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domingo, 25 de julho de 2021

"O GRITO DO BICHO" - Boletim Informativo de 25.07.2021

Queridos leitores do Blog "O Grito do Bicho" Publicamos matérias superinteressantes e selecionadas que levam vocês a terem conhecimento das questões ligadas aos animais e meio ambiente no mundo todo. Podem ler no nosso blog www.ogritodobicho3.com ou diretamente nos títulos abaixo. Não deixem de compartilhar nossas publicações. • Tradicional censo dos cisnes da rainha Elizabeth 2ª é retomado após 1 ano • Urso ataca domadora três vezes em circo russo • Vídeo mostra animais silvestres sendo resgatados de incêndio em área de mata em Vilhena (RO) • PM encontra 13 ovelhas e bodes dentro de carro e prende quadrilha em Ceará-Mirim (RN) • Gorila criado em zoológico conhece a vida na natureza após 13 anos • Retrocesso: vereadores aprovam projeto de lei que autoriza retorno dos rodeios em Sorocaba (SP) • Porco que perseguiu e atacou motoboy foi criado em chiqueiro clandestino • Polícia Ambiental salva baleia enrolada em rede de pesca no litoral de SP • Animais estão há 4 meses sem receber cirurgias eletivas em instituto veterinário do Rio • Encalhe de baleias-jubarte é recorde no Brasil no primeiro semestre • Cachorro é levado durante assalto a família na Rio-Teresópolis • Resgate de filhotes de gato em bueiro mobiliza bombeiros em Pinda (SP) • Moradores afirmam que cães são arremessados de viaduto em Salvador e cobram providências: 'Problema antigo' • Polícia abre inquérito e investiga denúncia de cães mortos eletrocutados em Barras (PI) • Caça ilegal de tatu é investigada em Ribeirão Pires (SP) • Elefante-marinho se irrita com som alto e enfrenta visitantes em praia em SC • MP-BA instaura inquérito civil e recomenda suspensão da instalação de parque eólico perto de habitat de arara-azul-de-lear • Covardia: cachorro tem órgão genital mutilado por homem • Homem é preso por porte ilegal de arma após ser flagrado caçando javali • Vídeo mostra mulher obrigando gato a comer carne com pimenta no ES Não deixem de compartilhar nossas publicações. Abração a todos e obrigado pelo carinho com nosso trabalho. sheila moura

sexta-feira, 23 de julho de 2021

Secas extremas e queimadas causaram a morte de bilhões de árvores na floresta amazônica

