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sábado, 4 de fevereiro de 2023

A melhor forma de aprender sobre agrofloresta hoje é online

Paula Costa e Valter Ziantoni* – A prática é essencial para o aprendizado, mas os cursos online são capazes de atingir um público muito mais amplo, que é o que a agrofloresta precisa. Quando pensamos em aprender sobre agrofloresta, parece impossível desassociar a teoria da prática. E é. A prática é importante e, inclusive, essencial para o aprendizado. Mas, o conhecimento sobre agrofloresta precisa ser expandido, além de para mais produtores rurais e outras pessoas que têm acesso a um pedaço de terra para plantar, para os consumidores, os donos de casa, os investidores… Para todos os que podem ser beneficiados pela agrofloresta, ou seja, para todos nós. E, com o aprendizado online, esse conhecimento ganha muito mais escalabilidade. Os consumidores que conhecem mais sobre os princípios da agrofloresta passam a se importar mais com a regeneração do planeta e, assim, impulsionam os produtores a mudar a maneira como eles plantam. O mesmo acontece com os investidores, que, com mais noção sobre agrofloresta, mudam os seus mindsets de investimento. Por isso, a possibilidade de aprender sobre agrofloresta online – e não apenas ao colocar a mão na massa – impacta também quem não é produtor nem tem, de partida, interesse em trabalhar na área. Saber mais sobre o sistema agroflorestal é importante para o meio ambiente, a circularidade, a consciência coletiva e a saúde individual. As pessoas passam a entender do que são feitos os alimentos que consomem, o que faz toda a diferença. A agrofloresta passa a ser mais do que um sistema de produção, mas também um lifestyle. Há cursos online, como os da Pretaterra Academy, que foram gravados pensando em trazer o melhor da experiência prática, com imagens cinematográficas. O nosso objetivo, ao ensinar o que fazemos de modo virtual, é formar formadores, ou seja, que as pessoas implementem o que aprenderam e passem o conhecimento adiante – até o nosso trabalho se tornar obsoleto. Ao colocarem o que aprenderam em prática, os nossos alunos impactam os seus vizinhos e a sua comunidade – e fazem com que a agrofloresta chegue a mais gente em menos tempo, inclusive às futuras gerações. Com mais pessoas engajadas, áreas muito maiores podem ser modificadas e o processo produtivo pode ser transformado mais rapidamente. O aprendizado sobre o sistema agroflorestal começa com conceitos introdutórios, como o que é a agrofloresta, quais são as diferentes escolas de agricultura regenerativa, o que é preciso saber sobre paisagens, água, planejamento financeiro… Passa por discussões mais filosóficas, como como estar em harmonia com a natureza, e chega a temas avançados, como polinização, botânica e maquinário correto. É possível, prático e vantajoso – pessoal e coletivamente – aprender online a regenerar o nosso planeta. Sobre a Pretaterra A consultoria se dedica à disseminação de sistemas agroflorestais regenerativos – desenvolvendo designs replicáveis e elásticos, combinando dados científicos, informações empíricas e conhecimentos tradicionais a inovações tecnológicas e construindo um novo paradigma produtivo, que seja sustentável, resiliente e duradouro. Na vanguarda da agrofloresta, a Pretaterra conquistou, em 2018, o primeiro lugar na categoria “Negócios Inovadores” no concurso de startups no Hackatown. Em 2019, projetou, implementou e modelou economicamente o design agroflorestal que ganhou o primeiro lugar na categoria “Sustentabilidade” no Prêmio Novo Agro, do Banco Santander e da Esalq – o case “Café dos Contos”, em Monte Sião, Minas Gerais. Em 2020, a empresa esteve entre as finalistas do Prêmio Latinoamerica Verde, para startups e projetos inovadores em sustentabilidade na América Latina. A convite do Príncipe Charles e do Instituto Florestal Europeu, em 2021, a Pretaterra passou a liderar a frente agroflorestal da Aliança da Bioeconomia Circular. No mesmo ano, foi criada a Pretaterra Academy, o spin-off educacional da empresa, uma plataforma de formação agroflorestal. Para mais informações, acesse www.pretaterra.com e as redes sociais da empresa: LinkedIn, Instagram, Facebook, Twitter e YouTube. * Fundadores da Pretaterra, consultoria agroflorestal #Envolverde

