclusive por causa da crise climática, e lembra que um dos primeiros ecologistas foi um líder sindical, Tony Mazzocchi. Qual a importância de se trazer os trabalhadores para engrossar as fileiras do ativismo ambiental? Noam Chomsky – Usar a palavra “importância” é um eufemismo. Em vez disso, eu digo que é essencial. O movimento trabalhista tem sido vanguarda, tanto na mudança social progressista, quanto na transformação social. Os poderosos, e aqueles que cumprem suas ordens, sabem disso muito bem. Quando Reagan (presidente Ronald Reagan) e Thatcher (primeira-ministra da Inglaterra Margareth Thatcher) lançaram o ataque neoliberal sobre a população, seus primeiros atos foram no sentido de atacar os sindicatos. Para que o ataque tivesse sucesso, foi necessário destruir os meios primários que os trabalhadores usam para se defender e para defender a sociedade. Era isso que Mazzocchi estava fazendo. Foi isto também que os trabalhadores militantes fizeram quando eles atacaram o New Deal nos anos 1930, e em outras numerosas ocasiões. Os poderosos e seus agentes sabiam o que eles estavam fazendo. Hoje, muitos dos mais respeitados economistas dizem que a destruição dos sindicatos é o principal fator que originou esta imensa desigualdade social criada nos últimos quarenta anos. Recentemente, isso foi dito até mesmo por Lawrence Summers (secretário do Tesouro dos Estados Unidos no governo de Bill Clinton). A desigualdade social global parece não perder força. De que maneira se pode juntar as duas lutas: contra a desigualdade e contra as mudanças climáticas? Noam Chomsky – Definitivamente. O capitalismo descontrolado, quase por definição, produz duas crises: aumento da desigualdade e a destruição do meio ambiente. Não somente por causa de sua dinâmica operacional, mas também porque o aumento do poder econômico permite aos poderosos da economia que minem a democracia. Cada vez eles ficam mais poderosos e já se tornaram “os principais arquitetos da política” nos governos, usando o poder do estado a favor de seus próprios interesses. Levamos 250 anos de experiência para comprovarmos que Adam Smith estava certo. Extirpar as raízes dessas duas crises – uma destrutiva, a outra letal – é a tarefa do movimento para criar um futuro para o bem comum. A jovem sueca Greta Thunberg arregimenta jovens do mundo todo na luta contra as mudanças climáticas. O “Extinction Rebellion” é outro movimento que também consegue atrair jovens nessa direção. O senhor vê diferença entre esses dois movimentos? Noam Chomsky – É inspirador o que os jovens vêm fazendo, e suas ações deixam uma lição cruel. Quando Greta Thunberg se dirige a nós dizendo “Vocês nos traíram”, ela está certa. E nós deveríamos ouvi-la. É vergonhoso que gerações mais velhas tenham tolerado este caminho para o colapso social e o suicídio das espécies, de fato até estimulando isto. É vergonhoso que os jovens tenham que liderar um movimento para superar os danos severos que nós causamos. É importante frisar aqui: não se deve dizer “nós”. Não são os “humanos” que têm causado tantos horrores na era do Antropoceno. Os impactos devastadores têm sido causados, em sua esmagadora maioria, por algumas sociedades, não por todas as sociedade. E pela riqueza e privilégios dentro dessas sociedades, trabalhando dentro de estruturas institucionais com características profundamente perversas. Tais estruturas não foram implantadas pela grande massa da humanidade, ao contrário disso. Frequentemente houve objeções fortes e resistência superadas pela concentração de poder. Nada disso deveria ser esquecido enquanto trabalhamos para criar um futuro melhor. Os indígenas são apontados como os povos que mais ajudam a preservar terras, rios e mares. No entanto, são povos que não têm assento nas grandes decisões mundiais sobre o clima. Por quê? Noam Chomsky – A isso se chama “poder”. Em todo o mundo, populações indígenas que têm sido submetidas a uma “injustiça selvagem” por parte dos europeus, estão na linha de frente dos esforços para salvar o planeta. Os que perpetraram essa violenta injustiça, que causou um extermínio colossal e expulsou-os violentamente de suas terras, agora falham em seguir seu exemplo. E, em alguns lugares, como por exemplo o Brasil de hoje, o poder concentrado está, literalmente, causando sua extinção. O livro “Crise Climática e o Green New Deal Global” destaca o Green New Deal, formato que pode estar entre as soluções para salvar o planeta. Kate Raworth, a economista britânica, sugere uma economia Donut, em que ninguém seria deixado de fora. Podemos imaginar que cada país, cada região, vai encontrar seu próprio modo para lidar com a crise climática? Noam Chomsky – Regiões, e mesmo indivíduos, podem e deveriam encontrar seu próprio caminho para um futuro melhor. Mas os problemas são internacionais. Eles não têm fronteiras. Somente através de uma solidariedade internacional podemos pensar em ter alguma esperança de superar as crises que nos confrontam hoje e, assim, poderemos nos mover para um futuro melhor. O que o senhor acha do “Small is beautiful”, modelo de economia local criado pelo economista alemão E. F. Schumacher nos anos 1970? Seria um dos caminhos para salvar o planeta e a humanidade? Noam Chomsky – Pode ser parte da solução, mas somente parte. Economias locais não vão parar o degelo das capotas polares ou a próxima pandemia. Gostem ou não, nós estamos juntos nessa crise climática, e devemos trabalhar com verdadeira solidariedade, ajuda mútua e respeito pelo próximo se quisermos persistir e seguir em frente. A foto de capa do livro é de divulgação da editora, e a foto de Chomsky foi gentilmente cedida pelo fotógrafo Leo Canabarro. (*) Amelia Gonzalez é jornalista, foi editora por nove anos do caderno Razão Social do jornal ‘O Globo’ e colunista do Portal G1, também da Globo. Atualmente mantém o Blog Ser Sustentável, onde escreve sobre desenvolvimento sustentável (#Envolverde)