A seca extrema provocada pelo El Niño de 2015 e 2016, associada às queimadas florestais na Amazônia, causaram a morte de cerca de 2,5 bilhões de árvores e emitiram 495 milhões de toneladas de gás carbônico para a atmosfera, em uma área que representa apenas 1% por cento de toda a floresta amazônica brasileira. Isso significa que a floresta, cuja função vital é fixar o carbono nas plantas, quando perturbada pela degradação e pelo fogo, pode ser uma das maiores fontes de emissão de gases de efeito estufa do planeta. A descoberta foi revelada no artigo “Tracking the impacts of El Niño drought and fire in human-modified Amazonian forests” (Rastreando os impactos da seca pelo El Niño e do fogo nas florestas amazônicas modificadas antropicamente), publicado pela PNAS (Proceedings of the National Academy of Sciences dos Estados Unidos da América) esta semana. O estudo, conduzido por uma equipe internacional de cientistas no âmbito da Rede Amazônia Sustentável (RAS) – consórcio de pesquisa coordenado pela Embrapa e outras instituições nacionais e internacionais – e projetos parceiros, foi realizado antes, durante e depois da seca do El Niño em 2015 e no início de 2016. Fogo Em condições normais, por causa dos altos níveis de umidade, a floresta amazônica não queima. No entanto, a seca extrema torna a floresta temporariamente inflamável. O fogo induzido pela ação humana, nessas circunstâncias, pode se tornar incontrolável e provocar incêndios florestais. O estudo relevou que plantas em florestas afetadas pelo evento climático e pelas queimadas induzidas pelo homem continuaram morrendo a uma taxa acima do normal por até três anos, liberando mais gás carbônico na atmosfera. A pesquisadora Erika Berenguer, da Universidade de Lancaster e Universidade de Oxford (Reino Unido), e principal autora do estudo, afirma que o trabalho tem implicações significativas frente aos esforços globais para controlar o balanço de carbono atmosférico. “Nossos resultados destacam os efeitos enormemente prejudiciais e de longa duração que os incêndios associados a eventos climáticos podem causar nas florestas amazônicas, um ecossistema que não co-evoluiu com a pressão do fogo e da degradação”, explica a cientista. floresta desmatada e queimada Apenas um terço do CO2 emitido foi recuperado Ao examinar o epicentro amazônico do El Niño, no Baixo Tapajós, região da Amazônia oriental, os cientistas constataram que o dano à floresta dura por vários anos. Na prática, três anos depois da seca e em decorrência das queimadas na região, apenas cerca de um terço (37%) das emissões de gás carbônico foram reabsorvidas pelo crescimento das plantas na floresta. Outro resultado apontado pelo grupo é que as emissões totais de CO2 da seca e incêndios apenas na região estudada foram maiores do que as emissões do desmatamento de um ano inteiro em toda a Amazônia. Foram 495 milhões de toneladas de gás carbônico liberados no período de três anos, provenientes de uma área que representa pouco mais de 1% da Amazônia brasileira. “Isso representa também muito mais que a quantidade de emissões anuais dese gás de alguns dos países mais poluentes do mundo, como o Reino Unido e a Austrália”, exemplifica Berenguer. A bióloga Joice Ferreira, pesquisadora da Embrapa Amazônia Oriental (Belém,PA), uma das autoras do estudo, explica que a floresta é um importante sumidouro (fonte de retenção) de carbono em situações normais. “O que faz a floresta ser uma fonte de emissões é quando ocorre degradação e o fogo”, comenta. Ela ressalta ainda que de acordo com previsões climáticas, secas extremas se tornarão mais comuns e, até agora, os efeitos de longo prazo desses eventos na floresta amazônica, e particularmente nas florestas perturbadas com atividades como extração ilegal de madeira e queima, eram em grande parte desconhecidos. Perda de árvores foi maior nas florestas afetadas pela ação humana Para chegar aos resultados do estudo, os cientistas acompanharam 21 parcelas de floresta na Amazônia oriental entre florestas primárias (áreas nativas ainda sem perturbação), secundárias (áreas em crescimento após o corte raso para agricultura) e florestas que passaram por cortes seletivos de madeira. Por meio de simulação, os resultados foram então extrapolados para a região. A perda de árvores nas florestas secundárias e em outras florestas afetadas por ação humana foi bem maior que nas florestas primárias. Isso porque árvores e outras plantas com menor densidade de madeira e cascas mais finas são mais propensas a morrer com a seca e incêndios. Os pesquisadores estimaram que cerca de 447 milhões de árvores grandes (com mais de 10 cm de diâmetro na altura do peito) morreram e cerca de 2,5 bilhões de árvores menores (menos de 10 cm de DAP) morreram na região do Baixo Tapajós. “A combinação de seca e fogo foi significativamente maior nas florestas modificadas por ações humanas. As emissões de carbono dessas florestas queimadas por incêndios florestais foram quase seis vezes maiores do que as florestas afetadas apenas pela seca”, afirma o professor Jos Barlow, da Universidade de Lancaster. floresta Tecnologias ajudam a prever e minimizar os riscos Para o professor Barlow, as descobertas destacam como a interferência humana pode tornar as florestas amazônicas mais vulneráveis ​​e enfatizam a necessidade de reduzir a extração ilegal de madeira e outros distúrbios em grande escala, bem como os investimentos em capacidades de combate a incêndios região. A pesquisadora Joice Ferreira, da Embrapa, indica que o país já tem tecnologia e soluções para prever secas e mapear riscos de incêndios a cada ano. “É possível elaborar mapas de riscos de incêndios com base nas condições meteorológicas e em vários dados facilmente acessíveis, inclusive por sensoriamento remoto, como densidade de pessoas, número de áreas agrícolas, tamanho de áreas desmatadas e outros”, afirma a cientista. Ela acrescenta ainda que esses mapas podem ser usados para fazer gestão dos riscos, com regras mais rígidas onde o risco for maior. “É preciso agir em diferentes escalas. Internacionalmente, precisamos de ações para enfrentar as mudanças climáticas, que estão tornando as secas extremas e os incêndios mais prováveis. Em nível local, as florestas sofrerão menos consequências negativas dos incêndios se forem protegidas da degradação”, conclui Barlow. Ana Laura Lima (MTb 1268/PA) Embrapa Amazônia Oriental Referência: Tracking the impacts of El Niño drought and fire in human-modified Amazonian forests Erika Berenguer, Gareth D. Lennox, Joice Ferreira, Yadvinder Malhi, Luiz E. O. C. Aragão, Julia Rodrigues Barreto, Fernando Del Bon Espírito-Santo, Axa Emanuelle S. Figueiredo, Filipe França, Toby Alan Gardner, Carlos A. Joly, Alessandro F. Palmeira, Carlos Alberto Quesada, Liana Chesini Rossi, Marina Maria Moraes de Seixas, Charlotte C. Smith, Kieran Withey, Jos Barlow Proceedings of the National Academy of Sciences Jul 2021, 118 (30) e2019377118; DOI: 10.1073/pnas.2019377118 https://doi.org/10.1073/pnas.2019377118 Article has an altmetric score of 281 in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 21/07/2021