Chacina e resistência: relembre fatos históricos da realidade yanomami

Por Agência Brasil – Impacto do garimpo nas comunidades é denunciado há décadas Na Terra Indígena (TI) Yanomami, de 9,6 milhões de hectares, a forma como o garimpo impacta as comunidades é denunciada há décadas, tanto por lideranças quanto por veículos do jornalismo independente e local. Os yanomami são um povo que constantemente rememora um dos eventos mais marcantes e extremos de violação de direitos, conhecido como Massacre de Haximu. Esse foi o primeiro caso reconhecido pela Justiça brasileira como um crime de genocídio. A chacina ocorreu em agosto de 1993. O conflito começou quando garimpeiros ilegais do Alto Orinoco descumpriram um acordo feito com os yanomami que viviam em uma região montanhosa de fronteira entre o Brasil e a Venezuela. No dia 15 de junho, sete garimpeiros convidaram seis indígenas para caçar e executaram quatro deles durante o percurso. Em retaliação, os yanomami assassinaram um dos garimpeiros. Pouco mais de um mês se passou e, no dia 23 de julho, um grupo de garimpeiros invadiu a aldeia, onde estavam alguns yanomami – a maioria, mulheres e crianças –, e mataram a tiros e golpes de facão 12 yanomami. As vítimas foram um homem, uma mulher, três adolescentes, duas idosas, quatro crianças e um bebê. Em 2022, completaram-se 30 anos da homologação da TI, em meio a problemas ainda sem solução definitiva. Segundo o Conselho Indigenista Missionário (Cimi), no mês de junho, a comunidade de Xihopi fazia uma celebração para marcar a data, mas também aproveitava a ocasião para compartilhar relatos de episódios de violência causados, ainda hoje, por garimpeiros. Ao todo, estima-se que haja, atualmente, cerca de 20 mil garimpeiros na TI. Oito meses antes, em 13 de outubro de 2021, lideranças da comunidade Macuxi Yano, região do Rio Parima comunicavam à Hutukara Associação Yanomami (HAY) o desaparecimento de duas crianças, de 5 e 7 anos de idade, enquanto brincavam na água, próximo a uma balsa de garimpo. Uma equipe do Corpo de Bombeiros iniciou as buscas imediatamente e, no mesmo dia, encontrou o corpo do menino mais novo. No dia seguinte, a corporação localizou a segunda criança, também sem vida. Em abril de 2022, outra tragédia arrasava o povo yanomami. O luto agora se instalava pela perda de uma menina de 12 anos, estuprada e morta por garimpeiros, na comunidade de Aracaçá, que fica na região Waiakás, estado de Roraima. A região é uma das mais impactadas pelo garimpo. Malária e insegurança alimentar No local, concorrem com a fome, a malária e a contaminação pelo mercúrio. Como resposta, o Ministério da Saúde declarou Emergência em Saúde Pública de Importância Nacional (Espin) e instalou o Centro de Operações de Emergências em Saúde Pública (COE – Yanomami). As ameaças à segurança alimentar, especificamente, já estiveram, inclusive, em outubro de 2019, no radar do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), que alertou para a fome de crianças yanomami. Na época, calculava-se que, entre a parcela aldeada, oito em cada dez crianças menores de 5 anos padeciam de desnutrição crônica, condição que pode comprometer, de modo irreversível, o desenvolvimento mental, motor e cognitivo ou mesmo levar a óbito. Desde que vieram à tona imagens de yanomami desnutridos, debates também foram suscitados, abordando, inclusive, a necessidade de se seguir certo protocolo de divulgação, para se respeitar a memória das vítimas da crise socioambiental que esfacela o território. *Crédito da imagem destacada: Divulgação/Força Aérea Brasileira #Envolverde