quarta-feira, 14 de julho de 2021

EcoDebate - Edição 3.705 de 14 / julho/ 2021

A volta do pico do petróleo e a possibilidade da estagflação A batalha incansável da ciência contra a pandemia da Covid-19 Covid-19 – A vacina e a falsa sensação de segurança Vacinação desigual favorece novas mutações e coloca todos em risco Texto final MP da privatização da Eletrobras pode aumentar em 30% emissões de todo setor elétrico Um país de barriga vazia – a insegurança alimentar cresce no Brasil Exposição à poluição do ar na infância é relacionada a problemas de aprendizagem Comunidades pobres sofrem mais com o calor extremo

segunda-feira, 12 de julho de 2021

EcoDebate - Edição 3.703 de 12 / julho/ 2021

Desejamos a todos(as) um bom dia e uma boa leitura Impacto da pandemia nos nascimentos, óbitos e crescimento vegetativo no Brasil O potencial e as armadilhas das Soluções Baseadas na Natureza (SbN) Recusa de vacinas pode aumentar disseminação do vírus no Brasil e no mundo Aquecimento do clima e níveis elevados ozônio prejudicam as raízes das plantas Desmatamento da Amazônia cresceu 17% no primeiro semestre Mais de 1300 pessoas foram intoxicadas por agrotóxicos em Alagoas na última década Deter: Alertas de desmatamento na Amazônia não param de crescer e junho tem novo recorde Agricultura urbana melhoraria a alimentação e reduziria a poluição

Participe do 1º Seminário da Fauna Brasileira – Os desafios da conservação.