Organizações cobram atuação do MPF no combate aos crimes ambientais na Amazônia

Carta enviada pelas organizações à Procuradoria-Geral da República e ao Conselho Superior do Ministério Público Federal destaca os resultados expressivos da Força-Tarefa Amazônia, criada em agosto de 2018 e encerrada em fevereiro deste ano. Cinquenta e seis organizações da sociedade civil, entre elas a Transparência Internacional – Brasil, WWF-Brasil, Human Rights Watch, Conectas e Instituto Igarapé, enviaram uma carta à Procuradoria-Geral da República e ao Conselho Superior do Ministério Público Federal destacando a importância do fortalecimento da atuação do MPF no combate aos crimes e à degradação ambiental na Amazônia. A carta cita a preocupação das organizações com a descontinuidade da Força-Tarefa Amazônia em fevereiro deste ano, sem haver sinalização acerca de sua renovação ou de alguma outra estrutura que pudesse substituí-la no combate às ilegalidades praticadas na região. De acordo com as organizações, além da medida representar um recuo na atuação do MPF, ela traz consigo a perda de uma ação mais coordenada e estratégica do órgão no combate a essas ilegalidades, benefícios que a Força-Tarefa proporcionava. Isso tudo em um cenário de avanço da degradação ambiental, que pode ser evidenciada pelo aumento das taxas de desmatamento e queimada no bioma, bem como pelo crescimento da exploração de madeira e garimpo ilegais. As organizações também deixam claro no documento que os crimes ambientais não apenas trazem prejuízos à sustentabilidade socioambiental, mas também podem causar danos econômicos, como restrições dos produtos brasileiros no mercado internacional, fuga de investimentos e dificuldades na assinatura de acordos comerciais. “É momento de fortalecer as estruturas que investigam e punem o crime ambiental, sobretudo no momento em que as taxas de desmatamento e queimadas batem recordes. É isso que vai colocar o Brasil na rota exigida pelo século XXI e pelos desafios da crise climática. Do contrário, estaremos na contramão do mundo, correndo o risco de ver o fechamento dos mercados internacionais para as commodities agrícolas brasileiras” explica Michel Santos, gerente de políticas públicas do WWF-Brasil. O texto enviado ao MPF e ao CSMPF enfatiza que por trás dos crimes ambientais também há uma estrutura que envolve grupos organizados que realizam diversas práticas criminosas que servem de “sustentação” à ilegalidade ambiental. “Os crimes ambientais na Amazônia não ocorrem de forma isolada. Muitas vezes estão associados a práticas ilícitas como corrupção, lavagem de dinheiro, fraudes, evasão fiscal, formação de milícias e assassinatos. Combater os crimes ambientais é também promover a segurança pública, a integridade das instituições e o próprio Estado de Direito. O Ministério Público Federal tem um papel fundamental nisso e precisa fortalecer a sua atuação na região” comenta Renato Morgado, gerente de Meio Ambiente e Clima da Transparência Internacional – Brasil. Recomendações apresentadas na carta – As organizações defendem que a Força-Tarefa Amazônia, que já apresentou resultados importantes no enfrentamento ao problema (foram mais de 19 operações contra crimes ambientais realizadas), seja fortalecida ao invés de ser descontinuada. No entanto, caso se mantenha a decisão pela sua não renovação, a proposta é que o MPF estabeleça uma estrutura permanente para a Amazônia, que permita maior coordenação e escala de atuação, especialmente dedicada ao combate dos crimes ambientais e da degradação ambiental, aproveitando, inclusive, da experiência da própria Força-Tarefa. “A política de enfraquecimento das ações de fiscalização ambiental e de proteção aos territórios indígenas, intensificadas a partir de 2019, deram sinal verde às redes criminosas que promovem a destruição ambiental, muitas vezes cometendo atos de violência contra aqueles que se colocam em seu caminho. É preocupante que num momento tão crítico o Ministério Público Federal não tenha uma estrutura dedicada ao combate ao desmatamento ilegal e outros crimes ambientais”, afirmou Anna Livia Arida, diretora adjunta da Human Rights Watch no Brasil. Independentemente do formato institucional escolhido, as entidades demandam que tal estrutura tenha os recursos humanos e materiais necessários para a sua atuação, incluindo procuradores com dedicação exclusiva. Na mesma direção, reforçam que é necessário o fortalecimento de forma ampla do MPF na região, com mais ofícios e procuradores dedicados a temas ambientais e à proteção de direitos de povos indígenas e comunidades tradicionais. Por fim, as organizações sugerem a manutenção e o fortalecimento de iniciativas do MPF que incidem na região, como o Amazônia Protege, que de forma inovadora permite a instauração de ações civis públicas na escala necessária para o enfrentamento do desmatamento no bioma. Acesse a íntegra da carta (em PDF) neste link https://comunidade.transparenciainternacional.org.br/atuacao-do-mpf-no-combate-ao-crime-e-a-degradacao-ambiental-na-amazonia in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 22/07/2021