Chacina e resistência: relembre fatos históricos da realidade yanomami

Por Agência Brasil – Impacto do garimpo nas comunidades é denunciado há décadas Na Terra Indígena (TI) Yanomami, de 9,6 milhões de hectares, a forma como o garimpo impacta as comunidades é denunciada há décadas, tanto por lideranças quanto por veículos do jornalismo independente e local. Os yanomami são um povo que constantemente rememora um dos eventos mais marcantes e extremos de violação de direitos, conhecido como Massacre de Haximu. Esse foi o primeiro caso reconhecido pela Justiça brasileira como um crime de genocídio. A chacina ocorreu em agosto de 1993. O conflito começou quando garimpeiros ilegais do Alto Orinoco descumpriram um acordo feito com os yanomami que viviam em uma região montanhosa de fronteira entre o Brasil e a Venezuela. No dia 15 de junho, sete garimpeiros convidaram seis indígenas para caçar e executaram quatro deles durante o percurso. Em retaliação, os yanomami assassinaram um dos garimpeiros. Pouco mais de um mês se passou e, no dia 23 de julho, um grupo de garimpeiros invadiu a aldeia, onde estavam alguns yanomami – a maioria, mulheres e crianças –, e mataram a tiros e golpes de facão 12 yanomami. As vítimas foram um homem, uma mulher, três adolescentes, duas idosas, quatro crianças e um bebê. Em 2022, completaram-se 30 anos da homologação da TI, em meio a problemas ainda sem solução definitiva. Segundo o Conselho Indigenista Missionário (Cimi), no mês de junho, a comunidade de Xihopi fazia uma celebração para marcar a data, mas também aproveitava a ocasião para compartilhar relatos de episódios de violência causados, ainda hoje, por garimpeiros. Ao todo, estima-se que haja, atualmente, cerca de 20 mil garimpeiros na TI. Oito meses antes, em 13 de outubro de 2021, lideranças da comunidade Macuxi Yano, região do Rio Parima comunicavam à Hutukara Associação Yanomami (HAY) o desaparecimento de duas crianças, de 5 e 7 anos de idade, enquanto brincavam na água, próximo a uma balsa de garimpo. Uma equipe do Corpo de Bombeiros iniciou as buscas imediatamente e, no mesmo dia, encontrou o corpo do menino mais novo. No dia seguinte, a corporação localizou a segunda criança, também sem vida. Em abril de 2022, outra tragédia arrasava o povo yanomami. O luto agora se instalava pela perda de uma menina de 12 anos, estuprada e morta por garimpeiros, na comunidade de Aracaçá, que fica na região Waiakás, estado de Roraima. A região é uma das mais impactadas pelo garimpo. Malária e insegurança alimentar No local, concorrem com a fome, a malária e a contaminação pelo mercúrio. Como resposta, o Ministério da Saúde declarou Emergência em Saúde Pública de Importância Nacional (Espin) e instalou o Centro de Operações de Emergências em Saúde Pública (COE – Yanomami). As ameaças à segurança alimentar, especificamente, já estiveram, inclusive, em outubro de 2019, no radar do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), que alertou para a fome de crianças yanomami. Na época, calculava-se que, entre a parcela aldeada, oito em cada dez crianças menores de 5 anos padeciam de desnutrição crônica, condição que pode comprometer, de modo irreversível, o desenvolvimento mental, motor e cognitivo ou mesmo levar a óbito. Desde que vieram à tona imagens de yanomami desnutridos, debates também foram suscitados, abordando, inclusive, a necessidade de se seguir certo protocolo de divulgação, para se respeitar a memória das vítimas da crise socioambiental que esfacela o território. *Crédito da imagem destacada: Divulgação/Força Aérea Brasileira #Envolverde