É on-line e de graça. Confira a programação O Fauna News e a Agência Envolverde de jornalismo irão realizar, em 13 e 14 de julho, o 1º Seminário da Fauna Brasileira – Os desafios da conservação. Especialistas que pesquisam e trabalham com tráfico de fauna, caça, atropelamentos de animais silvestres em rodovias e a relação entre saúde pública e fauna estarão reunidos em painéis temáticos apresentando a situação brasileira e trabalhos desenvolvidos para enfrentar esses desafios. O evento é gratuito, on-line e será transmitido pelo perfil no Facebook da Envolverde e Fauna News e pelo canal do YouTube da Envolverde. Confira a programação: 13 de julho – terça-feira 15 horas – TRÁFICO DE FAUNA: perdendo a liberdade para viver como bicho de estimação – Alexandre Saraiva – delegado da Polícia Federal Graduado em Direito e doutor pelo Programa de Pós-Graduação em Ciências Ambiente e Sustentabilidade na Amazônia da Universidade Federal do Amazonas (UFAM). É delegado da Polícia Federal desde 2003 e já foi superintendente da PF em Roraima, Maranhão e Amazonas. Responsável pela Operação Oxóssi que, em 2009, desbaratou uma quadrilha internacional de tráfico de animais silvestres que atuava no Brasil e inovou ao utilizar o artigo 180 do Código Penal (crime de receptação) em casos de comércio ileal de fauna. – Maurício Forlani – gerente de projetos da AMPARA Silvestre Biólogo com mestrado em Zoologia pela Universidade de São Paulo (USP). Atuou na área acadêmica em projetos nacionais e internacionais dedicados a estudos da fauna e conservação do meio ambiente e possui experiência em consultoria ambiental. Nos últimos anos, tem atuado em ONGs em projetos de conservação e bem-estar da fauna silvestres, com grande ênfase no combate ao tráfico de fauna. Mediador: Dimas Marques – editor-chefe do Fauna News 17 horas – CAÇA: uma prática ilegal com lobby no Congresso – Roberto Cabral Borges – Biólogo, especialista em Metodologia do Ensino Superior e mestre em Ecologia pela Universidade de Brasília (UnB). É agente de fiscalização ambiental. – Hugo Fernandes – Biólogo, mestre e doutor em Zoologia pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB), com pós-doutorado em Ecologia pela Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE). É professor e pesquisador da Universidade Estadual do Ceará (UECE). Atua na divulgação científica em rádio, televisão e redes sociais. Mediadora – Adele Santelli – jornalista National Geographic e TV Cultura 14 de julho – quarta-feira 15 horas – ATROPELAMENTOS DE ANIMAIS EM RODOVIAS: como reduzir o massacre das rodovias – Larissa Gonçalves – Biológica, mestra e doutora em Ecologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) com a tese “Estratégias de planejamento da mitigação do atropelamento de fauna em rodovias”. É pós-doutoranda junto ao Núcleo de Ecologia de Rodovias e Ferrovias (NERF) da UFRGS, trabalhando no planejamento da mitigação do impacto de atropelamento de fauna nas rodovias do Rio Grande do Sul. – Fernanda Abra –Bióloga, mestra em Ecologia pela Universidade de São Paulo (USP) e doutora em Ecologia Aplicada pela ESALQ/USP com a tese “Impacto de Rodovias nas Comunidades de Médios e Grandes Mamíferos e Implicações para Conservação”. É pesquisadora de pós-doutorado no Centro de Conservação e Sustentabilidade do Instituto de Conservação do Smithsonian Institution (EUA) e sócia-proprietária da empresa ViaFauna – Estudos Ambientais, atuando como coordenadora em mais de 40 projetos em rodovias, ferrovias e aeroportos. Mediador: Dal Marcondes – Diretor executivo e editor-chefe da Agência Envolverde 17 horas – FAUNA SILVESTRE E SAÚDE PÚBLICA: humanos e animais em risco – Marcia Chame – Bióloga, mestra e doutora em Zoologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Pesquisadora titular da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Coordenadora da Plataforma Institucional Biodiversidade e Saúde Silvestre, que desenvolve o Sistema de Informação em Saúde Silvestre (SISS-Geo), e o Centro de Informação em Saúde Silvestre (CISS) da Fiocruz. – Catia Dejuste de Paula – Graduada em Medicina Veterinária, mestra em Epidemiologia pela Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo (FMVZ-USP), doutora em Patologia também pela FMVZ-USP e com pós-doutorado pela San Diego Zoo Institute for Conservation Research (EUA). Possui experiência na área de Medicina Veterinária Preventiva e Medicina e Conservação de Animais Selvagens. Atualmente, é professora de Medicina de Animais Selvagens da Universidade Federal Fluminense (UFF) e pesquisadora colaboradora do Instituto Brasileiro para Medicina da Conservação – Tríade. Mediadora – Paulina Chamorro – jornalista Vozes do Planeta e National Geographic O seminário é uma ótima oportunidade para você, que se interessa pela conservação e defesa dos animais silvestres, ficar bem-informado sobre as principais ameaçadas à fauna brasileira e sobre o que está sendo feito para reduzir impactos negativos. Não perca essa oportunidade. Participe! Faça sua inscrição AQUI (#Envolverde)