O Brasil se distancia cada vez mais da infraestrutura sustentável

Por Ricardo Abramovay – A infraestrutura das sociedades contemporâneas será cada vez menos a ossatura e cada vez mais a inteligência do crescimento econômico. Não se trata de oferecer, de forma genérica, os bens públicos para que o setor privado possa expandir suas iniciativas, mas sim de moldar estas iniciativas em direção a finalidades que envolvem os dois maiores desafios contemporâneos: o avanço da crise climática e o aprofundamento das desigualdades. Que isso atinja a própria concepção do que significam e quais devem ser as infraestruturas que estão desenhando nosso destino representa imenso avanço democrático, do qual o Brasil está se distanciando. O que está em jogo não é só o fato de que a infraestrutura dá lugar a elefantes brancos e corrupção em várias partes do mundo. Megaprojetos padecem costumeiramente de um viés otimista, que, como mostra o trabalho de pesquisadores da UFMG e da USP para o Tribunal de Contas da União, faz com que seus proponentes inflem seus benefícios e subestimem seus custos. O psicólogo Daniel Kahneman, prêmio Nobel de Economia, chamou de falácia do planejamento a tendência de os responsáveis pelos megaprojetos adotarem os pontos de vista de atores interessados em sua realização sem uma real avaliação das vantagens das alternativas. Pesquisadores da Universidade de Oxford apoiam-se amplamente no trabalho de Kahneman para explicar que os orçamentos inicialmente previstos para a construção de hidrelétricas, por exemplo, não chegam, na maior parte dos casos examinados, à metade de seus custos reais. Mas as mudanças que atingem o próprio conceito contemporâneo de infraestrutura vão muito além da exigência óbvia de que elas não abram caminho à corrupção, a obras abandonadas e a custos exorbitantes. Duas transformações fundamentais estão em curso. A primeira dela materializa-se nas discussões que têm lugar hoje na sociedade norte-americana em torno da economia do cuidado. Como resultado do trabalho de inúmeras organizações da sociedade civil, a economia do cuidado não se limita a promover transferência de renda para populações pobres e para os que foram mais duramente atingidos pela pandemia. Esta transferência é importante e teve, nos EUA, como foco principal, as famílias com crianças — o que deve resultar na impressionante redução da pobreza infantil norte-americana pela metade em 2021. Mas o plano Biden procura erguer formas duráveis para cuidar melhor das crianças, dos idosos e dos portadores de deficiência. Isso significa ampliar os investimentos em creches e escolas, o que permite que as mulheres voltem ao mercado de trabalho, já que boa parte delas haviam sido obrigadas a abandonar seus cargos função da pandemia. O importante é que o cuidado com as pessoas é uma responsabilidade do poder público e não apenas das famílias e das comunidades locais. É o Estado que oferece as condições materiais e a formação de profissionais para que os idosos e os portadores de necessidades especiais tenham vida digna e, sobretudo, para que as crianças recebam atenção e ensino de qualidade, por profissionais preparados para isso. No plano Biden, estes itens não são tratados como gastos, mas como investimentos em infraestrutura. Eles são tão importantes como as rodovias, os aeroportos ou a energia. Ao mesmo tempo, eles têm a intenção explícita de se opor à discriminação racial e de gênero que marca tão fortemente o mercado de trabalho. Não é à toa que tratar os investimentos no cuidado com as pessoas como parte da infraestrutura vem junto com a iniciativa de criar um Conselho de Política de Gênero, ligado à Casa Branca, para promover a igualdade nas políticas externas e internacionais. A segunda transformação no conceito de infraestrutura tem por eixo central mudar a relação entre sociedade e natureza. Diversas organizações multilaterais (o G 20, o Banco Interamericano, a Comissão Global para a Economia e o Clima, entre outras) convergem para a seguinte constatação: o mundo deve investir, entre 2015 e 2030, algo como US$ 90 trilhões em infraestrutura. A maior parte deste investimento será nos países em desenvolvimento, onde se encontram as mais importantes necessidades não atendidas em transportes, energia, comunicações, saúde e educação. Pelos padrões até aqui predominantes, estes investimentos têm a vocação de agravar a crise climática e a erosão da biodiversidade. Esta constatação é especialmente importante para a Amazônia. Uma análise de 75 projetos rodoviários na região, totalizando 12 mil quilômetros, mostra que todos têm impactos negativos sobre as áreas florestais. É à beira das rodovias que se concentra 80% do desmatamento na Amazônia. E mesmo que não se considerem os impactos sobre a biodiversidade, 45% destes projetos são economicamente inconsistentes, confirmando o viés otimista estudado por Kahneman. Os trabalhos recentes do World Resources Institute e do Climate Policy Initiative corroboram estes resultados: a ideia de que as infraestruturas convencionais materializadas em megaprojetos criam empregos durante sua construção e estimulam a iniciativa privada depois de prontas — contribuindo, portanto, para o crescimento econômico — é criticada globalmente, e mostra-se particularmente perversa na Amazônia. Os resultados desta forma de conceber e implantar a infraestrutura têm sido a destruição florestal, a exploração predatória de recursos minerais e o empobrecimento da região (e da maioria das pessoas que ali vivem). A infraestrutura só vai se converter em inteligência — mais que em ossatura — do crescimento econômico se sua definição passar por um questionamento sério sobre quais são os valores ético-normativos em que se apoiam os projetos de infraestrutura. A resposta das organizações multilaterais e dos governos que estão reformulando a visão contemporânea sobre infraestrutura pode ser resumida numa proposição: o valor da infraestrutura do Século 21 está em sua capacidade de regenerar os tecidos socioambientais que, até aqui, as formas convencionais e tão frequentemente predatórias de crescimento econômico têm destruído. Orientar-se por este valor não significa apenas empenhar-se em zerar imediatamente o desmatamento (na Amazônia e no Cerrado), interromper o ataque aos povos indígenas e desmantelar a cadeia da criminalidade, da grilagem, do garimpo ilegal e das milícias hoje tão fortes na Amazônia. Significa, antes de tudo, criar mecanismos para que a infraestrutura na Amazônia seja, mais que um meio para o trânsito de commodities agrícolas ou para a produção de energia, uma forma de atender às demandas dos trinta milhões de brasileiros que aí vivem e, ao mesmo tempo, fortalecer a economia da sociobiodiversidade florestal. *Ricardo Abramovay – Professor Sênior do Programa de Ciência Ambiental do IEE/USP. Foi Autor de “Amazônia: Por uma Economia do Conhecimento da Natureza” (Ed. Elefante/Terceira Via, São Paulo). (#Envolverde)