Parar de fumar e consumir álcool pode evitar 40% dos casos de câncer

O consumo de tabaco, bebida alcoólica, alimentação inadequada e a falta de prática de atividades físicas estão entre os principais fatores de risco para o surgimento do câncer em todo o mundo. Segundo a Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS), o câncer é uma das principais causas de morte na população. A previsão é que 2,1 milhões de pessoas morram em decorrência da doença, até 2030. Câncer, também conhecido como tumor maligno e neoplasia é a denominação genérica de um grupo de doenças que pode afetar qualquer parte do corpo. A doença é caracterizada pelo crescimento desordenado de células que invadem órgãos e tecidos. “É unânime entre as recomendações médicas a indicação de hábitos saudáveis, como a interrupção do fumo, de bebidas alcoólicas, além do estímulo à prática de atividades físicas regulares na prevenção do câncer. De acordo com a OPAS, 40% dos casos poderiam ser prevenidos evitando estes fatores de risco”, destaca a médica Gisele Abud, diretora Técnica da Unidade de Pronto Atendimento (UPA) 24h Zona Leste, em Santos (SP). A unidade, que pertence a rede pública de saúde da Prefeitura de Santos, sendo gerenciada pela entidade filantrópica Pró-Saúde, está localizada na região litorânea do estado de São Paulo e atua como referência para urgências em Clínica Médica, Ortopedia, Pediatria e Odontologia. A médica acrescenta que o câncer de pulmão está entre os mais comuns, segundo as autoridades em saúde, e que o tabagismo é o principal fator de risco para o câncer, causando 22% das mortes. “É inegável que rastrear o câncer precocemente é fundamental para tratar corretamente e aumentar as chances de cura, mas a recomendação prioritária, é adotar hábitos que contribuam de fato para o não aparecimento da doença”, afirma Gisele. “Os exames ajudam no monitoramento e se fazem essenciais, porém, a prevenção de fato é mudar hábitos, rotina, o que permite que o corpo funcione melhor e saudável”, complementa. Dicas de prevenção No Dia Mundial do Câncer (4/2), data que busca aumentar a conscientização e a educação mundial sobre a doença, confira oito dicas fundamentais de prevenção: Não fume; Não consuma bebidas alcoólicas; Coma alimentos saudáveis; Pratique atividades físicas; Mulheres, realizem o exame preventivo do corpo do útero; Vacine-se contra HPV, Hepatite e outras doenças; Não consuma carnes processadas; Evite exposição ao sol nos horários mais quentes. #Envolverde

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2023

Agravamento da crise climática levará espécie da Caatinga à extinção, prevê estudo