A restauração florestal e seus efeitos na biodiversidade da Mata Atlântica

Por Rafael Bitante Fernandes, Aretha Medina e Cícero Homem de Melo Júnior* , publicado no Conexão Planeta – A Mata Atlântica é reconhecidamente um dos biomas biodiversos do mundo, o que ressalta sua riqueza natural. A pesquisa Contas de Ecossistemas: Espécies Ameaçadas de Extinção no Brasil, divulgada pelo IBGE, mostrou que, em 2014, havia 3.299 espécies de animais e plantas ameaçadas no Brasil, o que representava 19,8% do total de 16.645 espécies avaliadas. A Mata Atlântica foi, portanto, o bioma com mais espécies ameaçadas, tanto em números absolutos (1.989), como proporcionalmente (25%). Isso é resultado da forte fragmentação de seus remanescentes florestais. Hoje, restam apenas 12,4% da vegetação nativa com mais de 3 hectares e dados publicados na revista Nature Communications, no final de 2020, mostram que mesmo os fragmentos florestais que resistiram ao desmatamento perderam de 25% a 32% de sua biomassa e de 23 a 31% da sua biodiversidade. Restauração mundial Ainda assim, é possível reverter esse cenário! A solução está em criar mecanismos para proteger cada metro quadrado de remanescentes naturais e trabalhar intensamente na agenda da restauração, convertendo áreas degradadas e de baixa aptidão agrícola em novas florestas naturais. O movimento Pacto pela Restauração da Mata Atlântica – lançado em abril de 2009 por quarenta organizações ambientalistas, indivíduos, empresas e governos – identificou 15 milhões de hectares dentro desta realidade. Na primeira semana de junho deste ano, foi lançada oficialmente pela Organização das Nações Unidas (ONU), a Década da Restauração de Ecossistemas, que tem como objetivo inspirar e apoiar múltiplos setores, comunidades locais e indivíduos para colaborar, desenvolver e catalisar iniciativas de restauração em todo o mundo. Restauração, na prática Foto: SOS Mata Atlântica/Divulgação Projetos de restauração florestal, como o do Centro de Experimentos Florestais SOS Mata Atlântica-Heineken Brasil, localizado no município de Itu, no interior de SP, apresentam resultados importantes e podem servir de exemplo para outras iniciativas. Esse trabalho teve início em 2007, em uma área de 526 hectares, onde a pastagem era predominante. Ao longo de cinco anos, toda a sua área foi recomposta por meio de plantio de mudas de espécies florestais nativas, que somaram um total de 720 mil indivíduos. O município, que contava com 9,77% de remanescentes florestais com mais de 3 hectares, passou a contar com novos 380 hectares de florestas, contribuindo com um aumento em 6% de vegetação nativa. Os esforços para transformar os plantios de mudas de árvores nativas em uma floresta no futuro passam por metodologias, técnicas e muita ciência – necessárias para garantir a sua perpetuidade e funcionalidade ecológica ao longo do tempo. Assim, foram selecionadas 110 espécies com base em múltiplos critérios buscando, por exemplo, sua relação com a fauna regional, gerando condições para o estabelecimento de uma dinâmica natural similar à de um remanescente florestal. Alimentos e refúgio Foto: Haroldo Palo Jr. Neste local, alguns estudos foram realizados, sendo dois deles focados na relação da área em processo de restauração florestal e a fauna. A primeira pesquisa foi sobre as aves, e levantou as espécies de ocorrência entre 2010 e 2015 nas áreas restauradas e foi realizada por pesquisadores do Laboratório de Ecologia e Conservação da UFSCar/Sorocaba. Neste período, o levantamento apresentou um salto de 86 para 209 espécies e este incrível aumento está atribuído principalmente ao crescimento da floresta implantada, com maior fonte de alimentos e refúgio para as aves. Outro dado impressionante está atrelado aos mamíferos que ocupam a área. Ao longo de dois anos de monitoramento realizados com armadilhas fotográficas, buscas ativas e análises fecais, 21 espécies de mamíferos de médio e grande porte foram registradas. Dessas, cinco encontram-se em algum grau de ameaça de extinção, sendo elas: a onça-parda, o gato-do-mato-pequeno, o gato-mourisco, a lontra e a paca. Isso demonstra a importância da área para a conservação da diversidade local e regional. Diversos indícios, tais como fonte de alimentação e reprodução no local, caracterizam a área como refúgio importante para a fauna silvestre. Esse estudo foi realizado pelo time de pesquisadores da Esalq-USP, do Laboratório de Ecologia, Manejo e Conservação da Fauna (LeMAC), sob coordenação da Prof. Dra. Kátia Ferraz. Manutenção da biodiversidade As iniciativas devem ser contínuas e uma estratégia para conexão de remanescentes, formando o que chamamos de corredores ecológicos, é vital para manutenção da biodiversidade. Isso deve ser feito através das áreas de preservação permanente, que são faixas de vegetação nativa, que devem ser mantidas ou restauradas, ao longo de nascentes, córregos e rios principalmente, permitindo assim o fluxo de fauna e flora, estabelecimento de uma série de relações naturais. A ciência aponta que a restauração florestal em larga escala na Mata Atlântica pode ser um alento para a sua biodiversidade e para muitos outros desafios que a humanidade encara neste século. O plantio de florestas do bioma mais devastado do Brasil protege espécies ameaçadas, sequestra carbono da atmosfera, garante a disponibilidade de água para as cidades, contribui com a polinização para a produção de alimentos e o bem estar da população. *Rafael Bitante Fernandes, Aretha Medina e Cícero Homem de Melo Júnior são, respectivamente, gerente, coordenador e técnico de restauração florestal na SOS Mata Atlântica Edição: Mônica Nunes / Foto: Marcos Amend (Mata Atlântica no Parque Nacional Pau Brasil) Publicado em 22 de julho de 2021 no Conexão Planeta SOS Mata Atlântica ONG ambiental brasileira que atua na promoção de políticas públicas para a conservação da Mata Atlântica por meio do monitoramento do bioma, produção de estudos, projetos demonstrativos, diálogo com setores públicos e privados, aprimoramento da legislação ambiental, comunicação e engajamento da sociedade

Com Amazônia mais seca, indígenas adaptam técnicas ancestrais de plantio

por Suzana Camargo, Mongabay – Desde sempre, os povos indígenas utilizam os sinais da natureza para guiar o seu modo de vida. Seu calendário é regido pelo ritmo das plantas ou da chuva, por exemplo. Através deles, determinam o melhor momento para fazer o plantio de alimentos. Todavia, nos últimos anos, tudo está diferente. “O clima mudou totalmente. A chuva tem atrasado e parado muito antes do normal. A flor do ipê-amarelo está caindo mais tarde e o canto da cigarra está atrasado”, diz Yakunã Ikpeng, cacique da aldeia Arayo, no Parque Indígena do Xingu, no Mato Grosso. O que Yakunã e seu povo têm percebido é que a maior floresta tropical do mundo, a Amazônia, já não é a mesma. Ela não é mais úmida como no passado e por esta razão, todo o clima na região foi afetado. Devido ao crescente desmatamento e ao avanço das áreas urbanas sobre a mata, o volume e a periodicidade da chuva trazida pelos chamados “rios voadores”, fenômeno formado pelo vapor d’água produzido pelas árvores, foram impactados. Com isso, o fogo, uma das principais ferramentas utilizadas pelos indígenas no cultivo de suas roças, se tornou perigoso. Até então, as queimadas eram controladas pela umidade da floresta. Os indígenas do Xingu praticam a agricultura itinerante. A roça é feita em uma área diferente a cada intervalo de tempo, geralmente dois anos, dando tempo ao solo de se recuperar, além de resguardar os recursos naturais e preservar a biodiversidade. Quando é o momento do plantar os alimentos, a vegetação é queimada, um método ancestral, passado de geração a geração, que ajuda na fertilização e na aeração do solo, favorecendo a regeneração de plantas úteis na floresta secundária. Queimada para abertura de roça em aldeia no Xingu Foto: Marcus Schmidt/ISA. “Apesar de ser considerada polêmica por alguns, a queima incompleta favorece o acúmulo de carbono orgânico, um adubo para o solo. E os indígenas conhecem técnicas para controlar as chamas e evitar que se alastrem”, explica o engenheiro florestal Marcus Vinícius Schmidt, que pesquisou durante anos sobre a sustentabilidade dos sistemas produtivos desses povos da Amazônia. Schmidt é o autor principal de um artigo científico publicado recentemente na revista Frontiers: “Indigenous Knowledge and Forest Succession Management in the Brazilian Amazon: Contributions to Reforestation of Degraded Areas” (na tradução para o português, “Conhecimento Indígena e Manejo da Sucessão Florestal na Amazônia brasileira: Contribuições para o Reflorestamento de Áreas Degradadas”). Com a mudança no clima da Amazônia, assim como no resto do mundo, os indígenas tiveram que adaptar suas técnicas tradicionais. Isso ficou bastante evidente em 2010. Naquele ano, ocorreu o maior incêndio já registrado até hoje no Xingu, que tem uma área de cerca de 2,6 milhões de hectares. Quase 10% de seu território foi destruído pelo fogo, ou seja, mais de 250 mil hectares. Até então, as queimadas da roça, que eram facilmente controladas, começaram a sair de controle. No artigo, Schmidt, ao lado de outros pesquisadores brasileiros e lideranças indígenas locais, relatam como um trabalho feito pelo Instituto Socioambiental (ISA) está buscando desenvolver técnicas alternativas de manejo florestal baseadas em conhecimentos dos povos locais, mas adaptadas ao contexto atual, e também, visando favorecer a regeneração florestal. “Nosso objetivo foi elaborar um modelo local a partir da lógica dos indígenas. Eles são povos agricultores e conhecem muito sobre plantas, os solos e a resiliência dos ambientes. A pesquisa mostrou como é importante considerar as causas que podem estar levando à degradação de ambientes, de forma preventiva, ao invés de simplesmente tentar investir em técnicas de restauração baseadas numa lógica que é diferente e que não dialoga com o manejo local”, garante Schmidt. Marcus Schmidt e Tapiiwa Wauja durante os levantamentos de impacto dos incêndios. Foto: Adryan Nascimento/ISA. Fogo controlado Junto com os Ikpeng