Por Alice Sales para o EcoNordeste – Os sinais de que as mudanças climáticas deverão causar grandes danos à biodiversidade do nosso planeta já se manifestam. No Semiárido brasileiro, um estudo realizado por pesquisadores do Instituto de Ciências do Mar (Labomar) da Universidade Federal do Ceará (UFC), prevê que uma importante representante da biodiversidade da Caatinga, a espécie Holoregmia viscida, pode chegar à extinção por causa dos efeitos das mudanças climáticas globais. A pesquisa realizou um rastreamento da ocorrência da planta, restrita ao bioma Caatinga nos últimos milhares de anos, e projetou cenários climáticos para os próximos 80 anos. Para tanto, os pesquisadores utilizaram um método conhecido como modelagem preditiva de distribuição de espécies, tipo de modelo matemático que utiliza algoritmos e variáveis ambientais para prever como estará o nicho de determinada espécie em um espaço de tempo específico. Foram considerados para a modelagem tanto períodos passados, especificamente o Holoceno (época geológica mais recente que faz parte do Período Neogeno e se estende de 11.500 anos até hoje) e o Pleistoceno (que começou há cerca de 1.750.000 anos e terminou aproximadamente há dez mil anos), quanto o presente e para o futuros cenários de mudanças climáticas diversos. A projeção do estudo concluiu que, apesar de o gênero Holoregmia ser endêmico da Caatinga, isto é, existe somente nesse bioma e evoluiu para se adaptar a ele, a extinção da espécie pode ocorrer em menos de um século diante de um agravamento da situação climática global. De acordo com a pesquisa, a possibilidade de extinção da espécie surge a depender do cenário futuro avaliado, tendo como fator determinante o nível de emissão de gases que contribuem para o aquecimento global. No pior dos cenários avaliados, em que o uso de combustíveis fósseis e a emissão desses gases segue aumentando, estima-se uma redução drástica da espécie até 2060 e extinção em até 20 anos depois. Ainda que a intensidade das emissões de gases permaneça como está hoje, e não haja o agravamento das mudanças climáticas, a previsão é que haja uma redução de cerca de 57% da área de cobertura da espécie até 2060 e de 80,62% até 2090. Em um contexto mais otimista, com baixa emissão de gases, as porcentagens caem para 45,69% e 49,22%, respectivamente. Sobre a espécie Conhecida popularmente como erva-de-são-cipriano ou culhão-de-bode, ainda se sabe pouco sobre os aspectos científicos da Holoregmia viscid. A espécie possui ocorrência conhecida apenas no Sul da Bahia e, de acordo com o professor e pesquisador da UFC/Labomar, Marcelo Moro, foi coletada para uma coleção botânica e recebeu seu nome científico em 1821. Depois disso, a espécie passou mais de 150 anos sem ser documentada cientificamente, até que, na década de 1980, botânicos da Bahia coletaram novas amostras da planta e guardaram em um herbário, que é uma coleção científica para armazenar e documentar amostras de espécies vegetais. Mas foi só em 2003 que as amostras documentadas desde 1983 foram finalmente reconhecidas como pertencentes a essa espécie e ela foi melhor documentada do ponto de vista morfológico. Desde então, o conhecimento científico sobre a espécie avançou pouco. “É uma planta especializada no ambiente do Semiárido brasileiro e sabemos que ela se separou na evolução da sua família há cerca de 9 milhões de anos, ou seja, ela tem uma longa história evolutiva vivendo em áreas de floresta seca, embora não saibamos ainda muito sobre seus usos e interações ecológicas”. O pesquisador explica, ainda, que apesar de a espécie ser adaptada ao clima Semiárido da Caatinga, o aquecimento global pode tornar as áreas do bioma mais secas, portanto menos adequadas para a sobrevivência da planta. O estudo é também uma forma de buscar compreender como as mudanças climáticas afetam a Caatinga como um todo. “Infelizmente vemos que as áreas apropriadas para a Holoregmia viscid tendem a se reduzir com o aquecimento global. Em uma outra pesquisa que vamos publicar, mostramos que os modelos indicam que a área da Caatinga vai ficar ainda mais seca, com menos chuvas, e que isso torna o ambiente muito difícil, mesmo para espécies de plantas adaptadas ao Semiárido”, completa. Caatinga ameaçada Um detalhe importante é que há uma visão enganosa sobre a adaptação das plantas da Caatinga a ambientes secos e que por isso não teriam dificuldades de se adaptarem às mudanças climáticas. Mas o fato é que essas plantas são adaptadas ao clima Semiárido, e não árido, ou seja, são adaptadas a um clima onde há ainda ocorrência de períodos chuvosos. Um movimento já percebido pelos pesquisadores é uma “migração” das condições climáticas da Caatinga rumo a áreas que estão dentro dos limites da Mata Atlântica, o que significa dizer que áreas com clima mais úmido ficarão semiáridas, enquanto as áreas do Semiárido ficarão ainda mais secas. “A consequência disso é que, não apenas a Holoregmia, como também outras espécies do bioma precisarão lidar com condições ainda mais difíceis de sobrevivência. Toda espécie é parte desse patrimônio da biodiversidade do mundo. Cada espécie estabelece interações ecológicas com várias outras e faz parte desse conjunto da biodiversidade. Então a perda de uma espécie, é como perder uma parte desse patrimônio de biodiversidade do nosso planeta.” Para o professor Marcelo Moro, a reversão do risco de perdas na biodiversidade requer ações como proteger e recuperar áreas naturais e alcançar menores índices de emissão de gases do efeito estufa. Outra ação seria o aumento da extensão das áreas protegidas ou a criação de mais Unidades de Conservação. “Hoje, menos de 2% da Caatinga é protegida por unidades de proteção integral e menos de 9% estão dentro de áreas protegidas”, destaca. E completa: “As mudanças climáticas não afetarão apenas uma espécie ou um tipo de ecossistema, mas serão um grande problema para a sobrevivência e bem-estar da própria humanidade. Ao verificar que as mudanças climáticas ameaçam uma espécie endêmica como a Holoregmia viscida, estamos, na verdade, recebendo um alerta sobre as ameaças que se abatem sobre cada um de nós.” *Crédito da imagem destacada: Conhecida popularmente como erva-de-são-cipriano ou culhão-de-bode, a espécie tem ocorrência conhecida apenas no Sul da Bahia | Foto: Sinzinando Albuquerque #Envolverde