das aldeias Moygo e Arayo, ambas no Xingu, foram testadas novas técnicas para evitar os incêndios. Antigamente, por exemplo, os indígenas faziam a queima da roça no horário mais quente do dia. Agora isso não é mais possível. Eles aprenderam que o ideal é colocar o fogo no final do dia e nunca deixá-lo sem supervisão. “Hoje em dia é essencial vigiar a queimada”, diz Katia Ono, articuladora comunitária e assessora técnica em manejo de recursos naturais e fogo do Instituto Socioambiental. Outra estratégia que vem sendo utilizada é a do aceiro. Antes da queimada do solo é realizada uma limpeza, em uma área demarcada em volta da futura roça, para a retirada das folhas, que quando secas são combustível para os incêndios sem controle. Todo o material orgânico é varrido. Desta maneira, caso ocorra alguma eventualidade, existe uma distância física entre as chamas e a floresta. Isto também permite acessar rapidamente estas áreas, na necessidade de apagar os focos de incêndios que aparecerem durante a queima da roça. Os indígenas ainda estão fazendo o manejo de plantas mais resistentes ao fogo. O sapé, por exemplo, era muito usado por eles para a construção das casas, mas é uma planta extremamente inflamável e que necessita de queimas periódicas antes da coleta, de forma a renovar suas folhas para serem utilizadas como cobertura. Agora são utilizadas as folhas da palmeira inajá para esse fim, que não precisam dessa queima, e com isso, evita-se incêndios acidentais. São plantados também pequizeiros e mangabeiras, junto com variedades de mandioca, que previnem o crescimento dos sapezais, e formam uma barreira contra o avanço das chamas. Embora estas questões ainda não tenham sido aprofundadas nesta pesquisa, são técnicas reconhecidas pelos indígenas que contribuem para a diminuição dos incêndios. E não é apenas na roça que o fogo precisa ser vigiado. Outros povos do Xingu fazem o uso dele durante diversas atividades. É o caso da coleta de matérias-primas para fazer cerâmica – entre os Wauja –, ou para o assar dos peixes na beira do rio e de lagoas. Antigamente, os antepassados simplesmente deixavam as chamas se apagarem sozinhas, mas atualmente, isso não pode mais ser feito porque coloca em risco a mata. Qualquer vestígio de fumaça ou fogo tem que ser apagado com água, explicou Yakunã Ikpeng. “As novas gerações não veem mais as florestas que os avós viram”, lamenta Katia Ono, do ISA. Queima de material, de forma segura, para fabricação de cerâmica pelo povo Wauja. Foto: Renato Mendonça/ISA. Insegurança alimentar Os indígenas sempre tiveram a tranquilidade de ter sua alimentação garantida pela terra. A lista das plantas cultivadas é enorme: dezenas de espécies de mandioca, amendoim, banana, mamão, batata, cará, milho, algodão… “Os Ikpeng sempre foram povos agricultores. Com suas roças, eles sempre tiveram acesso a um alimento mais barato e de melhor qualidade nutricional. Mas com estas transformações locais, intensificadas pelo clima mais seco que passou a predominar, esses sistemas estão em risco”, diz Marcus Schmidt. Todavia, com o clima mais seco na Amazônia, hoje há preocupação se a terra conseguirá produzir ou não. “Até agora só tivemos quatro meses de chuva este ano. E isso não é o suficiente para plantar. No caso da batata-doce e do amendoim, a raiz logo seca. E a banana não vinga bem”, conta o cacique da aldeia Arayo. As mudanças provocadas no clima pelos homens da cidade grande estão obrigando os povos indígenas a se adaptar a novos tempos, a uma floresta menos úmida, muito diferente daquela com que conviveram seus antepassados. “É preciso estudar a natureza de novo. E a base desse conhecimento continua dependendo do relacionamento entre as diferentes gerações. Parte do nosso esforço é também fazer com que isso aconteça”, revela a articuladora do ISA. Roça tradicional de urucum e mandioca na aldeia Pyulaga Wauja, no Alto Xingu. Foto: Marcus Schmidt/ISA. Imagem do destaque: Wayge Ikpeng fazendo queimada de roça com aceiro na aldeia Rawo Ikpeng. Foto: Pytha Ikpeng. (#Envolverde)

quinta-feira, 22 de julho de 2021

"O GRITO DO BICHO" - Boletim Informativo de 22.07.2021

• OAB pede apuração contra policial que matou cachorro no Rio • Cachorro é adotado após ficar esperando dona que morreu sair de UPA no Paraná: 'Transformar essa dor em um novo amor' • Cão sequestrado por dupla de criminosos é resgatado e devolvido à idosa no litoral de SP • Por que ratos são usados como cobaias em pesquisas científicas? • Defesa Civil de Campo Limpo Paulista resgata 13 animais em queimadas • Veterinário aposentado de 92 anos faz cadeiras de rodas para animais com deficiência • Proibição de corrida de cães pode virar lei em Santa Catarina • Atropelado, cachorro cai em bueiro e mobiliza bombeiros, prefeitura e ONG • Macaco-prego é atacado por cães e fica gravemente ferido em Sinop (MT) • Filhote de anta fica cego após incêndio na região do Parque das Emas • Polícia Federal investiga morte de onça-pintada achada com mais de 50 perfurações de chumbinho • Vídeo mostra homem tentando furtar casinha de cachorro em Campinas (SP) • Polícia Civil finaliza inquérito sobre castração irregular de cão em república e indicia universitários por maus-tratos • Cachorro é amarrado em trilho de trem e tem a cabeça cortada em Joinville (SC) Não deixem de compartilhar nossas publicações. Abração a todos e obrigado pelo carinho com nosso trabalho. sheila moura