Áreas úmidas do Cerrado estão secando

No Cerrado, “Coração” do berço das águas do Brasil e de modos de vida tradicionais, ecossistemas sofrem impactos de proteção insuficiente na legislação Do IPAM As áreas úmidas do Cerrado podem ser entendidas como “coração” deste que é o bioma berço das águas do Brasil. São ecossistemas que ficam entre ambientes aquáticos e terrestres e que alagam durante a estação chuvosa. O IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) destaca veredas e campos úmidos que, singulares, inspiram nomes de livro e poesia, sendo fonte de água e de vida para milhões de seres. Com alta biodiversidade e papel fundamental na recarga de recursos hídricos, as áreas úmidas ocupam 6 milhões de hectares no Cerrado, área maior que a do Estado da Paraíba. Grande parte desse tipo de vegetação no bioma concentra-se em imóveis rurais privados (59%) e em terras indígenas (27%, especialmente na região do Araguaia), e apenas 5% está dentro de Unidades de Conservação. De acordo com dados do MapBiomas, o Cerrado perdeu 970 mil hectares de vegetação típica das áreas úmidas entre 1985 e 2021 — principalmente para pastagem — o equivalente a 12% de todas as áreas úmidas do bioma. Por outro lado, o bioma também viu surgir 780 mil hectares de vegetação secundária de áreas úmidas, aquela que nasce depois da perda da vegetação original. Desse total, 25% cresceram em áreas antes cobertas por superfície d’água – indicando que secaram. Pela característica de sua distribuição, mais presente em áreas privadas, as áreas úmidas dependem do que está definido no Código Florestal Brasileiro para continuar existindo. A lei estabelece regras para imóveis rurais particulares destinarem áreas de Reserva Legal – equivalentes a 20% da propriedade no Cerrado. O Código Florestal também dispõe sobre as APPs (Áreas de Preservação Permanente), de forma a regular o processo de ocupação da terra e garantir a conservação de riquezas naturais em propriedades privadas. À parte do importante papel da legislação para a conservação de florestas, pesquisadores identificam lacunas que resultam na insuficiência de proteção a outros tipos de ecossistemas, como as áreas úmidas encontradas no Cerrado. “O Código Florestal exclui do regime de proteção as áreas úmidas de várzea e os campos úmidos ao considerar apenas a calha do leito regular do curso d’água na delimitação de APPs – e não sua variação. É um artefato que favorece a degradação da maior parte das áreas úmidas e coloca o Brasil na contramão dos compromissos assumidos na convenção de Ramsar”, avalia Dhemerson Conciani, pesquisador no IPAM. A Convenção sobre Zonas Úmidas de Importância Internacional foi adotada em 1971 na cidade de Ramsar, no Irã, e tem 172 países-membros. O Brasil é signatário desde 1993. “Para manter o funcionamento desses ecossistemas tão importantes para a sociobiodiversidade e para a segurança hídrica, é fundamental o fortalecimento da legislação e a ampliação de investimentos em monitoramento e fiscalização”, completa o pesquisador. Além de garantir o abastecimento de água no país, esses ecossistemas são lar de povos e comunidades tradicionais que habitam o Cerrado de maneira ancestral há pelo menos 12 mil anos. As áreas úmidas beneficiam a irrigação de suas lavouras de subsistência e levam água para seus territórios, que retribuem cultivando uma relação de harmonia com a natureza. Dos 9 milhões de hectares ocupados por 211 territórios tradicionais oficialmente reconhecidos no Cerrado, 95% são cobertos por vegetação nativa, indica o MapBiomas. Outros 88 territórios ainda não reconhecidos, mapeados no aplicativo Tô no Mapa, ocupam 472 mil hectares com 90% de cobertura de vegetação nativa. Os veredeiros Os veredeiros são pessoas que vivem em comunidades próximas às áreas úmidas e das chapadas do Cerrado, de onde extraem alimentos para sua sobrevivência. Fazem uso das terras úmidas e da flora desses ecossistemas para produções agroextrativistas e criação de animais. Até o momento, são 11 comunidades veredeiras mapeadas no aplicativo Tô no Mapa, de automapeamento de povos, comunidades tradicionais e agricultores familiares. Há muito mais a consolidar: um levantamento da iniciativa revelou lacunas nos dados oficiais sobre territórios tradicionais ao identificar, em parte do Cerrado, 3,5 vezes mais comunidades do que os registros nos órgãos competentes. No país, o Tô no Mapa já mapeou 207 comunidades de mais de 15 segmentos. O objetivo é construir um mapa que reflita a realidade dos territórios para subsidiar a formulação de políticas públicas de garantia de direitos sociais e territoriais. Para Jaime Alves dos Santos, morador da vereda Grande de São Joaquim, na comunidade de Capoeirão Barra de Brejinho, no município de Januária (MG), as veredas têm um papel sociocultural importante em sua comunidade e abastecem umas série de práticas tradicionais em seu cotidiano “A vereda tem um significado muito importante, é trabalho, alimento, água! É vida! Eu me sinto privilegiado, me considero um guardião e de onde tiro meu sustento, também”, diz. O modo de vida dos veredeiros é um dos mais vulneráveis às perturbações e aos ressecamentos das áreas úmidas. Segundo o veredeiro, a chegada de indústrias tem agravado o ressecamento da vegetação, inclusive da vereda de Buriti Grosso, bem como impactado a segurança alimentar e a cultura das comunidades da região. “As veredas sofrem muito com a chegada das grandes empresas. Chegaram na vereda mãe, Buriti Grosso, e matou muitas outras, porque plantaram monocultura. Muitos veredeiros tiveram que ir embora”, conta. Dados do MapBiomas mostram que a superfície de água no município de Januária (MG) encolheu 52% entre 1985 e 2021, passando de 6.334 hectares para menos da metade, 3.304 hectares. Para preservar as veredas, Jaime defende a investigação dos responsáveis pelo financiamento do desmatamento do bioma e a retomada da fiscalização ambiental. Além disso, o veredeiro acredita que os moradores da comunidade deveriam ser consultados nas decisões que dizem respeito às áreas úmidas que habitam. “A comunidade deve participar das tomadas de decisões das associações. Podemos contribuir com conhecimentos tradicionais e entender o que as empresas estão fazendo, porque o desmatamento, geralmente, visa o lucro acima do bem estar de quem vive ali”, conclui. seca de áreas úmidas no Cerrado Mapa da região norte do município de Januária (MG) destacando, em tons de rosa, áreas que perderam superfície de água entre 1985 e 2021. A imagem de satélite (Planet – 12/2022) revela extensas áreas úmidas (veredas) severamente degradadas e com exposição de areia. Observa-se também a fronteira de avanço da monocultura (sul) e a formação de estradas e glebas sobre as áreas úmidas secas (Fonte: IPAM/MapBiomas) [ Se você gostou desse artigo, deixe um comentário. Além disso, compartilhe esse post em suas redes sociais, assim você ajuda a socializar a informação socioambiental ] in EcoDebate, ISSN 2446-9394

Mudança climática ameaça o abastecimento de água em muitas partes do mundo

Especialmente para a África, Austrália e América do Norte, os novos dados preveem um risco significativamente maior de crises de abastecimento de água até 2050 Institut für Wasserbau und Ingenieurhydrologie* Technische Universität Wien A interferência das mudanças climáticas no ciclo hidrológico do planeta é fato comprovado. Novas análises sugerem que, em muitos lugares, o escoamento responde com mais sensibilidade do que se supunha anteriormente. A mudança climática altera a circulação atmosférica global, que por sua vez altera a precipitação e a evaporação em grandes partes do mundo e, consequentemente, a quantidade de água dos rios que pode ser utilizada localmente. Até agora, as projeções do impacto do clima no fluxo dos rios têm sido geralmente calculadas com base em modelos físicos, por exemplo, as projeções relatadas pelo IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas). No entanto, novas análises de dados conduzidas sob a liderança do Prof. Günter Blöschl (TU Wien, Viena) indicam que os modelos anteriores subestimam sistematicamente a sensibilidade com que a disponibilidade de água reage a certos parâmetros climáticos em mudança. Uma análise dos dados de medição de mais de 9.500 bacias hidrológicas de todo o mundo mostra que a mudança climática pode levar a crises hídricas locais em uma extensão ainda maior do que o esperado anteriormente. Os resultados foram agora publicados na revista científica “Nature Water“. Abordagem de modelo e abordagem de dados medidos “Na comunidade da climatologia, os efeitos das mudanças climáticas na atmosfera são muito bem compreendidos. No entanto, suas consequências locais nos rios e na disponibilidade de água caem no campo da hidrologia”, explica o Prof. Günter Blöschl, do Instituto de Engenharia Hidráulica e Gestão de Recursos Hídricos na TU Wien. Localmente, muitas vezes é possível explicar muito bem como a disponibilidade de água está relacionada a parâmetros externos, como precipitação ou temperatura – isso está sendo estudado em muitas estações de medição em todo o mundo, em particular no laboratório de hidrologia de Blöschl em Petzenkirchen, onde vários sensores foram instalado em uma área de 60 hectares. Mas conclusões globais não podem ser tiradas de tais observações individuais: “Como o equilíbrio da água depende de parâmetros externos varia de lugar para lugar; a vegetação local também desempenha um papel muito importante aqui”, diz Günter Blöschl. É difícil desenvolver um modelo físico simples que possa ser usado para calcular essas inter-relações em todos os lugares do mundo com precisão. Günter Blöschl, portanto, colaborou com colegas da China, Austrália, EUA e Arábia Saudita para construir e analisar um grande banco de dados de observações de fluxos de todo o mundo. Mais de 9.500 bacias hidrográficas foram incluídas, com séries temporais que se estendem por várias décadas no passado. O sistema de água reage às mudanças climáticas com mais sensibilidade do que se pensava “Portanto, não baseamos nossa análise em modelos físicos, mas em medições reais”, enfatiza Günter Blöschl. “Observamos o quanto a quantidade de água disponível mudou no passado quando as condições externas mudaram. Dessa forma, podemos descobrir com que sensibilidade as mudanças nos parâmetros climáticos estão relacionadas a uma mudança na disponibilidade local de água. E isso nos permite fazer previsões para um futuro clima mais quente.” E descobriu-se que a conexão entre a precipitação e a quantidade de água nos rios é muito mais sensível do que se pensava – e, portanto, muito mais sensível do que se supõe nos modelos atualmente usados ​​para prever as mudanças climáticas. Os modelos de previsão dos efeitos das mudanças climáticas no abastecimento de água devem, portanto, ser fundamentalmente revisados. “Até agora, as medições de escoamento geralmente não foram incluídas nos modelos, como os atualmente relatados pelo IPCC”, diz Günter Blöschl. “Com a série de medições agora disponíveis, agora deve ser possível ajustar os modelos físicos de previsão de acordo.” Mais grave do que se supõe De qualquer forma, os resultados da equipe de pesquisa em torno de Günter Blöschl mostram que o perigo das mudanças climáticas no abastecimento de água em muitas partes do mundo pode ter sido subestimado até agora. Especialmente para a África, Austrália e América do Norte, os novos dados preveem um risco significativamente maior de crises de abastecimento de água até 2050 do que se supunha anteriormente. mudança climática ameaça o abastecimento de água em muitas partes do mundo Infográfico por Peter D Carter, @PCarterClimate Referência: H. Zheng et al., Future global streamflow declines are probably more severe than previously estimated, Nature Water, 2023. DOI: 10.1038/s44221-023-00030-7 Henrique Cortez *, tradução e edição. [ Se você gostou desse artigo, deixe um comentário. Além disso, compartilhe esse post em suas redes sociais, assim você ajuda a socializar a informação socioambiental ] in EcoDebate, ISSN 2446-9394